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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Gente infeliz e cheia de ódio


Eles são os perfeccionistas. Não querem Homens, querem Deuses. E o mais engraçado é que a maior parte deles nem sequer acredita nessa dimensão da vida.

A morte de Mário Soares exacerbou o debate sobre as qualidades humanas e políticas de um homem que, para o bem e para o mal, deixou forte marca na nossa vida. Mas a questão é recorrente e, embora sem a dimensão dos últimos dias, já se aplicou a outras pessoas na nossa política.

Muitos destes inquisidores dos nossos dias parece que receberam uma grelha de avaliação das qualidades humanas onde depois colocam as acções e as ideias daqueles que são alvo da “investigação”. Depois, colocam um rótulo. Ninguém escapa nesta grelha de avaliação. Há sempre um pormenor, algo que foi dito ou feito num determinado momento, que condena o alvo escolhido. Pode o alvo ter sido um humanista, um homem ou mulher que tenha dedicado a vida a uma causa sem outro interesse que não o bem comum; pode ter sido alguém que tenha sacrificado o próprio bem- estar e o da família; pode ter sido alguém que teve a coragem de fazer o que os actuais ASAE’s do pensamento nunca ousariam (porque às vezes é preciso uma certa dose de loucura que gente tão perfeita nunca terá…); pode ter sido uma pessoa que morreu numa prisão fascista porque ousou enfrentar a ditadura; pode ter sido alguém que prefere dizer Não quando existe a possibilidade de ser conivente com uma injustiça. Pode ser uma pessoa quase perfeita que, por uma vez, se enganou ou decidiu mal, mas é o suficiente para ser condenado e assassinado pelos que passam a vida a filtrar a vida dos outros à procura do tal defeito que há-de ser motivo de condenação pública. É quase uma nova Inquisição.

Estes iluminados que fazem tudo de forma perfeita, de vez em quando citam algum pensador menos conhecido, dando ares de quem já leu muito e até para além do que é obrigatório, entenda-se os clássicos. Também há muitos que têm – reconheço – uma boa dose de criatividade e arte quando toca a juntar palavras, construindo imagens literárias de forte impacto e que os ajuda a ter alguns seguidores. Mas é apenas isso: a arte de jogar bem com as palavras. É assim uma espécie de fogo-de-artifício: depois do estoiro dos foguetes e das cores que momentaneamente iluminam o céu, não fica nada. No caso dos referidos iluminados, nem as canas se aproveitam.

Não estou a falar de Mário Soares, mas também se aplica ao muito de insensato que foi escrito sobre ele nos últimos dias. E aplica-se a muitos outros que se limitam a ser homens com defeitos e que são depois alvo desta nova Inquisição. Ainda bem que temos liberdade de expressão e obviamente que ninguém pode esperar não ser alvo do escrutínio público porque afinal a democracia é isso mesmo. O problema é que há uma brigada perfeccionista que tenta influenciar o espaço público maximizando pequenos defeitos e erros de algumas pessoas em detrimento de acções e ideias muito mais importantes e decisivas para o nosso futuro comum. Fazem-no recorrendo ao insulto e não raras vezes recorrendo à mentira e ao boato repetido quase transformado em verdade. A isso chama-se pequenez.

Muitos dos que adoptam esta forma de estar não têm um pingo de coragem para em momentos difíceis dar o passo em frente ou sair do conforto da crítica fácil. Muitos deles vivem dentro de um computador, agarrados (sem aspas) às redes sociais, qual realidade paralela, à falta de melhor vida. Vão morrer frustrados porque nunca irão fazer nada na vida nem encontrar ninguém assim tão perfeito quanto eles idealizam e até pensam que conseguem ser.

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 11 de Janeiro de 2017

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Aleppo, a guerra, os bons, e os maus…


Esta fotografia foi obtida em Benghazi (Líbia) em Fevereiro de 2011. As expectativas expressas nesta parede de um comité revolucionário são elucidativas do que os líbios pretendiam ao lutarem contra Kadhafi. Depois, a história mudou de rumo.

A batalha de Aleppo exacerbou alguns ânimos. Regressaram as visões maniqueístas com uma bússola que aponta o local onde estão os bons e, em contraponto, indica quem são os maus. Recorre-se à história para argumentar, fazem-se comparações descabidas, utiliza-se a propaganda de uma parte para acusar a outra parte de estar a fazer… propaganda. Fazem-se afirmações peremptórias perante realidades complexas e difusas. Apelida-se a contra-parte de ignorante. Este cenário não difere muito das noites televisivas em que os comentadores usam o cachecol do respectivo clube de futebol e defendem o indefensável até à “morte”. É assim nos debates futeboleiros, mas não devia ser assim na análise da política internacional.

Um dia destes fizeram-me uma pergunta: por que é que os sírios (egípcios ou líbios…) apenas podem escolher entre viver sob ditadura ou em situação de guerra? Porquê essa única opção? Não haverá uma outra possibilidade? Esta pergunta foi feita por um indignado estudante sírio que veio para Portugal. Conversávamos descontraidamente sobre a Síria e, de um modo geral, sobre o Médio Oriente. A pergunta do jovem sírio arrasta a indignação óbvia de quem quer ser um igual entre os que querem a Liberdade e defendem o direito a escolher por quem devem ser governados. E, diga-se, a pergunta não me era dirigida directamente. Foi, aliás, uma pergunta com um alvo bem definido: os que condenam a chamada Primavera Árabe e continuam a dizer que a actual situação na Síria e na Líbia se deve às revoltas que eclodiram nestes países. 

É verdade que se hoje perguntarmos a sírios e líbios se preferiam ter continuado a viver com os ditadores ou se preferem suportar as guerras em que estão mergulhados, uma esmagadora maioria dirá que preferia o passado. Essa, presumo, será a resposta da maioria – por razões óbvias – mas isso não invalida que Assad seja um ditador e que Kadhafi ainda era pior.

Não é abuso intuir que a pergunta deste estudante sírio se possa traduzir numa outra pergunta, muito simples, que necessita resposta sem rodeios: como é que alguém que defende a Liberdade e a Democracia pode ao mesmo tempo defender o poder de políticos como Kadhafi ou Assad? Como é que Liberdade e Democracia são compatíveis com Assad ou Kadhadi? Como é que alguém que defende a Liberdade e a Democracia pode dizer a outra pessoa que ela não tem outra alternativa a não ser viver sob a alçada de um ditador ou enfrentar uma guerra que lhe destrói a família e o país? Será bom que os que defendem Assad ou defenderam Kadhafi assumam isso: digam aos líbios e aos sírios, olhos nos olhos, que a única alternativa que lhes resta é viverem numa ditadura; digam-lhes que não são cidadãos de pleno direito nem têm o direito de lutar por isso.

Nas guerras sempre se cometeram atrocidades. Todos os envolvidos acabam por ceder em matéria de direitos humanos. Isso não invalida que os crimes sejam denunciados e os responsáveis punidos. Mas na política internacional não há um clube dos maus e outro clube dos bons. Não é assim, por muito que custe a quem recusa ver a realidade. Em Aleppo não deve ser diferente. Na Líbia não deve ser diferente.

Para avaliarmos os "bons" e os "maus" proponho um exercício simples: imagine-se que Barack Obama e Vladimir Putin trocavam de país. Obama no Kremlin faria muito diferente do que Putin tem feito? Putin na Casa Branca faria algo diferente do que Obama fez? Ora bem, isto não significa que Putin e Obama sejam iguais, que pensem da mesma forma e defendam os mesmos valores, mas significa que os Estados têm interesses que, muitas vezes, quase sempre, se sobrepõem ao que os dirigentes políticos gostariam de fazer. Certamente que Obama e Putin algumas coisas fariam de forma diferente, mas seria muito pouco. Esta constatação não desresponsabiliza os políticos mas ajuda a perceber que a perspectiva maniqueísta é uma venda nos olhos que não ajuda a entender a essência dos problemas e os conflitos de interesses que conduzem às guerras. Há quem lhe chame “Realpolitik”.

Pinhal Novo, 15 de Dezembro de 2016
josé manuel rosendo



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quem põe ordem nesta Europa?

Este cartoon foi publicado em http://jornalggn.com.br 

Quem põe ordem nesta Europa? Esta é a pergunta perigosa que nos arriscamos a que alguém faça se a Europa não mudar de rumo. E não há mudança que se vislumbre, pelo menos se continuarem as actuais lideranças (diga-se, herdeiras de outras muito semelhantes). Responder à pergunta feita em título, arrasta perigos que é desnecessário lembrar.

Os homens e mulheres que têm mandado – é esta a expressão “têm mandado” – na União Europeia não têm desculpa. Fizeram de tudo para construir instituições com a maior fragilidade que é possível ter em democracia: falta de uma base popular de apoio. E não têm essa base de apoio, em primeiro lugar porque nunca a quiseram - eles mandam e portanto decidem – e em segundo lugar porque nunca perguntaram ao povo o que o povo pensa.

A União Europeia foi construída na base da cedência de soberania. Uma cedência dos Estados em nome de um bloco de países supostamente unidos, tendo como objectivo manter a paz na Europa e desenvolver as economias para construir um espaço em que os Direitos Humanos fossem o principal farol. Acontece que a soberania é algo de que o povo de cada país é o único titular e a cedência de soberania devia ter sido referendada ou, pelo menos, o povo devia ter sido consultado de alguma forma muito directa sobre essa questão. Não o foi em Portugal nem na maioria dos países da União Europeia. Não é por acaso que a Constituição da República nos diz que “A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas previstas na Constituição”. Eu sei que vão dizer, alguns, que o povo elege representantes e que as decisões desses representantes são absolutamente legais e legítimas. Discordo!

Por outro lado, a União Europeia cresceu de forma descontrolada e nem sempre pelas melhores razões, ou pelas mais nobres. Sabemos como Portugal, pós-PREC, se atirou para os braços da CEE, não precavendo nada daquilo de que hoje nos queixamos (pescas, indústria, etc..) porque era preciso afastar de vez o “perigo comunista”; sabemos como aderimos a uma moeda (Euro) que mais não foi do que o Marco alemão; sabemos que aceitámos limites ao défice (3%) que era precisamente o da Alemanha; sabemos como o alargamento a Leste, em muitos casos, apenas pretendeu afastar alguns países da esfera da Rússia após a queda da União Soviética. E sabemos, recentemente, como alguns países foram hostilizados por uma elite de eurocratas, revelando um total desprezo pelos povos.

O Brexit, para o bem e para o mal, foi uma pedrada no charco. A estratégia dos bem-instalados nesta União Europeia está já muito clara: tentam colocar no mesmo barco uma extrema-direita nacionalista de contornos fascistas e todos aqueles que têm criticado as políticas europeias por elas atenderem mais à finança do que ao povo e por estarem a desvirtuar os princípios declarados que estiveram na origem da actual União Europeia. Estão a tentar estabelecer essa confusão e receio que sejam bem-sucedidos. Agitar o medo é sempre uma arma poderosa.

Logo que foi conhecido o resultado do referendo no Reino Unido, os principais líderes europeus apressaram-se a confirmar que o povo tem razão e que esta União Europeia de pouco ou nada nos serve.
Os “fundadores” da União Europeia rapidamente marcaram encontro e a Chanceler alemã, Angela Merkel, rapidamente "convidou" François Hollande e Matteo Renzi para um encontro. Onde? Em Berlim! E é exactamente este tipo de atitudes que revelam uma União Europeia que não é a União Europeia da democracia, de uma União entre iguais, de uma União solidária, de uma união dos povos e das regiões. É uma União Europeia de um directório e não de 27 ou 28. É uma União Europeia em que uns mandam e outros obedecem.

Outro sinal evidente da aparente falta de berço democrático de alguns dirigentes europeus foi a reacção de Jean Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. Dirigiu-se ao povo do Reino Unido, qual marido despeitado a quem a mulher acaba de pedir o divórcio: se te queres ir embora, vai e depressa.
Esta segunda-feira, no Parlamento Europeu (é ver a troca de acusações numa qualquer tv) estalou o verniz que ainda resistia e assistiu-se a uma absoluta falta de decência. Houve quem lembrasse aos britânicos que a União Europeia lhes paga os ordenados há muitos anos e que já ali não deviam estar; do lado oposto, houve alguém que retorquiu: “riram-se quando vim aqui falar do referendo, mas agora já não estão a rir”: É assim que estamos. José Manuel Pureza está carregado de razão quando diz que esta União Europeia alimenta "a besta da extrema-direita".

O mais dramático é que, alimentar a esperança de que o resultado do referendo no Reino Unido conduza a um repensar da União Europeia e a um mudança de rumo, é pura ingenuidade ou então é uma grande hipocrisia de quem utiliza o argumento apenas porque quer que tudo continue exactamente como está. O salto em frente vai ser o federalismo. Novo erro. O que a União Europeia precisa é de países mais livres.

josé manuel rosendo

28 de Junho de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Privado à pala do Público é que não…


Um dos grandes problemas do nosso país é, tem sido, e há-de continuar a ser enquanto não terminar, o casamento de conveniência entre o público e o privado. Não é que esse casamento de conveniência (por que não há amor nos negócios…) seja necessariamente mau, porque não é. Mas a sua utilização por interesses que não os do país, é péssima. Tem sido péssima. Tem sido o terreno onde a influência, o favorzinho e a corrupção têm alastrado. Para além disso, tem sido um casamento em que uma das partes tudo dá e a outra tudo recebe sem dar quase nada em troca. É um casamento em que a parte que tudo recebe não corre qualquer risco e tem lucro garantido. Convém saber que a parte que tudo dá, somos nós, o Estado. Convém saber que a parte que nada arrisca e tudo recebe, são os paladinos da iniciativa privada (que a novilíngua dos seguidores da escola de Chicago denomina de “empreendedores”). 

Agora, há um sinal de separação das águas. É apenas um sinal e até propõe uma transição tranquila.
E quem destas linhas descortinar algo contra a iniciativa privada, está enganado. Nada contra a iniciativa privada! Era só o que faltava. E preconceito contra o Privado ainda menos. Mas o que é Público deve permanecer no Estado (quando o estado tiver capacidade de resposta) e pago por nós; o que é Privado que continue privado e pago por quem assim quiser, mas não pelo Estado. 

Tem alguma graça ouvir agora os que até já diziam que isso de "direitos adquiridos" era coisa do passado. Dizem agora que há contratos assinados. Esqueceram-se de todos os contratos que rasgaram nos últimos anos. Estamos todos fartos de gente que enche a boca com a “iniciativa privada” mas logo que lançam um negócio o primeiro parceiro que procuram é o Estado. São esses que defendem o tal “Estado mínimo”. De preferência um Estado que se resuma a um eleito (ainda não se atrevem a dizer que não devia haver eleições…) sentado a uma secretária e na posse de um livro de cheques. Esse seria o Estado ideal.

E é assim que chegamos a este frente-a-frente entre a escola pública e a escola privada. E é assim que temos de perguntar onde estavam os paladinos desse tão apregoado ensino privado de qualidade quando a escola pública foi bombardeada em tempos recentes; onde estavam quando as turmas da escola pública cresceram para números incompatíveis com a capacidade de qualquer professor para acompanhar devidamente os alunos; onde estavam quando o quadro de professores foi torpedeado; onde estavam quando começava um ano lectivo nas escolas do ensino público sem o pessoal auxiliar mínimo para o funcionamento adequado? Provavelmente estavam a espreitar uma “oportunidade de negócio”. Não, esses não têm a mínima preocupação com um ensino público de qualidade. E estavam bem representados. Agora, esperemos, deixaram de estar. Os que queriam menos Estado nas nossas vidas não querem agora que o Estado saia da vida deles. São os azares da vida. Há coisas com as quais não se devia brincar e uma delas é a Educação.

Para o bem e para o mal, disse o Ayatollah Khomeini[1], chegado a Teerão depois do exílio: “No Islão tudo é política”. Parto desta afirmação (discutível, naturalmente…) para uma outra que não é de Khomeini: “Em política tudo é ideologia”. Aqui chegados, a Educação devia estar a ser o centro das nossas atenções tal é a sua importância, não apenas de circunstancial luta partidária, mas principalmente pela forma como vai marcar o nosso futuro. A Educação é um assunto que nos convoca a todos e sobre o qual é importante que expressemos a nossa opinião. Os nossos filhos não nos perdoarão se o comodismo do silêncio ditar a nossa atitude. 

Pinhal Novo, 9 de Maio de 2016
josé manuel rosendo



[1] Que não se retirem conclusões abusivas por ser Khomeini aqui citado

sábado, 6 de fevereiro de 2016

“O estado a que chegámos”


A fórmula utilizada por Salgueiro Maia está gasta, mas para nossa desgraça, mantém-se actual. Na parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, Salgueiro Maia perguntou aos seus soldados quem é que estava disponível para acabar com “o estado a que chegámos”. Foi na madrugada do 25 de Abril.

Por estes dias, quase 42 anos depois da noite em que Salgueiro Maia proferiu a tal frase, a escolha parece simples: tentar mudar – mesmo que a mudança seja difícil e imperfeita – ou deixar que tudo continue a ser cada vez pior. Não há colunas militares a caminho de Lisboa, mas acho que todos conhecemos aquela lição de vida e a memória do momento em que não tentámos. Não há sensação pior.

Até agora e nos últimos anos, empobrecemos, perdemos massa cinzenta, perdemos gente com a energia da juventude sempre indispensável a qualquer país que queira futuro. Perdemos até alguma alegria de viver. Sentimos a tristeza de vermos alguns que considerávamos firmes, passarem para o outro lado ou pelo menos cederem nos princípios, rendidos a uma alegada falta de alternativa e a migalhas. A pergunta favorita do sistema fez escola: “quem é que paga?” Tudo em nome de políticas para as quais “não havia alternativa” e de um alegado pecado que consistia em vivermos “acima das nossas possibilidades”. Salvámos bancos e banqueiros enquanto estupidificámos frente a telenovelas, futebol, e comentários dos cruzados do “não há alternativa” a entrarem-nos em casa via rádio e televisão.

Dois exemplos do estado a que chegámos:

1 – Esta sexta-feira, devido à apresentação do Orçamento do Estado, uma notícia não o chegou a ser: a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) inspeccionou 516 locais de trabalho. Entre outras coisas, o comunicado da acção da ACT diz isto: As irregularidades detectadas relativamente a horários de trabalho, registos do tempo de trabalho e pagamento de quantias em dívida neste domínio, designadamente trabalho suplementar e trabalho nocturno, atingiram 46% do total dos trabalhadores abrangidos, ou seja, quase sete mil trabalhadores. As acções de fiscalização focaram-se em actividades bancárias, de vigilância e em refeitórios. Ilegalidades em barda. Aposto que alguns dos responsáveis por estas situações fazem parte do clube “não há alternativa”.

2 – Depois temos o “estado a que chegámos” debaixo do guarda-chuva da legalidade. Aqui entra, por exemplo, o chamado “outsourcing”, que nunca foi outra coisa – há excepções – a não ser uma forma de contornar a lei que garante direitos a trabalhadores de uma empresa (através dos Acordos Colectivos), substituindo-os por trabalhadores, de outra empresa ou falsos profissionais liberais a recibo verde, quase sem direitos. Há casos em que os trabalhadores de uma empresa, lado a lado com trabalhadores a recibo verde, a fazerem exactamente o mesmo trabalho, são remunerados de forma substancialmente diferente, uns recebem horas extraordinárias e feriados, mas os outros não, uns têm 13º mês e outros não, uns têm subsídio de férias e férias, e outros não, e até pagam o almoço/jantar no refeitório da empresa a preços diferentes (consoante sejam trabalhadores da empresa ou “recibos verdes”). Tudo isto numa mesma empresa, e há quem ache isto normal.

São apenas dois exemplos do "estado a que chegámos”. E há quem seja contra tudo isto mas não levante a voz. Esses também têm culpa. Alguém recusa reconhecer que tem de haver alternativa?

Pinhal Novo, 6 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Quando os “democratas” egoístas preferem ditadores no poder

Legenda da foto: “Acreditamos que o ser humano é o centro do universo e sem seres humanos não será possível alcançar o progresso em nenhum lugar do mundo. O ser humano é o mesmo e igual onde quer que ele pertença. Acreditamos na justiça dos homens”. Foto tirada na cave de um prédio em Salma, Síria, onde funcionava um hospital de campanha em território controlado pelo Free Syrian Army, Agosto de 2012.


O egoísmo dos bem instalados da vida é algo que chega a ser obsceno. Dizer que já se sabia no que ia dar a chamada Primavera Árabe e que os países envolvidos não estavam minimamente preparados para se transformarem em sociedades democráticas, é não perceber nada do que se passou – e ainda está a passar – ou então, de forma cínica, como também ouvi dizer, mas agora devolvo a ofensa, estar a perceber e ao mesmo tempo defender que é preferível alguns viverem sob ditaduras, desde que isso permita aos outros viverem descansados e instalados.

Acabo de ouvir tudo isto numa televisão portuguesa, dito sem pudor nem vergonha, e fico espantado quando este tipo de afirmações são produzidas por pessoas que reivindicam uma superioridade moral – porque, por exclusão de partes, consideram estar preparados para viver em democracia – de uma Europa supostamente evoluída, mas onde ainda há dias houve quem aprovasse leis que permitem o confisco de bens aos refugiados. Que tristeza, esta tão grande pobreza de pensamento.

E esta gente que se arroga de tão evoluída não percebeu uma coisa muito simples que esteve na génese da chamada Primavera Árabe e que foi um grande grito de revolta contra líderes déspotas que pouco ou nada fizeram pelos respectivos povos, acumulando fortunas e fazendo negócios, bons negócios, com essas potências democráticas ocidentais que nunca tiveram o mínimo pejo em negociar com eles desde que vissem as economias a crescer e os eleitores mais ou menos sossegados.

Não percebem aqueles que agora dizem que já se sabia qual iria ser o resultado da Primavera Árabe, que a democracia era a última das reivindicações dos que se revoltaram e fizeram cair ditadores. A rua árabe reivindicou a melhoria das condições sociais e económicas, reivindicou justiça e reivindicou dignidade. Aliás, a democracia é algo muito conotado com o ocidente e tem um sinal muito negativo numa fatia significativa do mundo árabe, devido a todas as memórias que o ocidente deixou na região.

Pretender que alguns vivam eternamente sob os ferrolhos de uma ditadura para que outros possam usufruir do sossego que permite os bons negócios, é de um egoísmo atroz e até obsceno, e revela que algumas fachadas muito democráticas são afinal reminiscências ferozes e bem escondidas do espírito colonial.

Pinhal Novo, 1 de Fevereiro de 2016
josé manuel rosendo

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não há bola de cristal no Palácio de Belém, mas parece…

Não há paciência, embora não surpreenda. A mesma “escola” que ignorou Leis e direitos, para cortar salários e pensões (depois da promessa expressa de não o fazer…), e que fez uma interpretação tão abrangente da Constituição que levou a várias medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional, é agora a “escola” que consegue ler na Constituição que o Primeiro-Ministro só pode ser o líder do partido/coligação mais votado. Não há nem uma linha da Constituição que imponha esta solução. Temos assim uma espécie de “escola” que faz pose de Estado e cara séria quando fala do “Estado de Direito” mas que depois manda o Estado de Direito às urtigas. Que se lixe a Constituição se atrapalhar os objectivos políticos.

Não surpreende que o Governo esteja agarrado ao poder. Não surpreende que quem se tenha demitido irrevogavelmente e tenha voltado atrás, esteja agarrado ao poder. Não surpreende que jovens jotas inesperadamente atirados para cargos públicos estejam agarrados ao poder. Face à atitude dos últimos anos, nada disto surpreende. Conhecemos os políticos de quem estamos a falar. Não surpreende até que não consigam perceber que não têm apoio parlamentar para serem de novo Governo, tal como não surpreende que não percebam que há uma maioria de deputados eleitos pelo povo que apoia outra solução de Governo. De facto, sinceramente, nada disto surpreende, porque compreender tudo isto seria compreender a democracia.

Aqui chegados, aquele que tem a obrigação de acabar com este impasse, recusa fazê-lo. Pelo menos demora, prolonga o tempo de jogo. Esta segunda-feira, na Madeira disse que quer ouvir mais pessoas para “recolher o máximo de informação junto daqueles que conhecem a realidade económica política e financeira” para depois decidir; acrescentou que “sabe muito bem o que aconteceu em Portugal quando as orientações adequadas não foram cumpridas”. Quais orientações adequadas? De quem? Cavaco Silva pode ouvir toda a gente, mas o que não pode ignorar é o que resulta das eleições de 4 de Outubro: há uma maioria de deputados que viabiliza um Governo e que esse Governo tem toda a legitimidade democrática.

O Presidente da República pode ouvir quem quiser, tem esse direito e até obrigação, para melhor desempenhar as suas funções. A mais importante dessas funções, no nosso regime democrático, é “cumprir e fazer cumprir a Constituição”. Esse foi o juramento de Cavaco Silva.

O Presidente da República não pode exercer o livre arbítrio em circunstâncias que a Constituição não o permite, isto é, não pode argumentar que o acordo estabelecido entre os partidos à esquerda não vai funcionar. Os deputados dos partidos de esquerda têm a mesmíssima legitimidade do que os deputados dos partidos da direita. A Constituição não atribui ao Presidente da República as funções de vidente relativamente aos acordos que resultam da vontade dos deputados livremente escolhidos pelos portugueses. Ainda não há bola de cristal em Belém. Mas parece…

Pinhal Novo, 17 de Novembro de 2015

josé manuel rosendo

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Um vasto rol de comentadores políticos… (ou os democratas que não aceitam a democracia)

Não resisti, porque há muito tempo que não tínhamos um momento político tão rico e apaixonante. Chamem-me simplista (ou básico) se quiserem e se se derem ao trabalho de me chamar alguma coisa, mas tenho alguma dificuldade em entender a actualidade política. Não a política propriamente dita, mas as leituras que tantos comentadores fazem e que, por vezes, tomam elas (as leituras e os comentários) a forma de realidade que acaba por sobrepor-se e substituir a verdadeira realidade.

Temos um sistema político que desde há quatro décadas define com clareza as condições em que Portugal pode ser governado: tem de ser com um Governo que tenha o apoio de uma maioria parlamentar. Não há dúvida quanto a isto e até agora todos aceitaram o jogo. No limite, até tivemos o célebre “caso limiano” que desempatou o apoio parlamentar a um governo de António Guterres. Com o actual sistema, Portugal nunca deixou de ter Governo e, quando essa necessária maioria parlamentar deixou de existir, os governos caíram e outros lhe sucederam. Parece-me que é assim a democracia, pelo menos no sistema político português.

De facto, os resultados das eleições de 4 de Outubro colocaram-nos perante uma situação inédita, mas não é por isso que o sistema deixa de servir. O problema é que os resultados de 4 de Outubro abrem a porta a várias soluções de Governo que alguns políticos e um vasto rol de comentadores têm dificuldade em aceitar. Não porque a legalidade democrática esteja a ser violada, não porque alguém esteja a preparar um golpe palaciano, mas apenas porque uma das soluções não agrada a um vasto rol de comentadores.

Face aos resultados das eleições de 4 de Outubro, a única análise intelectualmente honesta é dizer que eles abrem portas a dois tipos de governo (até mais, mas são as possibilidades em cima da mesa): um da coligação PàF eventualmente com apoio abstencionista do PS no Parlamento; outro do PS com apoio parlamentar do BE e do PCP. Qualquer das soluções tem argumentos para defender a sua legitimidade democrática: a PàF porque venceu as eleições e é uma tradição que seja a força política mais votada a formar Governo; o PS com apoio do BE e do PCP porque se conseguirem um entendimento têm uma maioria parlamentar que sustenta um Governo. E o sistema político tem muito bem definida a arquitectura dos passos a dar para ser encontrado um Governo. Tudo claro como água.

Mas esse vasto rol de comentadores que tem dificuldade em perceber uma coisa tão simples e que é afinal a essência da democracia – aceitar o veredicto popular e as possibilidades de expressão em forma de Governo dessa decisão do povo – teima em confundir aquilo que são as regras do jogo democrático com o desejo/vontade que sentem de ver formado um determinado Governo. E é aqui chegados que os comentadores borram a pintura: em vez de fazerem análise e explicarem às pessoas as possibilidades em aberto com o resultado das eleições, exprimem desejos mascarados de inevitabilidades assentes em leituras enviesadas da realidade.

A título de exemplo, e porque é da área da direita política que surgem estas leituras mais enviesadas, ponham os olhos num país que estão sempre muito predispostos a defender: Israel. Há décadas que não há uma maioria absoluta em Israel e há décadas que as coligações, por vezes as mais inesperadas e até implausíveis, governam o país.

Por fim, deixem-se lá daqueles argumentos de que “ai, ai, ai, vem aí o comunismo”. Gente que quer ser tão “à frente” e gosta de esgrimir o argumento de que “o mundo mudou”, atirando-o à cara dos outros como se fossem analfabetos e vivessem na idade das trevas, já devia ter percebido que o mundo mudou mesmo e que todas as forças políticas eleitas para o Parlamento têm o mesmo direito de participar na governação do país. Só falta mesmo acenarem com os fantasmas dos comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço, o que deixaria de ser desonestidade intelectual e passaria a ser burrice, porque nessa já ninguém acredita.

Estarão a perguntar qual a solução de Governo que mais me agrada, mas a minha opinião não é relevante. O que deveria ser relevante era termos análise política mais esclarecedora e menos engajada com as forças políticas. Em resumo: precisamos de analistas verdadeiramente independentes ou então de analistas e comentadores que consigam fazer a separação entre uma verdadeira análise da realidade política e a opinião que têm sobre o que consideram melhor para o país. Misturar as coisas não é jogo limpo.


Pinhal Novo, 13 de Outubro de 2015
josé manuel rosendo

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Está instalado o cerco ao Labour de Jeremy Corbyn (ou será melhor dizer que abriu a caça a Jeremy Corbyn?)


Vem aí um novo Syriza. É o alerta dos arautos da morte das ideologias perante a eleição de Jeremy Corbyn para líder do Labour (Partido Trabalhista). Para estes arautos só há uma política e um pensamento, podem existir acertos de pormenor nos orçamentos mas, para lá disso, tudo o resto é impossível. E nem se coíbem de dizer que a União Europeia e a real politik (assim algo que ninguém entende muito bem mas que determina o nosso futuro – algo que a vontade dos homens não pode alterar) já mostraram que não há espaço para Syrizas e Labour’s liderados por gente como Corbyn. Nem se apercebem que estão a dizer que já não há espaço para a democracia, mas escrevem-no com todas as letras. Rendidos aos poderosos da Europa e do mundo financeiro que traçam as linhas com que nos cosemos, os intérpretes do mainstream hesitam relativamente ao futuro de Corbyn: coveiro do Labour ou líder efémero. A nada de melhor Corbyn pode aspirar.

Estas leituras fazem-se em Portugal, mas também lá por fora. As “bíblias” regularmente citadas afinam pelo mesmo diapasão: Corbyn pode tirar o Reino Unido da União Europeia; o homem não percebe o mundo em que vive e é inelegível como Primeiro-Ministro; foi eleito líder porque os trabalhistas votaram com o coração e não com a cabeça. Em resumo, Jeremy Corbyn tem um conjunto de opiniões que não agrada ao mainstream. Daí, o mainstream conclui que é um perigoso esquerdista, um republicano em terras de sua majestade Isabel II, falava com o Sinn Fein e com Hugo Chávez, quer o Reino Unido fora da NATO e, talvez, fora da União Europeia, quer nacionalizações, não quer austeridade, deu as boas-vindas aos refugiados e, pecado de recente homologação, gosta de conversar com Varoufakis, esse mesmo, o ex-ministro das finanças que a troika obrigou a Grécia a atirar para fora do Governo de modo a ter o tal terceiro resgate e o empréstimo intercalar. Ora, bem vistas as coisas, Jeremy Corbyn só pode ser um “bandido” da pior espécie.

Os líderes trabalhistas que sucederam a Tony Blair (e antecederam Corbyn) não deixaram marca política que se veja a não ser a das derrotas eleitorais, atribuídas a um discurso que nuns dias era de esquerda e noutros dias de direita. Aquela tentativa de agradar a deus e ao diabo que os partidos socialistas blairistas seguiram nos tempos mais recentes. 

Assim sendo, a referência das análises e das opiniões é o tempo de Blair embora ninguém pareça querer aprofundar a descaracterização do Labour realizada precisamente por Tony Blair e ninguém parece querer saber do que Blair fez enquanto Primeiro-Ministro britânico na guerra de 2003 no Iraque. Não, isso não interessa, é um tabu que o mainstream ignora olimpícamente. Mesmo num país em que, como alguns escribas reconhecem, a direita (acrescento eu, em função da liderança errática de Blair) se apoderou de bandeiras da esquerda, ter agora um líder que as pretende recolocar onde devem estar, isso não interessa.

Há até quem defenda que Corbyn só foi eleito porque, vejam lá, ou era ele ou era o vazio. Corbyn venceu com cerca de 60% dos votos. A eleição agradou às bases do Labour, mas foi evidente que não agradou à nomenclatura. Vamos ver no que dá a liderança de Jeremy Corbyn, mas o que chateia desde logo é o preconceito e a caixa quadrada em que alguns comentadores e analistas se movimentam, não aceitando nada de diferente do habitual embora gostem de encher a boca (e os textos) com as virtudes da diversidade e da diferença.

Perante o que foi escrito e dito nas horas que se seguiram à eleição de Corbyn, torna-se evidente que o cerco está montado, tal como esteve montado ao Syriza quando venceu as eleições gregas e varreu alguns dos políticos tradicionais, esses sim, com fortes responsabilidades na situação a que a Grécia chegou. Entenda-se por cerco a opinião e análise predominante nos media. Como é evidente, toda a gente tem direito (era o que faltava que não tivesse…) a ter opinião e a liberdade de a tornar pública. É o caso de muitos dos que ocupam posições que lhes dão acesso regular aos media e de outros que nos media têm poder de decisão. O problema é que a esmagadora maioria dos que têm esse acesso e dos que ocupam esses lugares com poder de decisão têm sempre tendência a defender determinada área política em detrimento de outra. 

Dizer que o pluralismo de opinião nos media é um dado adquirido e algo substantivo em Portugal, é um acto de grande esforço e um bocado zarolho.

Pinhal Novo, 15 de Setembro de 2015

josé manuel rosendo

PS - créditos da foto: The Guardian

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Afirmar valores… afirmar a Liberdade


Conheci jornalistas que morreram por causa deste nosso amado ofício. Doeu-me! Neste 7 de Janeiro morreram 8 jornalistas e mais 4 pessoas. Doeu-me! Eu sei que uma vida é uma vida e a de jornalista não vale mais do que qualquer outra, mas permitam-me esta dor particular.

Claro que todos somos Charlie (Hebdo). Nas redes sociais é fácil ser tudo e mais alguma coisa. É condenável o que aconteceu em Paris? Absolutamente: foi um acto criminoso e sem desculpa! E a solidariedade não deve ser desvalorizada. É importante que num momento destes, aqueles que prezam a Liberdade, não se encolham com medo e que manifestem essa vontade de não ter medo. Mas todos sabemos como estas “ondas” passam rapidamente e vão ser substituídas por outra “onda” que não tardará em aparecer. Defender a Liberdade é, também, quando se afigura mais fácil ir na procissão da opinião óbvia, parar por um momento e tentar aprofundar a questão. Gosto de dizer que “a Liberdade pratica-se”! E o Charlie Hebdo praticava-a.

Na hora a que escrevo este texto o ataque ainda não foi reivindicado. Não há certezas, mas o ataque desta manhã em Paris traz de novo para debate a relação do Islão com o chamado mundo ocidental e também a questão da integração dos imigrantes na Europa.

É bom que se diga que o ataque já foi condenado por muitos líderes e instituições islâmicas, desde logo por responsáveis iranianos, pela Universidade de Al Azar (Egipto) e desde cedo pelo próprio líder da comunidade islâmica de Paris. Tariq Ramadan também condenou o ataque dizendo que “não foi o Profeta que foi vingado, foi a nossa religião, os nossos valores e os nossos princípios islâmicos que foram traídos e conspurcados”. Esse é o primeiro aspecto a ter em conta. Todos unânimes na separação que deve ser feita entre um acto criminoso praticado por alguém que soltou um “Allahu Akbar” e os valores do Islão.
A memória dos tempos que se seguiram ao 11 de Setembro de 2001, faz recear que os muçulmanos que vivem nos países ocidentais voltem a enfrentar algo semelhante. É chegado o tempo de percebermos que não é essa a solução. O mundo ocidental não pode cair na tentação de erguer muros que, tarde ou cedo, acabarão por cair, derrubados à força ou por se revelarem inúteis. Qualquer muro é uma ilusão.

Por outro lado, esta relação do Islão com países ocidentais não pode ser simplificada numa perspectiva de preto-e-branco colocando os “bons” de um lado e os “maus” do outro. Falta-nos debate sobre esta matéria (como em tantas outras) para que as reacções a casos como este não provoquem uma imediata rejeição do “outro”.

Temos exemplos na história da Europa de tentações de purificação da raça que todos sabemos como terminaram; existem forças políticas que apenas espreitam uma oportunidade para ressuscitar essas teorias; temos pessoas que apenas esperam uma oportunidade para, em nome da segurança, reduzirem os nossos direitos e a nossa Liberdade. Se nos deixarmos arrastar, sem debate, sem aprofundar a raiz dos problemas, cedendo ao medo, o futuro pode ser perigoso.

Este tipo de acontecimentos, o ataque ao Charlie Hebdo, assemelha-se à lava de um vulcão quando irrompe e arrasa tudo à volta. Da mesma forma que precisamos de saber mais sobre os vulcões para podermos prever e acautelar uma erupção, temos que saber mais sobre esta problemática que, não sendo um problema provocado pelo Islão, pode levar a uma rejeição do Islão e, então sim, dar origem a um problema mais grave e de maior dimensão.

O ataque ao Charlie Hebdo, sendo um ataque a um jornal, foi um ataque ao bem (para além da vida) mais valioso deste nosso mundo: a Liberdade de expressão. Não podemos prescindir desse nosso oxigénio que tantos séculos demorou a conquistar.

Mas é preciso também reflectir sobre a utilização que temos feito dessa nossa Liberdade. É necessário uma reflexão sobre as preferências dos portugueses em termos de jornais, de revistas e de programas de televisão, e talvez esteja encontrada uma explicação para a dificuldade em entender o que se está a passar e para algumas reacções que é possível ler nas redes sociais e nos comentários às notícias.

Neste aspecto, também os jornalistas que agora, e bem, condenam o que aconteceu, devem fazer uma reflexão sobre as opções editoriais: vamos fazer alinhamentos com temas que realmente são importantes ou vamos continuar preocupados com “aquilo que o povo quer” e consome? Vamos descodificar os acontecimentos ou vamos noticiá-los numa breve de jornal,  em 30 segundos de rádio ou com um “off” na televisão, com a tal preocupação de que as pessoas não estão disponíveis para “coisas” muito complicadas e não têm tempo para ver ou ouvir falar de guerras, de conflitos, de problemas religiosos e de geopolítica? As pessoas apenas querem saber o preço da gasolina e estão-se “nas tintas” para perder tempo a perceber os motivos da oscilação do preço do petróleo, é isso?
Pois, talvez seja isso, mas depois não me venham falar de Liberdade. 

Da mesma forma que muitos de nós não sabem merecer os que morreram nas cadeias do fascismo na luta contra a ditadura e na defesa da Liberdade, há jornalistas que não fazem um pequeno esforço por merecer os que hoje morreram em Paris em nome da Liberdade. Lamento, mas é o que sinto.

josé manuel rosendo

7 de Janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Primeiro foi o (bicho papão) PREC, agora é 2011… e o perigo do populismo

Ouvir Cavaco Silva é um exercício difícil. A lengalenga é intraduzível. Ora encriptada, ora abstracta e ambígua. Mas há sempre uma conclusão: está tudo bem como está, são necessários entendimentos para manter o rumo, há sinais de que as coisas vão melhorar, nada de precipitações nem de promessas impossíveis e… cuidado com a demagogia e o populismo. Cuidado com o bicho papão!

Olhando para trás, Cavaco Silva diz que não podemos voltar a 2011 (terá querido dizer que os portugueses não devem votar PS?); olhando para a frente avisa contra o populismo e a demagogia. Lembrei-me do tempo (e de outros papões) em que nos diziam que não podíamos voltar ao PREC (foi por essa altura que os Espírito Santo foram ter vida santa para outro lado… voltaram e sabemos no que deu); lembrei-me da chantagem de que os investidores podiam deixar o país e provocar a descapitalização das empresas; lembrei-me das promessas de que Portugal tinha que entrar no Euro porque não podíamos ficar na “segunda divisão da Europa” (terá sido demagogia?). Lembrei-me de tanta coisa ao ouvir cavaco Silva. Lembrei-me de tanta promessa e de tanta demagogia que nos tem sido servida em véspera de eleições pelos tais partidos do “arco da governação”. Chegámos a este estado. Apesar de termos votado de forma “politicamente correcta” por medo do velho papão, apesar de termos entrado no Euro, apesar dos capitalistas não terem fugido ou mesmo terem regressado os que chegaram a ir embora.

Mas Cavaco Silva deve ver as sondagens em Espanha e na Grécia. Os Syrizas, os Podemos, os Blocos de Esquerda, prometem ameaçar as políticas que nos empurraram para uma austeridades castradora e para um desemprego que fere de morte a dignidade humana (o trabalho é um direito, lembram-se?). Não sabemos se um dia, eventualmente chegados ao poder, algum destes partidos políticos vai cumprir a promessa, ou se, independentemente da vontade de o fazer, vai conseguir. Mas há uma coisa que sabemos: assim não dá.

Já todos percebemos que há quem viva muito bem com a actual situação e por isso o problema é mesmo se um dos referidos partidos chega ao poder. Cavaco Silva parece estar alarmado com a real capacidade de um PS receoso dos efeitos do “caso Sócrates” e com um PSD a quem apenas um milagre salvará de uma pesada derrota. Na minha ingenuidade pensava que democracia era isso mesmo: os partidos vão a votos e vence quem for mais votado. Mas parece que não é. E, não sendo, tenho que dizer que os mais perigosos radicais que é possível vislumbrar na vida política portuguesa são aqueles que apenas querem que nada mude e que perante a mínima possibilidade de mudança logo vão ao baú e de lá tiram todos os fantasmas, perspectivando tempestades a cada passo. É o bicho papão a ameaçar comer as criancinhas que se portam mal.

Para além do bicho papão que ameaça a estabilidade deste sistema, em Portugal está ser criado um clima para que as próximas eleições sejam disputadas em torno do caso Sócrates. Para além de estar a ser disseminado o medo perante a esperada subida das forças políticas não-alinhadas com os habituais partidos da governação, há também a construção que coloca o chamado centrão como única possibilidade de escolha: quem defende Sócrates e acha que ele foi alvo de artimanhas por parte do poder vigente vai votar PS (a alegada vítima); quem acha que Sócrates é um bandido e que, se calhar, até já devia estar condenado em julgamento sumário, vai votar PSD (o alegado vilão). Depois ainda vamos ter as sondagens a apresentarem os dois partidos (PS e PSD) muito próximos e a cativar a atenção dos eleitores para essa disputa como se mais nada interessasse.
Por agora, esperemos, mas os spin doctors estão com muito trabalho entre mãos.

josé manuel rosendo

2 de Janeiro de 2015

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A dignidade da ilha


O Presidente dos Estados Unidos assumiu que falhou a estratégia de mais de 50 anos a tentar isolar Cuba e o regime político instaurado com a revolução de Che e Fidel. Este é o ponto. E assumir esta realidade é reconhecer que Cuba resistiu. E esse é o outro ponto.

Tradicionalmente há uma notória dificuldade dos Estados Unidos em entenderem regiões do mundo e sociedades com passado milenar, mas o que mais perturbava no caso de Cuba era que a questão principal era a da dignidade da soberania de um Estado, e essa questão os Estados Unidos não deviam ter dificuldade em entender porque têm uma história ainda recente de luta pela sua própria soberania.

Depois dessa luta pela soberania surgiu a Doutrina Monroe (tudo o que acontecia na América era do interesse dos Estados Unidos), argumento para expulsar os colonialistas europeus. Aliás, presumo que tenha origem nessa teoria o facto de, ainda hoje, os norte-americanos se referirem aos estados Unidos da América como “a América”. Depois surgiu o apoio a várias ditaduras de má memória.

Em Cuba, a revolução que afastou o ditador Fulgêncio Batista também tocou interesses norte-americanos. Argumento para que os Estados Unidos não parassem de tentar interferir na situação interna de Cuba. Nunca conseguiram derrubar Fidel Castro, e posteriormente o irmão Raúl Castro.

O embargo económico atingiu Cuba e os cubanos. Fazer alguém passar fome e fazê-lo acreditar que a culpa é de quem governa o país é estratégia antiga, mas nem isso resultou. Havia, pois claro, gente descontente. Claro que foram reprimidos e de forma –dizem alguns relatos – nada respeitadora dos direitos humanos. Mas havia um desígnio superior: a dignidade de quem não vende a consciência apenas para ter mais uns dólares no bolso. É uma questão de opção, certamente pouco aceitável em sociedades que se sentam horas frente à televisão a ver os reality shows e que depois votam em partidos de direita ao mesmo tempo que reclamam políticas de esquerda.
Cuba optou pela dignidade, sem nunca aceitar ser tratada como parceiro menor numa relação que deve ser entre iguais. É assim que os Estados se devem relacionar: iguais na grandeza da sua soberania e autodeterminação.

Agora, entre iguais, entre dois estados soberanos, com discursos apaziguadores em simultâneo, os dois presidentes deram o passo que Cuba precisa (qual era afinal o crime de Cuba para uma punição assim?) e que os Estados Unidos já não tinham forma de evitar.
Era insustentável para a imagem dos Estados Unidos ter uma Assembleia Geral da ONU a votar de forma esmagadora o fim do embargo a Cuba. O Mundo inteiro contra os Estados Unidos, num fórum em que apenas Israel votou ao lado dos estados Unidos e em que se abstiveram apenas três Estados que são protectorados dos Estados Unidos (Ilhas Marshall, República de Palau e Estados Federados da Micronésia). Um Estado democrático com a dimensão dos Estados Unidos não precisa da força de um embargo para se afirmar perante Cuba.

No pensamento realista que domina a política internacional e, em particular, os Estados Unidos, a ética ocupa o espaço de uma formiga e por isso este desfecho terá sido, certamente, um murro no estômago.

Também para os cubanos que se acomodaram em Miami a sonhar com os tempos do ditador Fulgêncio, os próximos dias vão ser uma azia terrível.

Seja como for, o Mundo parece ter ficado um bocadinho melhor. As relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos são um muro que Obama e Castro começaram a destruir esta quinta-feira, cada um com a sua picareta. 

Esperemos agora que cada passo seja dado a seu tempo sendo que, como lembrou a embaixadora cubana em Portugal, o embargo ainda não terminou.

josé manuel rosendo

17 de Dezembro de 2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sim, Camaradas, tenho que vos dizer isto

Não sou daqueles que não leva desaforo para casa. Às vezes levo. Mas sei que, mastigado o assunto, a ele terei de voltar. Acabei de assinar a petição pública “Pela liberdade e pela democracia” por causa dos despedimentos na Controlinveste. Assinei porque concordo com o que lá está escrito, porque sei que o jornalismo, a liberdade e a democracia, ficam mais fracos com o emagrecimento das redacções. Todas as redacções. Assinei por solidariedade. Mas sendo eu um jornalista do chamado “Serviço Público”, achei por bem dizer-vos isto.

A coberto da defesa da liberdade de imprensa e de informação, em defesa da iniciativa privada, estigmatizou-se o serviço público. Feito o caminho, chegamos ao momento em que essa tese pariu uma “liberdade de imprensa” refém dos grupos económicos proprietários das empresas jornalísticas (ou de comunicação social – convinha por vezes definir fronteiras) com interesses tantas vezes opostos à Liberdade, à Informação e ao Serviço Público (porque todo o jornalismo íntegro é serviço público).

Aqueles que diziam que o serviço público era o serviço oficial dos governo, acrescentando que o jornalismo não era isso, esquecem-se hoje de olhar para dentro, para alguns espaços de antena (peças/reportagens/…) e páginas de jornais que mais parecem novelas ou promoções de supermercado. Não conseguem olhar para dentro e dizer: isto não é jornalismo. Ou se e quando olham, lá esgrimem aquele argumento, muito a custo mas ainda assim tão demagógico do “ou é assim e temos audiências (publicidade/dinheiro) ou perdes o emprego. O que é que preferes?”.

As redacções do Serviço Público têm vindo a “emagrecer”. Gostava de ver esta questão abordada com outra frequência na chamada comunicação social livre. Gostava que fosse possível aos leitores/ouvintes/telespectadores da chamada comunicação social livre terem a noção da importância do problema de um Serviço Público enfraquecido. Mas não vejo.

Conheço jornalistas que chegaram a pedir-me o telefone (do serviço público...) dizendo que o telefone “é nosso… não é o Estado que paga?”. Assim mesmo. Eu sei que os jornalistas, entre eles, muitas vezes, resolvem os problemas e esquecem as rivalidades das empresas – e os patrões não precisam de saber e em muitos casos nem sonham. Emprestei sempre o telefone, até o particular, porque é assim que deve ser. Tal como hoje assino esta petição. Porque é assim que deve ser.

Conheço jornalistas que “ganhavam vida” a cada pedaço de serviço público que era destruído, pensando que era mais um pedaço que lhes podia ser útil (fosse audiências, fosse fatia de publicidade).

Conheço jornalistas que disseram cobras e lagartos do serviço público, mas só até ao momento em que nele foram acolhidos para trabalhar…

Não me peçam nomes. Recorram à memória e provavelmente encontrarão alguns.

Eu sei que esta carapuça não entra na cabeça de toda a gente e sei que alguns, muitos, não vão sentir-se minimamente atingidos, e ainda bem, mas se não vos dissesse isto não havia rennie que me valesse.


josé manuel rosendo

terça-feira, 17 de junho de 2014

Jornalistas despedidos, Democracia enfraquecida

A propósito dos despedimentos no DN, JN, O Jogo e TSF, atrevo-me a recordar o Manifesto tornado público há quase dois anos. Desde então, infelizmente, a única mudança foi para pior. E esta é uma guerra que não se pode travar apenas nas redacções. Por muito que os jornalistas se mobilizam - e acho que o devemos fazer - a sociedade terá que se mobilizar para defender um dos principais pilares da Democracia: a Informação. E pelo caminho que tem vindo a ser seguido, esta luta não se vence apenas com comunicados, manifestos ou protestos mais ou menos simbólicos. Somos gente civilizada, é certo, mas se esta Democracia desvirtuada não é sensível a algo tão necessário como o reforço desse pilar que devia ser visto como um dos seus genes imprescindíveis, então é preciso algo mais. Assim os jornalistas a isso estejam dispostos e a sociedade seja solidária.

Republico o texto de Outubro de 2012. Às assinaturas que dele constam muitas outras se juntaram.

Pelo jornalismo, pela democracia

A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.
O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias. O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão.

As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas.

Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos – empresários, profissionais, Estado, cidadãos - na descoberta de soluções.

A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia.

Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público;
Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”;
Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece;
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia;
Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa;
Porque o jornalismo é um património colectivo;

Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos.

Por isso nela nos envolvemos.

Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática.

Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade.


Proponentes:
Adelino Gomes
Alfredo Maia - JN (Presidente do Sindicato de Jornalistas)
Ana Cáceres Monteiro, Media Capital
Alexandre Manuel - Jornalista e Professor Universitário
Ana Goulart - Seara Nova
Ana Romeu - RTP
Ana Sofia Fonseca - Expresso
Ana Tomas Ribeiro - Lusa
Anabela Fino - Avante
António Navarro - Lusa
António Louçã - RTP
Camilo Azevedo - RTP
Carla Baptista - Jornalista e Professor Universitária
Cecília Malheiro - Lusa
Cesário Borga
Cristina Martins - Expresso
Catarina Almeida Pereira - Jornal de Negócios
Cristina Margato - Expresso
Daniel Ricardo – Visão
Diana Ramos - Correio da Manhã
Diana Andringa
Elisabete Miranda – Jornal de Negócios
Frederico Pinheiro - SOL
Fernando Correia - Jornalista e Professor Universitário
Filipe Silveira - SIC
Filipa Subtil - Professora Universitária
Filomena Lança – Jornal de Negócios
Hermínia Saraiva - Diário Económico
Joaquim Fidalgo
Joaquim Furtado
Jorge Araújo - Expresso
José Milhazes - SIC / Lusa (Moscovo)
José Vitor Malheiros
João Carvalho Pina - Kameraphoto
João Paulo Vieira - Visão
João d’Espiney, Público
José Luiz Fernandes - Casa da Imprensa
José Manuel Rosendo – Antena 1
José Rebelo - Professor e ex-jornalista
Luis Andrade Sá - Lusa (Delegação de Moçambique)
Luis Reis Ribeiro - I
Liliana Pacheco - Jornalista (investigadora)
Luciana Liederfard - Expresso
Luísa Meireles - Expresso
Maria de Deus Rodrigues - Lusa
Maria Flor Pedroso - RDP
Maria Júlia Fernandes - RTP
Martins Morim - A Bola
Manuel Esteves - Jornal de Negócios
Manuel Menezes - RTP
Margarida Metelo - RTP
Margarida Pinto - Lusa
Mário Nicolau – Revista C
Miguel Marujo- DN
Miguel Sousa Pinto - Lusa
Mónica Santos - O Jogo
Nuno Pêgas – Lusa
Nuno Aguiar – Jornal de Negócios
Nuno Martins - Lusa
Oscar Mascarenhas - DN
Patrícia Fonseca - Visão
Paulo Pena - Visão
Pedro Rosa Mendes
Pedro Caldeira Rodrigues - Lusa
Pedro Sousa Pereira - Lusa
Pedro Manuel Coutinho Diniz - Professor Universitário
Pedro Pinheiro - TSF
Raquel Martins - Publico
Rui Cardoso Martins
Ricardo Alexandre – Antena 1
Rosária Rato - Lusa
Rui Peres Jorge – Jornal de Negócios
Rui Nunes - Lusa
Sandra Monteiro - Le Monde Diplomatique
Sofia Branco - Lusa
Susana Barros - RDP
Susana Venceslau - Lusa
Tomas Quental – Lusa
Tiago Dias - Lusa
Tiago Petinga -Lusa
Vitor Costa – Lusa


Este é apenas o primeiro passo duma iniciativa que pretende ser mais ampla.
Nos próximos dias todos os jornalistas, bem como todos os cidadãos vão ser convidados a assinar e a participar.


Pelo jornalismo, Pela democracia

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Estamos a ser roubados...

Certeiro e contundente. Como é que eu tinha passado "ao lado" deste texto e só o descobri quase seis meses depois? Obrigado, José Gil.


O ROUBO DO PRESENTE - José Gil

“Há pelo menos uma década e meia está a ser planeada e experimentada quer a nível do nosso país, quer na Europa e no mundo uma nova ditadura - não tem armas, não tem aparência de assalto, não tem bombas, mas tem terror e opressão e domesticação social e se deixarmos andar, é também um golpe de estado e terá um só partido e um só governo - ditadura psicológica.

Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu. O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho. O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stress, depressões, patologias, border-line, enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens)

O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público. Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais.

O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. 

O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil. Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português.


Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria­-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

domingo, 22 de dezembro de 2013

A utilização desonesta do exemplo de Mandela



Agora que o corpo de Mandela arrefeceu e o destempero dos comentários desapareceu, talvez seja tempo de dizer alguma coisa mais ponderada sobre Nelson Mandela. Nunca falei com Mandela, nunca estive na África do Sul, mas a dimensão de Mandela é universal.

Desde logo Nelson Mandela mostrou um democrático desapego pelo poder. Algo que muitos dos que derramaram lágrimas de crocodilo certamente nunca irão fazer. É certo que a idade de Mandela não permitiria muito mais, mas cumpriu um mandato como presidente e saiu pelo próprio pé.
Nos últimos dias,tentou-se fazer passar uma imagem de um líder pacifista, sempre disposto a estender a mão ao inimigo e quase conformado com aquilo que o poder vigente permitia. Nada mais errado. Como refere o filósofo João Maria de Freitas-Branco (jornal Público de 19 de Dezembro de 2013) o Apartheid é um crime que não tem perdão e, acrescento eu, não prescreve, façam as leis que fizerem para o colocarem num qualquer arquivo morto.

Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Pegou em armas para combater a injustiça. E pegou em armas porque a isso foi obrigado perante um poder racista que não permitia qualquer diálogo para alterar um status quo em que os brancos eram reis e senhores enquanto os negros viviam ostracizados e explorados. É importante reter este pormenor: Mandela foi um revolucionário.

Depois da prisão – 27 anos de prisão – a liberdade, em 1990, mostra a Mandela um mundo completamente diferente. O Muro de Berlim tinha caído, o império colonial português tinha terminado, a URSS iria desmoronar-se. O poder branco na África do Sul estava consciente das mudanças e sabia que para não perder tudo era obrigado a negociar. Nelson Mandela percebeu que iria ganhar e que o caminho para o fim do Apartheid estava traçado. Por isso aceitou negociar, por isso percebeu que com a vitória à vista não faria nenhum sentido enveredar por um caminho de vingança e de morte. De que serviria a vingança se o preço seria ainda mais sofrimento para o seu povo? A isto chama-se lucidez, nobreza, ética. Mas um verdadeiro revolucionário deve guiar a sua atitude por estes trilhos porque a revolução faz-se precisamente quando estes valores estão em causa.

Em Portugal, figuras com prática política a anos-luz da de Mandela, apressaram-se a tomar o comboio das carpideiras. Oportunistas descarados, intelectualmente desonestos, falaram de Madiba e de Tata sem terem a mínima noção do significado das palavras. Quiseram aproveitar o nome de Mandela para, deturpando a sua atitude revolucionária, oferecerem-no como o exemplo de como um povo deve ser pacífico mesmo perante as maiores atrocidades como aquelas que estão a ser executadas em Portugal. O que subtilmente pretenderam dizer aos que sofrem é que devem apertar a mão aos carcereiros e renunciar a qualquer acção que não se enquadre num pacifismo submisso.

Aqueles que pensam que ao elogiarem Mandela ascendem a um patamar semelhante, enganam-se; aqueles que pensam que ao falarem do homem que alegadamente perdoou o inimigo podem igualmente ser perdoados, enganam-se. Houve gente demais, com um passado de mentira e sangue nas mãos a colar-se ao exemplo de Nelson Mandela.

O exemplo de Mandela não é propriedade de ninguém mas tão só um exemplo inspirador para quem ama a Liberdade e combate os que se acham donos do Mundo. Apenas isso.
 
josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 22 de Dezembro de 2013

PS – para ver o significado de “Madiba”, “Tata” ir a http://www.nelsonmandela.org/content/page/names