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quinta-feira, 1 de março de 2018

Quem é terrorista na guerra síria?



A questão de saber quem é terrorista, voltou a emperrar as mais recentes negociações para a resolução que o Conselho de Segurança aprovou, por unanimidade, para um cessar-fogo de 30 dias. As armas calam-se, mas quando se tratar de grupos ligados à Al Qaeda ou ao Estado Islâmico, o cessar-fogo não se aplica. Assim ficou definido.
Aliás, o actual momento da guerra na Síria está muito mal explicado. Se por um lado o Conselho de Segurança votou um cessar-fogo, por unanimidade dos 15 membros, ele nunca entrou de facto em vigor. E neste caso o que é mais difícil entender é que um dos membros (Rússia) que votou essa resolução, surja poucos dias depois a declarar uma “trégua humanitária” diária entre as 09h00 e as 14h00. Isto é: a Rússia troca uma resolução do Conselho de Segurança, que deveria defender, por uma trégua que ela própria declara e impõe de forma unilateral. Pensar que o Direito Internacional ainda tem algum valor substantivo é tarefa impossível.

Como também sempre acontece, neste e em outros conflitos, seja com uma trégua de algumas horas por dia ou mesmo com um cessar-fogo mais abrangente, os diferentes opositores acusam-se entre eles de violação dessa trégua. Como é evidente, todos negam as violações que lhes são atribuídas.

O que se passa em Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco tem muitas semelhanças com o que aconteceu em Aleppo. Os diferentes grupos de combatentes, pressionados pelas forças do Exército sírio e aliados, que vão ganhando terreno, vão-se acantonando nas áreas que ainda controlam. Essas áreas são cada vez mais pequenas, à medida que aperta o cerco imposto por Assad, russos e aliados pró-iranianos. Vai chegar a um momento – já lá chegámos – em que é insustentável, para combatentes e civis, continuar a viver em Ghouta, se não estiverem dispostos a morrer. Porque é isso que vai acontecer se outra solução não for encontrada.

Com esta situação, qual é a alternativa? Eventualmente permitir, tal como em Aleppo, que combatentes e os civis que assim queiram, sejam levados para outro local. Esse outro local, controlado por rebeldes, só pode ser Idlib. Mas desde já é bom notar que também em Idlib o cerco está a apertar. Basta seguir os mapas que mostram os ganhos e perdas territoriais dos diferentes protagonistas para poder concluir que, quando Idlib for o último reduto rebelde, vai ser aí que Assad e aliados vão concentrar forças para uma eventual batalha final.

Aqui chegados, sabemos exactamente quem são as forças do Governo de Bashar al Assad; sabemos que os russos têm bases militares no terreno e que há forças pró-iranianas também a combater ao lado de Assad. Um pequeno parêntesis para dizer que os norte-americanos e turcos também estão no terreno, embora não na região de Ghouta/Damasco. E depois disto tudo sabemos muito pouco: o Exército Livre da Síria tem vindo a perder expressão; há uma panóplia de grupos combatentes, uns mais poderosos que outros, mas que temos dificuldade em perceber e definir. Muitos desses grupos, que de início até teriam objectivos puramente políticos (ou pelo menos não submetidos a uma bandeira de carácter religioso) estão num momento em que trabalham sobretudo para a sua própria sobrevivência. As alianças entre eles são absolutamente imprevisíveis e mudam consoante as tais necessidades de sobrevivência.

A questão de saber quem é (ou quem deve ser) considerado terrorista, tem sido um bloqueio em todas as negociações, seja sob a égide da ONU ou em Astana, com russos, turcos e iranianos a puxarem os cordelinhos. Se a ONU sempre tende a “convidar” a esmagadora maioria dos grupos que combatem na Síria, em Astana o filtro dos convites é mais apurado. Num caso e no outro há grupos que nunca chegam a sentar-se à mesa; outros que são recusados pelos anfitriões e outros que, por imposição de alguns que se sentam à mesa, acabam por não ter voz.

Para uma melhor compreensão das forças no terreno e para ficarmos elucidados quando à sua natureza, basta conferir a informação divulgada pelos principais protagonistas. Ver quem é acusado de terrorista por Governo sírio, Exército Livre da Síria, Turquia, Irão e até Iraque, vai levar-nos a um labirinto cuja porta de saída – saber quem é terrorista – é impossível de encontrar.

Perguntar-se-á: então como é que isto se resolve? Após sete anos de guerra, é bom não esquecer que tudo começou com o pedido de libertação de um grupo de jovens estudantes que tinham feito inscrições numas paredes. O regime reagiu de forma violentíssima e a reivindicação passou a ser realização de eleições livres, crescendo depois para a exigência da queda de Assad. A partir daí a história é conhecida.

Como em todos os conflitos, a única solução é sentar à mesa das negociações TODOS os que estejam dispostos a dialogar. Depois, é necessário que todos percebam que TODOS têm de ceder alguma coisa e então sim, pode começar um processo que deixe as armas em descanso. O problema é que esse momento de necessidade de diálogo apenas acontece quando todos os protagonistas sentem que não podem ganhar a guerra. Enquanto as acusações de terrorismo estiverem nos discursos, a Síria não terá descanso. Utopia? Será, mas em todos os conflitos a paz só é possível quando, aqueles que se guerreiam, e odeiam, apertam as mãos. E falta falar de Afrin e dos curdos, mas essa é outra questão, que nunca se sabe se não poderá ter consequências piores do que aquelas que neste momento estão no topo das preocupações.

Pinhal Novo, 1 de Março de 2018
josé manuel rosendo

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Onde estão os amigos dos curdos?



A surpresa – ou talvez não – da noite de segunda-feira, chegou de Nova Iorque: o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido a pedido da França por causa da ofensiva militar turca no Curdistão sírio, terminou a reunião e ficou em silêncio. Não houve condenação da invasão turca, nem comunicado final. As únicas declarações conhecidas são as do embaixador francês: “há uma viva preocupação face à situação no norte da Síria com a escalada em curso”. Ainda acrescentou que a prioridade é a “unidade dos aliados na luta contra o Estado Islâmico” e que a situação em Afrin é apenas “um dos elementos da situação na Síria”. E por aqui se ficou.

Dos outros 14 países do Conselho de Segurança não são conhecidas quaisquer declarações e porque a reunião foi à porta fechada – não sendo possível ter a certeza – corre a notícia de que a embaixadora norte-americana Nikki Haley, não esteve presente.
A confirmar-se esta ausência, fica claro que os Estados Unidos, mais uma vez, “olharam para o lado” quando se trata de proteger aliados e quando se sabe que um dos argumentos para a actual invasão turca foi os Estados Unidos terem dito que estavam a formar as milícias curdas da Síria com o objectivo de evitar o regresso do Estado Islâmico a territórios que já ocupou. Apesar dos desmentidos norte-americanos, a Turquia encarou esta acção como sendo a base da formação de um força militar curda para vigiar e proteger a fronteira turco-síria (que é a zona curda). Os Estados Unidos lavaram as mãos, qual Pilatos, e todos aqueles que se dizem amigos dos curdos, fizeram o mesmo. Ao apelo curdo para que Washington “assuma as suas responsabilidades”, a Casa Branca fez ouvidos moucos.

Longe vão os tempos em que muitos teciam loas aos curdos por enfrentarem o Estado Islâmico. Fizeram-no no Iraque e na Síria. Depois disso, no Iraque sabemos que fizeram um referendo e votaram pela Independência; o governo de Bagdad tratou de fazer gorar essas intenções, tomando Kirkuk à força e encerrando o espaço aéreo; os interesses económicos das elites curdas iraquianas fizeram o resto – há petróleo para vender.
Na Síria, os curdos dispensaram o referendo e declararam a Autonomia administrativa em Rojava (assim designado o Curdistão Ocidental) que inclui os cantões de Jazira, Kobani e Afrin. Este último, fica separado dos outros dois que são contíguos. Entre eles fica uma zona onde a influência curda é reduzida e por onde entraram as forças militares turcas desde que intervieram directamente na guerra na Síria em Novembro de 2016. Agora o ataque é ao cantão de Afrin, o mais exposto e difícil de defender por ser um enclave.

Não surpreende o ataque turco. As ameaças vinham sendo feitas e a vontade turca de neutralizar as pretensões curdas era mais do que evidente. A Turquia vê nas milícias YPG (Unidades de Protecção Popular) a versão síria do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que desde 1984 declarou a revolta dos curdos e tem assumido um confronto militar com a Turquia. A Turquia considera as YPG um grupo terrorista.

Mais uma vez, o interesse particular dos Estados evita que os curdos recebam o apoio que fizeram por merecer. Mais uma vez vão sentir-se usados e mais uma vez vão pagar cara a “ousadia” de quererem ser donos do seu próprio destino.

Dos vizinhos próximos dos curdos já se sabia que não querem nem ouvir falar de Autonomia ou Independência, mas de outros “amigos” esperava-se mais. Uns porque também têm minorias nos seus territórios e não querem “maus exemplos”, outros porque têm outros interesses no Médio Oriente, todos deixam os curdos à sua sorte porque nunca são uma prioridade no xadrez internacional.
Ainda não há muito tempo, Tony Blair – depois de muitos anos como líder do “Quarteto para o Médio Oriente” – reconheceu que a comunidade internacional errou na atitude em relação ao Hamas depois do Movimento Islâmico ter vencido as eleições palestinianas em 2006; todos temos assistido ao desfile de personalidades que vieram dizer que a invasão do Iraque foi um erro; todos assistimos a um Conselho de Segurança cada vez mais incapaz de tomar decisões que tenham algum contorno de justiça e não apenas de submissão aos interesses dos membros com assento permanente. Acumulam-se os erros e somam-se conflitos que ganham contornos de guerras prolongadas com um alto preço de vidas humanas.

O recente ataque turco começou a 19 de Janeiro com bombardeamentos a partir da Turquia e teve seguimento no dia seguinte com as forças militares a penetrarem em território sírio.

O Presidente turco já disse que não vai recuar e, paralelamente, a Rússia convida os curdos da Síria a participarem em negociações de paz (com toda a oposição síria) em Sochi, no final de Janeiro, negociações que também têm o patrocínio turco. Ao mesmo tempo a Rússia acusa os Estados Unidos de provocarem a Turquia – por treinarem as milícias curdas – e incentivarem o separatismo curdo.
Na troca de declarações os Estados Unidos pedem “contenção” à Turquia, mas também reconhecem aos turcos “o direito legítimo de se protegerem”, sendo que já reconheceram terem sido avisados antecipadamente da ofensiva turca.
O Reino Unido não foge à regra: o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez saber que “reconhece à Turquia um interesse legítimo de assegurar a segurança das suas fronteiras”.

Até agora o único país a protestar contra a invasão turca foi a própria Síria. A Turquia diz que avisou o presidente sírio, mas Bashar al Assad nega e classificou a invasão como “uma agressão brutal”, acusando o regime turco de “apoio ao terrorismo e às organizações terroristas, quaisquer que elas sejam”. Perante tudo isto o que podem pensar os curdos da comunidade internacional?

Pinhal Novo, 23 de Janeiro de 2018


josé manuel rosendo