quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Egipto - Tahrir não foi para isto



(foto: jmr. Praça Tahrir, 7 de Fevereiro de 2011)

Esta quarta-feira, 14 de Agosto de 2013, quebrou-se algo muito importante no tecido e na coesão social do Egipto: o exército divorciou-se do povo. Há centenas de mortos e feridos.
No início de 2011, no Cairo, em plena revolta popular que haveria de fazer cair Moubarak, exército e povo estavam de mãos-dadas com a população a oferecer flores aos militares na Praça Tahrir. Relatei esses momentos na Antena 1 e, inevitavelmente, comparei-os às imagens do 25 de Abril em Portugal. Por esses dias o exército egípcio declarou que não iria disparar contra o seu próprio povo e foi esse o momento em que Moubarak sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Esta quarta-feira tudo mudou. O exército esteve ao lado da polícia no ataque aos locais onde se concentravam os apoiantes do presidente deposto e é ele, o Exército, quem detém o verdadeiro poder no Egipto. Mas, como dizia um analista na Al Jazeera (perdoem-me não ter memorizado o nome…) os militares têm uma dificuldade: olham para os problemas políticos e vêm um problema de segurança.

É também necessário ter alguns factos (sim, factos!) importantes em conta: Mohamed Morsi, o presidente deposto foi eleito democraticamente; o Partido da Liberdade e da Justiça (da Irmandade Muçulmana) venceu as eleições legislativas; a Constituição foi referendada. Posto isto convém reter que um golpe militar não é necessariamente mau (veja-se o 25 de Abril em Portugal) e um poder político saído da legitimidade das urnas não é obrigatoriamente democrático nem goza de legitimidade intocável.

Outro aspecto a ter em conta é que desde há pelo menos três décadas que os USA despejam milhares de milhões de dólares em “ajuda” militar e formam os oficiais egípcios. Há também um Tratado de Paz com Israel que faz tremer muitas chancelarias só de pensarem que pode ser posto em causa.

Por outro lado, não vai longe o discurso de Barack Obama no Cairo (Junho de 2009). Uma das interpretações desse discurso de Obama foi a de que terá dado luz verde ao que viria a ser a “Primavera Árabe”. Obama falou de democracia num país governado por Moubarak, durante décadas, com mão de ferro. Mas aquela região do Mundo já sabe quão confiáveis são as propostas ocidentais e, em particular, as norte-americanas. Basta verificar os factos. Basta que nos lembremos como os xiitas iraquianos foram “abandonados” pelos USA durante a I Guerra do Golfo quando as tropas iraquianas fugiam para Bagdad.

Quanto ao Egipto, quando Moubarak começou a enfrentar as manifestações de protesto, os USA hesitaram… depois, quando houve o golpe militar, em Julho passado, os USA voltaram a hesitar (a terminologia utilizada quando se referem a esse momento é elucidativa) e agora, voltam a hesitar quando condenam a violência exercida contra os apoiantes de Morsi, mas antes disso já tinham ido ao Cairo “reconhecer” o poder político que saiu desse golpe militar. Isto é: os USA não querem a Irmandade Muçulmana no poder, mas também não querem “ter sangue nas mãos”. É a diplomacia no seu melhor. Da União Europeia não vale a pena falar. Catherine Ashton (que também foi ao Cairo depois do golpe militar numa atitude que significa um reconhecimento tácito do poder dos militares…) é um erro de casting. Tal como foi a nomeação de Tony Blair para representante do Quarteto nas negociações entre israelitas e palestinianos.
 
É bom que se diga que apesar de Moubarak ter caído o regime ficou. Militares e poder económico a ele associado ficou intocável. Não deixa de ser surpreendente que uma exército que sempre viveu na sombra de Moubarak, sob a qual não havia nem um cheirinho de democracia, esteja agora tão preocupado com essa mesma democracia depois de um ano de poder político da Irmandade Muçulmana.
 
A política tem sempre uma saída para as crises e para as guerras, mas neste momento quem consegue dizer como vai terminar esta crise no Egipto? Como é que a Irmandade Muçulmana vai sentar-se à mesa depois de ver morrer centenas de apoiantes e de ser afastada de um poder democraticamente conquistado. Como é que Obama poderia voltar ao Cairo para voltar a falar de democracia? Como é que Obama explicaria aos egípcios que depois de votarem para escolher um presidente e uma Constituição, pode aparecer alguém a dizer que afinal as eleições não contam?
 
Será conveniente não esquecer que a Irmandade Muçulmana é a instituição mais organizada do país e que nunca cedeu à repressão que sofreu durante décadas. Admitindo que a crise no Egipto pode ser resolvida com novas eleições, o que acontece a seguir se a Irmandade Muçulmana voltar a vencer? Outro golpe militar? E que os “europeus” não se fiquem a rir porque ainda muito recentemente na Europa, sim na Europa, assistimos à repetição de referendos apenas porque o resultado não foi o que os “democratas” pretendiam.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 15 de Agosto de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

E se houvesse um Referendo que nos colocasse uma pergunta terrível: Portugal deve acabar?

 Despaís, como suicidar um país? É o título do livro de Pedro Sena-Lino, um romance-provocação que encaixa que nem uma luva no momento que estamos a viver. Do drama de um país a desmanchar-se à coincidência, em muitos pontos, entre personagens e actuais governantes. Que a pergunta nunca se coloque, diz o autor e digo eu também. Não vá alguém aproveitar a ideia...
É só ouvir.
 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Tenho opinião, quero ter opinião, não abdico de ter opinião. Em nome da Liberdade.




Estou cansado dos que me tentam convencer que, por ser jornalista, não posso/devo tornar pública a minha opinião sobre tudo aquilo que bem me apetecer: política, economia, futebol, decisões do Governo ou do Presidente da República, a guerra no Afeganistão, a Primavera Árabe, o aquecimento global, o casamento gay…
Muitas vezes, os que assim pensam (que não devo ter opinião), argumentam que isso me fragiliza se alguma vez tiver que entrevistar ou escrever notícias sobre protagonistas a quem eventualmente tenha criticado uma decisão ou uma atitude. Este tipo de argumento que procura condicionar a minha Liberdade, mais não é do que um convite ao pensamento único (regra geral o dos que têm poder, seja ele qual for, porque são eles os potenciais entrevistados ou protagonistas em relação aos quais me posso sentir fragilizado…) ou então é um convite para que seja um jornalista “bem-comportado”, que guarde para mim as minhas opiniões, que me limite a ser um bom pastor do respeitinho bonito e devido a quem manda, não vá aparecer a polícia dos costumes a cortar-me a língua.
 
Estou cansado desta lenga-lenga. Quem quer guardar opiniões que o faça; quem quer ser “bem-comportado” que o seja; quem tem medo que lhe cortem a língua que compre um cão. Ter opinião sobre a vida e sobre a sociedade (é isso a política) não é o mesmo que ser adepto de um clube de futebol. A opinião política (no sentido de que isso é ter opinião sobre a nossa vida) é racional, sustentada ideológica e por vezes cientificamente; as opções clubísticas são irracionais, são afectos que só o coração pode explicar. Defender opções políticas significa, em minha opinião, defender o que considero ser melhor para o todo da comunidade de que faço parte; ser adepto de um clube de futebol significa desejar a vitória do meu clube e, por defeito, a derrota do adversário. Há quem não consiga entender a diferença e meta tudo “no mesmo saco”.
 
Há também quem veja uma simples opinião sobre um qualquer acontecimento como um acto de política partidária. Esses são os que pararam no tempo e não conseguem perceber a vida, a política e o poder, para além de um quadro que começa e termina na luta partidária; Outros, conscientemente, apenas tentam pressionar, criar desconforto, para que aqueles que têm opinião se sintam inseguros ou amedrontados e não divulguem opiniões que podem ser “perigosas” para o status quo; Outros ainda, apenas não querem que surjam opiniões porque depois sentem-se mal por não terem coragem ou capacidade para, eles próprios, elaborarem e fundamentarem uma opinião que os vai expor – é disso que têm receio, são inseguros – e , eventualmente (qual é o problema?), mostrar que estão errados ou fizeram uma análise a que falta informação importante; outros ainda, são ingénuos e pensam que se ficarem caladinhos, são vistos como uns tipos porreiros que não criam problemas e conseguem passar pelos intervalos da chuva (vá lá saber-se para onde querem ir…). Outro aspecto não menos importante: ter opinião dá trabalho!
 
Enquanto jornalista, para além de não abdicar do meu direito de ter opinião, considero aliás que é minha obrigação ter opinião. Porquê? Porque temos mais informação que o comum do cidadão, porque temos acesso directo a fontes, porque sabemos onde procurar a informação que pode sustentar uma opinião e porque, afinal, tendo esse privilégio de estar onde as coisas acontecem, temos o dever de o partilhar, relatando com rigor e, se for caso disso, dar conta da nossa percepção sobre os acontecimentos, fazendo análise e quando tal considerarmos necessário, dar opinião. Não preciso de dizer que nada do que atrás referi se pode misturar: tudo bem separado, para que quem recebe a informação possa distinguir sem nenhuma dúvida o que é uma notícia, uma reportagem, uma crónica, uma análise ou uma opinião.
 
Dito isto, mantenho o meu direito/dever de ter e publicar a minha opinião. Vale o que vale, mas é minha e não abdico desse direito. Aliás, nunca uma opinião minha incluiu referências ofensivas ou ataques pessoais aos protagonistas. São ideias que contraponho a outras ideias. Se não é isto a Democracia, então não sei o que é e é por isso que a minha opinião não pode fragilizar-me.
 
Se puderem (mesmo através da Internet…), vão ao museu do Apartheid, em Joanesburgo, ou ao Yad Vashem, em Jerusalém. Se quiserem mais perto, vão ao Forte de Peniche (não digo para irem à sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, porque alguns que a democracia permitiu que fossem eleitos fizeram questão de esconder essa memória), para saberem o preço que alguns pagaram pela Liberdade, o preço que pagaram por lutar contra a opressão, a discriminação, o medo…
 
Se há coisa que tentarei nunca fazer é ser ingrato para aqueles que deram a vida ou parte dela, que sofreram, para que eu hoje possa dizer que sou livre e posso ter opinião. A melhor forma de o fazer é lutar por essa Liberdade, tendo opinião e não me deixando amedrontar ou pressionar por gente que por ter medo de ter opinião quer aprisionar os outros nessa redoma de cobardia.
 
À Liberdade trato-a como a uma flor que quero deixar bem viva nas mãos dos meus filhos. Lamento, mas vou continuar a ter opinião.
 
josé manuel rosendo
pinhal novo, 12 de Julho de 2013

 
PS - foto (jmr) tirada em Benghazi, Líbia, 28 de Fevereiro de 2011. Os Líbios lutavam pela liberdade e escreveram isso até nas paredes interiores dos edíficios por onde borbulhava a revolta.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Da “rua-árabe” à “rua-portuguesa”


Já vamos ver o que é que a “rua-portuguesa” pode ter a ver com a “rua-árabe”. Antes disso registemos dois momentos.
Após cinco semanas de silêncio, o Presidente da República (PR) reapareceu inspirado pelas manifestações de 2 de Março: “as vozes que se fizeram ouvir não podem deixar de ser escutadas”. Na reaparição, Cavaco Silva falou dos números do desemprego, do alargamento das situações de pobreza e disse que as manifestações “merecem o maior respeito”. A “situação é verdadeiramente dramática”, disse. Mas também disse que não se sentiu alvo dos manifestantes e que as preocupações dos manifestantes há muito que fazem parte das suas – dele, PR – intervenções públicas. Aqui chegados, Cavaco Silva, que até parecia estar a entender alguma coisa, revelou que não entendeu nada. Ou faz que não entende. Ele é também um alvo das manifestações.
 
 
Quanto ao Primeiro-Ministro (PM) veio dizer (e cito de cor…) que não governa a partir de manifestações de rua e que um primeiro-ministro que o faça não está apto a desempenhar as funções. Pedro Passos Coelho confunde convicção e firmeza (obviamente necessárias a um líder) com cegueira e surdez. Pedro Passos Coelho é líder de um Governo, não é administrador de uma empresa (o que ainda assim tem que se lhe diga, para além dos números…) e por isso devia ouvir o seu povo. Não adianta que repita à exaustão que tem uma maioria parlamentar que o mesmo povo votou. Aliás, se olharmos ao que se passa na rua, esse argumento significa precisamente que alguma coisa mudou. Não será intelectualmente honesto pegar nas manifestações mais recentes para a partir daí dizer, com rigor, que o resultado de eleições realizadas agora seria substancialmente diferente do anterior, mas é nesse ponto – nesse sentir e interpretar, na descodificação dos sinais – que os políticos se diferenciam dos tecnocratas que governam apenas com números e estatísticas.
 
 
Para além disso, depois de rapar o tacho, depois de todos os sacrifícios que tem exigido aos portugueses, um PM que diz que vai cortar mais 4 mil milhões de Euros na despesa do Estado e não diz onde, só pode estar a brincar. Só pode estar a deitar gasolina na fogueira.
Talvez por isso, por tudo o que Pedro Passos Coelho disse e tem feito, João Semedo, do Bloco de Esquerda lançou esta tarde, durante o debate parlamentar, o desafio: “O povo está farto de si, o povo está farto da sua política e do seu governo. Demita-se”. “Não tenha medo de eleições, deixe a democracia falar por si”, disse ainda João Semedo.
 
Aqui chegados, percebe-se que nem o PR nem o PM estão a querer entender o divórcio entre a rua e o actual poder. Não entendem a diferença entre a rua, o povo, e o “Palácio”, esse enquanto símbolo do poder instituído. Vamos às semelhanças entre a “rua-árabe” e a “rua-portuguesa”: a rua, entenda-se opinião pública (não a publicada), está em profundo desacordo com o governo. A “rua-árabe” começou assim a ser designada precisamente porque representava um sentimento diferente daquele que expressavam os governantes, por ser um registo de opinião completamente diferente e oposto ao que nos era dado pelos respectivos líderes árabes. É verdade que esses líderes eram quase todos uns ditadores (que por acaso tinham excelentes relações com os líderes do chamado mundo ocidental…), mas também é verdade que em Portugal atravessamos um momento muito semelhante. Basta ver os cartazes que idosos e outros cidadãos pacíficos exibem para se perceber o divórcio e, pior do que isso, o respeito que o Governo já perdeu. Das palavras de protesto passou-se ao insulto. Das reivindicações passou-se ao pedido de demissão. É a raiva e o ódio do povo em relação aos governantes, expressa em cartazes rudimentares mas que representam um sinal político fortíssimo. Um sinal de que numa rua em chamas não há bombeiro que possa valer ao “Palácio”.
 
Em Portugal não vivemos formalmente numa ditadura, nem o Primeiro-Ministro pode ser acusado de tal, mas que há um fosso enorme entre o que pensa e faz o Governo e o que pensa e quer a “rua-portuguesa”, qualquer político com o mínimo de instinto já percebeu.
 
Foi a “rua-árabe” que fez cair ditadores, vamos ver o que acontece ao actual Governo português perante este profundo desentendimento com a mesma rua que lhe deu o poder. Não era nada má ideia não ter medo de eleições e deixar a democracia falar.
 
josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 6 de Março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chávez sem preconceitos


Hugo Chávez foi um líder perfeito? Não! Foi um homem perfeito? Não! Teve uma orientação política perfeita? Não! Aliás, tenho pavor das pessoas e das coisas perfeitas. Mas perguntem aos mais carenciados da Venezuela se gostaram mais de ser liderados por Hugo Chávez ou durante o tempo que o antecedeu. Depois perguntem às petrolíferas se gostaram da liderança de Chávez.
 
Como é evidente, jornalista que sou, amo a Liberdade. A Liberdade de poder dizer e escrever o que penso. A falta dessa Liberdade, uma mão a tapar-me a boca, é algo verdadeiramente intolerável. Mas a questão que se colocava a Chávez na Venezuela era a de tentar mudar um país que, em nome de alguma, sublinho, de alguma liberdade, mantinha uma larga parcela da população em grande miséria enquanto petrolíferas estrangeiras e outras multinacionais se enfartavam nos lucros chorudos.
 
 
 
Chávez mudou como lhe foi possível, sacrificando alguns aspectos que deram aos inimigos os argumentos para dizerem que não era um democrata. Provavelmente esses inimigos apenas queriam ter a oportunidade de lhe sacar o poder para tudo voltar a ser como dantes. Chávez mudou como lhe foi possível mudar essa situação, dentro de uma realidade que é a da América Latina e que alguns teimam em analisar usando a lente do chamado “mundo livre”, mais concretamente o mundo das chamadas democracias neoliberais, e obviamente incorrendo em erros de análise provocados por uma deficiente grelha de avaliação.
 
Claro que os homens dos negócios estragados por Chávez não perderam tempo a minar-lhe o caminho e a catalogá-lo de populista, ditador, e por aí fora. Os programas de televisão, os números de anedotas, o discurso na ONU quando depois de ver George W. Bush disse que tinha visto o diabo, tudo isso é um discurso que tem que ser analisado tentando entender como funciona a sociedade venezuelana e a própria América Latina. O discurso de Hugo Chávez, parecendo algo inaceitável para uma Europa que pensa ser exemplo para o Mundo, era um discurso afectivo porque Chávez falava ao povo dele com a linguagem que o povo entendia e isso não é necessariamente populismo. Se calhar, muitos “líderes” europeus precisavam aprender alguma coisa com Chávez para que nós os pudéssemos entender, algo que por vezes é muito difícil.
 
Quanto ao “Chavismo”, se ele está ou não cimentado na sociedade venezuelana, é agora que vamos saber. Qualquer sistema que assenta na personalidade de um líder tem um momento complicado e conturbado quando o líder morre. À esquerda e à direita. Sabemos que até agora o “palco” era de Chávez, mas isso não significa directamente que não haja ninguém na “segunda linha” que possa tomar as rédeas do poder, mantendo a orientação política que a liderança de Chávez construiu. Um palco, um líder, uma tradição latino-americana.
 
 
 
 
 
 
 
 
Chávez reclamava a herança de Simão Bolívar. Que herança era essa? Criar um projecto de defesa conjunta do sub-continente sul-americano que defendesse os povos das então potências europeias. Foi uma utopia porque era um momento (estamos em 1826, por aí…) em que estes países mal conseguiam manter a sua unidade interna, quanto mais edificar um projecto desta dimensão. Era deste projecto que Hugo Chávez se reclamava herdeiro. Era a “metáfora” para falar da solidariedade que considerava necessária para enfrentar, desta vez, o inimigo norte-americano mas também a olhar para a União Europeia.
 
Outro aspecto a ter em conta no dia da notícia da morte de Hugo Chávez é o da expulsão de dois adidos militares norte-americanos pouco antes de ser conhecida a morte de Hugo Chávez. Sabemos todos qual é o passado norte-americano de interferência em países da região que os Estados Unidos definem como o “seu Mediterrâneo” (o Mar das Caraíbas). Os venezuelanos também sabem.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 5 de Março de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um camião de laranjas que não enche um copo de sumo…*


“O mais difícil é ganhar o partido, depois o país é canja!”. E foi. Frase dita, assim mesmo, com esta facilidade e com um sorriso nos lábios. Quem a disse, conhecendo-me, terá pensado que podia funcionar como uma provocação para início de uma saudável troca de argumentos. Uma frase de alguém muito próximo do actual Primeiro-Ministro e, apesar da informalidade que a manhã de sol aconselhava, era de facto este o entendimento que o núcleo duro de Pedro Passos Coelho fazia da realidade do país e do PSD. Estávamos no início de 2010.
Confesso que achei graça. Pedro Passos Coelho e os seus mais próximos ainda andavam a reunir forças na “Plataforma Construir Ideias” e José Sócrates ainda parecia ter energia para dar e vender, naquela azáfama de medidas com que a determinada altura o XVIII Governo constitucional nos brindava diariamente. Ainda não tínhamos digerido a última e já mais meia-dúzia estavam a ser anunciadas.
A fonte que revelou esta lente através da qual o PSD olhava o futuro – não revelo a fonte porque a conversa era mesmo informal – tinha toda a razão, e eu, alguns meses depois, deixei de achar graça. E ganhei uma preocupação. Não em termos de opções políticas ou por causa da anunciada “refundação do Estado”. Perante outras questões mais preocupantes, opções políticas e “refundação do Estado” passam para segundo plano. O partido foi ganho, o país também, mas isso conduziu-nos a este tempo em que desta pobre democracia já não esperamos líderes com quem nos identifiquemos ideologicamente ou de quem discordando politicamente apreciemos a personalidade, o carácter ou outra qualquer qualidade. Chegámos ao ponto em que apenas esperamos líderes a quem possamos comprar, se for caso disso, um carro em segunda mão.
Para além dos “casos” que envolveram o Ministro Miguel Relvas e que não tiveram nenhum tipo de consequência política, agora somos confrontados com a nomeação de um Secretário de Estado, Franquelim Alves, que foi administrador da SLN, a holding proprietária do BPN. Não é crime ter sido administrador da SLN, mas a escolha do Primeiro-Ministro é politicamente incompreensível. O BPN já “comeu” muito milhares de milhões de Euros de dinheiros públicos e a história continua por contar. Foi uma fraude de que alguns tiraram benefícios e que estamos todos a pagar. Para além disso, a última coisa que este Governo precisava, agora, era de mais um caso.
Aqui chegados, adicionemos outra premissa ao raciocínio: Pedro Passos Coelho é um homem inteligente. Mas fará o favor de não nos considerar estúpidos. É por isso que é ainda mais complicado entender a decisão do Primeiro-Ministro sem cair na tentação da especulação. Se a escolha de Franquelim Alves é politicamente indefensável, então por que terá sido escolhido? É difícil entender. Resta a especulação: chegamos ao ponto de pensar que está a ser criado um facto político que serve para entreter enquanto algo mais importante está a ser decidido ou então alguém impôs o nome de Franquelim Alves. Para quê e porquê? E o Primeiro-Ministro não podia dizer que não?
Voltando ao início deste texto, o partido está ganho e o país também. Temos um camião de laranjas que não enche um copo de sumo: da social-democracia nem sinal, do país sinais de conformismo. Está a ser canja! Só falta o raminho de hortelã…
 
* a frase não é do autor do texto
josé manuel rosendo
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Cigarrinhos de enrolar e gestores que ganham mais de um milhão de €uros por ano.

Podia começar por dizer que a tocar o final de 2012 decidi fazer as contas do ano. Não é verdade. Confesso que já não faço contas. Simplesmente não gasto. Isto é, tenho que comer, mais algumas coisas básicas, pagar água, renda de casa, luz e electricidade, e faço uns cigarrinhos de enrolar. Ponto final.
 
Mas, chegado a casa, li nos jornais o que não tive tempo de ler durante o dia. A manchete do DN tinha ficado à espera: “30 gestores tiveram ganhos anuais acima de um milhão em 2011”. O DN acrescenta, não dizendo quem é, que um desses 30 gestores recebeu 2,7 milhões de Euros em 2011. Os números parecem insuspeitos porque fazem parte de um relatório anual produzido pela CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários). No caso são gestores executivos de empresas cotadas.
 
Leio o artigo enquanto vejo num canal de notícias os aumentos de preços agendados para entrar em vigor a partir de 1 de Janeiro. Preços de serviços prestados por empresas, algumas delas que já foram do Estado – nossas – e pergunto-me, porque o DN não diz, se alguns destes gestores não serão destas empresas que agora vão aumentar os preços; e pergunto-me ainda qual a percentagem destes aumentos – que nós vamos pagar – que vai engordar estas e outras suculentas remunerações dos ditos gestores.
 
Com estas perguntas para as quais certamente conhecerão a resposta, dou comigo a pensar naqueles doutos economistas e políticos que, sempre que falam das empresas que são do Estado quando estas apresentam contas deficitárias – em regra os mesmos tendem a ignorar os benefícios sociais que esse défice significa – fazem logo a seguir a pergunta que o povo gosta de ouvir: quem é que paga isto? “Quem é que paga isto?”, é a frase a que aqueles que estão a receber a mensagem (provavelmente desempregados, reformados, trabalhadores a salário mínimo ou nem isso…) respondem de forma automática: somos nós! Muito provavelmente acrescentarão, dirigindo-se aos que trabalham nessas empresas públicas, uns quantos palavrões cuja intensidade dependerá de quem mais tiverem ao seu redor.
 
Esta demagogia de perguntar “quem paga?” quando se fala de empresas públicas é feita com a sugestão implícita de que nas empresas privadas não são os mesmos a pagar. Pura mentira. Quem paga os lucros dos bancos? Quem paga os lucros das seguradoras, das empresas que gerem as Auto-estradas, dos hospitais e das escolas privadas? Quem paga o gás, a electricidade, a água, os cigarros? Quem paga tudo ao fim e ao cabo? Somos nós, sempre nós. Isto é, somos nós que pagámos o tal milhão de Euros que cada um daqueles 30 gestores da manchete do DN levou para casa em 2011.
 
É um bocadinho como a história de saber quem paga a televisão e rádio públicas e as televisões e as rádios privadas. Somos sempre nós, pois quem havia de ser? Mas uma coisa é pagarmos algo que é nosso – do Estado, e assim sendo temos uma palavra a dizer – outra bem diferente é pagarmos aquilo que não é nosso e em relação ao qual não temos qualquer tipo poder.
 
josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 28 de Dezembro de 2012