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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mais sinais sobre a Síria. Cartas estão a ser postas em cima da mesa


Procuro nas agências de notícias, nos jornais, não há quase nada sobre o encontro entre o Secretário de Estado norte-americano John Kerry e o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Serguei Lavrov. Apenas gestão de expectativas com a inevitável especulação à mistura. Estes dois homens têm encontro marcado em Genebra nesta sexta-feira e na véspera falaram ao telefone. O que cada um deles leva na mala (e na manga) não se sabe.

O que se ficou a saber esta quinta-feira através do Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Ash Carter, é que as milícias curdas da Síria (Unidades de Protecção Popular) saíram da cidade de Manbij (que conquistaram ao Estado Islâmico) e atravessaram o Rio Eufrates passando para a margem oriental. Era o que a Turquia exigia e os Estados Unidos apoiaram. Ash Carter revelou esta alteração no terreno depois de um encontro com o Ministro da Defesa da Turquia, Fikri Isik.

Outro sinal a merecer muita atenção: o porta-aviões francês Charles de Gaulle vai estar no Mediterrâneo oriental. Põe-se a caminho até final de Setembro. A França envia também baterias de artilharia. Vai estar tudo operacional no início do Outono. Obejctivo? Vão apoiar as forças iraquianas na reconquista de Mossoul. As palavras são do porta-voz das Forças Armadas francesas. Esta revelação das movimentações militares francesas acontece no dia do encontro do Presidente francês, François Hollande, com o Presidente do Governo regional do Curdistão (iraquiano), Massoud Barzani. O mesmo Barzani que a 23 de Agosto esteve reunido com o presidente turco, encontro onde terá sido feito um acordo contra outros curdos (PKK e curdos sírios).

Voltando a Kerry e Lavrov, parece pacífico que a política russa em relação à Síria – concordemos ou não – tem sido muito mais explícita do que a dos Estados Unidos, sobretudo se atendermos à forma como os norte-americanos têm lidado com a questão curda. Não seria a primeira vez que os Estados Unidos voltariam as costas aos curdos. Mas também é bom lembrar que a 10 de Fevereiro os curdos da Síria abriram a primeira representação no estrangeiro e foi em… Moscovo. 

Já alguém escreveu que até parece que os curdos nasceram para serem traídos. Não vai demorar para sabermos como vai ser desta vez. O final do ano tem sido a referência de vários líderes para retirar Mossul do controlo do Estado Islâmico e a Turquia já disse que lhe agrada uma operação conjunta com os Estados Unidos para conquistar Raqqa, a maior cidade síria dominada pelo estado Islâmico.
Vamos ver o que sai de Genebra esta sexta-feira.

Pinhal Novo, 9 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Síria, algo se vai passar, ou não…


Durante semanas, meses, das negociações para resolver a guerra na Síria apenas se ouvia dizer que estavam paradas, bloqueadas. As iniciativas do enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, deram em nada. No terreno, todos os dias, combates, bombardeamentos, cercos, massacres, crimes de guerra, populações em fuga. Novidade já com duas semanas: a Turquia entrou na guerra, meteu homens e máquinas Síria adentro com o argumento de combater o Estado Islâmico e as milícias curdas das Unidades de Protecção Popular. Não deixa de ser curioso que, depois de muitas ameaças, e de situações de ameaça idêntica pela proximidade do Estado Islâmico – lembram-se de Kobani? – só depois de resolvido o diferendo com a Rússia, a Turquia tenha avançado de forma directa para esta guerra. Aliás, a Turquia disse que avisou o Governo de Damasco, através do amigo russo. 

A juntar a essa relação (Turquia/Rússia) retomada, afirmações dos mais altos responsáveis turcos devem ser tidas em conta. A 2 de Setembro, o Primeiro-Ministro turco, Binali Yildirim, foi taxativo: “Normalizámos as nossas relações com a Rússia e Israel. Agora, se Deus quiser, a Turquia tomou uma iniciativa séria para normalizar as relações com o Egipto e a Síria”. Esta declaração não deixa margem para outra leitura a não ser que a Turquia mudou radicalmente de posição relativamente a Bashar al Assad. Até agora, o Presidente sírio era visto de Ankara como uma carta forçosamente fora do baralho; agora já não é.

Outra declaração importante: o vice-primeiro-ministro disse que a Turquia é favorável a uma operação comum com os Estados Unidos contra Raqqa, a capital do Estado Islâmico na Síria. Este governante disse que o assunto foi tratado entre os dois presidentes à margem da Cimeira do G20 e está a ser discutido. O Presidente turco lançou também a ideia de uma zona de exclusão aérea no norte da Síria. E há ainda outro dado: a 23 de Agosto o presidente turco encontrou-se com o Presidente do Curdistão Iraquiano. Oficialmente falaram da actividade da organização de Fethulla Gulen na região mas há rumores de que terão feito uma aliança contra os outros curdos, nomeadamente do PKK e das Unidades de Protecção Popular.

Talvez seja difícil digerir todas estas componentes do conflito mas pelo meio disto, o enviado especial de Barack Obama para a coligação que combate o Estado islâmico, encontrou-se com as milícias curdas das FDS (Forças Democráticas da Síria – junta milícias curdas e árabes). Encontrou-se também com representantes turcos. É o que diz o Departamento de Estado. Os turcos querem os curdos fixados a este do Rio Eufrates, os Estados Unidos tentam convencê-los a recuar para essa zona, mas os curdos conquistaram ao Estado Islâmico a cidade de Manjib (a oeste do Eufrates) e têm por objectivo controlar todo o norte da Síria que faz fronteira com a Turquia.

A Rússia e Bashar al Assad têm falado menos. Tentam consolidar posições no terreno. Têm tido algum sucesso mas também alguns revezes. Uma coisa é conquistar posições, outra é ter capacidade para mantê-las com forças massacradas por 5 anos de guerra.

A oposição síria reunida no Alto Comité de Negociações apresenta um plano em 3 fases: primeiro, seis meses de trégua e negociações; segundo, 18 meses de governo de transição, mas Bashar al Assad tem de ir embora; por fim, eleições com o apoio e supervisão das Nações Unidas. Já se vê que esta solução, tendo o mérito de pretender parar o banho de sangue, não vai vingar.

Para fechar este leque de questões, durante dois dias (8 e 9 de Setembro) Sergueï Lavrov e John Kerry – os homens que mereceram da Al Jazeera uma série de artigos com o título “Atracção Fatal” – vão estar juntos a debater a situação na Síria. O que eventualmente podem tirar da cartola, ninguém sabe, mas já estamos naquela fase em que a maioria das apostas vai no sentido de que tudo vai ficar como está. De há muito que esta guerra na Síria é um tabuleiro de xadrez em que vários jogadores movimentam várias peças em simultâneo. Nenhum consegue saber o que todos os outros pretendem e o que vão fazer na próxima jogada.

Ainda assim, as peças do puzzle parecem começar a acomodar-se. Mas não nos iludamos. Talvez ainda não tenha acabado de ler este texto e tudo pode já estar diferente.

Pinhal Novo, 8 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo

sábado, 23 de julho de 2016

A Europa à nora…

O céu está a cair-nos em cima e ninguém sabe a resposta a dar. Paris, Bruxelas, Nice, Baviera, Munique… casos diferentes que muita da alarvidade à solta tenta colocar no mesmo saco. Mesmo sem haver – à hora a que escrevo – dados concretos (no caso de Munique), as expressões mais utilizadas são “estado islâmico”, “lobo solitário”, “daesh”. É o que está a dar. Estas expressões provocam medo, então há que prender as audiências, mesmo que seja a alimentar esse medo. Em muitos casos, a contenção e o cepticismo, pilares aconselháveis ao jornalismo que tenta ser rigoroso, é atirado às urtigas.

Os casos dos últimos meses dizem-nos que a Europa está verdadeiramente à nora. Olha desconfiada por cima do ombro depois de ter dado conta de que a realidade mundial, da qual – queira ou não – faz parte, está a bater à porta. Foram cometidos erros estratégicos, não da União Europeia – porque não existe enquanto região com uma política externa – mas das suas principais potências: França, Itália, Reino Unido e Alemanha. Pensava esta Europa que as guerras eram lá longe. Esqueceu-se que tem fomentado ódios e alimentado inimizades fortes. 

Não vão longe os tempos em que alguns dos principais líderes europeus entravam na “corte” de muitos ditadores no Médio Oriente e em África, que por sua vez visitavam a Europa. A saga continua. Em nome da estabilidade (não interessa a que preço) que os investidores reivindicam e os mercados agradecem, porque há interesses (negócios) que é preciso salvaguardar. O velho ditado “o que é barato sai caro” aplica-se que nem uma luva. Fazem as negociatas – petróleo, pedras preciosas, metais raros, armas – arrecadam o lucro, e quem vier atrás há-de fechar a porta. Esta é a visão de curto prazo, fruto de uma política de fracos políticos sem visão de futuro nem visão do mundo.

Os eurocratas dos salões dourados e dos hotéis de 5 estrelas das muitas capitais, cujos interesses são ditados pelo FMI, Goldman Sachs e afins, não conhecem as ruas (sejam elas na Europa, no Médio Oriente ou em qualquer outro lado) onde nasce a raiva e o ódio. É por isso que depois não percebem o que nos acontece. Quem não percebe não consegue encontrar soluções.

A única Política que existe na Europa é a do dinheiro, seja na área financeira ou económica. Nada mais. Aliás, a interiorização de um bem-estar conquistado (embora apenas para alguns…) afasta os cidadãos da necessidade de olhar para o Mundo com a consciência de que a Europa faz parte desse mundo e tem de ter uma política externa definida para enfrentar estas crises e alterar a percepção que dá origem à ameaça.

Infelizmente, para a formação da nossa opinião pública o nível de alguns políticos é muito semelhante ao de muitos comentadores que preenchem o nosso espaço mediático. Andaram na mesma escola, não conseguem pensar fora dos padrões em vigor. Por vezes até, parecem falar de uma realidade paralela. Ouvi-los, é quase como ir ao hospital por causa de uma dor de cabeça e ter um ortopedista a fazer o diagnóstico.

Pinhal Novo, 22 de Julho de 2016

josé manuel rosendo

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Volto a fazer a pergunta: e depois do Estado Islâmico?

No início de Dezembro do ano passado escrevi sobre o pós-Estado Islâmico http://meumundominhaaldeia.blogspot.pt/2015/12/e-depois-do-estado-islamico.html e uma voz amiga comentou: “estás a pensar muito à frente… ainda nem acabaram com eles na Síria e no Iraque”. Repesco parte desse escrito: “O futuro passa por uma pergunta simples de resposta terrivelmente complexa: e depois do Estado Islâmico? Desde logo não é de todo impossível que o Estado Islâmico não evolua para um “estado sunita” (faltando saber em que moldes e em que território). Há teorias nesse sentido. Depois: acabada a guerra com o Estado Islâmico (com a qual todos parecem concordar), o que fazer com Bashar al Assad? Como resolver o problema na Síria, palco para uma miríade de grupos mais ou menos extremistas, mais ou menos laicos? O que fazer com os curdos? O que fazer com o PKK (que combate o Estado Islâmico), considerado terrorista pelo ocidente? O que fazer com as (YPG) Unidades de Protecção Popular (que também combatem o Estado Islâmico) marcadas com o mesmo rótulo? O que fazer com os combatentes do Estado Islâmico que sobreviverem?”

Há muito mais perguntas a fazer, mas estas parecem-me as mais urgentes. A última pergunta, para quem vive na Europa, é talvez a que levanta mais inquietações. O que aconteceu esta noite em Nice – à hora a que escrevo não está confirmado que tenha sido atentado – explica essa inquietação de forma muito perspicaz. Ainda é cedo para se dizer que já é um atentado (se se confirmar) pós-Califado, mas não é de excluir que estejamos perante algo que pode ser um sinal dos tempos que estão para vir. Seria bom que assim não fosse mas  é preciso insistir nesta questão: o que fazer quando o Estado Islâmico for derrotado no Iraque e na Síria? Quantos combatentes são? O que vão fazer quando estiverem derrotados e o Califado já não for o seu território? Para onde vão? 

Há cerca de um mês, o director da CIA, John Brennan, disse que devem ser entre 18 a 22 mil combatentes do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Esta quinta-feira, o director do FBI (numa perspectiva naturalmente mais interna) disse que vai haver uma “diáspora terrorista” após a derrota do Estado Islâmico, que haverá um crescimento dos ataques extremistas” e que o trabalho do FBI tem de ser evitar que entrem nos Estados Unidos.

E a Europa desunida vai fazer o quê? Há uma incapacidade notória da União Europeia para reagir e actuar perante este tipo de adversidades. Quem sabe a resposta que podemos esperar da União Europeia que alvitre alguma possibilidade porque não se consegue descortinar nada. Continuamos preocupados com as décimas dos défices quando os nossos maiores problemas são outros. E não nos esqueçamos que encolhemos os ombros quando no dia 3 de Julho morreram mais de 200 pessoas num atentado em Bagdad.

Mais uma vez, após o que aconteceu esta noite em Nice, vamos – já estamos a – discutir as “pequenas” questões: vamos falar dos lobos solitários, do perfil dos autores do atentado, do bairro onde viviam, dos vizinhos que até os vivam como cidadãos, do estado de emergência em França, etc, etc.. Mas não vamos falar da “grande política” e da questão essencial: como derrotar o Estado Islâmico (no terreno) e como dar uma perspectiva de futuro a todas as partes envolvidas nas guerras no Iraque e na Síria. Até que tudo se repita…

Pinhal Novo, 14 de Julho de 2016
josé manuel rosendo

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Porquê Faluja, e não Mossul ou Raqqa?


Já alguém escreveu que o controlo de Faluja é fácil de perder mas muito difícil de recuperar. É uma leitura acertada da história recente desta cidade estratégica da província de Al Anbar. Desde logo uma outra nota: os invasores de 2003 só muito tarde percebram a importância desta enorme província, de maioria sunita, que tem “só” três fronteiras internacionais: Síria, Jordânia e Arábia Saudita. Demorou bastante até que o General norte-americano David Petraeus (que chegou em 2012 a Director da CIA) desenvolvesse a estratégia de aproximação às tribos sunitas, marginalizadas após a invasão, para tirar o tapete à Al Qaeda no Iraque. Estratégia feita com malas cheias de dinheiro e promessas de integração, não cumpridas, aos sunitas.

A cidade conhece o cheiro da guerra como nenhuma outra no Iraque. Há regiões do mundo relativamente às quais se diz que quem domina a capital de um país domina esse país. Em relação a Faluja não se pode dizer o mesmo, mas estando a cidade a pouco mais de meia-centena de quilómetros de Bagdad e sendo um símbolo da resistência sunita aos invasores e ao poder do Governo (xiita) iraquiano, dominar Faluja é meio-caminho andado e é um sinal de que a resistência está controlada.

O único sinal de concertação dos que combatem a organização Estado Islâmico – mesmo tendo diferentes interesses e perseguindo diferentes objectivos estratégicos – é que houve muita propaganda em relação a alegados ataques iminentes a Mossul e Raqqa. Houve até notícia em Raqqa de lançamento de panfletos convidando a população a abandonar a cidade antes da batalha. Há manobras e combates nos arredores longínquos das duas cidades referidas, mas onde a tentativa de reconquista está mesmo a acontecer é em Faluja. Porquê? Porque para o Governo de Bagdad essa é uma batalha decisiva. De que adianta tentar reconquistar Mossul se não for possível conquistar uma cidade a meia-centena de quilómetros de Bagdad? De que adianta conquistar Mossul se a oposição xiita (de Moqtada al Sadr) que exige reformas contra a corrupção e remodelação governamental não for calada com uma vitória contra os sunitas da organização Estado Islâmico. O Governo de Haider al Abadi (exilado até 2003 no Reino Unido e posteriormente regressado ao Iraque, esteve sempre na esfera do poder, tendo sido ministro, e agora primeiro-ministro) precisa desesperadamente de uma vitória na batalha de Faluja para se poder afirmar internamente. É quase impossível que não a consiga mas falta saber a que preço. Esse preço pode transformar uma vitória numa derrota e se assim for tudo ficará mais complicado quando se tratar de tentar a reconquista de Mossul. Raqqa é outra conversa e é mais complicado.

Em Faluja, que se saiba, não há jornalistas. A propaganda das duas partes faz circular informação contraditória. Há notícias de forte resistência da organização Estado Islâmico (e o recurso a ataques aéreos podem ser um sinal dessa resistência e da incapacidade das tropas iraquianas avançarem) e há notícias de fuga dos combatentes da organização Estado Islâmico; há notícia de avanços das forças governamentais mas também há notícias de elevadas baixas entre as tropas de Bagdad. Atacantes e defensores trocam acusações sobre a utilização de habitantes como escudos humanos. As Nações Unidas referem cerca de 50 mil civis em Faluja mas só quando a batalha terminar irá ser possível avaliar o preço desta batalha de Faluja. É isto o que se sabe e porque se sabe pouco as notícias de Faluja desapareceram dos alinhamentos noticiosos.

Pinhal Novo, 3 de Junho de 2016

josé manuel rosendo

terça-feira, 31 de maio de 2016

Outra vez o inferno em Faluja


A infografia é da Agência France Press e mostra a situação em Faluja a poucas horas do "ataque final".

Não é possível imaginar quão difícil deve ser viver em Faluja, no Iraque. Desde há algumas semanas que as forças do governo iraquiano e as milícias xiitas iniciaram movimentações de preparação para conquistar a cidade, e há algumas horas – desde a chegada das unidades de elite – que as forças governamentais anunciaram o início do ataque à cidade controlada pela organização Estado Islâmico. Não se sabe ao certo quantos habitantes estão na cidade (a ONU diz que são 50.000 civis em condições dramáticas, sem alimentos água potável e medicamentos – e sem possibilidade de receberem ajuda ou protecção) e também não se sabe qual a capacidade militar (em homens e equipamento) dos combatentes do estado Islâmico que controlam a cidade.

Faluja é uma cidade da Província de Al Anbar a cerca de meia centena de quilómetros de Bagdad. O Rio Eufrates passa-lhe à porta. Faluja é passagem obrigatória para quem faz a “estrada da morte” (há sempre uma quando há uma guerra) entre a fronteira da Jordânia e a capital iraquiana. Ramadi fica na mesma estrada. Cidades que fazem parte do chamado “triângulo sunita”, espaço de resistência após a invasão do Iraque em 2003. Foi em Faluja que quatro mercenários da Blackwater foram apanhados, mortos e pendurados numa ponte sobre o Eufrates. Desde 2004 que a cidade não tem sossego, palco de violentos combates entre forças de ocupação e grupos iraquianos. Os soldados norte-americanos não têm nenhuma boa recordação de Faluja.

Desde Janeiro de 2014 que a cidade está controlada pela organização Estado Islâmico. Foi a primeira cidade a cair nas mãos dos radicais. Não se sabe ao certo se as tribos sunitas, por oposição ao governo xiita de al Maliki, terão ficado agradadas com a chegada do Estado Islâmico. Há relatos para todos os gostos: uns dão conta de colaboração; outros dizem que houve líderes tribais que rejeitavam o governo de al Maliki tanto quanto rejeitaram o Estado Islâmico.

As forças iraquianas anunciam que já tomaram alguns locais nos arredores da cidade. As unidades de elite de “contra-terrorismo” avançam para a cidade a partir de 3 localizações com o apoio aéreo da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos. Parece certo que a operação das forças iraquianas vai chegar a um ponto em que os combates vão ser rua-a-rua, casa-a-casa. Não há nenhum sinal de que possa haver uma rendição dos radicais. Talvez um recuo e uma eventual fuga se o cerco o permitir.

Para quem vive em Faluja e apenas quer viver, as próximas horas/dias ameaçam ser dramáticas. Faluja sabe o que é o inferno.

Pinhal Novo, 31 de Maio de 2016

josé manuel rosendo

quarta-feira, 23 de março de 2016

Rever as fronteiras do Médio Oriente para acabar com o “Estado Islâmico”


Há muitas formas de abordar o que aconteceu esta terça-feira em Bruxelas. Podemos optar pelas mais sérias e consequentes ou pelas mais fáceis e populistas. Começando por estas últimas, que se despacham mais depressa, coloca-se mais polícia na rua, investe-se em novos equipamentos para controlo das entradas de locais estratégicos, reforçam-se os anéis de segurança, e vamos todos para as redes sociais chamar nomes aos autores dos atentados. 

Podemos juntar a esta abordagem o habitual descarregar de bombas contra os locais onde estarão os núcleos duros das organizações a que pertencem os autores dos atentados. Como consequência inevitável teremos mais danos colaterais e mais gente a odiar o Ocidente. Desabafamos, bombardeamos – saciando a sede de vingança – ficamos com a ilusão de uma segurança reforçada e o tempo encarregar-se-à de diluir a memória do que aconteceu. Até ao próximo atentado.

Se optarmos por uma abordagem mais séria, dá mais trabalho, exige leituras mais informadas e demora mais tempo. E, ainda assim, só o tempo dirá da sua eficácia. Exige, portanto, paciência. Algo que só uma sociedade mais educada e informada terá – paciência – para poder esperar pelo resultado.

Dentro desta abordagem mais séria convém, desde logo, rever a lista de algumas amizades, como por exemplo a da Arábia Saudita, país de onde parte uma fatia muito considerável do financiamento aos grupos islamistas mais radicais. Depois, convirá perceber as rotas do armamento que chega à organização Estado Islâmico e também as rotas da venda de petróleo. Quem vende armas ao Estado Islâmico? Quem compra petróleo ao Estado Islâmico? Armas e dinheiro. Não há organização que resista se o fluxo destes dois bens for cortado.

Em termos políticos e diplomáticos há outras abordagens possíveis. E muito mais complexas. Desde logo, atendendo ao ódio e à guerra sunitas/xiitas, devemos, neste momento colocar a questão: faz sentido admitir a criação de um “Sunistão” nos actuais territórios do Estado Islâmico, ou em fronteiras a definir? Não adianta iludir a questão: o Iraque e a Síria, tais como os conhecemos no último século, com as fronteiras ditadas pelo acordo Sykes-Picot, parecem estar condenados. Será preciso depois acomodar xiitas no Iraque, alauítas na Síria, e curdos na Síria (sendo que no Iraque, Turquia e Irão, a questão curda também se coloca). De caminho será absolutamente indispensável resolver a questão do Estado da Palestina.

Considerando tudo isto falta saber se a organização Estado Islâmico está disposta a conversar. É impossível para já dar uma resposta a esta questão, mas há sempre uma porta pela qual a diplomacia pode tentar entrar. Podemos pensar que o diálogo com uma organização pródiga em selvajarias é algo inaceitável, mas ao mesmo tempo devemos reter que até o Estado Islâmico pode mudar se, por exemplo, os sunitas que nele se acolhem por falta de alternativa, perceberem que existe a possibilidade de terem o seu próprio território.

Estamos a falar de um redesenho das fronteiras do Médio Oriente, algo que muitos já perceberam ser inevitável e que convém encarar de uma forma muito séria, sob pena de estarmos perante um ciclo de violência que nos vai colocar rotineiramente num debate inconsequente após cada atentado.

Esta é a abordagem que me parece mais séria. Dirão que é complexa, que é impossível e que é utópica. Talvez. É também uma abordagem que, para além de mexer com os actuais interesses nos territórios em causa, mexe também com os interesses das potências internacionais nesses territórios. Resta tentar.

Pinhal Novo, 22 de Março de 2016
josé manuel rosendo

terça-feira, 15 de março de 2016

Rússia retira forças militares da Síria. A guerra vai continuar…


Assim, sem ninguém esperar, a Rússia decide retirar parte da sua força militar que participa na guerra na Síria desde 30 de Setembro do ano passado. Putin decide, Putin anuncia, e a demora nas reacções apenas demonstra que toda a gente foi apanhada de surpresa. Silêncio em Washington, silêncio em Bruxelas, silêncio…

A Rússia retira mas mantém a presença no porto de Tartus e na base aérea na região de Latakia. Os aviões russos, diz Moscovo, vão vigiar um cessar-fogo que nunca o chegou a ser com todas as partes a acusarem-se mutuamente de violações da trégua.

A partir de agora: diplomacia. Para consumo da opinião pública é este o posicionamento determinado por Putin. O Presidente russo considera que o objectivo foi atingido, entenda-se que foi conseguido “mudar radicalmente a situação na luta contra o terrorismo, desorganizar as infra-estruturas dos inimigos e atingi-los com um golpe importante”. Isto quer dizer uma de duas coisas: o Kremlin considera que, apenas com o recurso aos ataques aéreos, já fez o que era possível fazer (intensificar os bombardeamentos poderia ter um custo político contraproducente…) e que as forças do governo sírio reconquistaram poder face a inimigos muito fragilizados. A Rússia considera que cortou as fontes de abastecimento dos “terroristas”, que muitas regiões controladas por “terroristas” estão isoladas e que o exército sírio recuperou milhares de quilómetros quadrados de território e controla agora cidades importantes, como por exemplo Alepo. Certamente que Putin terá boa informação, mas é algo que está por confirmar.

O que parece evidente é que Putin sente que pode fazer o que quer, desde logo porque sabe que europeus e norte-americanos não vão meter os pés na Síria, e para já a situação está controlada. Por outro lado, a faceta pacificadora que resulta desta retirada dá à Rússia mais força negocial em Genebra. O Kremlin foi claro neste aspecto: “O trabalho dos nossos militares criou as condições para o início do processo de paz”. É certo que a posição de Bashar al Assad é agora mais forte e a oposição chamada de moderada está mais fragilizada, mas há um aspecto que parece incontornável: a oposição não aceita que Assad continue Presidente e Assad não aceita sequer que a presidência seja assunto das negociações (o regime sírio diz que é uma linha vermelha).

Com Barack Obama em final de mandato, Vladimir Putin marca o compasso da agenda internacional. Não deixa de ser estranho que Putin, depois de alinhar com Obama no cessar-fogo, decida sair parcialmente da Síria sem uma palavra aos norte-americanos. Ainda assim, a estratégia de Putin é clara: maior influência no Médio Oriente. Uma estratégia que não deixa grande margem para os críticos porque há sempre a possibilidade de comparação com a estratégia norte-americana. Basta que nos lembremos da retirada norte-americana do Iraque (2011) e do Afeganistão após longos anos de ocupação: nestes dois casos qual foi o objectivo atingido? Pois… o mesmo acontece agora com a Rússia: qual foi o objectivo atingido? A organização Estado Islâmico continua activa, a oposição considerada moderada está debilitada mas não desiste, os curdos tentam ganhar terreno e influência, o Irão continua com o aliado Assad no poder, a Turquia continua a sofrer atentados e a apontar o dedo aos curdos e a limitar a liberdade de imprensa.

Em cima da mesa está ainda a Resolução das Nações Unidas, aprovada por unanimidade em Dezembro de 2015, que estabelece um processo de solução política: negociações entre oposição e o regime; cessar-fogo; um governo de transição a designar até Junho e eleições até Junho de 2017. Eleições? Na Síria? Alguém acredita?

A diplomacia esconde sempre alguma coisa e está por saber qual é o real objectivo de Vladimir Putin, sendo certo que o Kremlin disse que no telefonema em que Putin comunicou a Assad que as tropas russas iriam retirar, o futuro do Presidente sírio não foi abordado. Uma pequena Síria, com Assad no poder, que garanta a presença russa na região, será suficiente? Uma Síria federal poderá ser uma solução? Muitas soluções se podem colocar, mas não há nenhuma que satisfaça todos os intervenientes nesta guerra.

Pinhal Novo, 15 de Março de 2016

josé manuel rosendo

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cessar-fogo na Síria? À meia-noite logo se vê…


O calar das armas está previsto para a meia-noite (10h00 GMT) de Damasco nesta sexta-feira. O anúncio foi feito por Estados Unidos e Rússia, mas desde logo o próprio Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse perante o Senado que é preciso esperar para ver. A Casa Branca disse que o acordo significa que há uma evolução; o Kremlin disse que o acordo pode transformar radicalmente a situação na Síria.

O anúncio de cessar-fogo deixa no entanto algumas janelas abertas por onde as armas podem continuar a disparar. Avisa desde logo que “as acções militares, incluindo ataques aéreos das forças armadas da Síria, da Rússia e da coligação liderada pelos Estados Unidos, contra o Estado Islâmico e a Front al Nusra (Al Qaeda) e outras organizações consideradas ‘terroristas’ pelo Conselho de Segurança da ONU, vão continuar”. Os que anunciam a trégua dizem também que vão trabalhar em conjunto para delinear a fronteira dos territórios sob controlo dos que ficam de fora deste acordo. Significa que vão dizer quais são os territórios que vão continuar a ser bombardeados pelos que anunciam o cessar-fogo.

De facto, desde logo, este é um cessar-fogo anunciado após conversações em que muitos dos intervenientes ficaram de fora. E não apenas o Estado Islâmico e a Front al Nusra. Há uma quantidade enorme de grupos ditos “jihadistas” e moderados que não foram achados nem ouvidos. É certo que é um passo enquanto estão suspensas as conversações mais alargadas em Genebra. Também é certo que este passo pode influenciar essas conversações se e quando forem retomadas. Mas é bom reter o potencial de tudo poder correr mal.

Há comandantes de grupos afectos ao Exército Livre da Síria (oposição considerada moderada) que já disseram que esta trégua é a cobertura para que as forças de Bashar al Assad e os aliados russos continuem a atacar bolsas de território onde estão grupos rebeldes argumentando que estão a atacar a Front al Nusra. A confusão no terreno é enorme e este receio parece legítimo. Os rebeldes moderados dizem isso mesmo: é impossível delimitar o terreno onde estão “rebeldes moderados” e “Jihadistas” da al Nusra (presentes em Idlib, Alepo, Damasco e em regiões do sul).

O comandante da brigada do Exército Livre da Síria em Alepo, Major Ammar al Wawi, foi muito específico: “A Front al Nusra tem combatentes no terreno ao lado das brigadas rebeldes na maior parte da Síria, e é um parceiro na luta tal como a maioria das brigadas que estiveram na conferência de Riad (Conferência que juntou muitos grupos da oposição e que terminou sem resultados práticos)”.

Outro porta-voz do Free Tribes Army disse estar disposto a aceitar um cessar-fogo que pare o banho de sangue mas lembra que este acordo não tem legitimidade porque não inclui alguns dos grupos que combatem o regime de Assad. Este representante repete a ideia de que vão ser bombardeados com o argumento de que são ataques contra a Al Nusra e avisa que não se compromete com um cessar-fogo se isso não for do interesse do povo sírio.

Da Front al Nusra, o que se sabe é que levantou postos de controlo, retirou combatentes e juízes da cidade de Sarmada, na província de Idlib, a seis quilómetros da fronteira com a Turquia. Um juiz da cidade diz que estas medidas pretendem retirar argumentos a quem quer atacar a al Nusra e evitar bombardeamentos em zonas civis, mas diz que não acredita que isso não aconteça: “para ser honesto, não acredito. Mas a al Nusra está a tentar jogar o mesmo jogo, assim não haverá desculpas”.

Do lado dos curdos, as Unidades de Protecção Popular (YPG) comprometem-se prometem respeitar o cessar-fogo mas reservam o direito de ripostar se forem atacadas. A Turquia considera que não está vinculada ao acordo e reserva-se o direito de ripostar se for atacada pelas YPG. A juntar a tudo isto, chegam por estes dias à Turquia os aviões sauditas que vão participar nos bombardeamentos contra o Estado Islâmico.

Faltam poucas horas para a entrada em vigor do cessar-fogo de duas semanas. Rapidamente vamos perceber se as armas vão ficar caladas.

Pinhal Novo, 26 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

sábado, 20 de fevereiro de 2016

(Talvez) A hora dos curdos da Síria


E chegámos ao momento de saber quem é terrorista! Expressão máxima e mais recente desta questão é a de saber se as Unidades de Protecção Popular (YPG, braço militar do Partido da União Democrática – PYD – dos curdos da Síria) são terroristas. As YPG combatem o Estado Islâmico e (só às vezes) as forças do Exército Livre da Síria (oposição “moderada” a Bashar al Assad), com quem também já combateram lado a lado. O que as YPG pretendem é tão só expandir território e conquistar autonomia para esse território. É esse o objectivo dos curdos no Iraque e na Síria. Aliás, o Presidente do Curdistão Iraquiano, Massoud Barzani, disse recentemente que o tempo do acordo Sykes-Picot (que, há precisamente 100 anos, dividiu os territórios do antigo Império Otomano e deixou os curdos à espera de um Estado…) terminou. Barzani dirigiu-se aos líderes mundiais e disse algo muito simples: independentemente do que digam e de aceitarem ou não, é esta a realidade no terreno! E esta é talvez a mais complicada questão que se coloca na região logo a seguir ao Estado Islâmico. Uma questão que deixa a Turquia irritadíssima.

Depois do atentado (28 mortos) de 17 de Fevereiro em Ankara, a Turquia apontou baterias aos curdos. O PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) foi acusado da autoria do atentado, tal como as YPG. Ambos negaram, mas dois dias depois os Falcões da Liberdade do Curdistão, grupo próximo do PKK, reivindicaram esse atentado feito na via pública mas que visou viaturas militares. O argumento foi o de ser uma resposta à actuação das forças militares turcas na região de Cizré (Curdistão turco) onde muitos curdos têm sido mortos.

É com este cenário que a Turquia intensifica os bombardeamentos da artilharia contra a região curda da Síria. E é com este argumento que a Turquia tenta convencer os aliados ocidentais de que é necessária um intervenção militar terrestre no norte da Síria. O problema é que para os Estados Unidos as YPG não têm o carimbo de “terroristas” e têm demonstrado ser uma força importante na contenção do Estado Islâmico. Por outro lado, as YPG e outras forças curdas aliaram-se com várias tribos sunitas do norte da Síria e formaram em Outubro passado as Forças Democráticas da Síria que têm sido apoiadas pelos bombardeamentos aéreos dos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico e na consequente expansão territorial.

Temos pois um problema que assenta numa velha questão: os que são terroristas para uns, são combatentes da liberdade para outros. Sempre assim foi e dificilmente deixará de ser. Saber quem deve ser colocado na lista de “terroristas” é também o que está a entravar as negociações de Genebra sobre a guerra na Síria, suspensas a 3 de Fevereiro e com recomeço previsto para 25 de Fevereiro.

Esta sexta-feira (19), houve uma declaração que passou sem a devida atenção: o Embaixador russo nas Nações Unidas, Vitail Tchourkine avisou o Presidente sírio Bashar al Assad contra a intenção declarada de reconquistar todo o território sírio num momento em que a diplomacia fala da necessidade de um cessar-fogo. Como se sabe a Rússia também apoia as YPG e não foi por acaso que os curdos da Síria abriram uma representação em Moscovo. Pode ser que esteja a chegar a hora dos curdos da Síria.

Pinhal Novo, 20 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Guerra do petróleo na Líbia: quem vende e quem compra?


                                    O mapa dos oleodutos e gasodutos é da insuspeita Stratfor 
                                    (empresa norte-americana frequentemente referida como 
                                     uma espécie de CIA privada que recolhe informação de 
                                      relevância geopolítica).

A Líbia não conseguiu fugir à chamada “maldição dos recursos”. Tem petróleo, e ter petróleo, em África (mas não só), paradoxalmente, tem sido sinónimo de guerra. Na Líbia, os frutos da chamada Primavera Árabe revelaram-se venenosos. Enquanto vão falhando as sucessivas tentativas de reconciliação, a Líbia vive mergulhada numa guerra que já transformou o país num Estado falhado onde existem dois governos, dois parlamentos, um vasto conjunto de grupos armados entre os quais se atravessa o Estado Islâmico, sendo também o país preferido para os africanos que querem chegar à Europa e arriscam uma travessia do Mediterrâneo. Perante este cenário, o que tem feito a chamada comunidade internacional? Bem… as Nações Unidas tentam a reconciliação nacional através de uma divisão dos benefícios do petróleo entre as várias facções combatentes. Até agora não resultou.

Aparentemente sem qualquer sentido de Estado, os dois governos apenas tentam manter o pouco poder que têm vendendo o petróleo produzido nas áreas que cada um deles controla (em Tobruk, o governo reconhecido internacionalmente; em Tripoli o outro governo). Ainda assim, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Tobruk advertiu recentemente para o perigo de a Líbia vir a tornar-se no novo santuário do Estado islâmico. Ajdabya, local de intensos combates quando Kadhafi ainda era vivo, é apontada como possível nova capital do estado islâmico. O Ministro líbio disse que não é possível pensar numa reconciliação nacional sem antes passar à acção militar. O aviso está feito: o Estado Islâmico está a ganhar força e a ligação ao Boko Haram, na Nigéria, dá fortes sinais. Entre a Líbia e a Nigéria, na região do Sahel, há apenas dois países: Níger e Chade, ambos mergulhados em conflitos semelhantes, territórios por onde tudo pode passar.

Enquanto este cenário se desenvolve bem à vista de todos a inacção talvez possa ser explicada com o petróleo que vendido através dos portos líbios. Dificilmente estará a sair de outra forma (ver imagem). E também não será difícil saber quem está a comprar. Tal como no Iraque não é difícil seguir a rota dos camiões que contrabandeiam petróleo, na Líbia também não será difícil saber que navios saem dos portos, carregados de crude, e para onde vão. Aliás, neste momento, o Mar Mediterrâneo está mais do que militarizado. O problema é que as grandes empresas ocidentais sempre gostaram de recursos baratos. Segundo dados conhecidos, a Líbia é o país africano com maiores reservas de petróleo – mais de 48 mil milhões de barris em finais de 2014 – e embora tendo a produção afectada pela situação de guerra – produz actualmente cerca de 500 mil barris diários, quando no tempo de Kadhafi produzia o triplo – é ainda um produtor apetecível. Melhor ainda se o contrabando obrigar a reduzir os preços.

Não sou dos que partilham a ideia de que Kadhafi devia ter ficado tranquilo no poder para que a Líbia ficasse em sossego, nem sou dos que partilham a ideia de que as forças de Kadhafi não deviam ter sido atacadas quando já estavam às portas de Benghazi. De facto, os líbios tinham todo o direito de quererem ver-se livres de um ditador macabro (uma visita às prisões do regime seria bom para aqueles que ainda ousam defendê-lo) e quando dizem que os países ocidentais não deviam ter interferido na “primavera líbia”, talvez tenham alguma razão, mas não têm a razão toda. Devem recordar-se das imagens de um Kadhafi possesso de ódio contra os rebeldes a prometer um “zenga zenga” (uma caça casa a casa, rua a rua…) e esteve quase a consegui-lo. O tanque que liderava a coluna que queria reconquistar Benghazi ficou a dois ou três quilómetros da entrada da cidade, se não estou em erro em Março de 2011. Kadhafi tinha prometido amnistia para quem se rendesse, mas disse que não haveria compaixão nem misericórdia para quem ousasse lutar. Se as forças de Kadhafi tivessem entrado ninguém duvida do massacre que se teria seguido.

Enquanto todas as atenções estão centradas no Iraque e na Síria, não é difícil imaginar as negociatas feitas com o petróleo da Líbia. Evidentemente que alguém na Líbia está a ganhar muito dinheiro, mas não é menos certo que alguém fora da Líbia está igualmente a ganhar muito dinheiro. E se, em relação aos líbios, o preconceito habitual faz com que se olhe para eles como “os bandidos do costume” (assim do tipo aquela gente que anda sempre aos tiros…), em relação ao mundo (dos negócios) de gente que não dá um tiro e surge sempre bem engravatada, seria bom sabermos quem são.

Pinhal Novo, 14 de Dezembro de 2015

josé manuel rosendo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

E depois do Estado Islâmico?


Após os atentados de Paris, as emoções estão (ainda) à flor da pele e quando não alinhamos no instinto primário da vingança somos quase automaticamente colados aos defensores e autores da barbárie.

Ponto prévio: é muito escassa a informação fidedigna sobre o Estado Islâmico. Sabemos quase nada e o que sabemos tem origem na propaganda do próprio Estado Islâmico e na propaganda anti Estado Islâmico. Na maior parte dos casos a informação tem origem em fontes impossíveis de verificar. Existe uma guerra e, como em todas as guerras, a propaganda e a contra-informação fazem o seu caminho. Em qualquer guerra a face visível do confronto é apenas uma pequena parte do que de facto está em jogo.

Há várias semanas que, oficialmente, Estados Unidos e Rússia anunciam centenas de voos e milhares de alvos atacados. Das duas uma: ou o Estado islâmico tem uma dimensão, capacidade e organização, que ninguém quer admitir ou estão a largar bombas de forma indiscriminada sem terem noção dos alvos que estão a atingir e correndo o risco de provocar os habituais danos colaterais.

Aceitando como boa a informação que Estados Unidos e Rússia têm divulgado sobre os ataques aéreos, poucos terão dúvidas sobre o futuro do Estado Islâmico. Quando as duas grandes potências mundiais (e outras) descarregam toneladas de bombas na Síria e no Iraque, torna-se evidente que o Califa e os seus seguidores vão ser pulverizados ou, quanto muito, ficarão reduzidos a pequenos grupos dissimulados na população e de regresso à estratégia de guerrilha.

Convém no entanto avaliar alguns dados: porquê apenas agora o intensificar dos bombardeamentos? Porquê apenas agora os ataques a zonas petrolíferas (dizem…) e a camiões cisterna de transporte de petróleo? O que é que estes ataques significam? Vão “desfazer” o Estado Islâmico e deixar a sírios e iraquianos o resto do problema? E depois há aquela pergunta de “1 milhão de dólares”: a quem interessa esta guerra e a existência do Estado Islâmico? Há tantas respostas possíveis, mas a participação de várias potências e vários actores regionais nesta guerra tem desde logo um significado muito simples: querem ter uma palavra sobre o futuro da região quando o Estado Islâmico acabar. Acho que já vimos algo parecido precisamente na mesma região.

O futuro passa por uma pergunta simples de resposta terrivelmente complexa: e depois do Estado Islâmico? Desde logo não é de todo impossível que o Estado Islâmico não evolua para um “estado sunita” (faltando saber em que moldes e em que território). Há teorias nesse sentido. Depois: acabada a guerra com o Estado Islâmico (com a qual todos parecem concordar), o que fazer com Bashar al Assad? Como resolver o problema na Síria, palco para uma miríade de grupos mais ou menos extremistas, mais ou menos laicos? O que fazer com os curdos? O que fazer com o PKK (que combate o Estado Islâmico), considerado terrorista pelo ocidente? O que fazer com as (YPG) Unidades de Protecção Popular (que também combatem o Estado Islâmico) marcadas com o mesmo rótulo? O que fazer com os combatentes do Estado Islâmico que sobreviverem?

Um exemplo simples ajuda a explicar a complexidade da situação: Mossul. A segunda maior cidade do Iraque fica na fronteira da zona árabe com a zona curda. É reivindicada por curdos e árabes. Neste momento, a questão que já se discute no terreno é a de saber quem fica a controlar a cidade após a expulsão do Estado Islâmico. Parte da população de Mossul prefere viver com o Estado Islâmico a ver entrar os xiitas e as previsíveis vinganças; os xiitas querem a cidade para eles porque vão ter que ser as milícias xiitas, juntamente com as forças do governo de Bagdad – também quase só xiitas – a desencadear o ataque à cidade; os curdos reivindicam a cidade e têm o argumento de terem travado o Estado Islâmico quando o exército iraquiano bateu em retirada. Não é possível tomar Mossul sem a colaboração dos curdos mas estes não confiam na capacidade das forças de Bagdad – dizem que não podem confiar num governo que precisa de milícias para defender o seu próprio povo.

Sobre Raqaa, na Síria, declarada capital do Estado Islâmico, podemos fazer perguntas semelhantes embora envolvendo actores diferentes. Alguém sabe responder a tantas perguntas e a questões tão complexas? Parece haver, no entanto, uma resposta segura: vamos ter outras guerras na região depois de terminada a guerra ao Estado Islâmico.

Pinhal Novo, 7 de Dezembro de 2015

josé manuel rosendo

sábado, 18 de abril de 2015

Al Douri – morreu o nº2 de Saddam Husseín, por quem os Estados Unidos ofereciam 10 milhões de dólares.

12 anos depois do início da invasão do Iraque, o homem que era vice-presidente e “braço direito” de Saddam Husseín é dado como morto. Não é a primeira vez que é noticiada a morte de Ezzat Ibrahim al Douri, mas desta vez parece que é verdade. A televisão al Arabyia mostrou imagens de um cadáver que parecer ser al Douri e o Governador da província de Saladino (cuja capital é Tikrit, terra natal de Saddam…) confirmou que al Douri morreu na sequência de uma operação militar conjunta de forças militares iraquianas e milícias xiitas. Este governador disse que foram recolhidas amostras de DNA e prometeu resultados em breve.

Al Douri tinha a cabeça a prémio desde a queda do regime: os Estados Unidos ofereciam 10 milhões de dólares e classificaram-no como Rei de Paus (o 6º mais procurado numa lista de 55 nomes) no célebre baralho de cartas que os norte-americanos distribuíram para que todos pudessem identificar os que eram procurados.

A Reuters cita fontes das milícias xiitas que dizem ter recebido informação da presença de um VIP no local onde al Douri foi morto. Pensavam que era o líder do estado islâmico (Abu Bakr al Baghdadi), afinal era al Douri.Várias fontes acreditam numa aliança entre o Estado islâmico e os insurgentes sunitas que nunca deixaram de combater a presença estrangeira no Iraque e, por acréscimo, combatem também o governo de maioria xiita. A capacidade militar demonstrada pelo Estado Islâmico na ofensiva de 2014 só foi possível através de uma forte componente de estratégia militar ao alcance apenas de profissionais treinados na estratégia de guerra.

A morte de al Douri, a confirmar-se, é um forte revés para o Estado Islâmico, embora outros militares sunitas, escorraçados da vida militar na sequência da invasão em 2003, possam continuar a fornecer o know how necessário à estratégia do Estado Islâmico.

18 de Abril de 2015

josé manuel rosendo

sábado, 6 de setembro de 2014

Só a “chave” sunita pode ajudar a derrotar o “Estado Islâmico” no Iraque


A maior fonte de receita do “Estado Islâmico” (EI) é o petróleo dos poços situados na zona do proclamado Califado. Depois de acabar o dinheiro que estava nos cofres dos bancos e governos regionais, o Estado Islâmico vende petróleo. E se o EI vende, alguém compra e para ser vendido tem que chegar/passar por outros países. Mas já lá vamos.

Para já um aspecto que está a ser ignorado em debates feitos à pressa e perguntas/questões “coladas com cuspo”. Aspecto essencial da força do EI e do avanço fulgurante que, em Junho, surpreendeu quase toda a gente: o EI conta nas suas fileiras com um grande número de antigos militares de Saddam Husseín – sunitas – e é isso que lhe dá a capacidade militar estratégica para fazer o que fez. Isto acontece porque os sunitas foram excluídos do processo político pós-guerra (ou pelo menos dos benefícios que o poder proporciona…). Depois, razão maior, caminhando o Iraque para uma federação ou, quiçá, separação em estado independentes, as áreas sunitas são as únicas que não têm petróleo ou onde existe em pouca quantidade. E é precisamente por isso que algumas tribos sunitas apoiam o EI ou pelo menos não se opõem. Depois, então sim, entrará a questão de carácter religioso, que perderá força logo que os objectivos dos sunitas iraquianos sejam atingidos. E mesmo que não perca, mesmo que o Califado resista, é o poder dos sunitas que será determinante.

Quanto ao petróleo que está a alimentar o EI levanta muitas questões. Está a ser vendido a preços que variam entre 30/40 e 60 dólares o barril. No mercado oficial ronda os 100 dólares o barril. Os intermediários estão a ganhar muito dinheiro e os compradores também. E não é difícil adivinhar os percursos: só pode sair pela Síria, Jordânia ou Curdistão directamente para a Turquia. Dificilmente sairá pela Arábia Saudita ou pelo Irão. Esta sexta-feira à noite na RTP Informação, Michael Gulbenkian, apresentado como consultor em energia – e que surgiu numa reportagem da RTP no Iraque, por estes dias – disse que alguns países europeus e até Israel compraram petróleo do EI. Não sei se é mesmo assim, mas foi dito por alguém que está por dentro do negócio. 

Também foi dito no mesmo debate, por outro protagonista, que as fronteiras naquela zona do mundo são muito porosas, dando a entender que é difícil exercer controlo sobre esse tráfico. Discordo, sobretudo em relação à Turquia. Aliás, é das fronteiras mais controladas devido à questão curda. Do que me recordo bem é dessa mesma região de fronteira, do lado turco, que mais parecia um gigante cemitério de camiões cisterna aquando da invasão do Iraque em 2003. Eram camiões que faziam precisamente, já nessa altura, contrabando de petróleo, contornando assim as sanções internacionais que pouco mais permitiam ao Iraque do que a troca de “petróleo por alimentos”. E o governo turco sabia, ai não que não sabia. Tal como sabe agora, se é que o petróleo do EI passa por lá, e tal como sabem os governos dos países por onde passa esse petróleo porque tem que passar por algum lado.

Portanto, tenho para mim que para resolver o problema que o EI representa, é preciso – urgente – começar por resolver o problema dos sunitas no Iraque. Foi assim em 2006/2007 para estancar a guerra civil e é de novo a “chave” sunita que pode abrir a porta do sossego. Duvido que os bombardeamentos ao EI resolvam a situação. Se os habituais “danos colaterais” começarem a surgir, então ainda pior, será mais um elemento a favor do EI. Não adianta o “ocidente” ter razão ao qualificar os actos do EI como gestos de tempos medievais. Mais ataques “ocidentais” apenas poderão contribuir para aumentar a lista de acontecimentos de que os muçulmanos, e em particular os árabes, se consideram vítimas nas décadas mais recentes.

josé manuel rosendo
6 de Setembro de 2014


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O que fazer com o "Estado Islâmico"?


CENSURA não!

Parece que está aberto um debate sobre o que fazer com as imagens mais violentas do Estado Islâmico. Parece apenas, porque de facto não há nada para debater. Até agora, por cá, o que tenho visto sobre esse “Estado Islâmico”, não me parece ser nada que não possa ser mostrado. A não ser que alguns pais queiram que um telejornal seja um momento equivalente a desenhos animados ou até que sejam assim uma espécie de telenovela, sempre com os mesmo protagnistas e que, mesmo depois de estarmos uma ou duas semanas afastados, quando retomamos temos aquela sensação de não termos perdido nada.

Algumas imagens divulgadas pelo “Estado Islâmico” arrepiam qualquer pessoa, mas talvez arrepiem ainda mais quem frequenta os locais onde os actos mostrados são praticados. Que ninguém duvide disso. Concordo em absoluto que mostrar o momento da decapitação de uma pessoa não acrescenta nada à informação. É preciso saber que ela foi decapitada (ou degolada? Não sei porque não vi…) mas os requintes de malvadez são dispensáveis. Mas ficamos por aí. O resto da informação eu quero e preciso de saber para poder saber com o que conto. Mas quero saber tudo e não quero saber apenas o que os malvados do “Estado Islâmico” fazem. Quero saber quem os armou, quem os financia e por que é que, surgiram assim do nada (eu sei que não surgiram do nada, mas faz de conta…).

Para sabermos isto é preciso recuar até quando e até onde? Até à invasão do Iraque em 2003? Até à recusa dos Estados Unidos em aceitarem que Bin Laden fosse julgado num Tribunal Internacional tal como o regime talibã no Afeganistão chegou a propor? É preciso irmos à Arábia Saudita tão amiga dos Estados Unidos? Será preciso contar melhor o que se está a passar na Síria? Por que é que os ataques à Faixa de Gaza provocaram tanto alarido – e bem – e os cerca de 200 mil mortos na Síria parece que não existem? Eu quero saber isto tudo, mas a melhor maneira de não me contarem isto é começar por não mostrar o que se esta a passar com o “Estado Islâmico”. Mas também não quero apenas conhecer os argumentos da retórica “ocidental” que está sempre a passar uma esponja sobre – perdoem-me a palavra, mas não encontro outra – a merda que tem feito no Médio Oriente. 

Como nota de curiosidade fiquem a saber que a poderosa BP anunciou (4 de Setembro) que melhorou o contrato com o governo de Bagdad para exploração do petróleo de Rumaila (sul do Iraque) até 2034 e a produção vai passar de 800 mil barris diários para 2,1 milhões diários. Há muitos interesses no Iraque e no Curdistão e alguns deles falam português.

E também teremos que dizer que Steven Sotloff (recentemente assassinado pelo “Estado Islâmico” depois de James Foley) era norte-americano mas também era cidadão israelita, tal como Daniel Pearl (assassinado em 2002 no Paquistão) que agora tem sido recordado. É que se não dissermos isso tudo não estamos a revelar contornos importantes do que se está a passar.

Por tudo isto não percebo por que é que assim repente há um assomo de puritanismo quase em simultâneo com uma atracção antiga e quase juvenil para utilizar expressões e palavras encantatórias. Não sei se essas palavras são utilizadas porque são descoberta recente ou porque ajudam a dar ares de entendido. Os textos jornalísticos – porque são esses que interessam para o caso – estão cheios dessas expressões e palavras: tudo é Jihadista… tudo é terrorista… tudo é guerra santa… tudo é radical. 

A facilidade com que estes conceitos são erradamente adoptados e utilizados indiscriminadamente leva a grandes confusões. Até por cá, tudo o que não é mainstream – do pensamento dominante – é facilmente atirado para o cesto do radicalismo. Uma medida que poderia evitar esta alucinante desinformação dos cidadãos e deformação dos raciocínios seria a existência de uma "balança" em cada redacção para que nós, jornalistas, pesássemos as palavras. Porque elas têm um significado e um peso no discurso, e não há sorriso, lábios pintados ou gravata de seda, que disfarce a ignorância ou a leviandade.

Mas a pior solução será ignorarmos o que está a acontecer no e com o “Estado Islâmico” utilizando a desculpa da violência das imagens ou resumirmos a informação dada à que nos chega dos centros de poder ocidentais. A função dos órgãos de comunicação deverá ser descodificar, explicar, debater, o que está a acontecer no Iraque e na Síria. E fazê-lo em relação à informação que chega do “Estado Islâmico” mas também em relação a toda a complexa realidade do Médio Oriente que habitualmente é tratada de “raspão” quando há atentados e muitos mortos. Fazer o contrário é negar a própria existência.

Apagar a luz da informação nunca deu bom resultado e basta lembrar como os aliados na II Guerra Mundial ignoraram o sofrimento judeu. No início da década de 40 do século passado, Jan Karski fazia parte da resistência polaca e estava em Londres com o governo no exílio. Entrou clandestinamente no gueto de Varsóvia para testemunhar a desgraça que por lá se vivia e poder contar aos Aliados o que se estava a passar: os nazis estavam a exterminar judeus. Alertou os aliados e chegou a ter um ecnontro com o Presidente Roosevelt nos Estados Unidos. Não acreditaram. Ou não quiseram saber. Não havia imagens, não havia redes sociais. Sabemos todos o que aconteceu por essa altura.
Neste nosso tempo não há desculpa para não sabermos, ainda por cima quando depende apenas de nós.

josé manuel rosendo
5 de Setembro de 2014