sábado, 13 de outubro de 2012

Lembram-se do voto útil? Ah pois é… que belo resultado!


Eleição após eleição, à medida que se aproxima o dia de decisão nas urnas, as sondagens apresentam a coisa como estando renhida. Quando não está renhida directamente entre duas forças políticas está renhida na soma das possíveis coligações para formar governo. Há “empates técnicos”, há sondagens com resultados contraditórios, há “margens de erro” que mantêm a incerteza, qual jogo de futebol empatado a dois minutos do fim e com as duas equipas lançadas ao ataque e as bolas a baterem nos postes.
Os discursos dramatizam-se, o poder diz que depois dele será o caos, a oposição mais próxima de uma eventual vitória eleitoral apela aos eleitores para que escolham a única força política que tem possibilidades de chegar ao poder e apear os malvados que lá têm estado. Tem sido sempre assim e é um discurso chantagista.
 
Não é um exclusivo de Portugal, mas os portugueses, quando estão fartos e descontentes com o Governo em funções, votam na força política que mais possibilidade tem de apear os governantes do momento. É o chamado voto útil: aquele que permite mudar (ou manter) alguma coisa no imediato. Tem sido assim sempre que há mudança de partido político no poder: vota-se contra o que está porque não nos serve; vota-se no que está porque quem ameaça o poder em vigor é ainda pior. Vota-se contra alguma coisa ou alguém e não naquilo em que de facto se acredita.
É o voto no “menos mau”, o voto para impedir a vitória do candidato “que detestamos”, o voto para que um “governo horrível” seja apeado do poder ou o voto para que um determinado partido político da oposição não chegue ao poder.
 
Nunca se saberá ao certo que resultado teria uma eleição se todos os eleitores votassem apenas num programa político anónimo, ou seja, sem saberem qual a sua origem partidária e quais os políticos a ele associados. É evidente que a política depende muito dos homens que põem em prática os respectivos programas partidários (porque há políticos sérios para quem o serviço público faz todo o sentido), mas ainda assim seria um exercício interessante embora provavelmente impossível. 
 
Os analistas do “centrão” têm contribuído para este estatuto decisivo do voto útil: dizem habitualmente que quem não vota útil (num dos partidos com possibilidade de vencer ou num outro do chamado “arco do poder”) está a fazer um voto de protesto. Isto descodificado vai dar, mais ou menos, num outro aspecto interessante: quem não vota centrão – entenda-se “partidos do arco do poder” – é “radical”. E pronto, aqui chegados, sempre com o centrão no poder e sempre com o benefício desse chamado voto útil, eu gostava de ouvir uma explicação para o estado a que o país chegou e qual foi, de facto, a utilidade do voto. E não me admirava que alguma mirabolante teoria atribuísse culpas aos “radicais” e aos que habitualmente fazem o tal “voto de protesto”.
 
Por mim, voto útil é o voto que corresponde às minhas opções políticas, ao meu modelo de sociedade, ao futuro que quero para os meus filhos. O meu voto quando cai na urna não leva ódio nem raiva a ninguém, leva esperança num futuro digno e num país em que a justiça seja de facto Justiça e em que o chamado Estado de Direito não seja uma mera grelha de leis arquitectadas nos gabinetes para dar cobertura a máfias de engravatados bem falantes e sem escrúpulos. Não voto depois de fazer contas à pressa na perspectiva de uma promoção, um aumento salarial ou uma redução de impostos. Da utilidade do meu voto sei eu e nessa não me apanham.
 
Obrigado
José Manuel Rosendo
Pinhal Novo, 13 de Outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Equação impossível.

Definição aceitável: Equações são letras e números que contam histórias. Essas letras e esses números representam pessoas, acontecimentos, locais e os sinais (de menos, mais, etc.) representam as acções ou circunstâncias que rodeiam os intervenientes na equação. Numa equação, as premissas são os pressupostos (os dados) que, conjugados, conduzem a um resultado.
Ponto prévio: não venham com a conversa de que as ideologias morreram. Elas estão aí! Renovadas, actualizadas, maquilhadas, o que se queira, mas estão aí, e num momento de crise que é também uma encruzilhada, o pior perigo é o de se pretender fazer crer que as opções políticas não têm uma base ideológica. Têm!
 
Outro perigo: os políticos são todos iguais. Não são. Pelo menos num ponto eles são substancialmente diferentes: uns estiveram (ou estão) no poder e outros nunca por lá passaram. E mesmo entre os que estiveram no poder, acredito que há gente séria e honesta. Mas aqueles que andaram nos BPN’s (de forma activa ou como rectaguarda político-judicial), nas PPP’s, nos Submarinos, nos Freeport’s e afins, esses são a face visível daquilo que o sistema tem de mais sombrio. E há partidos políticos que lhes deram guarida. Depois dos escândalos, esses partidos – que deviam ser apenas a expressão política organizada de um conjunto de cidadãos em defesa de determinados princípios, ideias e modelo de sociedade – funcionaram como uma espécie de irmandade, tentando ocultar e diluir responsabilidades, de modo a não deixar que os respectivos partidos políticos fossem chamuscados devido aos casos em que alguns dos seus membros ilustres estavam/estão envolvidos. São os tentáculos do Sistema.
 
Perante isto, o que fazem os cidadãos do meu país quando são chamados às urnas? Confesso que não sei porque o fazem, mas a realidade mostra que dão a maioria dos votos precisamente aos partidos que têm andado envolvidos nos esquemas e trapalhadas atrás referidos. Até podemos ser levados a pensar que os portugueses gostam de premiar a aldrabice. E, com frequência, a alternância das memas forças políticas no poder assenta quase sempre no mesmo argumento: é preciso apear uns, porque são maus, para dar o poder aos outros, que foram igualmente apeados por serem maus, mas entretanto passou tempo suficiente para o povo esquecer. Como se não houvesse alternativas. E o mais dramático é que a maioria dá o voto aos que já deram provas de governar mal e poucos dão o voto aos que nunca tiveram oportunidade de governar.
Esta atitude, aliada à ideia de que os políticos são todos iguais, de que as ideologias morreram e de que apenas alguns estão preparados para governar, são as premissas de uma equação que só pode ter um resultado: aquele que estamos a viver. Uma desgraça.
 
Entendo sem dificuldade o erro na escolha, o engano, a ilusão. Talvez entenda mais do que uma vez. Mas, sempre? Eleição após eleição?
 
Recordo-me, sempre que penso nesta questão, de uma reportagem (se não me engano…) de Paulo Dentinho (RTP) aquando das recentes eleições presidenciais francesas. Num bar (restaurante?) de Paris, onde havia muitos portugueses, um deles disse convictamente que votaria Marine Le Pen (candidata da Frente Nacional, de direita) porque era uma mulher de esquerda. É muito parecido com o que se passa em Portugal. Os portugueses votaram à direita e ficaram à espera de políticas de esquerda; votaram à direita e depois contestam as ferozes políticas ultra-liberais que estão a ser postas em prática; votaram à direita e reivindicam melhores serviços públicos; votaram à direita e querem políticas de emprego; votaram à direita e… há aqui alguém que está enganado.
 
Para que as últimas manifestações de rua, principalmente a de 15 de Setembro, sejam consequentes, as próximas eleições terão que traduzir algo de muito diferente em relação aos últimos anos. Aguardemos.
 
Obrigado
José Manuel Rosendo
Pinhal Novo, 5 de Outubro de 2012

sábado, 1 de setembro de 2012

Extermine-se a Constituição, pois claro!


Três episódios. O primeiro, já lá vão uns meses: Medina Carreira à conversa com Judite de Sousa na TVI24, como sempre com aqueles gráficos que acabam a mostrar que as contas públicas portuguesas só tiveram saldo positivo no tempo de Salazar e do cobiçado Volfrâmio durante a II Guerra Mundial. No meio da conversa, Medina Carreira atira a pergunta (mais ou menos assim): a Judite Sousa quando vai jantar leva a Constituição (da República Portuguesa) debaixo do braço para pagar a conta? Percebi a atrapalhação da Judite, e eu, que ainda não perdi a capacidade de me indignar, dei um salto no sofá. Judite de Sousa ainda gaguejou qualquer coisa em defesa da Lei Fundamental e da democracia, mas Medina Carreira insistiu na tese de que a situação da economia não se compadece com esse entrave que é a Constituição.

O segundo episódio foi na Quarta-feira à noite, mais uma vez na TVI24 durante uma entrevista a António Pires de Lima, e que eu transcrevo da página de Internet da TVI: “Eu não sei se o PSD e CDS devem assumir a responsabilidade de continuar a governar se tudo aquilo que é preciso fazer em Portugal para relançar a economia e controlar a despesa pública for impossibilitado pela Constituição Portuguesa” acrescentando queo PSD e o CDS devem confrontar a troika com esta surpresa”. E concluiu; “Não estou a ver uma solução fácil, a não ser que a própria troika obrigue o Estado português e os principais partidos portugueses a ajustarem a Constituição, de forma a que ela permita a execução de um programa que foi assinado por três partidos que representam 80 a 90 por cento do Parlamento”. Só faltou dizer: Olé! Desta vez já não dei um salto no sofá.
Devo dizer que em relação a Medina Carreira e a Pires de Lima, por razões óbvias, as afirmações não me surpreendem. Estão em linha com uma certa forma de fazer política e de estar nos negócios, que muitas vezes entram em choque com valores que tenho para mim como fundamentais e inalienáveis.

Hoje, sexta-feira (as férias são uma coisa terrível e até temos tempo para ler coisas destas…), novo ataque à Constituição nas páginas do Correio da Manhã (CM), através da pena de João Miguel Tavares. O “cronista indelicado” como é apresentado na coluna do CM, discorre sobre a RTP. Diz que Serviço Público de televisão, hoje, não significa “coisa nenhuma” e lembra quando, em 1985, “Portugal inteiro parou para assistir ao corte impiedoso das partes baixas do Caniço no final da novela ‘Chuva na Areia’”. Depois pergunta: (…) “, será que o Fernando Mendes e o Malato valem 300 milhões de euros por ano?”.
Conclui com uma “pérola”dizendo que a ideia de privatizar a RTP de vez “esbarra num problema chamado Constituição da República Portuguesa, onde um qualquer apreciador de ‘Gabriela’ achou por bem fixar a exigência de o Estado assegurar um canal público de televisão. Assim sendo, a ideia de fechar a RTP 2 e concessionar a RTP 1 a privados é bem capaz de ser a menos má das opções. Não chega a ser uma boa opção, claro, e é preciso conhecer os contornos do negócio. Mas enquanto não se der à Constituição o tratamento que se deu ao Caniço, não há muito que se possa fazer.” Isto é: atire-se a Constituição ao lixo! Que se lixe a Democracia, o Estado de Direito, a Liberdade (até a de dizer estas asneiras).

A imbecilidade (peço desculpa mas não encontro outra palavra…) de João Miguel Tavares não merecia tanto espaço neste texto, nem o esforço de quem o está a ler, mas é preferível assim a ser acusado de escrever alguma coisa fora de contexto.
Este género de artigo é aliás demasiado frequente na imprensa portuguesa. Caracteriza-se por um tipo de escrita que pretende ser crítica, pretende ter graça, ligeira, jogando com a construção de frases apelativas e marcantes, em raciocínios breves e por isso facilmente assimiláveis. Para estes escribas não parece importar os conteúdos. É preciso é escrever alguma coisa que provoque polémica e, de preferência, seja alvo de comentários na imprensa, televisões, redes sociais, etc.. Conseguido o objectivo do escriba, ele está no mercado. Isto é, consegue ganhar a vida, mesmo que não tenha ideias sustentadas sobre nada nem coisa nenhuma mas desde que escreva umas coisas que provoquem polémica. Nem seria grave, se depois, a opinião pública mal informada não acabasse a fazer comentários como este que retirei do CM na Internet, mesmo ao lado do texto de João Miguel Tavares: “É muita gente a mamar da RTP, mas mesmo muita gente, daí todo este ai ai JESUS. Eu por mim não dava um cêntimo à RTP” (opinião assinada).

Tudo isto para dizer que está lançado o ataque à Constituição. Seja por causa da situação da Economia ou da RTP, o que estes senhores entendem é que é preciso mudar a Constituição. Começaram timidamente, como sempre começam estas coisas, vamos ver como vão evoluir. Houve tempos em que os espanhóis cá vieram… houve tempos em  que os ingleses nos fizeram um ultimato… parece que o tempo agora é o de ser mos nós (salvo seja) a pedir à troika para nos obrigar a mudar a nossa Constituição. Neste país desgraçado, ou muito me engano ou estes que agora falam assim ainda vão acabar a dizer que a culpa é da Democracia. E depois, já se sabe…

Obrigado
José Manuel Rosendo
Pinhal Novo 1 de Setembro de 2012

Tanta asneira sobre a Rádio e a Televisão públicas…


Se tiverem paciência para ler, agradeço. Estou de férias e deu-me pra isto. Ando de “saco cheio” e nem o sol aproveito.
Mas que raio de conversa é essa de não se saber o que é “Serviço Público”? Quem faz esta pergunta não levou vacinas quando era pequenino? Não andou na Escola Pública? Não andou de comboio, autocarro? Nunca viu as patrulhas da PSP ou da GNR? Não sabe que um Serviço Público é algo que o Estado disponibiliza aos cidadãos para que eles o possam ser de facto: cidadãos! Porque só são cidadãos, e pessoas, se tiverem um conjunto de serviços que possam, de facto, utilizar, sem que essa utilização esteja dependente do seu poder económico. Não sabem isto? Aqui chegados já oiço rugidos: “isso não tem nada a ver com serviço público aplicado à rádio e à televisão”. Tem, tem! Por que é que não se entrega o Serviço Nacional de Saúde (totalmente) aos privados? Por que é que não se entrega o Ensino (totalmente) aos privados? Por que é que não se entrega a Segurança (totalmente) aos privados?

A diferença entre um órgão de comunicação social (OCS) privado e um outro público é muito simples: o privado depende da vontade dos accionistas, tem uma orientação “editorial” de acordo com a vontade da administração, pretende fazer dinheiro ou, o que pode ser muito mais importante para o accionista, ser utilizado como arma de arremesso útil a estratégias do grupo económico a que pertence (basta estar atento ao que se passa neste momento para perceber os interesses económicos transformados em manchete de jornal). Apesar de não concordar que um OCS deva em circunstância alguma servir este tipo de interesses, sendo privado e atendendo aos tempos que correm – não, não estou a fazer nenhuma concessão, estou apenas a facilitar o avanço do que quero dizer – até dou de barato, sendo que a única opção para os leitores/ouvintes/telespectadores, quando confrontados com este tipo de OCS, é comprar ou não comprar, ouvir ou não ouvir, ver ou não ver. E fica por aí.

Ao contrário, um órgão de comunicação social público, responde perante os portugueses nas instituições que têm a função de o fiscalizar, regular e acompanhar. Podemos discutir tudo: o modelo, os canais, as nomeações, as grelhas, as pessoas, os ordenados… podemos discutir tudo, mas se os diferentes canais da RTP (Rádio e Televisão) produzissem as gralhas e as notícias que vão por aí noutros OCS, “caía o carmo e a trindade”, havia administrações e directores demitidos.
A Rádio e Televisão de Portugal faz uma cobertura do país que nenhum outro OCS faz ou tem interesse em fazer. Se alguém quiser ter uma noção concreta desta afirmação basta consultar as grelhas de programação, avaliar a oferta pluralista e diversificada, analisar os noticiários e depois pode ter uma opinião sustentada. A quem não quiser ter esse trabalho só posso aconselhar cautela, muita cautela, com opinadores que propagam a mentira e que nem os próprios sabem do que falam.
Mais algum OCS tem um Conselho de Opinião que representa a sociedade portuguesa para acompanhar a sua actividade? A RTP tem.

A RTP é “ um saco de boxe”. Sempre foi. Mas essa é a “cruz” de um OCS público, sujeito ao escrutínio dos cidadãos. E ainda bem que há esse escrutínio, desde que seja intelectualmente honesto. Já alguém imaginou um programa na televisão pública onde o jornalista de serviço destilasse ódio contra a SIC como Mário Crespo, na SIC Notícias, destila ódio contra a RTP (e contra tudo que “cheire” a serviço público)? Ninguém imagina, pois não? Sabem porquê? Porque a RTP é um OCS público e não serve para esse tipo de coisas. Este é um bom exemplo para perceber a diferença.

E ainda faço outro pergunta: conseguem descobrir um OCS onde sejam publicadas notícias que não agradem ao accionista? Se calhar passou-me alguma coisa ao lado mas gostava de encontrar um exemplo de uma notícia do Público que belisque os interesses de Belmiro de Azevedo; uma notícia do Expresso, da SIC ou da Visão, que belisque interesses de Pinto Balsemão; uma notícia do DN ou do JN que belisque os interesses de Joaquim Oliveira. Eu sei que o Governo não é o accionista da RTP (é o Estado) mas sabem quantas notícias a Rádio e a Televisão públicas editam diariamente que o Governo preferia que fossem ignoradas? Pois é…

E no meio de tudo isto convém desmistificar aquela história de quem paga o quê, porque se a taxa do audiovisual uq eos portugueses pagam serve para pagar a RTP, quem é que vocês acham que paga os outros OCS? Está-se mesmo a ver que são os donos, os accionistas, não é? Pagamos todos, sim, pagamos todos através do valor da publicidade que está incluído nos produtos que compramos. Mais ainda, pagamos mesmo quando não queremos ver, ouvir ou ler, porque compramos o produto (com a fatia da publicidade incluída no preço) independentemente de beneficiarmos ou não do OCS que vai receber essa fatia da publicidade. E quem quiser enfiar a cabeça na areia que faça o favor, mas que é verdade não tenham dúvidas. Pagamos é (quase) sem dar por isso.

Quem diz que não sabe o que é Serviço Público é quem apenas mede o valor da nossa vida (com tudo o que dela faz parte) através de uma conta de merceeiro que só tem duas colunas: a do deve e a do haver. Coitados!

Obrigado
José Manuel Rosendo
Pinhal Novo, 1 de Setembro de 2012

Reportagem na Síria

terça-feira, 17 de julho de 2012

Bashar Al-Assad pode ganhar a guerra mas já perdeu o povo


 

O que é que a Síria tem a ver com a Líbia? Sim, são realidades diferentes, mas têm um ponto em comum: um ditador que não consegue perceber que o país não lhe pertence e que tudo faz/fez para manter o poder. E como um ditador nunca sobrevive isolado, (Kadhafi na Líbia e agora) Assad na Síria, tem a sua corte, alarmada com a prevísivel perda de regalias e disposta a tudo para manter o status quo.

Recordo-me de ter entrado na Líbia, pela fronteira de Al Salloum e encontrar os postos militares abandonados. Rebeldes controlavam quem entrava no país. Umas centenas de quilómetros para o interior e percebi o que estava a acontecer na Líbia: em Tobruk, o quartel estava vazio, os militares tinham fugido ou passado para o lado rebelde e os tanques de guerra estavam todos na rua. Havia munições para todos os gostos. Chegado a Benghazi, a leitura dos acontecimentos tornava-se mais fácil: o povo só queria ver Kadhafi desaparecer. Percorrendo mais umas centenas de quilómetros até Ajdabyia ou Brega, passando por carrinhas com armas montadas na caixa de carga e percebendo os milhares de sírios mal armados e desorganizados, percebi que Kadhafi não tinha saída. Uns dias depois, as brigadas de Kadhafi recuperaram terreno e estiveram às portas de Benghazi. Tinham maior poder de fogo, aartilharia pesada. Foi nesse momento que os países da NATO entraram no conflito. Conhecemos as opiniões contra e a favor desta intervenção. Tenho a forte convicção que se tal não tivesse acontecido teria havido um banho de sangue em Benghazi. Kadhafi tinha prometido uma perseguição “zenga-zenga” (casa-a-casa). Se não tivesse havido a intervenção externa Kadhafi poderia ter ganho aquela guerra, naquele momento, mas já tinha perdido o povo.

Na Síria, sem intervenção directa de outros países, a lista de mortos todos os dias aumenta muitas dezenas. As imagens que chegam de há muito que são de uma guerra civil sangrenta. Os massacres, apesar da troca de acusações, são evidentes. Não estando no terreno a avaliação mais rigorosa é dificil, mas Bashar al-Assad, que até pode vencer esta batalha, vai claramente perder o povo, porque não há povo que tenha memória e ao mesmo tempo possa perdoar um presidente que não hesita em matar o seu próprio povo.

O massacre de Tremseh, sexta-feira 13 de Julho, é apenas um sinal inequívoco daquilo que o regime está disposto a fazer para não ser afastado.

No campo diplomático, Kofi Annan tenta soluções que só provam a incapacidade da ONU neste conflito. A Rússia e o Irão muito dificilmente deixarão cair o regime sírio; os países ocidentais apoiam a oposição, mas até agora não falaram em fornecer armamento. Uma situação típica da guerra fria com as grandes potências a fazerem a guerra por procuração. E como se não fosse suficiente, basta pensar o que será uma Síria em guerra total, envolvendo os interesses estrangeiros e as divisões religiosas e étnicas. Quanto à oposição síria ainda não deu um sinal claro de unidade, muito menos de ter preparada uma solução de governo perante uma eventual queda do actual regime. Mas há uma coisa que é certa: o poder de Bashar al-Assad é uma questão de tempo. E de mortos…

José Manuel Rosendo
16 de Julho de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O "governador alemão"




Miguel de Vasconcelos atirado pela janela...
O descaramento já é absoluto. A Alemanha propôs, como a coisa mais natural deste mundo, a nomeação de um governador para tratar das matérias orçamentais da Grécia. Assim ao estilo: vocês não sabem tratar do vosso orçamento e então é melhor sermos nós a fazê-lo. Sim, nós, Alemanha, porque com uma proposta assim ninguém imagina que depois o tal governador não fosse da especial confiança de Berlim. É assim que alguns alemães pensam a democracia europeia. A Alemanha sabe que o Orçamento de um país é parte fundamental da sua soberania. Descobrir que alguém com o poder da Alemanha tem governantes que pensam assim é desconfortável, para não dizer assustador. Estes “governadores” são figuras que nos lembram os tempos de Napoleão em que havia “Governadores” em nome de um império.
Depois de Napoleão, Hitler também quis ser dono da Europa. Não nos esqueçamos que chegou ao poder vencendo eleições. A tragédia é conhecida. Mas pelo meio da tragédia de ver a democracia ajudar à ascensão de um monstro, há um outro aspecto a ponderar: os colaboradores que a Alemanha de Hitler conseguiu arregimentar.

O que parece óbvio nesta Europa nada unida é que a Alemanha está num processo em que quer fazer avançar a integração política negociando com países fragilizados por dificuldades financeiras e fazendo depender a ajuda financeira de cedências políticas à vontade alemã. E isso é inaceitável: deixa de ser uma negociação para ser uma imposição. Definir neste momento os parâmetros de uma Europa federal seria um erro trágico com consequências imprevisíveis.

Durante a II Guerra Mundial, perante o avanço imparável das tropas nazis, e apesar de muitos franceses recusarem içar a bandeira branca, a França negociou uma rendição. Foi Philipe Pétain, Marechal, enquanto primeiro-ministro, que assinou essa rendição com as respectivas condições de humilhação. Pétain chegou a Presidente da França ocupada. As forças da Direita francesa utilizaram a derrota externa para chegarem à vitória interna. O regime de Pétain substituiu a “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” por “Trabalho, Família, Pátria”. Nessa França dos traidores que teve capital em Vichy, o poder do governo fantoche foi uma ilusão momentânea e Pétain acabou (depois da guerra) condenado a prisão perpétua e morreu na prisão.

Como escreveu o nosso Prémio Camões, Manuel António Pina, “Os olhos cobiçosos da Sra. Merkl não são substancialmente diferentes, senão nos processos, dos que uma outra Alemanha deitou há décadas à soberania dos países vizinhos, Grécia Incluída. Taxas de juro usurárias e batalhões de burocratas com certos ‘poderes de decisão’ que reforcem ‘o controlo dos programas e das medidas in loco’ são coisa mais discreta mas não menos arrasadora do que “panzers” e exércitos de ocupação. O seu efeito prático é, porém, o mesmo: a sujeição de um país e de um povo”.

A resposta a esta tentativa de roubar soberania à Grécia teve resposta a preceito por parte do ministro grego das Finanças, Evangelos Venizelos: “Quem põe um povo perante um dilema entre a ajuda financeira e a dignidade nacional, ignora as lições históricas fundamentais”. Recorde-se que a Grécia esteve ocupada pela Alemanha durante a II Guerra Mundial.

O que eu, português, preciso de saber é se temos um governo de Vichy ou um Governo de Lisboa que responda a preceito. Mas começo a desconfiar dos ideais que Lisboa defende quando vejo a desvalorização de datas como o 1º de Dezembro. Esse foi o dia da restauração da nossa independência, o dia em que Miguel Vasconcelos, traidor e colaborador-mor (primeiro-ministro) em nome da ocupação filipina, foi atirado pela janela. E Portugal voltou a ser independente.

José Manuel Rosendo