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domingo, 22 de dezembro de 2013

A utilização desonesta do exemplo de Mandela



Agora que o corpo de Mandela arrefeceu e o destempero dos comentários desapareceu, talvez seja tempo de dizer alguma coisa mais ponderada sobre Nelson Mandela. Nunca falei com Mandela, nunca estive na África do Sul, mas a dimensão de Mandela é universal.

Desde logo Nelson Mandela mostrou um democrático desapego pelo poder. Algo que muitos dos que derramaram lágrimas de crocodilo certamente nunca irão fazer. É certo que a idade de Mandela não permitiria muito mais, mas cumpriu um mandato como presidente e saiu pelo próprio pé.
Nos últimos dias,tentou-se fazer passar uma imagem de um líder pacifista, sempre disposto a estender a mão ao inimigo e quase conformado com aquilo que o poder vigente permitia. Nada mais errado. Como refere o filósofo João Maria de Freitas-Branco (jornal Público de 19 de Dezembro de 2013) o Apartheid é um crime que não tem perdão e, acrescento eu, não prescreve, façam as leis que fizerem para o colocarem num qualquer arquivo morto.

Mandela foi antes de tudo um revolucionário. Pegou em armas para combater a injustiça. E pegou em armas porque a isso foi obrigado perante um poder racista que não permitia qualquer diálogo para alterar um status quo em que os brancos eram reis e senhores enquanto os negros viviam ostracizados e explorados. É importante reter este pormenor: Mandela foi um revolucionário.

Depois da prisão – 27 anos de prisão – a liberdade, em 1990, mostra a Mandela um mundo completamente diferente. O Muro de Berlim tinha caído, o império colonial português tinha terminado, a URSS iria desmoronar-se. O poder branco na África do Sul estava consciente das mudanças e sabia que para não perder tudo era obrigado a negociar. Nelson Mandela percebeu que iria ganhar e que o caminho para o fim do Apartheid estava traçado. Por isso aceitou negociar, por isso percebeu que com a vitória à vista não faria nenhum sentido enveredar por um caminho de vingança e de morte. De que serviria a vingança se o preço seria ainda mais sofrimento para o seu povo? A isto chama-se lucidez, nobreza, ética. Mas um verdadeiro revolucionário deve guiar a sua atitude por estes trilhos porque a revolução faz-se precisamente quando estes valores estão em causa.

Em Portugal, figuras com prática política a anos-luz da de Mandela, apressaram-se a tomar o comboio das carpideiras. Oportunistas descarados, intelectualmente desonestos, falaram de Madiba e de Tata sem terem a mínima noção do significado das palavras. Quiseram aproveitar o nome de Mandela para, deturpando a sua atitude revolucionária, oferecerem-no como o exemplo de como um povo deve ser pacífico mesmo perante as maiores atrocidades como aquelas que estão a ser executadas em Portugal. O que subtilmente pretenderam dizer aos que sofrem é que devem apertar a mão aos carcereiros e renunciar a qualquer acção que não se enquadre num pacifismo submisso.

Aqueles que pensam que ao elogiarem Mandela ascendem a um patamar semelhante, enganam-se; aqueles que pensam que ao falarem do homem que alegadamente perdoou o inimigo podem igualmente ser perdoados, enganam-se. Houve gente demais, com um passado de mentira e sangue nas mãos a colar-se ao exemplo de Nelson Mandela.

O exemplo de Mandela não é propriedade de ninguém mas tão só um exemplo inspirador para quem ama a Liberdade e combate os que se acham donos do Mundo. Apenas isso.
 
josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 22 de Dezembro de 2013

PS – para ver o significado de “Madiba”, “Tata” ir a http://www.nelsonmandela.org/content/page/names

terça-feira, 12 de novembro de 2013

10 anos depois, o cheiro da morte em Nassíria



Nassíria, sul do Iraque, 12 de Novembro de 2003, mais ou menos 10h45 (hora local), menos 3 horas em Lisboa. Tinha chegado a Nassíria na véspera e a noite tinha sido pouco dormida. Manhã cedo disse a Laith, meu tradutor e guia, para darmos uma volta pela cidade para, juntamente com a observação da véspera, alinhar umas ideias para o directo que planeava fazer no jornal das 8h00 da Antena 1. O Subagrupamento Alfa da GNR (128 homens) estava em Lisboa a preparar-se para entrar num avião com destino a Nassíria. Era o assunto do dia.
 
As notas do meu bloco assinalavam uma cidade calma, já com um calor sufocante e em que não havia sinais de hostilidade. Já estava a caminho do hotel onde tinha o satélite (dos grandes) quando o enorme estrondo abafado, seguido de uma forte deslocação de ar, fez levantar e quase virar o jipe em que seguíamos. O ar atravessou o jipe pelas janelas abertas e haveria de despedaçar as janelas do hotel a poucas centenas de metros. Seguiu-se uma chuva de flocos negros, pó e pedaços de tudo e mais alguma coisa. Olho para o local de onde sopra o “vento” e vejo um enorme cogumelo de fumo negro: uma explosão, quase de certeza um atentado.
 
Laith pára o carro e corremos pela rua paralela ao Rio Eufrates onde se instala a confusão. A Base Libeccio, uma das duas que a MSU tinha dentro de Nassíria e que apenas tinham uma ponte a separá-las, tinha sido atacada. Há carros em chamas, a base envolta em fumo, destroços por todo o lado, gente a chorar e a correr. A nuvem provocada pela explosão começa a dissipar-se, tento registar na memória tudo o que está à minha frente. Registo, registo, tento registar tudo e já só quero sair dali a correr para telefonar para a Antena 1. Mas é preciso tentar saber mais alguma coisa: onde estão os oficiais de ligação que a GNR já tinha em Nassíria? Alguns deles dormiam naquela base. Tarefa impossível naquele momento.
 
Com a frieza possível, defino prioridades: ir para o hotel e dar a notícia. Cerca de 400 metros a correr com Laith por entre homens armados. Surgiram armas de todos os lados numa cidade que tinha transmitido uma imagem diferente. Chegamos ao Hotel Al Janoob que não tinha vidros e encontro o meu quarto tapado com um manto de pó e vidros, das portas apenas os caixilhos. Ligo o telefone satélite, rebobino o filme que registei na memória uns minutos antes e despejo a informação. Mortos, muitos, de certeza, sem saber quantos. Provavelmente atentado.
 
De regresso ao local encontro o Major Mariz dos Santos (ainda tenho dificuldade em tratá-lo por Coronel…) e digo-lhe que naquele momento tem que me dar uma pequena entrevista: têm de o ouvir em Portugal. Afectado mas em condições emocionais de responder, o Major Mariz dos Santos diz-me que ninguém da GNR foi ferido e lembra-me de uma conversa que tivéramos na véspera: “Como eu disse tudo podia acontecer com o extremismo e isso está aqui à vista”. De facto, tinha deixado o alerta e já não tinha dúvidas de que tinha sido um atentado.
 
Os números oficiais referem 19 mortos italianos e 8 iraquianos, com 82 feridos registados no hospital de Nassíria. Ainda hoje não acredito que apenas tenham morrido apenas 8 iraquianos. Cheirava a morte nas margens do Eufrates. Em Lisboa a GNR entrava no avião para o Iraque.
 
Nesse dia 12 de Novembro, a sorte esteve com os jornalistas portugueses que estavam em Nassíria: Domingos Andrade, Alfredo Cunha (autor das fotos que ilustram este texto e às quais recorri porque as que eu próprio tirei ser-me-iam roubadas no dia seguinte…) e eu. O Domingos e o Alfredo tinham estado na base atacada poucos minutos antes, eu estava a cerca de 200 metros, e os três tínhamos estado lá no dia anterior.
À noite pedem-me um directo para a RTP mas os militares da MSU que já tinham cercado a zona não me autorizam a passar. O Comandante Di Pauli (dos Carabinieri) que nos tinha recebido na noite anterior com um grande sorriso de satisfação por estar a terminar a missão sem baixas, esteve à minha frente e não me reconheceu apesar de termos conversado longamente na noite anterior graças à sua facilidade em falar português.
 
Nesse dia, aquele atentado antes do meu directo, evitou que eu tivesse sido um jornalista “mentiroso”. A cidade calma que estava registada no meu bloco de notas não era Nassíria. Há dias que não se esquecem.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 12 de Novembro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Onde tem andado Durão Barroso?

Antes de meter as mãos nas notícias, leio as notícias do tempo em que estive sem saber do mundo. É um hábito. Nas páginas centrais do jornal Público de hoje (10.10.2013) vejo uma foto de Durão Barroso, com ar pesaroso, frente a várias urnas com corpos da mais recente tragédia ao largo de Lampedusa. Basta ler o “destaque” da notícia e a legenda da foto para sentir vómitos. Na primeira, diz Barroso que “uma coisa é ler os relatórios, outra é ver na televisão e outra coisa é estar aqui (Lampedusa), a sentir o sofrimento e a indignação das pessoas”; na segunda, diz Barroso que “A imagem de centenas de caixões nunca mais me sairá da cabeça”.


Que dizer destas frases, vindas de um homem que já foi Primeiro-Ministro de Portugal, é Presidente da Comissão Europeia já no segundo mandato e esteve na Cimeira das Lajes que marcou a guerra que começou em 2003 no Iraque? Que dizer de um homem que diz este tipo de coisas sendo ele um dos principais responsáveis políticos do nosso tempo? Onde tem andado Barroso? Um homem que ajuda a declarar guerras e que se mostra embevecido apenas por poder falar com um presidente norte-americano (no caso George W. Bush) tem depois a coragem de assumir publicamente que nunca viu centenas de urnas assim juntinhas; que nunca sentiu o cheiro da morte por grosso a não ser pela televisão ou que tem imagens (que só agora viu) e que não lhe vão sair da cabeça. Barroso parece querer dizer que não sabe o que se passou (e passa) no Iraque; que não sabe o que se passa na Síria; que não sabe o que se passa no Egipto ou na Líbia… Ou Barroso está ser hipócrita ou mostrou ser um homem do mundo mas sem mundo real; conhece o mundo dos palácios, mas não conhece o povo e as ruas; Barroso nunca viu terra queimada com gente a viver em ruínas, crianças semi-nuas a brincar em lixeiras; gente à espera de um qualquer apoio alimentar chegado do chamado “mundo ocidental”.

No mundo de Barroso tudo se resume a uma solução simples: quando a consciência pesa demais arranja um pacote de promessas e convence a União a passar um cheque! E vai para casa descansado, sem imagens que o atormentem.

Que raio de gente nos havia de calhar em sorte.

José Manuel Rosendo

Pinhal Novo, 10 de Outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Abstenção mostra falta de credibilidade do sistema político

 
Não estamos no Afeganistão (na foto), mas o que dizer de umas eleições em que a abstenção nacional foi 47,4%, os votos brancos 3,87% e os votos nulos 2,95%? Por grosso, meio país demitiu-se, recusou, protestou, não quis saber, simplesmente não escolheu os autarcas que vão governar as câmaras e juntas de freguesia do país. Saber por que é que isto aconteceu terá sempre um resultado subjectivo. Mas reduzindo a questão à escala que melhor conheço, e que por si só não explica o todo do país, pode dar uma ajuda.
 
 
Na minha Freguesia (Pinhal Novo, concelho de Palmela) a abstenção atingiu o número assustador de 62,50% e a soma dos votos brancos e nulos é superior a 8%. Os que escolheram representantes, na minha Freguesia, são menos de um terço dos eleitores inscritos. Se eu fosse um dos eleitos sentiria a minha legitimidade ferida e sentiria que estava a fazer parte de um sistema que as pessoas não reconhecem.
 
Pode ser apontado um número quase ilimitado de motivos para este alheamento das pessoas na escolha dos representantes autárquicos. Desde logo o facto de o próprio poder não incentivar a cidadania; o afastamento generalizado da vida partidária; também a ausência de alternativas credíveis aos poderes instituídos; a teia de interesses que se estabelece na maioria dos municípios, e por aí fora.
Há outro aspecto que me parece interessante e que tem a ver com a escassez de informação. Vivemos na era das redes sociais mas isso apenas significa que há mais comunicação, não significa que exista mais e melhor informação. Por vezes há quem não entenda a diferença, mas ela é importante. Mais importante ainda quando rádios e jornais locais têm uma penetração limitadíssima.
 
Regressando à escala que conheço melhor – a minha Freguesia – devo dizer que nem um papelinho com a cara ou o programa de um candidato chegou à minha mão. Ao votar, sabia quem eram os candidatos e o que propunham porque, num misto de deformação profissional e simples necessidade de estar informado, tinha feito uma pesquisa para encontrar essa informação. Poderão dizer-me que qualquer cidadão devia fazer o mesmo, mas sabem que não é assim que funciona.
 
Também não deixa de ser curioso que Álvaro Amaro (CDU), o presidente agora eleito da Câmara (de Palmela – que inclui a minha Freguesia) tenha dito, numa entrevista em Maio de 2000, que “nunca serei candidato à presidência da Câmara de Palmela. Se alguma vez discutir com o meu partido a candidatura a uma Câmara Municipal será à de Pinhal Novo” (convém dizer que foi num momento em que se reivindicava a elevação de Pinhal Novo a concelho). Talvez isso explique que a CDU (que sempre governou Palmela) tinha 5 vereadores contra 2 da oposição – Palmela passou de 7 (em 2009) para 9 vereadores (em 2013) – tenha agora os mesmo 5 vereadores para 4 da oposição.
 
Sendo personalidades diferentes e não querendo fazer uma comparação abusiva, se juntarmos esta declaração de Álvaro Amaro (agora atirada às urtigas) à recente demissão do então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, que era irrevogável e deixou de ser, ou às manifestações populares de apoio a Isaltino Morais (preso na Carregueira), encontramos exemplos que levam as pessoas a não votar ou a encararem a política apenas como um jogo de interesses que nada tem a ver com o essencial do que devia ser a nobre arte da política. Portas terá razões para ter voltado atrás; Álvaro Amaro poderá ter razões para alterar a atitude em relação à candidatura à presidência da Câmara de Palmela; Isaltino pode reclamar inocência; mas o povo regista.
 
Outro aspecto que merece um sublinhado destas eleições foi o de ver Paulo Portas  a celebrar o que designou por “penta” (conquistou cinco câmaras municipais) do CDS ao mesmo tempo que um solitário Pedro Passos Coelho assumia a derrota do PSD. Dois parceiros de coligação de Governo – um faz a festa, o outro limpa as lágrimas. O sistema está podre, cheira mal, mas insiste em tapar o nariz com os dedos para não sentir o próprio cheiro.
 
A nível nacional a frieza dos números é reveladora: cerca de 340 mil pessoas foram às urnas escrever uma asneira no boletim de voto, simplesmente riscá-lo de alto a baixo ou então deixá-lo em branco; cerca de 4 milhões e 500 mil portugueses simplesmente não foram votar. A abstenção tem vindo a subir e ninguém arrepia caminho. Estes portugueses desiludidos (digo eu…) são terreno fértil para propostas populistas que podem ter um resultado perigoso e de que temos exemplos tenebrosos. Os que andam agora a fazer asneira que não venham depois carpir mágoas. Quem não está na política com ética e sentido de dever devia sentir vergonha porque está a hipotecar a Democracia e a Liberdade.
 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 30 de Setembro de 2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Egipto - Tahrir não foi para isto



(foto: jmr. Praça Tahrir, 7 de Fevereiro de 2011)

Esta quarta-feira, 14 de Agosto de 2013, quebrou-se algo muito importante no tecido e na coesão social do Egipto: o exército divorciou-se do povo. Há centenas de mortos e feridos.
No início de 2011, no Cairo, em plena revolta popular que haveria de fazer cair Moubarak, exército e povo estavam de mãos-dadas com a população a oferecer flores aos militares na Praça Tahrir. Relatei esses momentos na Antena 1 e, inevitavelmente, comparei-os às imagens do 25 de Abril em Portugal. Por esses dias o exército egípcio declarou que não iria disparar contra o seu próprio povo e foi esse o momento em que Moubarak sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Esta quarta-feira tudo mudou. O exército esteve ao lado da polícia no ataque aos locais onde se concentravam os apoiantes do presidente deposto e é ele, o Exército, quem detém o verdadeiro poder no Egipto. Mas, como dizia um analista na Al Jazeera (perdoem-me não ter memorizado o nome…) os militares têm uma dificuldade: olham para os problemas políticos e vêm um problema de segurança.

É também necessário ter alguns factos (sim, factos!) importantes em conta: Mohamed Morsi, o presidente deposto foi eleito democraticamente; o Partido da Liberdade e da Justiça (da Irmandade Muçulmana) venceu as eleições legislativas; a Constituição foi referendada. Posto isto convém reter que um golpe militar não é necessariamente mau (veja-se o 25 de Abril em Portugal) e um poder político saído da legitimidade das urnas não é obrigatoriamente democrático nem goza de legitimidade intocável.

Outro aspecto a ter em conta é que desde há pelo menos três décadas que os USA despejam milhares de milhões de dólares em “ajuda” militar e formam os oficiais egípcios. Há também um Tratado de Paz com Israel que faz tremer muitas chancelarias só de pensarem que pode ser posto em causa.

Por outro lado, não vai longe o discurso de Barack Obama no Cairo (Junho de 2009). Uma das interpretações desse discurso de Obama foi a de que terá dado luz verde ao que viria a ser a “Primavera Árabe”. Obama falou de democracia num país governado por Moubarak, durante décadas, com mão de ferro. Mas aquela região do Mundo já sabe quão confiáveis são as propostas ocidentais e, em particular, as norte-americanas. Basta verificar os factos. Basta que nos lembremos como os xiitas iraquianos foram “abandonados” pelos USA durante a I Guerra do Golfo quando as tropas iraquianas fugiam para Bagdad.

Quanto ao Egipto, quando Moubarak começou a enfrentar as manifestações de protesto, os USA hesitaram… depois, quando houve o golpe militar, em Julho passado, os USA voltaram a hesitar (a terminologia utilizada quando se referem a esse momento é elucidativa) e agora, voltam a hesitar quando condenam a violência exercida contra os apoiantes de Morsi, mas antes disso já tinham ido ao Cairo “reconhecer” o poder político que saiu desse golpe militar. Isto é: os USA não querem a Irmandade Muçulmana no poder, mas também não querem “ter sangue nas mãos”. É a diplomacia no seu melhor. Da União Europeia não vale a pena falar. Catherine Ashton (que também foi ao Cairo depois do golpe militar numa atitude que significa um reconhecimento tácito do poder dos militares…) é um erro de casting. Tal como foi a nomeação de Tony Blair para representante do Quarteto nas negociações entre israelitas e palestinianos.
 
É bom que se diga que apesar de Moubarak ter caído o regime ficou. Militares e poder económico a ele associado ficou intocável. Não deixa de ser surpreendente que uma exército que sempre viveu na sombra de Moubarak, sob a qual não havia nem um cheirinho de democracia, esteja agora tão preocupado com essa mesma democracia depois de um ano de poder político da Irmandade Muçulmana.
 
A política tem sempre uma saída para as crises e para as guerras, mas neste momento quem consegue dizer como vai terminar esta crise no Egipto? Como é que a Irmandade Muçulmana vai sentar-se à mesa depois de ver morrer centenas de apoiantes e de ser afastada de um poder democraticamente conquistado. Como é que Obama poderia voltar ao Cairo para voltar a falar de democracia? Como é que Obama explicaria aos egípcios que depois de votarem para escolher um presidente e uma Constituição, pode aparecer alguém a dizer que afinal as eleições não contam?
 
Será conveniente não esquecer que a Irmandade Muçulmana é a instituição mais organizada do país e que nunca cedeu à repressão que sofreu durante décadas. Admitindo que a crise no Egipto pode ser resolvida com novas eleições, o que acontece a seguir se a Irmandade Muçulmana voltar a vencer? Outro golpe militar? E que os “europeus” não se fiquem a rir porque ainda muito recentemente na Europa, sim na Europa, assistimos à repetição de referendos apenas porque o resultado não foi o que os “democratas” pretendiam.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 15 de Agosto de 2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

E se houvesse um Referendo que nos colocasse uma pergunta terrível: Portugal deve acabar?

 Despaís, como suicidar um país? É o título do livro de Pedro Sena-Lino, um romance-provocação que encaixa que nem uma luva no momento que estamos a viver. Do drama de um país a desmanchar-se à coincidência, em muitos pontos, entre personagens e actuais governantes. Que a pergunta nunca se coloque, diz o autor e digo eu também. Não vá alguém aproveitar a ideia...
É só ouvir.
 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Tenho opinião, quero ter opinião, não abdico de ter opinião. Em nome da Liberdade.




Estou cansado dos que me tentam convencer que, por ser jornalista, não posso/devo tornar pública a minha opinião sobre tudo aquilo que bem me apetecer: política, economia, futebol, decisões do Governo ou do Presidente da República, a guerra no Afeganistão, a Primavera Árabe, o aquecimento global, o casamento gay…
Muitas vezes, os que assim pensam (que não devo ter opinião), argumentam que isso me fragiliza se alguma vez tiver que entrevistar ou escrever notícias sobre protagonistas a quem eventualmente tenha criticado uma decisão ou uma atitude. Este tipo de argumento que procura condicionar a minha Liberdade, mais não é do que um convite ao pensamento único (regra geral o dos que têm poder, seja ele qual for, porque são eles os potenciais entrevistados ou protagonistas em relação aos quais me posso sentir fragilizado…) ou então é um convite para que seja um jornalista “bem-comportado”, que guarde para mim as minhas opiniões, que me limite a ser um bom pastor do respeitinho bonito e devido a quem manda, não vá aparecer a polícia dos costumes a cortar-me a língua.
 
Estou cansado desta lenga-lenga. Quem quer guardar opiniões que o faça; quem quer ser “bem-comportado” que o seja; quem tem medo que lhe cortem a língua que compre um cão. Ter opinião sobre a vida e sobre a sociedade (é isso a política) não é o mesmo que ser adepto de um clube de futebol. A opinião política (no sentido de que isso é ter opinião sobre a nossa vida) é racional, sustentada ideológica e por vezes cientificamente; as opções clubísticas são irracionais, são afectos que só o coração pode explicar. Defender opções políticas significa, em minha opinião, defender o que considero ser melhor para o todo da comunidade de que faço parte; ser adepto de um clube de futebol significa desejar a vitória do meu clube e, por defeito, a derrota do adversário. Há quem não consiga entender a diferença e meta tudo “no mesmo saco”.
 
Há também quem veja uma simples opinião sobre um qualquer acontecimento como um acto de política partidária. Esses são os que pararam no tempo e não conseguem perceber a vida, a política e o poder, para além de um quadro que começa e termina na luta partidária; Outros, conscientemente, apenas tentam pressionar, criar desconforto, para que aqueles que têm opinião se sintam inseguros ou amedrontados e não divulguem opiniões que podem ser “perigosas” para o status quo; Outros ainda, apenas não querem que surjam opiniões porque depois sentem-se mal por não terem coragem ou capacidade para, eles próprios, elaborarem e fundamentarem uma opinião que os vai expor – é disso que têm receio, são inseguros – e , eventualmente (qual é o problema?), mostrar que estão errados ou fizeram uma análise a que falta informação importante; outros ainda, são ingénuos e pensam que se ficarem caladinhos, são vistos como uns tipos porreiros que não criam problemas e conseguem passar pelos intervalos da chuva (vá lá saber-se para onde querem ir…). Outro aspecto não menos importante: ter opinião dá trabalho!
 
Enquanto jornalista, para além de não abdicar do meu direito de ter opinião, considero aliás que é minha obrigação ter opinião. Porquê? Porque temos mais informação que o comum do cidadão, porque temos acesso directo a fontes, porque sabemos onde procurar a informação que pode sustentar uma opinião e porque, afinal, tendo esse privilégio de estar onde as coisas acontecem, temos o dever de o partilhar, relatando com rigor e, se for caso disso, dar conta da nossa percepção sobre os acontecimentos, fazendo análise e quando tal considerarmos necessário, dar opinião. Não preciso de dizer que nada do que atrás referi se pode misturar: tudo bem separado, para que quem recebe a informação possa distinguir sem nenhuma dúvida o que é uma notícia, uma reportagem, uma crónica, uma análise ou uma opinião.
 
Dito isto, mantenho o meu direito/dever de ter e publicar a minha opinião. Vale o que vale, mas é minha e não abdico desse direito. Aliás, nunca uma opinião minha incluiu referências ofensivas ou ataques pessoais aos protagonistas. São ideias que contraponho a outras ideias. Se não é isto a Democracia, então não sei o que é e é por isso que a minha opinião não pode fragilizar-me.
 
Se puderem (mesmo através da Internet…), vão ao museu do Apartheid, em Joanesburgo, ou ao Yad Vashem, em Jerusalém. Se quiserem mais perto, vão ao Forte de Peniche (não digo para irem à sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, porque alguns que a democracia permitiu que fossem eleitos fizeram questão de esconder essa memória), para saberem o preço que alguns pagaram pela Liberdade, o preço que pagaram por lutar contra a opressão, a discriminação, o medo…
 
Se há coisa que tentarei nunca fazer é ser ingrato para aqueles que deram a vida ou parte dela, que sofreram, para que eu hoje possa dizer que sou livre e posso ter opinião. A melhor forma de o fazer é lutar por essa Liberdade, tendo opinião e não me deixando amedrontar ou pressionar por gente que por ter medo de ter opinião quer aprisionar os outros nessa redoma de cobardia.
 
À Liberdade trato-a como a uma flor que quero deixar bem viva nas mãos dos meus filhos. Lamento, mas vou continuar a ter opinião.
 
josé manuel rosendo
pinhal novo, 12 de Julho de 2013

 
PS - foto (jmr) tirada em Benghazi, Líbia, 28 de Fevereiro de 2011. Os Líbios lutavam pela liberdade e escreveram isso até nas paredes interiores dos edíficios por onde borbulhava a revolta.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Da “rua-árabe” à “rua-portuguesa”


Já vamos ver o que é que a “rua-portuguesa” pode ter a ver com a “rua-árabe”. Antes disso registemos dois momentos.
Após cinco semanas de silêncio, o Presidente da República (PR) reapareceu inspirado pelas manifestações de 2 de Março: “as vozes que se fizeram ouvir não podem deixar de ser escutadas”. Na reaparição, Cavaco Silva falou dos números do desemprego, do alargamento das situações de pobreza e disse que as manifestações “merecem o maior respeito”. A “situação é verdadeiramente dramática”, disse. Mas também disse que não se sentiu alvo dos manifestantes e que as preocupações dos manifestantes há muito que fazem parte das suas – dele, PR – intervenções públicas. Aqui chegados, Cavaco Silva, que até parecia estar a entender alguma coisa, revelou que não entendeu nada. Ou faz que não entende. Ele é também um alvo das manifestações.
 
 
Quanto ao Primeiro-Ministro (PM) veio dizer (e cito de cor…) que não governa a partir de manifestações de rua e que um primeiro-ministro que o faça não está apto a desempenhar as funções. Pedro Passos Coelho confunde convicção e firmeza (obviamente necessárias a um líder) com cegueira e surdez. Pedro Passos Coelho é líder de um Governo, não é administrador de uma empresa (o que ainda assim tem que se lhe diga, para além dos números…) e por isso devia ouvir o seu povo. Não adianta que repita à exaustão que tem uma maioria parlamentar que o mesmo povo votou. Aliás, se olharmos ao que se passa na rua, esse argumento significa precisamente que alguma coisa mudou. Não será intelectualmente honesto pegar nas manifestações mais recentes para a partir daí dizer, com rigor, que o resultado de eleições realizadas agora seria substancialmente diferente do anterior, mas é nesse ponto – nesse sentir e interpretar, na descodificação dos sinais – que os políticos se diferenciam dos tecnocratas que governam apenas com números e estatísticas.
 
 
Para além disso, depois de rapar o tacho, depois de todos os sacrifícios que tem exigido aos portugueses, um PM que diz que vai cortar mais 4 mil milhões de Euros na despesa do Estado e não diz onde, só pode estar a brincar. Só pode estar a deitar gasolina na fogueira.
Talvez por isso, por tudo o que Pedro Passos Coelho disse e tem feito, João Semedo, do Bloco de Esquerda lançou esta tarde, durante o debate parlamentar, o desafio: “O povo está farto de si, o povo está farto da sua política e do seu governo. Demita-se”. “Não tenha medo de eleições, deixe a democracia falar por si”, disse ainda João Semedo.
 
Aqui chegados, percebe-se que nem o PR nem o PM estão a querer entender o divórcio entre a rua e o actual poder. Não entendem a diferença entre a rua, o povo, e o “Palácio”, esse enquanto símbolo do poder instituído. Vamos às semelhanças entre a “rua-árabe” e a “rua-portuguesa”: a rua, entenda-se opinião pública (não a publicada), está em profundo desacordo com o governo. A “rua-árabe” começou assim a ser designada precisamente porque representava um sentimento diferente daquele que expressavam os governantes, por ser um registo de opinião completamente diferente e oposto ao que nos era dado pelos respectivos líderes árabes. É verdade que esses líderes eram quase todos uns ditadores (que por acaso tinham excelentes relações com os líderes do chamado mundo ocidental…), mas também é verdade que em Portugal atravessamos um momento muito semelhante. Basta ver os cartazes que idosos e outros cidadãos pacíficos exibem para se perceber o divórcio e, pior do que isso, o respeito que o Governo já perdeu. Das palavras de protesto passou-se ao insulto. Das reivindicações passou-se ao pedido de demissão. É a raiva e o ódio do povo em relação aos governantes, expressa em cartazes rudimentares mas que representam um sinal político fortíssimo. Um sinal de que numa rua em chamas não há bombeiro que possa valer ao “Palácio”.
 
Em Portugal não vivemos formalmente numa ditadura, nem o Primeiro-Ministro pode ser acusado de tal, mas que há um fosso enorme entre o que pensa e faz o Governo e o que pensa e quer a “rua-portuguesa”, qualquer político com o mínimo de instinto já percebeu.
 
Foi a “rua-árabe” que fez cair ditadores, vamos ver o que acontece ao actual Governo português perante este profundo desentendimento com a mesma rua que lhe deu o poder. Não era nada má ideia não ter medo de eleições e deixar a democracia falar.
 
josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 6 de Março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chávez sem preconceitos


Hugo Chávez foi um líder perfeito? Não! Foi um homem perfeito? Não! Teve uma orientação política perfeita? Não! Aliás, tenho pavor das pessoas e das coisas perfeitas. Mas perguntem aos mais carenciados da Venezuela se gostaram mais de ser liderados por Hugo Chávez ou durante o tempo que o antecedeu. Depois perguntem às petrolíferas se gostaram da liderança de Chávez.
 
Como é evidente, jornalista que sou, amo a Liberdade. A Liberdade de poder dizer e escrever o que penso. A falta dessa Liberdade, uma mão a tapar-me a boca, é algo verdadeiramente intolerável. Mas a questão que se colocava a Chávez na Venezuela era a de tentar mudar um país que, em nome de alguma, sublinho, de alguma liberdade, mantinha uma larga parcela da população em grande miséria enquanto petrolíferas estrangeiras e outras multinacionais se enfartavam nos lucros chorudos.
 
 
 
Chávez mudou como lhe foi possível, sacrificando alguns aspectos que deram aos inimigos os argumentos para dizerem que não era um democrata. Provavelmente esses inimigos apenas queriam ter a oportunidade de lhe sacar o poder para tudo voltar a ser como dantes. Chávez mudou como lhe foi possível mudar essa situação, dentro de uma realidade que é a da América Latina e que alguns teimam em analisar usando a lente do chamado “mundo livre”, mais concretamente o mundo das chamadas democracias neoliberais, e obviamente incorrendo em erros de análise provocados por uma deficiente grelha de avaliação.
 
Claro que os homens dos negócios estragados por Chávez não perderam tempo a minar-lhe o caminho e a catalogá-lo de populista, ditador, e por aí fora. Os programas de televisão, os números de anedotas, o discurso na ONU quando depois de ver George W. Bush disse que tinha visto o diabo, tudo isso é um discurso que tem que ser analisado tentando entender como funciona a sociedade venezuelana e a própria América Latina. O discurso de Hugo Chávez, parecendo algo inaceitável para uma Europa que pensa ser exemplo para o Mundo, era um discurso afectivo porque Chávez falava ao povo dele com a linguagem que o povo entendia e isso não é necessariamente populismo. Se calhar, muitos “líderes” europeus precisavam aprender alguma coisa com Chávez para que nós os pudéssemos entender, algo que por vezes é muito difícil.
 
Quanto ao “Chavismo”, se ele está ou não cimentado na sociedade venezuelana, é agora que vamos saber. Qualquer sistema que assenta na personalidade de um líder tem um momento complicado e conturbado quando o líder morre. À esquerda e à direita. Sabemos que até agora o “palco” era de Chávez, mas isso não significa directamente que não haja ninguém na “segunda linha” que possa tomar as rédeas do poder, mantendo a orientação política que a liderança de Chávez construiu. Um palco, um líder, uma tradição latino-americana.
 
 
 
 
 
 
 
 
Chávez reclamava a herança de Simão Bolívar. Que herança era essa? Criar um projecto de defesa conjunta do sub-continente sul-americano que defendesse os povos das então potências europeias. Foi uma utopia porque era um momento (estamos em 1826, por aí…) em que estes países mal conseguiam manter a sua unidade interna, quanto mais edificar um projecto desta dimensão. Era deste projecto que Hugo Chávez se reclamava herdeiro. Era a “metáfora” para falar da solidariedade que considerava necessária para enfrentar, desta vez, o inimigo norte-americano mas também a olhar para a União Europeia.
 
Outro aspecto a ter em conta no dia da notícia da morte de Hugo Chávez é o da expulsão de dois adidos militares norte-americanos pouco antes de ser conhecida a morte de Hugo Chávez. Sabemos todos qual é o passado norte-americano de interferência em países da região que os Estados Unidos definem como o “seu Mediterrâneo” (o Mar das Caraíbas). Os venezuelanos também sabem.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 5 de Março de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um camião de laranjas que não enche um copo de sumo…*


“O mais difícil é ganhar o partido, depois o país é canja!”. E foi. Frase dita, assim mesmo, com esta facilidade e com um sorriso nos lábios. Quem a disse, conhecendo-me, terá pensado que podia funcionar como uma provocação para início de uma saudável troca de argumentos. Uma frase de alguém muito próximo do actual Primeiro-Ministro e, apesar da informalidade que a manhã de sol aconselhava, era de facto este o entendimento que o núcleo duro de Pedro Passos Coelho fazia da realidade do país e do PSD. Estávamos no início de 2010.
Confesso que achei graça. Pedro Passos Coelho e os seus mais próximos ainda andavam a reunir forças na “Plataforma Construir Ideias” e José Sócrates ainda parecia ter energia para dar e vender, naquela azáfama de medidas com que a determinada altura o XVIII Governo constitucional nos brindava diariamente. Ainda não tínhamos digerido a última e já mais meia-dúzia estavam a ser anunciadas.
A fonte que revelou esta lente através da qual o PSD olhava o futuro – não revelo a fonte porque a conversa era mesmo informal – tinha toda a razão, e eu, alguns meses depois, deixei de achar graça. E ganhei uma preocupação. Não em termos de opções políticas ou por causa da anunciada “refundação do Estado”. Perante outras questões mais preocupantes, opções políticas e “refundação do Estado” passam para segundo plano. O partido foi ganho, o país também, mas isso conduziu-nos a este tempo em que desta pobre democracia já não esperamos líderes com quem nos identifiquemos ideologicamente ou de quem discordando politicamente apreciemos a personalidade, o carácter ou outra qualquer qualidade. Chegámos ao ponto em que apenas esperamos líderes a quem possamos comprar, se for caso disso, um carro em segunda mão.
Para além dos “casos” que envolveram o Ministro Miguel Relvas e que não tiveram nenhum tipo de consequência política, agora somos confrontados com a nomeação de um Secretário de Estado, Franquelim Alves, que foi administrador da SLN, a holding proprietária do BPN. Não é crime ter sido administrador da SLN, mas a escolha do Primeiro-Ministro é politicamente incompreensível. O BPN já “comeu” muito milhares de milhões de Euros de dinheiros públicos e a história continua por contar. Foi uma fraude de que alguns tiraram benefícios e que estamos todos a pagar. Para além disso, a última coisa que este Governo precisava, agora, era de mais um caso.
Aqui chegados, adicionemos outra premissa ao raciocínio: Pedro Passos Coelho é um homem inteligente. Mas fará o favor de não nos considerar estúpidos. É por isso que é ainda mais complicado entender a decisão do Primeiro-Ministro sem cair na tentação da especulação. Se a escolha de Franquelim Alves é politicamente indefensável, então por que terá sido escolhido? É difícil entender. Resta a especulação: chegamos ao ponto de pensar que está a ser criado um facto político que serve para entreter enquanto algo mais importante está a ser decidido ou então alguém impôs o nome de Franquelim Alves. Para quê e porquê? E o Primeiro-Ministro não podia dizer que não?
Voltando ao início deste texto, o partido está ganho e o país também. Temos um camião de laranjas que não enche um copo de sumo: da social-democracia nem sinal, do país sinais de conformismo. Está a ser canja! Só falta o raminho de hortelã…
 
* a frase não é do autor do texto
josé manuel rosendo