Mostrar mensagens com a etiqueta Iémen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Iémen. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"O Iémen não está em guerra civil. É uma agressão da Arábia Saudita"

Foto do Yemen Rights Monitor

O General Yahya Saleh foi comandante das forças de operações especiais durante mais de uma dezenas de anos. É sobrinho do antigo Presidente Ali Abdullah Saleh, que continua a lutar pelo poder no Iémen, aliado dos Houthis e controlando Sanaa, a capital do país.
Yahya Saleh saiu do Iémen e passou por Portugal onde deu esta entrevista que já passou parcialmente no Programa Visão Global, na Antena 1, dia 19 de Novembro de 2017. Aqui fica a entrevista completa.


P - General Yahya Saleh, a actual situação no Iémen é fruto da Primavera Árabe?
R - Começou com o que chamam de Primavera Árabe, mas depois de 2011 houve um acordo do Conselho de Cooperação do Golfo para entregar o poder a um novo Presidente e a um governo de coligação, e era suposto que dois anos depois houvesse eleições. Mas os Estados Unidos, o ocidente e alguns países árabes, entre eles a Arábia Saudita, descobriram que o novo Presidente estava disposto a fazer tudo o que eles quisessem e tentaram mantê-lo no poder por mais tempo.
Assim, desde essa altura, criaram problemas económicos e houve ataques terroristas em Sanaa (capital do Iémen) e em outras cidades. Muitos agentes dos serviços de informações foram alvejados. Mais de 250 agentes dos serviços de informação ou que trabalhavam para agências de serviços secretos que obtinham informação sobre a Al Qaeda foram mortos.
A situação de segurança do Iémen deteriorou-se e muitas milícias começaram a formar-se em várias regiões do país. Os Estados Unidos trabalharam com o Presidente (Abdrabbuh Mansur) Hadi para desmantelar as forças armadas, o que ajudou as diferentes milícias a ficarem mais fortes do que o exército nacional. Assim, os Houthis entraram em Sanaa a 21 de Setembro de 2014 e Hadi sentiu que estava a perder o poder e fugiu para a Arábia Saudita, a quem pediu apoio para recuperar o poder. A Arábia Saudita sentiu que era o momento de o colocar sob controlo, também porque há muito que eles queriam ter um governo iemenita que lhes fosse fiel, não interessando se era uma monarquia, uma república, socialista, nacionalista, desde que seguisse as orientações sauditas.
Quando Hadi lhes pediu - eles dizem que pediu, mas nós pensamos que o forçaram a isso, tal como forçaram Saad Hariri a resignar - bem... quando eles começaram a guerra de agressão contra o Iémen era suposto eliminar o Ansar Allah (os Houthi). Isso foi o que eles (Arábia Saudita) disseram nos media... Que a guerra era contra os Houthi...
P – Os Houthis não são xiitas?
R - Não tem nada a ver. Isto é entre o Irão e a Arábia Saudita... No Iémen não temos sunitas e xiitas, é diferente... A guerra no Iémen não tem nada a ver com xiitas e sunitas... A Arábia Saudita quer manter o controlo no Iémen não interessando quem governa o Iémen... Não tem nada a ver com sunitas e xiitas... Isso é nos media.
Quando começaram a guerra de agressão em 25 de Março de 2015 bombardearam tudo em sítios que nada tinham a ver com a guerra... pontes... fecharam o aeroporto... portos de mar ... as fronteiras...  Se for ver os relatórios das Nações Unidas sobre a situação humanitária no Iémen vai ver que há sete milhões de pessoas com carências alimentares... 17 milhões a morrerem de fome... quase duas mil pessoas morreram de cólera... 500 mil estão infectadas... muitas pessoas morrem nos ataques aéreos... milhares de pessoas morrem devido à falta de medicamentos... muitos dos meus amigos morreram em Sanaa devido à falta de medicamentos e porque não puderam sair do país para receber tratamento...
P - Voltando à Primavera Árabe, pensa que foi um movimento popular genuíno ou houve algo mais por detrás desse movimento?
R - A situação no Médio Oriente é muito complicada. Todas as pessoas no Médio Oriente querem mudanças. O problema é que alguns radicais usaram a Primavera Árabe para ganhar poder não o partilhando com outros. Os radicais islâmicos capturaram a Primavera Árabe na Tunísia, no Egipto, no Iémen e na Síria... E em vez da Primavera Árabe trazer mais democracia para o Médio Oriente, transformou-se num banho de sangue. Por exemplo, na Líbia, não há governo...
Os iemenitas tentaram evitar uma guerra civil, tentaram encontrar uma solução política para o que chamaram de Primavera Árabe, mas a Arábia Saudita não deixou que o povo iemenita encontrasse esse caminho.
P - Mas no passado o Iémen teve um presidente durante 33 ou 34 anos. Não é tempo a mais?
R - Temos que perceber esses 33 anos. Não foi eleito uma vez e depois ficou durante 33 anos. O Iémen estava separado e (Ali Abdullah Saleh) foi eleito presidente do Iémen do Norte. Antes da unificação foi eleito pelo Parlamento e nas duas ultimas eleições foi eleito directamente pelo povo. Assim, não ficou no poder tendo sido eleito apenas uma vez ou através de um golpe para ficar no poder durante 33 anos. E depois da última eleição (em 2006, para um mandato de 7 anos) era suposto deixar o poder em 2013.
P - Mas é tempo demais, mesmo com todas essas eleições... Não concorda?
R - É melhor viver num país seguro do que num país instável em que todos se atacam. Sei que é diferente na Europa, mas no Médio Oriente os europeus não podem pedir ao Iémen que seja mais democrata e ao mesmo tempo apoiarem a Arábia Saudita que é a maior ditadura no Médio Oriente. Não nos podem pedir para sermos mais democratas só porque somos pobres e somos uma república, e depois apoiarem a Arábia Saudita porque são ricos e ditadores.
P – General Yahya, por que é que fugiu do Iémen?
R - Eu não fugi...
P - Por outras palavras: por que é que saiu do Iémen?
R - Quando fui demitido do meu posto fui para o Líbano para ficar por lá porque não tinha nada no Iémen depois do que aconteceu em 2011 e 2012. Fiquei por lá porque não me quis envolver na agitação política no Iémen...
P - Não quer?
R - Nessa altura.
P - Mas porquê? Porque é um militar...
R - Não quis. Senti que já era suficiente, deixemos novas pessoas envolverem-se... tentarem...
P - Sentiu algum receio que lhe pudesse acontecer alguma coisa?
R - Quando foi formado o Governo, a Irmandade Muçulmana (al Islah) ficou com alguns ministérios, um deles era o Ministério do Interior, e nessa altura, como já lhe disse antes, muitos oficiais (dos serviços secretos) foram mortos e sentimos que havia uma ligação entre a Al Islah e a Al Qaeda. Porque nós sabíamos que havia uma ligação. Não de todos os líderes da Al Islah, mas de alguns deles. Sentimos que estávamos expostos à Al Qaeda. Sentindo que estava exposto e não tendo nada para fazer em Sanaa e no Iémen, era melhor sair. Também não me queria envolver na situação política e resolvi sair. Então, com a guerra e a agressão ao Iémen, senti que a minha obrigação era falar dessa agressão e fazer com que outras pessoas soubessem o que se passa.
P - Agora existe um problema. Não sei que tipo de guerra existe no Iémen mas é uma guerra. Não sei se é uma guerra civil ou outro tipo de guerra ... Qual é a situação actual no terreno? Quem são os protagonistas?
R - Quando diz guerra civil isso é entre iemenitas. Por que é que aviões da Arábia Saudita, Emirados e Qatar sobrevoam o Iémen? Não são aviões iemenitas. Isto significa que outros países estão a atacar o Iémen ou a ajudar iemenitas que são aliados deles. Guerra Civil não é uma expressão correcta. É uma agressão da Arabia Saudita. Guerra Civil seria deixarem-nos lutar entre nós.
P - Apenas depois de 2015 ou antes disso?
R - Não houve guerra civil antes de 2015. Começou tudo quando a Arábia Saudita inciou os ataques. Há algumas facções no Iémen que recebem apoio do Qatar, dos Emirados e outras que recebem apoio da Arábia Saudita, mas ao mesmo tempo se estes países tirarem as mãos do Iémen, os iemenitas vão encontrar uma solução. Encontraram uma solução em 2011 e vão encontrar outra solução. Habitualmente, quando outros países colocam as mãos no Iémen para resolver um problema criam um problema ainda mais complicado.
P - Mas agora como é que se pode resolver o problema? Entre iemenitas ou, por exemplo, nas Nações Unidas?
R - Nós não confiamos nas Nações Unidas porque as Nações Unidas não são uma organização livre. As Nações Unidas trabalham para as grandes potências e quando indicam um enviado, em vez de resolver o problema o mais rápido possível, prolongam-no e transformam-no num problema ainda maior. As Nações Unidas nunca resolvem qualquer problema. Desde a causa palestiniana até agora.
P - Quem pode resolver o problema?
R - Os iemenitas. O mais importante é que a Arábia saudita tire as mãos do Iémen.
P - Quem pode fazer para que isso aconteça?
R - Ninguém. A menos que haja muita pressão de...
P - Das Nações Unidas?
R - Não, não das Nações Unidas.
P - Estados Unidos?
R - Estados Unidos, Rússia, países europeus... Mas até agora não sentimos que alguém esteja a pressionar. Nem os russos...
P - Disse que não confia nas Nações Unidas... Também não confia no secretário-geral? Ou no conselho de segurança?
R - O secretário-geral é um funcionário...
P - Se António Guterres estivesse aqui sentado connosco o que é que lhe diria?
R - Ele tem relatórios das agências das Nações Unidas no Iémen. Sentem pena de nós, mas quando a Arábia Saudita ameaça cortar apoios às agências eles concordam.
P - Mas o que gostaria de lhe dizer?
R - Que siga a sua consciência e aplique a Carta das Nações Unidas. Que não siga as grandes potências e o dinheiro da Arábia Saudita.
P - A Rússia está fora da guerra no Iémen...
R - A Rússia está envolvida na Síria. Disseram que quando acabarem na Síria, olham para o Iémen...
P - Disse que apenas os iemenitas podem resolver a guerra, mas como é que o vão fazer?
R - Temos uma Constituição que resulta de um diálogo de 9 meses. Temos de formar um Governo nacional, recolher as armas de todos os grupos armados, e o governo nacional terá de ser reconhecido internacionalmente, não apenas pela Arábia Saudita. Agora temos dois governos, dois presidentes...
P - E possível sentar os dois presidentes à mesma mesa?
R - Não, não... Os iemenitas sentem que o presidente Hadi está acabado. Quando me refiro a formar um governo nacional é com os partidos políticos. Todos devem estar num novo Governo, todos os que têm vontade de resolver o problema. Em todos os partidos políticos há pessoas que tentam tornar as coisas mais fáceis e tentam resolvê-las. Em todos os partidos políticos também há extremistas e são eles que controlam as forças políticas neste momento. Quando se fala de diálogo, não se traz os extremistas para resolverem os problemas.
P - Mas eles também são iemenitas...
R - Sim, eu sei, mas se queremos dialogar tem de ser com pessoas que tentem encontrar soluções e que não tornem as coisas mais difíceis.
P - Assim o presidente Hadi não é parte da solução...
R - Todas as pessoas que nos arrastaram para esta situação não devem fazer parte deste diálogo.
P - Mas será muito difícil obter a paz sem essas pessoas...
-->
R - Em primeiro lugar Hadi não tem um partido político. Para resolver um problema é preciso ter um partido político. Hadi já não faz parte do Congresso Geral do Povo (maior partido político do Iémen) ... Não tem partido que o possa nomear para um lugar à mesa das negociações. Não tem exército porque o seu exército é o da Arábia Saudita. Não tem apoio do povo. Até na sua cidade natal ele não tem apoio. Até em Aden... não pode ir lá... Quando declarou Aden como capital o povo não o apoiou. Apenas é bem-vindo no “Palácio” da Arábia Saudita. Somos iemenitas, queremos um presidente iemenita e somos os únicos que o podemos escolher, não são os sauditas, é por isso que há guerra no Iémen. Queremos ser independentes, escolher o Presidente e manter o nosso sistema republicano e democrático.

josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 22 de Novembro de 2017

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Como vamos acompanhar a liderança de António Guterres na ONU?


O texto é longo, mas a importância do que está em causa justifica-o. 
Foi importante a diplomacia portuguesa para a eleição de António Guterres? Foi! Já foi dito e repetido e o Ministro dos Negócios Estrangeiros português fica com esse marco no currículo. Mas esta é uma conquista de António Guterres. Apesar de muito mal tratado (principalmente mal acompanhado) pela generalidade da comunicação social portuguesa durante os mais de dez anos em que foi Alto-Comissário para os Refugiados, Guterres adquiriu um capital de conhecimento e competência que fizeram dele o candidato mais capaz. Era o candidato óbvio, desde logo porque a questão dos refugiados é, e vai continuar a ser, assunto complicado por muito tempo, e neste caso Guterres sabe muito bem do que fala. Perante a profusão de escândalos que têm assolado a ONU, eleger um Secretário-Geral que apenas representasse um conjunto de interesses mas que não tivesse nenhuma ligação à realidade, nem aptidões evidentes para a função, seria mau de mais para uma organização que precisa urgentemente de "lavar a cara" e de dar sinal de que serve para muito mais do que tem servido até agora.

Dito isto, o discurso de Guterres perante a Assembleia Geral, depois de feito o juramento, foi quase brilhante. Tocou as questões essenciais e apontou caminhos. Talvez até, pela clarividência expressa, tenha colocado a fasquia demasiado alta. Guterres não vai conseguir fazer tudo o que disse ser necessário fazer e resta esperar para ver o que consegue.

E uma das questões que António Guterres abordou, subtilmente, foi a da recuperação do multilateralismo. É urgente recuperar o diálogo entre os Estados, prevenir conflitos e encontrar soluções para os já existentes, porque só esse diálogo multilateral poderá obter uma paz sustentável nas várias frentes. Até agora, na Europa e no Mundo, temos assistido a diálogos a dois e a três (poderosos) com os outros a assistir. Na União Europeia a Alemanha fala com a França e os outros assistem; por causa da Síria John Kerry fala ao telefone com Serguei Lavrov e os outros assistem. Isto é exactamente o contrário do que deve ser e é por isso, muito por isso, que as soluções encontradas raramente resolvem os problemas. É evidente que as grandes potências terão sempre uma palavra a dizer, mas esta é uma das questões mais importantes e a outra será a reforma da própria ONU. Outros a tentaram e não conseguiram. A relação de forças instalada resulta de uma guerra e, infelizmente, a alteração de forças no Sistema Internacional surge invariavelmente na sequência de conflitos bélicos. Se Guterres conseguir essa reforma (em particular a da constituição do Conselho de Segurança e o regime de veto) e se conseguir recuperar o multilateralismo, já será merecedor de um lugar no olimpo.

Mas António Guterres teve também a coragem de falar da Síria, do Iémen e Sudão do Sul (duas guerras esquecidas) e do conflito israelo-palestiniano, uma situação que se agrava a cada dia que passa mas que tem sido ofuscada pela urgência de atender a situações mais graves.

E deixou um recado para dentro: a ONU deve preparar-se para mudar. Guterres apontou para uma reforma global da estratégia e das operações da ONU, que dê mais agilidade e eficácia à acção no terreno. Agora começam as pressões como logo sublinhou, em Bruxelas, o Ministro Augusto Santos Silva.

Mas para além das dificuldades que António Guterres vai encontrar e das pressões que vai sofrer, há uma particular atenção, nossa, pelo facto de ser português. Será bom que a eleição de Guterres não sirva apenas para uns momentos de nacionalismo bacoco em que levantamos a bandeira e nos consideramos os melhores do mundo para logo a seguir passarmos a ignorar o feito conseguido. A chegada de António Guterres à liderança das Nações Unidas é igualmente uma oportunidade para algum jornalismo português. Talvez agora se possa rever o tal critério da "proximidade" sempre tão útil quando se pretende ignorar alguns assuntos em detrimento de outros que, supostamente, "interessam mais às pessoas". Guterres na liderança da ONU pode ajudar-nos a ultrapassar os tiques de jornalismo provinciano e de paróquia. Não se deve falar do mundo que nos rodeia apenas para que nos julguem viajados ou eruditos, ou até profundos conhecedores de realidades distantes; o que não se pode fazer é ignorar o mundo como se vivêssemos numa redoma que nos impede de sermos afectados por esse mundo à nossa volta. E o que mais espanta é estarmos sempre a repetir essa frase gasta de termos sido o povo que deu novos mundos ao mundo.

António Guterres na liderança da ONU pode ser a oportunidade para os portugueses saberem como funciona o Conselho de Segurança, onde fica o Sudão do Sul, qual é o problema das águas do mar do Sul da China reivindicadas pela China, qual é o problema em Caxemira, em que ponto está o conflito entre israelitas e palestinianos, quais são os países que acolhem mais refugiados (não, não são os países europeus...), o que é o Acordo do Clima, entre muitos outros assuntos. António Guterres pode devolver-nos o interesse pelo Mundo, assim os órgãos de informação queiram.

Confesso que esta minha esperança não é muito forte. Fico à espera para ver e estou curioso também quanto à cobertura que os órgãos de informação portugueses vão fazer, a partir de agora, da actividade das Nações Unidas e, em particular, da liderança de António Guterres.


Pinhal Novo, 13 de Dezembro de 2006

josé manuel rosendo