terça-feira, 15 de março de 2016

Rússia retira forças militares da Síria. A guerra vai continuar…


Assim, sem ninguém esperar, a Rússia decide retirar parte da sua força militar que participa na guerra na Síria desde 30 de Setembro do ano passado. Putin decide, Putin anuncia, e a demora nas reacções apenas demonstra que toda a gente foi apanhada de surpresa. Silêncio em Washington, silêncio em Bruxelas, silêncio…

A Rússia retira mas mantém a presença no porto de Tartus e na base aérea na região de Latakia. Os aviões russos, diz Moscovo, vão vigiar um cessar-fogo que nunca o chegou a ser com todas as partes a acusarem-se mutuamente de violações da trégua.

A partir de agora: diplomacia. Para consumo da opinião pública é este o posicionamento determinado por Putin. O Presidente russo considera que o objectivo foi atingido, entenda-se que foi conseguido “mudar radicalmente a situação na luta contra o terrorismo, desorganizar as infra-estruturas dos inimigos e atingi-los com um golpe importante”. Isto quer dizer uma de duas coisas: o Kremlin considera que, apenas com o recurso aos ataques aéreos, já fez o que era possível fazer (intensificar os bombardeamentos poderia ter um custo político contraproducente…) e que as forças do governo sírio reconquistaram poder face a inimigos muito fragilizados. A Rússia considera que cortou as fontes de abastecimento dos “terroristas”, que muitas regiões controladas por “terroristas” estão isoladas e que o exército sírio recuperou milhares de quilómetros quadrados de território e controla agora cidades importantes, como por exemplo Alepo. Certamente que Putin terá boa informação, mas é algo que está por confirmar.

O que parece evidente é que Putin sente que pode fazer o que quer, desde logo porque sabe que europeus e norte-americanos não vão meter os pés na Síria, e para já a situação está controlada. Por outro lado, a faceta pacificadora que resulta desta retirada dá à Rússia mais força negocial em Genebra. O Kremlin foi claro neste aspecto: “O trabalho dos nossos militares criou as condições para o início do processo de paz”. É certo que a posição de Bashar al Assad é agora mais forte e a oposição chamada de moderada está mais fragilizada, mas há um aspecto que parece incontornável: a oposição não aceita que Assad continue Presidente e Assad não aceita sequer que a presidência seja assunto das negociações (o regime sírio diz que é uma linha vermelha).

Com Barack Obama em final de mandato, Vladimir Putin marca o compasso da agenda internacional. Não deixa de ser estranho que Putin, depois de alinhar com Obama no cessar-fogo, decida sair parcialmente da Síria sem uma palavra aos norte-americanos. Ainda assim, a estratégia de Putin é clara: maior influência no Médio Oriente. Uma estratégia que não deixa grande margem para os críticos porque há sempre a possibilidade de comparação com a estratégia norte-americana. Basta que nos lembremos da retirada norte-americana do Iraque (2011) e do Afeganistão após longos anos de ocupação: nestes dois casos qual foi o objectivo atingido? Pois… o mesmo acontece agora com a Rússia: qual foi o objectivo atingido? A organização Estado Islâmico continua activa, a oposição considerada moderada está debilitada mas não desiste, os curdos tentam ganhar terreno e influência, o Irão continua com o aliado Assad no poder, a Turquia continua a sofrer atentados e a apontar o dedo aos curdos e a limitar a liberdade de imprensa.

Em cima da mesa está ainda a Resolução das Nações Unidas, aprovada por unanimidade em Dezembro de 2015, que estabelece um processo de solução política: negociações entre oposição e o regime; cessar-fogo; um governo de transição a designar até Junho e eleições até Junho de 2017. Eleições? Na Síria? Alguém acredita?

A diplomacia esconde sempre alguma coisa e está por saber qual é o real objectivo de Vladimir Putin, sendo certo que o Kremlin disse que no telefonema em que Putin comunicou a Assad que as tropas russas iriam retirar, o futuro do Presidente sírio não foi abordado. Uma pequena Síria, com Assad no poder, que garanta a presença russa na região, será suficiente? Uma Síria federal poderá ser uma solução? Muitas soluções se podem colocar, mas não há nenhuma que satisfaça todos os intervenientes nesta guerra.

Pinhal Novo, 15 de Março de 2016

josé manuel rosendo

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Turquia à procura de uma política externa


A Turquia está mal com a Rússia, está mal com a Síria de Bashar al Assad, está assim-assim com Israel, está assim-assim com a NATO e os Estados Unidos, e não se sabe como está com a União Europeia. Nem é preciso falar da questão curda, porque a Turquia continua a bombardear posições dos curdos na Síria. Com os curdos iraquianos a questão é diferente. Depois, continua a ser acusada de apoiar alguns grupos extremistas envolvidos na guerra na Síria. A par disso, em termos internos, a maioria das atitudes do governo turco contrariam os valores que deviam ser respeitados atendendo a uma eventual entrada na União Europeia, nomeadamente os vários ataques à liberdade de imprensa. Isto significa que a chamada política “zero problemas” com os vizinhos é já um assunto do passado. Já não existe.

O actual Primeiro-Ministro turco, Ahmet Davutoglu é o teórico da política externa turca dos últimos anos. Em termos gerais, a política de “zero problemas” com a vizinhança assentava na ideia da estabilidade regional para o desenvolvimento da Turquia e o país colocava as questões económicas no topo da agenda das relações internacionais. O líder do PKK, Abdullah Ocalan estava preso, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (de Erdogan) estava no poder e a Turquia queria aderir à União Europeia. Duas destas premissas mantêm-se, mas quanto à União Europeia, as dúvidas são muitas.

Quando eclodiram as revoltas da Primavera Árabe, a Turquia foi apontada como possível modelo e exemplo a seguir. Um país muçulmano, em que o Estado, dizia-se, estava separado do poder religioso. O Ocidente achava que sim e que podia ser essa a fórmula para travar os movimentos islamistas nos países da Primavera Árabe. E a Turquia também gostou da ideia. Aliás, a possibilidade da Turquia retomar influência nos países em ebulição no Mediterrâneo Oriental e no Norte de África seria assim como que um regresso ao antigo espaço do Império Otomano. A Turquia tinha ainda o lastro da zanga com Israel por causa do ataque israelita ao navio turco que tentou furar o bloqueio à Faixa de Gaza e bater o pé a Israel é sempre algo muito simpático para o mundo árabe. 

Em determinado momento, a Turquia apostou claramente na aproximação aos vizinhos, na tentativa de ganhar influência regional em detrimento da aproximação ao Ocidente e à União Europeia, embora nunca tenha assumido essa estratégia. O problema é que quase tudo mudou. Ocalan continua preso e Erdogan no poder, mas o Irão está mais forte, as relações com Israel foram normalizadas, os curdos marcam pontos e a aposta turca na queda de Assad demora a concretizar-se. Entretanto a Turquia está inundada de refugiados e enfrenta uma maior actividade dos independentistas curdos. A Turquia parece que voltou a aproximar-se do Ocidente e da União Europeia (pelo menos para receber o cheque de apoio aos refugiados que a União Europeia não quer ver chegar ao velho Continente), mas a política “zero problemas” está definitivamente enterrada.

A Turquia, por imposição da geografia, é de facto a ponte entre o Ocidente e o Oriente, mas aproveitar essa mais-valia para construir uma política externa coerente e sem demasiadas ambiguidades é uma tarefa difícil quando tudo à volta parece estar a desmoronar-se. Talvez por isso, a política externa da Turquia parece um barco de refugiados perdido no Mar Egeu, movido a remos e muito ao sabor das marés. Veremos qual a terra firma a que vai chegar.

Pinhal Novo, 9 de Março de 2016

josé manuel rosendo

quinta-feira, 3 de março de 2016

O DIA EM QUE OS MÉDICOS COMPRARAM AS AGÊNCIAS FUNERÁRIAS (Sem ofensa para médicos nem agentes funerários)

Uma ex-ministra das finanças e actual deputada confirmou que está "iminente" a sua nomeação para administradora não executiva de uma empresa que tem clientes em Portugal como o Banif, Millenium BCP, Montepio e outros. A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, referiu-se à dita empresa como "uma empresa que, enquanto o sistema financeiro era tutelado por Maria Luís Albuquerque, fez dinheiro comprando crédito malparado ao Banif. A Arrow Global é também dona de empresas portuguesas, como a Whitestar, que é a empresa que neste momento avalia os activos do Banif que o Santander não quis e que estão no Estado". 

O Boss da dita empresa disse que a ex-ministra "vai enriquecer" o grupo. A ex-ministra, por seu lado, fez sair um curto comunicado em que afirma não haver "nenhuma incompatibilidade ou impedimento legal pelo facto de ter sido Ministra de estado e das Finanças e de ser deputada", acrescentando que "nenhuma decisão tomada pela empresa no passado foi condicionada ou influenciada por qualquer tipo de decisão que eu tenha tomado".


Estes são os factos e o problema vem a seguir: é que quando acontece este cruzamento de interesses todas as perguntas são legítimas. Em relação ao futuro, mas também em relação ao passado. Desde logo a de saber se as decisões tomadas pela então ministra não estariam já condicionadas por uma qualquer perspectiva de actividade futura. Será isto lançar uma suspeita? Não, não é. O problema existe e a questão coloca-se precisamente porque há um conflito de interesses evidente entre um governante com uma determinada tutela que vai trabalhar para uma empresa com interesses directos na área que tutelou. 

Aliás, existe uma recomendação do Conselho de Prevenção da Corrupção, de Novembro de 2012 ("Conflito de Interesses no Sector Público") que tem uma passagem muito clara que a ex-governante não deve ter lido: "Podem igualmente ser geradoras de conflitos de interesses, situações que envolvam trabalhadores que deixaram o cargo público para assumirem funções privadas, como trabalhadores, consultores ou outras, porque participaram, directa ou indirectamente, em decisões que envolveram a entidade privada na qual ingressaram, ou tiveram acesso a informação privilegiada com interesse para essa entidade privada ou, também, porque podem ainda ter influência na entidade pública onde exerceram funções, através de ex-colaboradores". 

Naturalmente que nada é ilegal neste país... 

Pinhal Novo, 3 de Março de 2016
josé manuel rosendo

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Cessar-fogo na Síria? À meia-noite logo se vê…


O calar das armas está previsto para a meia-noite (10h00 GMT) de Damasco nesta sexta-feira. O anúncio foi feito por Estados Unidos e Rússia, mas desde logo o próprio Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse perante o Senado que é preciso esperar para ver. A Casa Branca disse que o acordo significa que há uma evolução; o Kremlin disse que o acordo pode transformar radicalmente a situação na Síria.

O anúncio de cessar-fogo deixa no entanto algumas janelas abertas por onde as armas podem continuar a disparar. Avisa desde logo que “as acções militares, incluindo ataques aéreos das forças armadas da Síria, da Rússia e da coligação liderada pelos Estados Unidos, contra o Estado Islâmico e a Front al Nusra (Al Qaeda) e outras organizações consideradas ‘terroristas’ pelo Conselho de Segurança da ONU, vão continuar”. Os que anunciam a trégua dizem também que vão trabalhar em conjunto para delinear a fronteira dos territórios sob controlo dos que ficam de fora deste acordo. Significa que vão dizer quais são os territórios que vão continuar a ser bombardeados pelos que anunciam o cessar-fogo.

De facto, desde logo, este é um cessar-fogo anunciado após conversações em que muitos dos intervenientes ficaram de fora. E não apenas o Estado Islâmico e a Front al Nusra. Há uma quantidade enorme de grupos ditos “jihadistas” e moderados que não foram achados nem ouvidos. É certo que é um passo enquanto estão suspensas as conversações mais alargadas em Genebra. Também é certo que este passo pode influenciar essas conversações se e quando forem retomadas. Mas é bom reter o potencial de tudo poder correr mal.

Há comandantes de grupos afectos ao Exército Livre da Síria (oposição considerada moderada) que já disseram que esta trégua é a cobertura para que as forças de Bashar al Assad e os aliados russos continuem a atacar bolsas de território onde estão grupos rebeldes argumentando que estão a atacar a Front al Nusra. A confusão no terreno é enorme e este receio parece legítimo. Os rebeldes moderados dizem isso mesmo: é impossível delimitar o terreno onde estão “rebeldes moderados” e “Jihadistas” da al Nusra (presentes em Idlib, Alepo, Damasco e em regiões do sul).

O comandante da brigada do Exército Livre da Síria em Alepo, Major Ammar al Wawi, foi muito específico: “A Front al Nusra tem combatentes no terreno ao lado das brigadas rebeldes na maior parte da Síria, e é um parceiro na luta tal como a maioria das brigadas que estiveram na conferência de Riad (Conferência que juntou muitos grupos da oposição e que terminou sem resultados práticos)”.

Outro porta-voz do Free Tribes Army disse estar disposto a aceitar um cessar-fogo que pare o banho de sangue mas lembra que este acordo não tem legitimidade porque não inclui alguns dos grupos que combatem o regime de Assad. Este representante repete a ideia de que vão ser bombardeados com o argumento de que são ataques contra a Al Nusra e avisa que não se compromete com um cessar-fogo se isso não for do interesse do povo sírio.

Da Front al Nusra, o que se sabe é que levantou postos de controlo, retirou combatentes e juízes da cidade de Sarmada, na província de Idlib, a seis quilómetros da fronteira com a Turquia. Um juiz da cidade diz que estas medidas pretendem retirar argumentos a quem quer atacar a al Nusra e evitar bombardeamentos em zonas civis, mas diz que não acredita que isso não aconteça: “para ser honesto, não acredito. Mas a al Nusra está a tentar jogar o mesmo jogo, assim não haverá desculpas”.

Do lado dos curdos, as Unidades de Protecção Popular (YPG) comprometem-se prometem respeitar o cessar-fogo mas reservam o direito de ripostar se forem atacadas. A Turquia considera que não está vinculada ao acordo e reserva-se o direito de ripostar se for atacada pelas YPG. A juntar a tudo isto, chegam por estes dias à Turquia os aviões sauditas que vão participar nos bombardeamentos contra o Estado Islâmico.

Faltam poucas horas para a entrada em vigor do cessar-fogo de duas semanas. Rapidamente vamos perceber se as armas vão ficar caladas.

Pinhal Novo, 26 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

sábado, 20 de fevereiro de 2016

(Talvez) A hora dos curdos da Síria


E chegámos ao momento de saber quem é terrorista! Expressão máxima e mais recente desta questão é a de saber se as Unidades de Protecção Popular (YPG, braço militar do Partido da União Democrática – PYD – dos curdos da Síria) são terroristas. As YPG combatem o Estado Islâmico e (só às vezes) as forças do Exército Livre da Síria (oposição “moderada” a Bashar al Assad), com quem também já combateram lado a lado. O que as YPG pretendem é tão só expandir território e conquistar autonomia para esse território. É esse o objectivo dos curdos no Iraque e na Síria. Aliás, o Presidente do Curdistão Iraquiano, Massoud Barzani, disse recentemente que o tempo do acordo Sykes-Picot (que, há precisamente 100 anos, dividiu os territórios do antigo Império Otomano e deixou os curdos à espera de um Estado…) terminou. Barzani dirigiu-se aos líderes mundiais e disse algo muito simples: independentemente do que digam e de aceitarem ou não, é esta a realidade no terreno! E esta é talvez a mais complicada questão que se coloca na região logo a seguir ao Estado Islâmico. Uma questão que deixa a Turquia irritadíssima.

Depois do atentado (28 mortos) de 17 de Fevereiro em Ankara, a Turquia apontou baterias aos curdos. O PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) foi acusado da autoria do atentado, tal como as YPG. Ambos negaram, mas dois dias depois os Falcões da Liberdade do Curdistão, grupo próximo do PKK, reivindicaram esse atentado feito na via pública mas que visou viaturas militares. O argumento foi o de ser uma resposta à actuação das forças militares turcas na região de Cizré (Curdistão turco) onde muitos curdos têm sido mortos.

É com este cenário que a Turquia intensifica os bombardeamentos da artilharia contra a região curda da Síria. E é com este argumento que a Turquia tenta convencer os aliados ocidentais de que é necessária um intervenção militar terrestre no norte da Síria. O problema é que para os Estados Unidos as YPG não têm o carimbo de “terroristas” e têm demonstrado ser uma força importante na contenção do Estado Islâmico. Por outro lado, as YPG e outras forças curdas aliaram-se com várias tribos sunitas do norte da Síria e formaram em Outubro passado as Forças Democráticas da Síria que têm sido apoiadas pelos bombardeamentos aéreos dos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico e na consequente expansão territorial.

Temos pois um problema que assenta numa velha questão: os que são terroristas para uns, são combatentes da liberdade para outros. Sempre assim foi e dificilmente deixará de ser. Saber quem deve ser colocado na lista de “terroristas” é também o que está a entravar as negociações de Genebra sobre a guerra na Síria, suspensas a 3 de Fevereiro e com recomeço previsto para 25 de Fevereiro.

Esta sexta-feira (19), houve uma declaração que passou sem a devida atenção: o Embaixador russo nas Nações Unidas, Vitail Tchourkine avisou o Presidente sírio Bashar al Assad contra a intenção declarada de reconquistar todo o território sírio num momento em que a diplomacia fala da necessidade de um cessar-fogo. Como se sabe a Rússia também apoia as YPG e não foi por acaso que os curdos da Síria abriram uma representação em Moscovo. Pode ser que esteja a chegar a hora dos curdos da Síria.

Pinhal Novo, 20 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Dilema da NATO: apoiar os curdos ou a Turquia?

                                O Rio Eufrates separa a província de Kobani da de Afrin. É a
                                de Afrin que a Turquia não quer permitir que seja controlada 
                                pelos curdos das Unidades de Protecção Popular mesmo que
                                esteja lá o Estado Islâmico (foto Outubro de 2015)


A Turquia pode não estar a ganhar a guerra, mas está a marcar pontos onde mais directamente lhe interessa: está a bombardear os curdos, no caso os curdos da Síria! É certo que é uma estratégia de curto prazo, mas retardar qualquer ganho territorial ou acréscimo de autonomia curda é algo que sempre agrada a Ankara. Não deixa de ser curioso que a Turquia nunca tenha ameaçado uma intervenção militar na Síria para enfrentar e combater o Estado Islâmico, mas que o faça agora (tal como a Arábia Saudita) perante o avanço curdo que tenta criar uma continuidade territorial junto à fronteira com a Turquia, ligando as províncias de Jazira e Kobani a Afrin (até agora controlada pelo Estado Islâmico, não se sabendo exactamente qual é o poder dos extremistas nesta região). 

Há três dias que Turquia bombardeia posições curdas na província de Afrin, onde, diga-se também existiam bolsas controladas pelo Exército Livre da Síria (oposição considerada moderada). A situação é extremamente confusa com bombardeamentos que atingem escolas e hospitais, matando quase exclusivamente civis e provocando uma troca de acusações entre Estados Unidos, Rússia, Turquia, curdos e restantes intervenientes.

Relativamente à questão curda, convém reter que os curdos da Síria combateram ferozmente contra o Estado Islâmico e, ajudados pelos bombardeamentos aéreos norte-americanos, expulsaram os extremistas, empurrando-os para sul e para oeste, obrigando-os a atravessar o Rio Eufrates para a província de Afrin, onde agora decorrem os combates dos últimos dias. As milícias curdas das Unidades de Protecção Popular (YPG), braço armado do Partido da União Democrática (PYD), combateram sempre contra o Estado Islâmico. Umas vezes ao lado do Exército Livre da Síria, mas também contra este ramo da oposição quando se tratou de conquistar terreno para os curdos. Logo após o início da revolta contra o Presidente Bashar al Assad, os curdos preferiram uma espécie de neutralidade tentando tirar partido da luta que desgastava o poder sírio, espreitando uma oportunidade de alargar território e ganhar autonomia – a exemplo do que acontece com os curdos no Iraque.

Não deixa de ser irónico que o avanço curdo acabe por beneficiar o regime de Bashar al Assad, sendo que a aparente expansão do controlo curdo no norte da Síria não teria acontecido se não tivesse acontecido a revolta contra o regime sírio. Nos combates que decorrem neste momento, os curdos não estão alinhados nem com o regime de Assad, nem com os rebeldes considerados moderados, e ainda menos com o Estado islâmico ou com as diversas milícias islâmicas. 

Para a Turquia, o avanço curdo é o pior dos resultados nesta guerra na Síria. A Turquia regista a vantagem que Assad (e também a Rússia e o Irão) retira da luta curda e sabe que atingindo os curdos está a atingir Assad, a Rússia e o Irão. Os turcos olham o PYD como aliados do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e classificam os dois como organizações terroristas. Este é o ponto em que os aliados NATO (Turquia e os países ocidentais) divergem: o ocidente (que não se cansa de repetir que não quer colocar botas – homens – no terreno) vê os curdos como os mais capazes para combater o Estado Islâmico. Falta saber como é que a NATO vai resolver este dilema.

Curiosamente, quase que se deixou de ouvir falar de Estado Islâmico… parece ter cumprido a sua primeira missão: servir de argumento para um confronto entre potências regionais e entre as outras, as habituais, Estados Unidos e Rússia.

Pinhal Novo, 16 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Síria: uma guerra com muitas guerras dentro e a reformulação de fronteiras no Médio Oriente


A imagem que ilustra este texto é da “Radio Free Syria” (afecta à chamada oposição moderada) e serve apenas para dar uma ideia da situação e da quantidade dos actores envolvidos, mas não é totalmente elucidativa. Falta incluir nesta ilustração a participação da Turquia, Estados Unidos, vários países europeus, Arábia Saudita e outros países do Golfo. E nem vale a pena tentar imaginar a quantidade de “inteligence” no terreno. Seja como for a imagem reflecte o que sente essa oposição e o Free Syrian Army: abandonados por aqueles de quem esperavam apoio.

A guerra na Síria integra o potencial de várias guerras que podem chegar logo a seguir a um eventual colapso do Estado Islâmico na sua formatação actual e após ficar resolvida a questão de Bashar al Assad. Desde logo tem consequências muito directas no Iraque (Mossul e Kirkuk podem exacerbar os ânimos entre curdos e árabes sunitas) e, embora menos, também no Líbano, não se sabendo por agora qual a intensidade dessas consequências na estabilidade e segurança no país dos cedros. Na Turquia havemos de ver.

O que parece certo é que está em curso o tão falado redesenhar de fronteiras no Médio Oriente. O Iraque dificilmente voltará a ser o que era aquando da era Sadam Husseín; a Síria dificilmente voltará a ser o que era aquando da “dinastia” Assad; os curdos querem certamente retirar alguma vantagem do conflito, eventualmente alargando território no Iraque – conquistaram Kirkuk ao Estado Islâmico e não vão ceder a cidade ao governo de Bagdad; se os curdos da Síria também conseguirem juntar alguma autonomia à dos irmãos iraquianos é certo que os curdos da Turquia (são cerca de 15 milhões) vão ganhar um novo alento; os sunitas, mesmo que não queiram viver sob a selvajaria do Estado Islâmico vão querer o seu próprio território, quiçá uma parte da Síria a outra do Iraque; não está excluída a hipótese da constituição de um Estado alauíta para acomodar Bashar al Assad (mantendo assim o importante porto de Tartus ao serviço da Rússia). 

Como é evidente são soluções que têm muitos escolhos pelo caminho e não agradam a todos os intervenientes nesta guerra. Desde logo ao Irão que teria um importante aliado (Assad) a perder território. A Rússia poderá não estar pelos ajustes porque afinal acaba de assumir um protagonismo importante no Médio Oriente a juntar aos acordos celebrados recentemente com o Egipto. Quanto à Turquia não quer nem ouvir falar em mais autonomia curda. Os Estados Unidos e os europeus pedem agora um cessar-fogo mas durante todo este tempo nunca acertaram uma estratégia de apoio à oposição moderada na Síria.

Dos países do golfo, a Arábia Saudita declarou-se disponível para enviar tropas para o terreno (certamente para combater o regime de Assad, mas não se sabe ao lado de quem) e a Rússia, que já acusou a Turquia de estar a preparar uma invasão terrestre, disse entretanto que uma ofensiva terrestre estrangeira na Síria poderá desencadear uma nova guerra mundial. Até o “nosso” Durão Barroso, embora de forma mais suave e não falando especificamente da situação na Síria, admite que não é impossível uma guerra generalizada.

Em qualquer conflito de grande intensidade há sempre a sensação de que a desgraça não vai ter fim, mas vai chegar o momento em que as várias forças que combatem na Síria vão querer solidificar os ganhos conquistados – ou evitar perdas maiores desde que possam sobreviver – e vão aceitar acordos. A região poderá não ficar em paz e poderão subsistir conflitos mais localizados, mas a selvajaria actual acabará por ter fim. Será o momento de fixar as novas fronteiras e, eventualmente de assistir ao regresso (pelo menos de uma parte substancial) dos milhões que andam em fuga. Depois, as potências mais endinheiradas ditarão a reconstrução possível das regiões afectadas, garantindo benefícios do petróleo e de outros recursos.

Até lá, como sempre acontece, cada uma das partes desta guerra tenta os maiores ganhos possíveis no terreno de modo a ter mais força à mesa das negociações. Sempre assim foi e dificilmente deixará de ser.

Pinhal Novo, 13 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo