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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Como vamos acompanhar a liderança de António Guterres na ONU?


O texto é longo, mas a importância do que está em causa justifica-o. 
Foi importante a diplomacia portuguesa para a eleição de António Guterres? Foi! Já foi dito e repetido e o Ministro dos Negócios Estrangeiros português fica com esse marco no currículo. Mas esta é uma conquista de António Guterres. Apesar de muito mal tratado (principalmente mal acompanhado) pela generalidade da comunicação social portuguesa durante os mais de dez anos em que foi Alto-Comissário para os Refugiados, Guterres adquiriu um capital de conhecimento e competência que fizeram dele o candidato mais capaz. Era o candidato óbvio, desde logo porque a questão dos refugiados é, e vai continuar a ser, assunto complicado por muito tempo, e neste caso Guterres sabe muito bem do que fala. Perante a profusão de escândalos que têm assolado a ONU, eleger um Secretário-Geral que apenas representasse um conjunto de interesses mas que não tivesse nenhuma ligação à realidade, nem aptidões evidentes para a função, seria mau de mais para uma organização que precisa urgentemente de "lavar a cara" e de dar sinal de que serve para muito mais do que tem servido até agora.

Dito isto, o discurso de Guterres perante a Assembleia Geral, depois de feito o juramento, foi quase brilhante. Tocou as questões essenciais e apontou caminhos. Talvez até, pela clarividência expressa, tenha colocado a fasquia demasiado alta. Guterres não vai conseguir fazer tudo o que disse ser necessário fazer e resta esperar para ver o que consegue.

E uma das questões que António Guterres abordou, subtilmente, foi a da recuperação do multilateralismo. É urgente recuperar o diálogo entre os Estados, prevenir conflitos e encontrar soluções para os já existentes, porque só esse diálogo multilateral poderá obter uma paz sustentável nas várias frentes. Até agora, na Europa e no Mundo, temos assistido a diálogos a dois e a três (poderosos) com os outros a assistir. Na União Europeia a Alemanha fala com a França e os outros assistem; por causa da Síria John Kerry fala ao telefone com Serguei Lavrov e os outros assistem. Isto é exactamente o contrário do que deve ser e é por isso, muito por isso, que as soluções encontradas raramente resolvem os problemas. É evidente que as grandes potências terão sempre uma palavra a dizer, mas esta é uma das questões mais importantes e a outra será a reforma da própria ONU. Outros a tentaram e não conseguiram. A relação de forças instalada resulta de uma guerra e, infelizmente, a alteração de forças no Sistema Internacional surge invariavelmente na sequência de conflitos bélicos. Se Guterres conseguir essa reforma (em particular a da constituição do Conselho de Segurança e o regime de veto) e se conseguir recuperar o multilateralismo, já será merecedor de um lugar no olimpo.

Mas António Guterres teve também a coragem de falar da Síria, do Iémen e Sudão do Sul (duas guerras esquecidas) e do conflito israelo-palestiniano, uma situação que se agrava a cada dia que passa mas que tem sido ofuscada pela urgência de atender a situações mais graves.

E deixou um recado para dentro: a ONU deve preparar-se para mudar. Guterres apontou para uma reforma global da estratégia e das operações da ONU, que dê mais agilidade e eficácia à acção no terreno. Agora começam as pressões como logo sublinhou, em Bruxelas, o Ministro Augusto Santos Silva.

Mas para além das dificuldades que António Guterres vai encontrar e das pressões que vai sofrer, há uma particular atenção, nossa, pelo facto de ser português. Será bom que a eleição de Guterres não sirva apenas para uns momentos de nacionalismo bacoco em que levantamos a bandeira e nos consideramos os melhores do mundo para logo a seguir passarmos a ignorar o feito conseguido. A chegada de António Guterres à liderança das Nações Unidas é igualmente uma oportunidade para algum jornalismo português. Talvez agora se possa rever o tal critério da "proximidade" sempre tão útil quando se pretende ignorar alguns assuntos em detrimento de outros que, supostamente, "interessam mais às pessoas". Guterres na liderança da ONU pode ajudar-nos a ultrapassar os tiques de jornalismo provinciano e de paróquia. Não se deve falar do mundo que nos rodeia apenas para que nos julguem viajados ou eruditos, ou até profundos conhecedores de realidades distantes; o que não se pode fazer é ignorar o mundo como se vivêssemos numa redoma que nos impede de sermos afectados por esse mundo à nossa volta. E o que mais espanta é estarmos sempre a repetir essa frase gasta de termos sido o povo que deu novos mundos ao mundo.

António Guterres na liderança da ONU pode ser a oportunidade para os portugueses saberem como funciona o Conselho de Segurança, onde fica o Sudão do Sul, qual é o problema das águas do mar do Sul da China reivindicadas pela China, qual é o problema em Caxemira, em que ponto está o conflito entre israelitas e palestinianos, quais são os países que acolhem mais refugiados (não, não são os países europeus...), o que é o Acordo do Clima, entre muitos outros assuntos. António Guterres pode devolver-nos o interesse pelo Mundo, assim os órgãos de informação queiram.

Confesso que esta minha esperança não é muito forte. Fico à espera para ver e estou curioso também quanto à cobertura que os órgãos de informação portugueses vão fazer, a partir de agora, da actividade das Nações Unidas e, em particular, da liderança de António Guterres.


Pinhal Novo, 13 de Dezembro de 2006

josé manuel rosendo

terça-feira, 31 de maio de 2016

"Nunca saberemos quantos morreram"


A foto foi publicada no Middle East Eye e frase completa (que serviu para título) é esta: “nunca saberemos o número exacto [dos que morreram agora no Mediterrâneo], nunca conheceremos a sua identidade, mas os sobreviventes dizem que morreram mais de 500 pessoas”. A frase é de Carlotta Sami (uma porta-voz do ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e foi escrita no Twitter.

Esta frase deveria fazer-nos pensar. Mais uma vez.

A Primavera anunciava-se. É a estação das ofensivas militares e, dizia-se à boca cheia, iria ser o momento de uma nova vaga de refugiados em direcção à Europa. Mas a Europa, fechado o acordo com a Turquia - um acordo criticado por um elevado número de organizações não-governamentais e até pelo ACNUR - descansou. Mesmo não tendo qualquer garantia de que o acordo com a Turquia seja cumprido (face às exigências turcas a qualquer momento o acordo pode fracassar), a Europa descansou. O acordo entrou em vigor a 20 de Março.

Mesmo com este acordo, a Organização Internacional para as Migrações revela que em Abril chegaram à Grécia 3.360 refugiados, contra 26.971 chegados em Março. A Frontex (Agência Europeia de Fronteiras) refere que a chegada de refugiados à Grécia caiu 90%. Mas é uma ilusão. 

Cortada a rota do Mar Egeu entre a Turquia e as Ilhas gregas, uma outra rota ganha uma nova dinâmica. Da costa da Líbia, os barcos fazem-se ao Mar com a Europa no horizonte. Sem meias-palavras, outro porta-voz do ACNUR, William Spindler, admite que possam ter morrido 700 pessoas durante a última semana. Ainda um outro porta-voz do ACNUR, Federico Mossi, admite que a situação é caótica. 

Parece que vai ser preciso outra criança, outro Aylan, fotografado morto numa praia, para que os bem instalados de Bruxelas voltem a levantar-se para fazer alguma coisa e para que as primeiras páginas dos jornais regressem ao drama. Já anda por aí a fotografia de um bebé, morto, nos braços do homem que o resgatou após um naufrágio. Foi divulgada por uma ONG alemã ("Sea-Watch"). Depois, a emoção voltará a esfumar-se.

Se não fosse trágico, o ritmo de "recolocação" de refugiados na União Europeia, seria para rir. Passado o alvoroço das imagens de refugiados a chegarem e a caminharem Europa dentro, a Europa voltou a entreter-se com os défices, os orçamentos, e as eventuais sanções. Enquanto a União Europeia vive enleada em reuniões do Ecofin, do Eurogrupo, do Conselho e da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu, a questão dos refugiados promete voltar a fazer manchetes.
Para algumas consciências é melhor assim. Para os espíritos mais inquietos é um pesadelo. Cada um saberá a qual destes grupos prefere pertencer.

Pinhal Novo, 30 de Maio de 2016
josé manuel rosendo

sábado, 19 de março de 2016

As últimas 24 horas dos refugiados para chegarem à Europa


A União Europeia fechou a fronteira. A partir de Domingo, os refugiados que cheguem às ilhas gregas serão reenviados para a Turquia. Não é literalmente assim, mas com o que é possível saber do acordo entre a União Europeia e a Turquia, o resultado prático é esse. Aliás, basta ver as cautelas com que os próprios líderes europeus abordaram a questão após a assinatura do acordo. António Costa, Primeiro-ministro português, foi muito claro: “não deve ser visto com a ilusão de que o problema está resolvido”. Em conferência de imprensa, o Primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu disse que é “um dia histórico”, mas ali ao lado o Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, pôs o pé no travão: “não sei se é um dia histórico… é um dia importante”.

O texto final da cimeira em que o acordo foi obtido também é muito claro: a partir da meia-noite de domingo “todos os novos migrantes irregulares que se deslocarem da Turquia para as ilhas gregas serão reenviados” para a Turquia. Restam 24 horas. Todos os refugiados que não quiserem ser abrangidos por este acordo terão de chegar a terra europeia antes da meia-noite de domingo.

A União Europeia tenta sublinhar que com este acordo o negócio dos passadores de refugiados vai sofrer um duro golpe. Na prática o que ele representa é que a Turquia passa a ser um Estado tampão que recebe em troca muito dinheiro e facilidades no processo de adesão à União Europeia. Mas a Turquia é um país em que os direitos humanos são palavra morta e em que a liberdade de imprensa nas ruas da amargura. Outro aspecto que a União sublinha neste acordo é que os processos de pedido de asilo vão ser apreciados individualmente, como a lei obriga, e não poderá ser efectuada a expulsão de grupos de refugiados.

Após serem conhecidas as linhas mestras do acordo União Europeia/Turquia, muitas ONG’s imediatamente se insurgiram. Ao dia histórico referido pelo Primeiro-ministro turco, a Amnistia Internacional contrapôs um “dia negro” para a convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, para a Europa e para a Humanidade. Agência das Nações Unidas para os Refugiados, UNICEF, OXFAM, Save the Children, teceram duras críticas e lançaram vários alertas, nomeadamente para a possibilidade da Grécia ficar transformada num país com centenas de milhares de pessoas a viverem em campos de refugiados.

Mais uma vez a União Europeia deu uma resposta errada. São erros consecutivos. Aliás, basta ver como estão a ser cumpridos os anteriores acordos e o ritmo de chegada dos refugiados aos vários países que aceitaram acolhê-los. Esta União Europeia pensa que tudo resolve atirando dinheiro para cima dos problemas e empurrando com a barriga as questões que não se resolvem com a passagem de um cheque. 

A Europa sempre chantageada e sempre a deixar-se chantagear. Foi assim com Kadahfi quando ameaçou deixar passar os africanos que fugiam da miséria e queriam chegar á Europa; outra recente chantagem foi a do Presidente do Egipto, Abdel Fatah al Sissi que alertou para a consequência de ser afastado do poder e o caos que alegadamente se seguiria (“Somos 90 milhões e a Europa irá sofrer consequências”); agora é a Turquia. Jorram milhões de euros dos cofres europeus para regimes opressivos. E a Europa não aprende.

Pinhal Novo 18 de Março de 2016
josé manuel rosendo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Alô Bruxelas… há uma guerra na Síria!

                            O dia-a-dia na Síria é mais ou menos assim. Salma, Agosto de 2012.


Diz a Rádio Renascença, que o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes, que esteve durante quatro dias numa visita à Turquia a ver como são acolhidos os refugiados, sofreu um choque de realidade. Li até ao fim. E voltei a ler. O quê? Como? Um choque de realidade? Tem andado distraído? Ainda não tinha dado pelas consequências de uma guerra que dura há quase cinco anos? As notícias e as imagens não chegam a Bruxelas e a Estrasburgo? Quando alguns líderes mundiais já não se coíbem de admitir a possibilidade de uma guerra mundial, há um senhor eurodeputado que ainda não tinha dado por isso? Não tinha noção de qual é a realidade na Síria e nos países à volta? E fico-me por aqui… porque tinha vontade de fazer perguntas mais desabridas.

O eurodeputado português sofreu um choque de realidade e ainda assim ficou na Turquia, a 80 quilómetros da fronteira com a Síria. Já se imagina o que diria José Manuel Fernandes se tivesse atravessado a linha que divide os dois países. Apesar de tudo valha-nos a sinceridade: “A urgência que eu constatei e que não tinha interiorizado são aqueles milhões que ainda estão do lado da Síria, a viver em situações de penúria e em muito maior dificuldade do que aqueles que estão do lado da Turquia, e esses não me saíram do pensamento”. Não tinha interiorizado? Nem com um português (Guterres) durante anos a liderar a agência da ONU para os refugiados e a chamar constantemente a atenção para o drama? Nem assim?

Sei, por experiência própria, que sentir a guerra ao vivo é muito diferente de ver a guerra através da televisão e até admito que José Manuel Fernandes tenha ficado espantado ao constatar a dureza das imagens nos campos de refugiados. Admito também que apenas tenha querido abrir o coração e transmitir a necessidade de alguém fazer alguma coisa para acabar com aquele inferno. Nem sequer estão em causa os méritos do eurodeputado português e José Manuel Fernandes até está nomeado para os ‘MEP Awards’ (prémio que distingue os melhores deputados do Parlamento Europeu), sendo um dos três seleccionados para a categoria de “Assuntos Económicos e Monetários”. Mas a surpresa revelada por este eurodeputado perante a tragédia dos sírios, espelha bem aquilo em que está transformada a União Europeia: um negócio, desligado da realidade, que passa a vida absorvido por taxas de juro, bolsas, défices e orçamentos, com debates e discussões em salões dourados. O resto?, logo se vê. Quanto muito passa-se um cheque chorudo para acalmar consciências e ter oportunidade para umas fotografias e um discurso com aparência de preocupação social. Mas isso não chega. Um eurodeputado, por força das funções que desempenha, não pode ir à Turquia e dizer que ficou chocado: tem a obrigação de conhecer aquele que é o maior drama da história recente! Mesmo que passe a vida absorvido por dossiês técnicos.

Esta surpresa do eurodeputado confrontado com a realidade diante dos olhos leva a outra questão: há pouquíssima informação sobre o que está a acontecer na Síria. A situação é terrivelmente difícil e são poucos os jornalistas que conseguem estar no terreno. Assim, talvez o senhor eurodeputado possa apresentar uma proposta no conforto do Parlamento Europeu para ajudar outros eurodeputados a não passarem pela vergonha de admitir que não conhecem a dimensão da tragédia. Talvez uma proposta para o Parlamento Europeu, de alguma forma, apoiar os órgãos de comunicação social que não têm dinheiro para enviar jornalistas para o terreno onde a tragédia (esta e outras) ocorre. Talvez com mais notícias, com mais imagens que atormentem as consciências, o senhor eurodeputado nunca mais possa dizer que não sabia. 

O senhor eurodeputado sabe que o Parlamento Europeu convida muitos jornalistas, sabe que as grandes empresas e as feiras internacionais convidam jornalistas, sabe tudo isso, e também deve saber que os refugiados e os que sofrem numa guerra não convidam jornalistas. Cada vez mais, onde há dinheiro há jornalistas. Por isso quase não há informação sobre o que se passa na Síria e arredores, ou no Iraque, ou na Ucrânia, ou na Líbia. O negócio, neste momento, é outro. É assim que estamos, de pernas-para-o-ar.

Pinhal Novo, 12 de Fevereiro de 2016
josé manuel rosendo

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Refugiados na Europa? É a globalização, estúpido!


As coisas estavam a correr de forma quase perfeita. Circulavam os capitais e os bens, mas as pessoas estavam quietinhas, ou pelo menos pouco se movimentavam… os lucros acumulavam-se e era importante manter o ritmo.

Em tempos de absoluto desprezo pelas pessoas e de endeusamento do dinheiro e dos pseudo gurus da Economia, os ditos-cujos sempre defenderam a absoluta normalidade da deslocalização (adoro a novilíngua…) de empresas, em regra para países de mão-de-obra barata que permitia aumentar os lucros (diziam que era em nome da competitividade, da viabilidade das empresas, essas coisas…); os mesmos ditos-cujos acham normal a livre circulação de capitais e que seja possível comprar acções na bolsa de Pequim ou Tóquio durante a manhã, fazer o mesmo à hora de almoço em Paris ou Londres, e terminar o dia em negociata na bolsa de Nova Iorque; os mesmos ditos cujos acham normal os off-shores que não passam de uma forma de fuga ao fisco que sonega dinheiro aos orçamentos dos Estados; os mesmos ditos cujos defenderam, em nome dos negócios (entenda-se dinheiro que fabrica dinheiro sem produzir qualquer riqueza), que a comercialização de bens deve ser o mais alargada possível e desregulada ao máximo, e que as fronteiras a essa circulação devem ser derrubadas; os mesmos ditos-cujos sempre disseram que que a globalização é algo imparável, incontornável, inevitável, disseram até que não adianta tentar controlar o que é incontrolável e que mais tarde ou mais cedo vai acontecer. 

Defenderam tudo isto enquanto a máquina registadora facturava, mesmo que todas estas opções e desregulação provocassem, simultaneamente, vagas de desemprego e empobrecimento nos países em que a mão-de-obra é mais dispendiosa. Diziam que era um sinal dos tempos e que nada havia a fazer. Ou talvez houvesse, como por exemplo desvalorizar o trabalho nos países em que era mais dispendioso. Olhavam com desprezo para quem os contrariava e largavam a estafada fórmula: é a Economia, estúpidos!

Para estes tempos de endeusamento do dinheiro e de desprezo pelas pessoas, um mundo em que as empresas pudessem mudar de país e em que as pessoas não pudessem fazer o mesmo, seria, era, o mundo ideal. 

Mas eis que as voltas da guerra, com que alguns muito lucram, trocam as voltas a este cenário perfeito. De repente, milhares de pessoas sem alternativa metem pés ao caminho e decidem procurar um local seguro onde não sintam a ameaça de um bombardeamento, de um tiroteio ou a perseguição de fanáticos loucos com sede de sangue. Procuram um porto seguro e querem, porque a isso têm tanto direito como aqueles que vivem na Europa, um trabalho, uma casa, uma vida normal. Apenas isso: uma vida normal. E eis que, aqueles que se referiam à globalização como algo de incontrolável e inevitável se apressam a tomar medidas: levantam muros, criam campos de acolhimento, convocam militares e polícia, encerram espaço aéreo (fronteira Hungria/Sérvia), alvitram a possibilidade da entrada de terroristas e da invasão muçulmana… traçam cenários negros… os mais conservadores recusam quotas de acolhimento. Todos estão atarantados com algo que não esperavam e não desejavam. Uma chatice: estava tudo a correr tão bem.

Se as empresas podem deslocalizar-se com o argumento de irem em busca de mercados de mão-de-obra mais barata, por que razão as pessoas que fogem da guerra não poderão deslocalizar-se em busca de locais seguros e de empregos que lhes assegurem uma vida normal? Sendo certo que a movimentação de pessoas não pode ser um processo desregulado e anárquico, esta sim é a verdadeira globalização: a das pessoas! Porque o mundo é de todos. A globalização é desejável, enquanto enriquecimento colectivo através do que cada um de nós pode dar e aprender com o outro.

Pinhal Novo, 15 de Setembro de 2015

josé manuel rosendo

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Europa errada está a sofrer o efeito boomerang


Sem saber o que fazer, a União Europeia está em crise profunda. É assim desde há muito tempo, mas conseguia disfarçar. E não é por falta de avisos e sinais que se deixa chegar a este ponto. Há muitos meses que os refugiados estão a chegar à Europa; há anos que os europeus andam a fazer asneira no local de origem da maioria dos refugiados que chegam às fronteiras europeias; há anos que a União Europeia não tem uma política externa comum; há anos que, sobretudo os países do Sul da Europa deixaram-se enredar em interesses de outros Estados europeus para os quais a vizinhança do Mediterrâneo é algo distante e fora da agenda. Por fim, uma coisa chamada Frontex (Agência europeia de gestão das fronteiras externas da União Europeia) mostrou toda a sua falência. Estamos a pagar a factura. O efeito boomerang nunca falha.

A resposta a esta crise mostra que esta tem sido a União Europeia errada e toda a gente tem encolhido os ombros, principalmente líderes políticos deslumbrados com as luzes da ribalta política, com a possibilidade de passear na Grand Place de Bruxelas e com um lugar à mesa nas grandes cimeiras, transformadas em passadeiras da vaidade, de onde não saem políticas nem ideias consistentes que façam deste continente esse lugar de paz, de verdadeira solidariedade, de desenvolvimento e de farol dos Direitos Humanos. Tem sido o vazio, onde a especulação financeira é o grande deus. Apenas isso.

Curiosamente, são pessoas, sim, pessoas, pessoas com problemas, que destapam o caldeirão dos desentendimentos e põem a nu a verdadeira natureza dos líderes europeus e a inconsistência das políticas europeias. É habitual vermos os líderes europeus enxofrados – muitas vezes apenas fazem de enxofrados para as respectivas opiniões públicas – com questões económicas e financeiras, mas desta vez estão em desacordo por causa de pessoas. O que os líderes europeus já deviam estar a fazer nesta altura era estar em campo com um discurso pedagógico para que nos vários países a opinião pública percebesse que todos temos o dever de auxiliar.

Torna-se óbvio que esta Europa não sabe lidar com problemas das pessoas. Estes líderes apenas estão habituados a relatórios e power points que tratam de problemas financeiros e económicos, sempre assessorados por grandes gabinetes da consultadoria e ouvindo sempre os impérios da banca. Os problemas reais das pessoas são algo de estranho para eles, mas desta vez têm pessoas a bater à porta e nenhum deles arrisca apontar o caminho de regresso ao mar a todos aqueles que já entraram na Europa.

É triste ouvir o líder do PS dizer que os refugiados podem vir limpar florestas “porque está habituada a trabalho agrícola”. António Costa está mal-informado: grande parte dos refugiados que estão a chegar à Europa vindos da Síria e do Iraque são classe média, muitos com formação universitária e não estão nada habituados a trabalhar na agricultura. É triste ouvir o Governo português mostrar abertura a acolher mais refugiados, mas como sempre, apenas depois de a Alemanha dizer o mesmo. Ainda é mais triste ouvir o Primeiro-Ministro húngaro dizer que os refugiados põem em risco a cristandade na Europa e ao mesmo tempo admitir que, depois de construir um muro na fronteira com a Sérvia, pode agora construir um muro na fronteira com a Croácia. Continua a ser triste e preocupante saber que a Hungria e a Bulgária perguntaram a Israel como se constroem os muros nas fronteiras (a agência Reuters deu a notícia), algo em que Israel tem muita prática. A Hungria esqueceu rapidamente o Muro de Berlim e a cortina de ferro.

É difícil saber qual é a resposta adequada a esta chegada de milhares de refugiados? É verdade! Mas para já a questão é humanitária. É preciso ajudar quem apenas procura sobreviver. Ter uma visão utilitarista, tentando antever o que a Europa pode ganhar com a chegada destes refugiados é algo de cínico, mesmo que sirva de argumento para ajudar a convencer a opinião pública europeia. Um refugiado deve ser ajudado porque está em fuga e fragilizado. Apenas isso. É o dever de auxílio a quem está nestas condições.

Neste momento há uma tentação de agradecer a sírios, afegãos, iraquianos, líbios, somalis, e tantos outros, por nos terem ajudado a perceber a União Europeia que temos. Pura e simplesmente não existe, a não ser para a grande negociata e bela vida em Bruxelas e arredores. Não é possível dizer quando nem como, mas esta União Europeia vai ruir qual castelo de cartas. Pelo menos aproxima-se a passos largos do abismo.

Pinhal Novo, 4 de Setembro de 2015

josé manuel rosendo

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Memórias de Gevgelija – arame farpado, lágrimas e sorrisos


A fronteira – Gevgelija – entre a Grécia e República da Macedónia é, por paradoxal que possa parecer, um local de lágrimas e sofrimento, de sorrisos e alegria. Sente-se a dor de quem chega vindo da Grécia, após longas jornadas desde a Síria, Iraque ou Afeganistão, transportando no corpo as sequelas de longas caminhadas, noites mal dormidas e da incerteza do dia seguinte, ou do minuto seguinte, não sabendo se a fronteira vai ser a porta da esperança ou o muro inultrapassável; alegria porque os sorrisos e os “thank you” nos mais diversos sotaques são o sinal de que foi cumprida mais uma etapa. Os corpos chegam cansados e sujos, os pés arrastam-se. As pequenas mochilas e sacos são um peso tremendo numa viagem assim. Na alma vem outro tipo de dor: a família que se deixou para trás, a terra de onde fugiram porque a guerra não os deixou ficar, os amigos que morreram pelo caminho. Depois de uma viagem sabe-se lá em que condições, através de um Mediterrâneo que já é cemitério de muitas centenas e às mãos de gente sem escrúpulos que cobra fortunas por esta passagem para a Europa, há ainda essa enorme incerteza sobre o acolhimento: vão ser bem recebidos ou vão ser escorraçados? Vão demorar a saber.

Os refugiados que atravessam a fronteira Grécia/República da Macedónia são agrupados ainda na Grécia, depois, sempre em grupos de 100/150 pessoas, atravessam uma “terra de ninguém” até à fronteira da República da Macedónia. Aí chegados é o arame farpado e os militares que coordenam o avanço dos vários grupos que nunca param de chegar. Quando passam a fronteira são encaminhados para um campo de acolhimento onde é feito um registo e recebem um escasso apoio das ONG’s, Nações Unidas e Cruz Vermelha. Alguns entram directamente do campo de acolhimento para uma gare ferroviária improvisada. O comboio, sem paragens há-de percorrer cerca de 200 quilómetros até à fronteira com a Sérvia. Outros andam mais umas centenas de metros até aos autocarros estacionados à entrada da cidade e seguem o mesmo destino. Também há taxistas em busca de negócio. Depois das autoridades terem assumido o controlo da situação, os refugiados nem chegam a contactar com a população de Gevgelija. A Estação ferroviária deixou de ser o caos das últimas semanas.

O nosso lado humano regista, inevitavelmente – e eu não quero deixar de ser assim – o olhar das crianças; a expressão sofrida das mães que amamentam à sombra de um toldo que não consegue iludir o calor sufocante; a atitude brusca de pais, dominados pela ansiedade, que arrastam a criança que chora e faz birra no momento do grupo avançar; os bebés que tomam um banho, se calhar o único em muitos dias, com a água das garrafas fornecidas pela UNICEF; o grupo de homens desorientado com a viagem que não sabe a direcção de Meca para orientar a posição da oração; pessoas que, mesmo com fome, preferem comer pão com nada e não comem o paté fornecido pelas Nações Unidas porque não sabem se tem carne de porco e a legenda da embalagem é indecifrável; pessoas que não entendem a língua do país onde estão e são alvo da brutalidade verbal de polícias e militares; homens que carregam mulheres às costas para que não fiquem para trás; pessoas de muletas e braços engessados que travam uma enorme luta com o cansaço para não perderem mais uma etapa da longa viagem; casais com quatro e cinco crianças – duas ou três ao colo e às cavalitas, as outras pela mão; pessoas que desesperam porque de um momento para o outro ficam separadas da família quando ficam num grupo que avança e a família fica noutro que aguarda; mulheres grávidas que são assistidas pela Cruz Vermelha; pessoas doentes que mal conseguem mexer as pernas e que acabam, também elas, levadas pela Cruz Vermelha; grupos de pessoas solidárias que, simultâneamente, lutam por um lugar no grupo que se prepara para avançar; pessoas que não sabem responder à pergunta “para onde quer ir?”.

Nestas reportagens fica sempre aquele sabor estranho ao sentirmos que, terminado o trabalho no terreno, voltamos ao nosso conforto caseiro, enquanto estas pessoas continuam a enfrentar os mesmos dramas e problemas. Gostava de saber que destino seguiu Barzan, o sírio curdo de Kobani que ficou momentâneamente separado da família e dos amigos na zona de fronteira e que me pediu ajuda na tentativa de reencontro (que acabou por acontecer sem nenhum mérito meu); gostava de saber o que aconteceu a Mohammad, um sírio que vinha de uma zona onde já estive – Montanha de Jabal al Akrad, junto a Aleppo – e que ao saber disso falou comigo até eu querer; gostava de saber o que aconteceu a Salim e Yusman, dois paquistaneses que já estavam há muitos meses na Grécia e que confessaram estar a aproveitar a vaga de refugiados para chegar a outro país europeu; gostava de saber o que vai ser do iraquiano xiita que me disse que é impossível viver em Bagdad, que o antigo Primeiro-Ministro iraquiano al Maliki “não prestava” e que o actual, al Abadi, não é melhor. 

Gostava que estas pessoas nunca mais sentissem o medo que as levou a recusar falar para uma câmara de televisão por receio de represálias contra a família que deixaram para trás ou por poderem ser prejudicadas nos países onde querem chegar. O meu receio, agora, é que a Europa as decepcione.

Pinhal Novo, 31 de Agosto de 2015

josé manuel rosendo