quarta-feira, 11 de junho de 2014

Estamos a ser roubados...

Certeiro e contundente. Como é que eu tinha passado "ao lado" deste texto e só o descobri quase seis meses depois? Obrigado, José Gil.


O ROUBO DO PRESENTE - José Gil

“Há pelo menos uma década e meia está a ser planeada e experimentada quer a nível do nosso país, quer na Europa e no mundo uma nova ditadura - não tem armas, não tem aparência de assalto, não tem bombas, mas tem terror e opressão e domesticação social e se deixarmos andar, é também um golpe de estado e terá um só partido e um só governo - ditadura psicológica.

Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu. O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho. O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stress, depressões, patologias, border-line, enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens)

O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público. Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais.

O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. 

O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil. Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português.


Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria­-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

domingo, 22 de dezembro de 2013

A utilização desonesta do exemplo de Mandela



Agora que o corpo de Mandela arrefeceu e o destempero dos comentários desapareceu, talvez seja tempo de dizer alguma coisa mais ponderada sobre Nelson Mandela. Nunca falei com Mandela, nunca estive na África do Sul, mas a dimensão de Mandela é universal.

Desde logo Nelson Mandela mostrou um democrático desapego pelo poder. Algo que muitos dos que derramaram lágrimas de crocodilo certamente nunca irão fazer. É certo que a idade de Mandela não permitiria muito mais, mas cumpriu um mandato como presidente e saiu pelo próprio pé.
Nos últimos dias,tentou-se fazer passar uma imagem de um líder pacifista, sempre disposto a estender a mão ao inimigo e quase conformado com aquilo que o poder vigente permitia. Nada mais errado. Como refere o filósofo João Maria de Freitas-Branco (jornal Público de 19 de Dezembro de 2013) o Apartheid é um crime que não tem perdão e, acrescento eu, não prescreve, façam as leis que fizerem para o colocarem num qualquer arquivo morto.

Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Pegou em armas para combater a injustiça. E pegou em armas porque a isso foi obrigado perante um poder racista que não permitia qualquer diálogo para alterar um status quo em que os brancos eram reis e senhores enquanto os negros viviam ostracizados e explorados. É importante reter este pormenor: Mandela foi um revolucionário.

Depois da prisão – 27 anos de prisão – a liberdade, em 1990, mostra a Mandela um mundo completamente diferente. O Muro de Berlim tinha caído, o império colonial português tinha terminado, a URSS iria desmoronar-se. O poder branco na África do Sul estava consciente das mudanças e sabia que para não perder tudo era obrigado a negociar. Nelson Mandela percebeu que iria ganhar e que o caminho para o fim do Apartheid estava traçado. Por isso aceitou negociar, por isso percebeu que com a vitória à vista não faria nenhum sentido enveredar por um caminho de vingança e de morte. De que serviria a vingança se o preço seria ainda mais sofrimento para o seu povo? A isto chama-se lucidez, nobreza, ética. Mas um verdadeiro revolucionário deve guiar a sua atitude por estes trilhos porque a revolução faz-se precisamente quando estes valores estão em causa.

Em Portugal, figuras com prática política a anos-luz da de Mandela, apressaram-se a tomar o comboio das carpideiras. Oportunistas descarados, intelectualmente desonestos, falaram de Madiba e de Tata sem terem a mínima noção do significado das palavras. Quiseram aproveitar o nome de Mandela para, deturpando a sua atitude revolucionária, oferecerem-no como o exemplo de como um povo deve ser pacífico mesmo perante as maiores atrocidades como aquelas que estão a ser executadas em Portugal. O que subtilmente pretenderam dizer aos que sofrem é que devem apertar a mão aos carcereiros e renunciar a qualquer acção que não se enquadre num pacifismo submisso.

Aqueles que pensam que ao elogiarem Mandela ascendem a um patamar semelhante, enganam-se; aqueles que pensam que ao falarem do homem que alegadamente perdoou o inimigo podem igualmente ser perdoados, enganam-se. Houve gente demais, com um passado de mentira e sangue nas mãos a colar-se ao exemplo de Nelson Mandela.

O exemplo de Mandela não é propriedade de ninguém mas tão só um exemplo inspirador para quem ama a Liberdade e combate os que se acham donos do Mundo. Apenas isso.
 
josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 22 de Dezembro de 2013

PS – para ver o significado de “Madiba”, “Tata” ir a http://www.nelsonmandela.org/content/page/names

terça-feira, 12 de novembro de 2013

10 anos depois, o cheiro da morte em Nassíria



Nassíria, sul do Iraque, 12 de Novembro de 2003, mais ou menos 10h45 (hora local), menos 3 horas em Lisboa. Tinha chegado a Nassíria na véspera e a noite tinha sido pouco dormida. Manhã cedo disse a Laith, meu tradutor e guia, para darmos uma volta pela cidade para, juntamente com a observação da véspera, alinhar umas ideias para o directo que planeava fazer no jornal das 8h00 da Antena 1. O Subagrupamento Alfa da GNR (128 homens) estava em Lisboa a preparar-se para entrar num avião com destino a Nassíria. Era o assunto do dia.
 
As notas do meu bloco assinalavam uma cidade calma, já com um calor sufocante e em que não havia sinais de hostilidade. Já estava a caminho do hotel onde tinha o satélite (dos grandes) quando o enorme estrondo abafado, seguido de uma forte deslocação de ar, fez levantar e quase virar o jipe em que seguíamos. O ar atravessou o jipe pelas janelas abertas e haveria de despedaçar as janelas do hotel a poucas centenas de metros. Seguiu-se uma chuva de flocos negros, pó e pedaços de tudo e mais alguma coisa. Olho para o local de onde sopra o “vento” e vejo um enorme cogumelo de fumo negro: uma explosão, quase de certeza um atentado.
 
Laith pára o carro e corremos pela rua paralela ao Rio Eufrates onde se instala a confusão. A Base Libeccio, uma das duas que a MSU tinha dentro de Nassíria e que apenas tinham uma ponte a separá-las, tinha sido atacada. Há carros em chamas, a base envolta em fumo, destroços por todo o lado, gente a chorar e a correr. A nuvem provocada pela explosão começa a dissipar-se, tento registar na memória tudo o que está à minha frente. Registo, registo, tento registar tudo e já só quero sair dali a correr para telefonar para a Antena 1. Mas é preciso tentar saber mais alguma coisa: onde estão os oficiais de ligação que a GNR já tinha em Nassíria? Alguns deles dormiam naquela base. Tarefa impossível naquele momento.
 
Com a frieza possível, defino prioridades: ir para o hotel e dar a notícia. Cerca de 400 metros a correr com Laith por entre homens armados. Surgiram armas de todos os lados numa cidade que tinha transmitido uma imagem diferente. Chegamos ao Hotel Al Janoob que não tinha vidros e encontro o meu quarto tapado com um manto de pó e vidros, das portas apenas os caixilhos. Ligo o telefone satélite, rebobino o filme que registei na memória uns minutos antes e despejo a informação. Mortos, muitos, de certeza, sem saber quantos. Provavelmente atentado.
 
De regresso ao local encontro o Major Mariz dos Santos (ainda tenho dificuldade em tratá-lo por Coronel…) e digo-lhe que naquele momento tem que me dar uma pequena entrevista: têm de o ouvir em Portugal. Afectado mas em condições emocionais de responder, o Major Mariz dos Santos diz-me que ninguém da GNR foi ferido e lembra-me de uma conversa que tivéramos na véspera: “Como eu disse tudo podia acontecer com o extremismo e isso está aqui à vista”. De facto, tinha deixado o alerta e já não tinha dúvidas de que tinha sido um atentado.
 
Os números oficiais referem 19 mortos italianos e 8 iraquianos, com 82 feridos registados no hospital de Nassíria. Ainda hoje não acredito que apenas tenham morrido apenas 8 iraquianos. Cheirava a morte nas margens do Eufrates. Em Lisboa a GNR entrava no avião para o Iraque.
 
Nesse dia 12 de Novembro, a sorte esteve com os jornalistas portugueses que estavam em Nassíria: Domingos Andrade, Alfredo Cunha (autor das fotos que ilustram este texto e às quais recorri porque as que eu próprio tirei ser-me-iam roubadas no dia seguinte…) e eu. O Domingos e o Alfredo tinham estado na base atacada poucos minutos antes, eu estava a cerca de 200 metros, e os três tínhamos estado lá no dia anterior.
À noite pedem-me um directo para a RTP mas os militares da MSU que já tinham cercado a zona não me autorizam a passar. O Comandante Di Pauli (dos Carabinieri) que nos tinha recebido na noite anterior com um grande sorriso de satisfação por estar a terminar a missão sem baixas, esteve à minha frente e não me reconheceu apesar de termos conversado longamente na noite anterior graças à sua facilidade em falar português.
 
Nesse dia, aquele atentado antes do meu directo, evitou que eu tivesse sido um jornalista “mentiroso”. A cidade calma que estava registada no meu bloco de notas não era Nassíria. Há dias que não se esquecem.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 12 de Novembro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Onde tem andado Durão Barroso?

Antes de meter as mãos nas notícias, leio as notícias do tempo em que estive sem saber do mundo. É um hábito. Nas páginas centrais do jornal Público de hoje (10.10.2013) vejo uma foto de Durão Barroso, com ar pesaroso, frente a várias urnas com corpos da mais recente tragédia ao largo de Lampedusa. Basta ler o “destaque” da notícia e a legenda da foto para sentir vómitos. Na primeira, diz Barroso que “uma coisa é ler os relatórios, outra é ver na televisão e outra coisa é estar aqui (Lampedusa), a sentir o sofrimento e a indignação das pessoas”; na segunda, diz Barroso que “A imagem de centenas de caixões nunca mais me sairá da cabeça”.


Que dizer destas frases, vindas de um homem que já foi Primeiro-Ministro de Portugal, é Presidente da Comissão Europeia já no segundo mandato e esteve na Cimeira das Lajes que marcou a guerra que começou em 2003 no Iraque? Que dizer de um homem que diz este tipo de coisas sendo ele um dos principais responsáveis políticos do nosso tempo? Onde tem andado Barroso? Um homem que ajuda a declarar guerras e que se mostra embevecido apenas por poder falar com um presidente norte-americano (no caso George W. Bush) tem depois a coragem de assumir publicamente que nunca viu centenas de urnas assim juntinhas; que nunca sentiu o cheiro da morte por grosso a não ser pela televisão ou que tem imagens (que só agora viu) e que não lhe vão sair da cabeça. Barroso parece querer dizer que não sabe o que se passou (e passa) no Iraque; que não sabe o que se passa na Síria; que não sabe o que se passa no Egipto ou na Líbia… Ou Barroso está ser hipócrita ou mostrou ser um homem do mundo mas sem mundo real; conhece o mundo dos palácios, mas não conhece o povo e as ruas; Barroso nunca viu terra queimada com gente a viver em ruínas, crianças semi-nuas a brincar em lixeiras; gente à espera de um qualquer apoio alimentar chegado do chamado “mundo ocidental”.

No mundo de Barroso tudo se resume a uma solução simples: quando a consciência pesa demais arranja um pacote de promessas e convence a União a passar um cheque! E vai para casa descansado, sem imagens que o atormentem.

Que raio de gente nos havia de calhar em sorte.

José Manuel Rosendo

Pinhal Novo, 10 de Outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Abstenção mostra falta de credibilidade do sistema político

 
Não estamos no Afeganistão (na foto), mas o que dizer de umas eleições em que a abstenção nacional foi 47,4%, os votos brancos 3,87% e os votos nulos 2,95%? Por grosso, meio país demitiu-se, recusou, protestou, não quis saber, simplesmente não escolheu os autarcas que vão governar as câmaras e juntas de freguesia do país. Saber por que é que isto aconteceu terá sempre um resultado subjectivo. Mas reduzindo a questão à escala que melhor conheço, e que por si só não explica o todo do país, pode dar uma ajuda.
 
 
Na minha Freguesia (Pinhal Novo, concelho de Palmela) a abstenção atingiu o número assustador de 62,50% e a soma dos votos brancos e nulos é superior a 8%. Os que escolheram representantes, na minha Freguesia, são menos de um terço dos eleitores inscritos. Se eu fosse um dos eleitos sentiria a minha legitimidade ferida e sentiria que estava a fazer parte de um sistema que as pessoas não reconhecem.
 
Pode ser apontado um número quase ilimitado de motivos para este alheamento das pessoas na escolha dos representantes autárquicos. Desde logo o facto de o próprio poder não incentivar a cidadania; o afastamento generalizado da vida partidária; também a ausência de alternativas credíveis aos poderes instituídos; a teia de interesses que se estabelece na maioria dos municípios, e por aí fora.
Há outro aspecto que me parece interessante e que tem a ver com a escassez de informação. Vivemos na era das redes sociais mas isso apenas significa que há mais comunicação, não significa que exista mais e melhor informação. Por vezes há quem não entenda a diferença, mas ela é importante. Mais importante ainda quando rádios e jornais locais têm uma penetração limitadíssima.
 
Regressando à escala que conheço melhor – a minha Freguesia – devo dizer que nem um papelinho com a cara ou o programa de um candidato chegou à minha mão. Ao votar, sabia quem eram os candidatos e o que propunham porque, num misto de deformação profissional e simples necessidade de estar informado, tinha feito uma pesquisa para encontrar essa informação. Poderão dizer-me que qualquer cidadão devia fazer o mesmo, mas sabem que não é assim que funciona.
 
Também não deixa de ser curioso que Álvaro Amaro (CDU), o presidente agora eleito da Câmara (de Palmela – que inclui a minha Freguesia) tenha dito, numa entrevista em Maio de 2000, que “nunca serei candidato à presidência da Câmara de Palmela. Se alguma vez discutir com o meu partido a candidatura a uma Câmara Municipal será à de Pinhal Novo” (convém dizer que foi num momento em que se reivindicava a elevação de Pinhal Novo a concelho). Talvez isso explique que a CDU (que sempre governou Palmela) tinha 5 vereadores contra 2 da oposição – Palmela passou de 7 (em 2009) para 9 vereadores (em 2013) – tenha agora os mesmo 5 vereadores para 4 da oposição.
 
Sendo personalidades diferentes e não querendo fazer uma comparação abusiva, se juntarmos esta declaração de Álvaro Amaro (agora atirada às urtigas) à recente demissão do então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, que era irrevogável e deixou de ser, ou às manifestações populares de apoio a Isaltino Morais (preso na Carregueira), encontramos exemplos que levam as pessoas a não votar ou a encararem a política apenas como um jogo de interesses que nada tem a ver com o essencial do que devia ser a nobre arte da política. Portas terá razões para ter voltado atrás; Álvaro Amaro poderá ter razões para alterar a atitude em relação à candidatura à presidência da Câmara de Palmela; Isaltino pode reclamar inocência; mas o povo regista.
 
Outro aspecto que merece um sublinhado destas eleições foi o de ver Paulo Portas  a celebrar o que designou por “penta” (conquistou cinco câmaras municipais) do CDS ao mesmo tempo que um solitário Pedro Passos Coelho assumia a derrota do PSD. Dois parceiros de coligação de Governo – um faz a festa, o outro limpa as lágrimas. O sistema está podre, cheira mal, mas insiste em tapar o nariz com os dedos para não sentir o próprio cheiro.
 
A nível nacional a frieza dos números é reveladora: cerca de 340 mil pessoas foram às urnas escrever uma asneira no boletim de voto, simplesmente riscá-lo de alto a baixo ou então deixá-lo em branco; cerca de 4 milhões e 500 mil portugueses simplesmente não foram votar. A abstenção tem vindo a subir e ninguém arrepia caminho. Estes portugueses desiludidos (digo eu…) são terreno fértil para propostas populistas que podem ter um resultado perigoso e de que temos exemplos tenebrosos. Os que andam agora a fazer asneira que não venham depois carpir mágoas. Quem não está na política com ética e sentido de dever devia sentir vergonha porque está a hipotecar a Democracia e a Liberdade.
 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 30 de Setembro de 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Egipto - Tahrir não foi para isto



(foto: jmr. Praça Tahrir, 7 de Fevereiro de 2011)

Esta quarta-feira, 14 de Agosto de 2013, quebrou-se algo muito importante no tecido e na coesão social do Egipto: o exército divorciou-se do povo. Há centenas de mortos e feridos.
No início de 2011, no Cairo, em plena revolta popular que haveria de fazer cair Moubarak, exército e povo estavam de mãos-dadas com a população a oferecer flores aos militares na Praça Tahrir. Relatei esses momentos na Antena 1 e, inevitavelmente, comparei-os às imagens do 25 de Abril em Portugal. Por esses dias o exército egípcio declarou que não iria disparar contra o seu próprio povo e foi esse o momento em que Moubarak sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Esta quarta-feira tudo mudou. O exército esteve ao lado da polícia no ataque aos locais onde se concentravam os apoiantes do presidente deposto e é ele, o Exército, quem detém o verdadeiro poder no Egipto. Mas, como dizia um analista na Al Jazeera (perdoem-me não ter memorizado o nome…) os militares têm uma dificuldade: olham para os problemas políticos e vêm um problema de segurança.

É também necessário ter alguns factos (sim, factos!) importantes em conta: Mohamed Morsi, o presidente deposto foi eleito democraticamente; o Partido da Liberdade e da Justiça (da Irmandade Muçulmana) venceu as eleições legislativas; a Constituição foi referendada. Posto isto convém reter que um golpe militar não é necessariamente mau (veja-se o 25 de Abril em Portugal) e um poder político saído da legitimidade das urnas não é obrigatoriamente democrático nem goza de legitimidade intocável.

Outro aspecto a ter em conta é que desde há pelo menos três décadas que os USA despejam milhares de milhões de dólares em “ajuda” militar e formam os oficiais egípcios. Há também um Tratado de Paz com Israel que faz tremer muitas chancelarias só de pensarem que pode ser posto em causa.

Por outro lado, não vai longe o discurso de Barack Obama no Cairo (Junho de 2009). Uma das interpretações desse discurso de Obama foi a de que terá dado luz verde ao que viria a ser a “Primavera Árabe”. Obama falou de democracia num país governado por Moubarak, durante décadas, com mão de ferro. Mas aquela região do Mundo já sabe quão confiáveis são as propostas ocidentais e, em particular, as norte-americanas. Basta verificar os factos. Basta que nos lembremos como os xiitas iraquianos foram “abandonados” pelos USA durante a I Guerra do Golfo quando as tropas iraquianas fugiam para Bagdad.

Quanto ao Egipto, quando Moubarak começou a enfrentar as manifestações de protesto, os USA hesitaram… depois, quando houve o golpe militar, em Julho passado, os USA voltaram a hesitar (a terminologia utilizada quando se referem a esse momento é elucidativa) e agora, voltam a hesitar quando condenam a violência exercida contra os apoiantes de Morsi, mas antes disso já tinham ido ao Cairo “reconhecer” o poder político que saiu desse golpe militar. Isto é: os USA não querem a Irmandade Muçulmana no poder, mas também não querem “ter sangue nas mãos”. É a diplomacia no seu melhor. Da União Europeia não vale a pena falar. Catherine Ashton (que também foi ao Cairo depois do golpe militar numa atitude que significa um reconhecimento tácito do poder dos militares…) é um erro de casting. Tal como foi a nomeação de Tony Blair para representante do Quarteto nas negociações entre israelitas e palestinianos.
 
É bom que se diga que apesar de Moubarak ter caído o regime ficou. Militares e poder económico a ele associado ficou intocável. Não deixa de ser surpreendente que uma exército que sempre viveu na sombra de Moubarak, sob a qual não havia nem um cheirinho de democracia, esteja agora tão preocupado com essa mesma democracia depois de um ano de poder político da Irmandade Muçulmana.
 
A política tem sempre uma saída para as crises e para as guerras, mas neste momento quem consegue dizer como vai terminar esta crise no Egipto? Como é que a Irmandade Muçulmana vai sentar-se à mesa depois de ver morrer centenas de apoiantes e de ser afastada de um poder democraticamente conquistado. Como é que Obama poderia voltar ao Cairo para voltar a falar de democracia? Como é que Obama explicaria aos egípcios que depois de votarem para escolher um presidente e uma Constituição, pode aparecer alguém a dizer que afinal as eleições não contam?
 
Será conveniente não esquecer que a Irmandade Muçulmana é a instituição mais organizada do país e que nunca cedeu à repressão que sofreu durante décadas. Admitindo que a crise no Egipto pode ser resolvida com novas eleições, o que acontece a seguir se a Irmandade Muçulmana voltar a vencer? Outro golpe militar? E que os “europeus” não se fiquem a rir porque ainda muito recentemente na Europa, sim na Europa, assistimos à repetição de referendos apenas porque o resultado não foi o que os “democratas” pretendiam.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 15 de Agosto de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

E se houvesse um Referendo que nos colocasse uma pergunta terrível: Portugal deve acabar?

 Despaís, como suicidar um país? É o título do livro de Pedro Sena-Lino, um romance-provocação que encaixa que nem uma luva no momento que estamos a viver. Do drama de um país a desmanchar-se à coincidência, em muitos pontos, entre personagens e actuais governantes. Que a pergunta nunca se coloque, diz o autor e digo eu também. Não vá alguém aproveitar a ideia...
É só ouvir.