sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Mais sinais sobre a Síria. Cartas estão a ser postas em cima da mesa


Procuro nas agências de notícias, nos jornais, não há quase nada sobre o encontro entre o Secretário de Estado norte-americano John Kerry e o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Serguei Lavrov. Apenas gestão de expectativas com a inevitável especulação à mistura. Estes dois homens têm encontro marcado em Genebra nesta sexta-feira e na véspera falaram ao telefone. O que cada um deles leva na mala (e na manga) não se sabe.

O que se ficou a saber esta quinta-feira através do Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Ash Carter, é que as milícias curdas da Síria (Unidades de Protecção Popular) saíram da cidade de Manbij (que conquistaram ao Estado Islâmico) e atravessaram o Rio Eufrates passando para a margem oriental. Era o que a Turquia exigia e os Estados Unidos apoiaram. Ash Carter revelou esta alteração no terreno depois de um encontro com o Ministro da Defesa da Turquia, Fikri Isik.

Outro sinal a merecer muita atenção: o porta-aviões francês Charles de Gaulle vai estar no Mediterrâneo oriental. Põe-se a caminho até final de Setembro. A França envia também baterias de artilharia. Vai estar tudo operacional no início do Outono. Obejctivo? Vão apoiar as forças iraquianas na reconquista de Mossoul. As palavras são do porta-voz das Forças Armadas francesas. Esta revelação das movimentações militares francesas acontece no dia do encontro do Presidente francês, François Hollande, com o Presidente do Governo regional do Curdistão (iraquiano), Massoud Barzani. O mesmo Barzani que a 23 de Agosto esteve reunido com o presidente turco, encontro onde terá sido feito um acordo contra outros curdos (PKK e curdos sírios).

Voltando a Kerry e Lavrov, parece pacífico que a política russa em relação à Síria – concordemos ou não – tem sido muito mais explícita do que a dos Estados Unidos, sobretudo se atendermos à forma como os norte-americanos têm lidado com a questão curda. Não seria a primeira vez que os Estados Unidos voltariam as costas aos curdos. Mas também é bom lembrar que a 10 de Fevereiro os curdos da Síria abriram a primeira representação no estrangeiro e foi em… Moscovo. 

Já alguém escreveu que até parece que os curdos nasceram para serem traídos. Não vai demorar para sabermos como vai ser desta vez. O final do ano tem sido a referência de vários líderes para retirar Mossul do controlo do Estado Islâmico e a Turquia já disse que lhe agrada uma operação conjunta com os Estados Unidos para conquistar Raqqa, a maior cidade síria dominada pelo estado Islâmico.
Vamos ver o que sai de Genebra esta sexta-feira.

Pinhal Novo, 9 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Síria, algo se vai passar, ou não…


Durante semanas, meses, das negociações para resolver a guerra na Síria apenas se ouvia dizer que estavam paradas, bloqueadas. As iniciativas do enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, deram em nada. No terreno, todos os dias, combates, bombardeamentos, cercos, massacres, crimes de guerra, populações em fuga. Novidade já com duas semanas: a Turquia entrou na guerra, meteu homens e máquinas Síria adentro com o argumento de combater o Estado Islâmico e as milícias curdas das Unidades de Protecção Popular. Não deixa de ser curioso que, depois de muitas ameaças, e de situações de ameaça idêntica pela proximidade do Estado Islâmico – lembram-se de Kobani? – só depois de resolvido o diferendo com a Rússia, a Turquia tenha avançado de forma directa para esta guerra. Aliás, a Turquia disse que avisou o Governo de Damasco, através do amigo russo. 

A juntar a essa relação (Turquia/Rússia) retomada, afirmações dos mais altos responsáveis turcos devem ser tidas em conta. A 2 de Setembro, o Primeiro-Ministro turco, Binali Yildirim, foi taxativo: “Normalizámos as nossas relações com a Rússia e Israel. Agora, se Deus quiser, a Turquia tomou uma iniciativa séria para normalizar as relações com o Egipto e a Síria”. Esta declaração não deixa margem para outra leitura a não ser que a Turquia mudou radicalmente de posição relativamente a Bashar al Assad. Até agora, o Presidente sírio era visto de Ankara como uma carta forçosamente fora do baralho; agora já não é.

Outra declaração importante: o vice-primeiro-ministro disse que a Turquia é favorável a uma operação comum com os Estados Unidos contra Raqqa, a capital do Estado Islâmico na Síria. Este governante disse que o assunto foi tratado entre os dois presidentes à margem da Cimeira do G20 e está a ser discutido. O Presidente turco lançou também a ideia de uma zona de exclusão aérea no norte da Síria. E há ainda outro dado: a 23 de Agosto o presidente turco encontrou-se com o Presidente do Curdistão Iraquiano. Oficialmente falaram da actividade da organização de Fethulla Gulen na região mas há rumores de que terão feito uma aliança contra os outros curdos, nomeadamente do PKK e das Unidades de Protecção Popular.

Talvez seja difícil digerir todas estas componentes do conflito mas pelo meio disto, o enviado especial de Barack Obama para a coligação que combate o Estado islâmico, encontrou-se com as milícias curdas das FDS (Forças Democráticas da Síria – junta milícias curdas e árabes). Encontrou-se também com representantes turcos. É o que diz o Departamento de Estado. Os turcos querem os curdos fixados a este do Rio Eufrates, os Estados Unidos tentam convencê-los a recuar para essa zona, mas os curdos conquistaram ao Estado Islâmico a cidade de Manjib (a oeste do Eufrates) e têm por objectivo controlar todo o norte da Síria que faz fronteira com a Turquia.

A Rússia e Bashar al Assad têm falado menos. Tentam consolidar posições no terreno. Têm tido algum sucesso mas também alguns revezes. Uma coisa é conquistar posições, outra é ter capacidade para mantê-las com forças massacradas por 5 anos de guerra.

A oposição síria reunida no Alto Comité de Negociações apresenta um plano em 3 fases: primeiro, seis meses de trégua e negociações; segundo, 18 meses de governo de transição, mas Bashar al Assad tem de ir embora; por fim, eleições com o apoio e supervisão das Nações Unidas. Já se vê que esta solução, tendo o mérito de pretender parar o banho de sangue, não vai vingar.

Para fechar este leque de questões, durante dois dias (8 e 9 de Setembro) Sergueï Lavrov e John Kerry – os homens que mereceram da Al Jazeera uma série de artigos com o título “Atracção Fatal” – vão estar juntos a debater a situação na Síria. O que eventualmente podem tirar da cartola, ninguém sabe, mas já estamos naquela fase em que a maioria das apostas vai no sentido de que tudo vai ficar como está. De há muito que esta guerra na Síria é um tabuleiro de xadrez em que vários jogadores movimentam várias peças em simultâneo. Nenhum consegue saber o que todos os outros pretendem e o que vão fazer na próxima jogada.

Ainda assim, as peças do puzzle parecem começar a acomodar-se. Mas não nos iludamos. Talvez ainda não tenha acabado de ler este texto e tudo pode já estar diferente.

Pinhal Novo, 8 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo

sábado, 3 de setembro de 2016

Dúvidas existenciais. Peço a vossa ajuda


Tenho uma verdadeira e sincera dificuldade em encontrar uma explicação lógica para alguns alinhamentos de protagonistas nacionais com as políticas e os políticos de alguns países. Indo directo ao assunto, uma das dificuldades mais complexas tem a ver com alguma esquerda que fica toda eriçada quando Vladimir Putin é visado num qualquer argumento político. Não falo de Dilma, nem de Nicolas Maduro, não, é mesmo de Putin. A minha dificuldade reside num aspecto muito simples, até muito básico, reconheço: não é momento para dissertar sobre o actual regime russo, mas acho que ninguém tem dúvidas de que a Rússia já nada tem a ver com o comunismo ou com o socialismo; então, porquê essa defesa assanhada das políticas do Kremelin e do Presidente da Rússia? Que íman existe em Moscovo que provoca ainda esta atracção de alguma esquerda? Peço a vossa ajuda.

Outro aspecto que me provoca dificuldade na análise que tento fazer é a equipa de comentadores e políticos sempre alinhados com as directivas (perdão, queria dizer políticas) com origem em Washington. Estes, em regra, também alinham com tudo o que vem de Bruxelas. Tudo o que tenha passado por um discurso de um Presidente norte-americano ou da Comissão Europeia transporta um selo de garantia que estes comentadores e políticos nacionais recusam beliscar ou tocar, nem que seja com uma flor. Há até um que diz preferir a “chantagem” da Europa à do PCP e BE. Assim mesmo. Outros, apesar dos constantes avisos de gente muito avisada, e até de alguns europeístas convictos (devem ser uns radicais, e “radical” é expressão que apenas se aplica à esquerda…) defendem com unhas e dentes o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento). Mudam os governos, mudam as direcções partidárias e as direcções dos Órgãos de Comunicação, mas há um núcleo duro sempre fiel ao Tio Sam que não se cansa de nos tentar catequizar. Será amor? Lógico não é certamente… Peço a vossa ajuda.

Até admito que estes dois grupos acima referidos possam ter razão. Nós é que pensamos que a guerra-fria já terminou e parece que estamos enganados. Basta olharmos para o que se passa na Síria e rapidamente concluiremos que Estados Unidos e Rússia, apesar de telefonemas quase diários entre Washington e Moscovo, dizem ter um inimigo comum mas têm amigos diferentes. Difícil, não?

Grandes potências à parte faltam as potências que prometem. E muito. À China todos vão. É fantástico. É difícil descodificar o mistério. Pequim (apesar da poluição) tem uma aura que deslumbra os nossos dirigentes partidários. Quando chegam ao governo essa aura ganha um brilho redobrado. Não sei se vão a uma capital comunista ou ao centro de um novo capitalismo. Não sei se vão apenas para ver a Grande Muralha. Quem lá vai, quando volta também não ajuda a desfazer a dúvida. E quanto à política externa da China, canja e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém: silêncio absoluto ou então críticas muito suaves. Mao Tsé Tung ri-se, já se vê. Até um tal Catroga aceitou servir o capital do Império do Meio. Sempre ao meio, sempre ao centro, não o centro político mas aquele meio/centro que permite cair para onde é mais conveniente, Catroga, um exemplo a ter em conta. O que é que os chineses pensarão de algo assim? Será que a estratégia de Mao ainda tem seguidores. Estaremos perante uma réplica da aliança (de Mao) com Chiang Kai-shek para depois alcançarem o poder? Acham que devo ficar preocupado ou não é motivo para isso e os nossos políticos que vão a Pequim sabem muito bem o que andam a fazer? Peço a vossa ajuda.

E porque já falámos de relações sólidas, falemos das mais flexíveis, eventualmente mais incertas, falemos dos flirts. O dicionário Priberam dá duas definições para flirt: 1 – Namorico, relação amorosa curta ou de pouca importância; 2 – Aproximação entre pessoas ou entidades, geralmente com uma intenção política. Para o caso, prefiro a segunda. E neste caso (outro que não consigo descodificar) incluo a notada presença de um dirigente do CDS no recente Congresso do MPLA. Investimento para um tempo em que o CDS regresse ao poder? Coisa estranha que até provocou algum alvoroço no próprio CDS. Que o PCP se faça representar, ainda vá, mas também neste caso, por onde anda o socialismo do MPLA (tal como o de Putin)? No caso do CDS, aponto para um flirt, mas no caso do PCP só pode ser um alinhamento rígido porque o PCP não é de flirts. Pelo menos a nível internacional porque quanto a questões internas as coisas parece que estão a mudar. O PS e o PSD também lá estiveram no número de equilibrismo habitual. O PS é governo e o PSD pensa que ainda é. Também neste caso, peço a vossa ajuda porque, parece-me, há um problema de liberdade e democracia em Angola. Ou isso já não conta para nada?

Pinhal Novo, 3 de Setembro de 2016
josé manuel rosendo


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Marcha fúnebre

São cada vez menos as Empresas Públicas mas ainda são suficientes para percebermos que a asneira vai continuar até à extinção. Há uma longa história de transferências de gestores do sector privado para o público e vice-versa. Muitos deles dizem cobras e lagartos do sector público enquanto são muito bem pagos no sector privado. Quando seca a virtuosa teta privada e outra alternativa não vislumbram, rapidamente fazem agulha para o desgraçado sector público, qual apaixonados a quem o feio sempre parece bonito. No sentido oposto viajam os que serviram determinado poder político e são depois devidamente compensados no sector privado. São gestores, e pronto. Podem gerir tudo. Não importa se conhecem o sector público para onde são chamados a espalhar sabedoria e executar um qualquer objectivo político; não importa se conhecem o sector privado onde a recompensa os espera. Muito menos importa se conhecem a empresa em causa. Afinal por que haveria de importar? Uma pessoa inteligente aprende e adapta-se. Há excepções? Admito que sim, mas são isso mesmo: excepções.

Estes dançarinos da gestão, podem sair das cervejas para a comunicação social; da saúde para a banca; dos azeites para as infra-estruturas… E se calhar até têm razão: gerem tudo da mesma forma. Afinal qual é a diferença entre um estúdio de rádio ou televisão e uma central de cervejas? qual é a diferença entre um serviço de urgência de um hospital e um balcão de uma instituição bancária?, qual é a diferença entre uma fanga de azeitona e a antiga Estrada Nacional 2? Não há diferença porque em geral (no público) é preciso cortar na despesa com pessoal, na manutenção, no investimento, na inovação e por aí fora... Cortar é cortar. É olhar para o orçamento e abater a percentagem que alguém determinou. O resto, que façam os que lá trabalham, porque é para isso que são pagos. E se no público houver algo com perspectiva de passar a ser privado, ainda melhor. Talvez no futuro haja um lugarzinho.

A frequente chegada ao sector público de gestores formados no sector privado só pode resultar no desastre a que temos assistido nas últimas décadas. Chegam ao sector público e gerem da mesma forma que geriam no privado. Serviço Público? O que é isso? O que é preciso é pôr as empresas a dar lucro ou acabar com o “prejuízo”. Gostam sempre de falar naquela curiosa teoria que compara as empresas públicas (às privadas e) a um orçamento familiar. É assim que pensam. É assim que fazem. Contam, habitualmente, com equipas de “yes-man” que dizem que sim aos senhores administradores e a todos tratam por “senhor doutor” ou “senhora doutora”. Seja qual for a administração, eles lá estão, dispostos a acenar a cabeça em sinal de aprovação, mesmo que isso signifique aprovar o absurdo. É gente que chateia quem está abaixo e dobra a espinha quando fala para cima; gente que não quer chatices, mas quer manter um lugarzinho na respectiva empresa. 

Acontece que também há quem diga “não” aos “senhores doutores”. Acontece que há quem queira mesmo as empresas públicas a prestar Serviço Público. Em regra são “encostados”. Mas também há sempre alguém muito competente que as administrações conhecem do privado e que são “indispensáveis” no público. Em regra, são bem pagos e entram “por cima” com contrato blindado. Geralmente, a tutela aplaude tudo isto. Afinal, a administração (da empresa pública) é que sabe, gosta a tutela de dizer. Todos os governos gostam a determinado momento de dizer que não interferem na administração das empresas públicas. É assim uma espécie de pin que colocam na lapela. Assim estamos, assim vamos. 

Entretanto, à chegada de cada nova administração que nomeia novas direcções e respectivas cadeias de comando, é esquecida a dedicação e a competência dos que trabalham e assistem ao desfile das administrações. Cada administração que chega vem com aquela ideia da “empresa nova” (lembram-se da teoria do “homem novo”? é quase o mesmo…), o que está para trás não conta, interessa é o futuro. Como se a história das empresas e de quem nelas trabalha fosse capital a desprezar.

Misturar a gestão de génese privada com a administração das empresas públicas é quase como pretender misturar azeite com água. Enquanto em Portugal o público e o privado não estiverem em campos bem demarcados e enquanto os muitos empreendedores de quem permanentemente se anunciam os méritos continuarem a ser chamados para as empresas públicas, aplicando os métodos de gestão características das empresas privadas, o resultado vai ser mau.

Esta casta de gestores e respectivas tutelas políticas nunca irão perceber que o eventual “prejuízo” das empresas públicas pode representar enormes ganhos sociais. Ao invés, nunca irão perceber que as contas certinhas das empresas públicas podem significar enormes prejuízos para toda a sociedade e em particular para os mais desfavorecidos e para a própria democracia.

A dança de cadeiras e interesses entre o privado e o público mata o Estado e “mata-nos” a todos. E é o Estado – somos nós – quem paga. Esta dança, que não é um tango nem uma valsa, tem com certeza um andamento fúnebre. Assim será enquanto em Portugal não existir uma “escola” de Serviço Público que dê ao sector público gestores que queiram mesmo dedicar-se ao Serviço Público e não passem por ele apenas em comissão de serviço e à espera de uma qualquer chamada que os leve de novo a uma empresa privada.

Pinhal Novo, 1 de Setembro de 2016
josé manuel rosendo

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Rebuçados GALP


Três, três Secretários de Estado aceitaram a oferta de uma empresa privada para assistirem a jogos do Europeu de futebol. Esse é o problema, não interessando – ou sendo secundário – se a oferta foi apenas dos bilhetes, se incluiu viagens e almoços ou se houve lugar a tratamento VIP. Nem sequer interessa se estamos ou não perante um crime ou se a empresa em causa tem um conflito com o fisco e se um dos três governantes é o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Nem sequer interessa se os outros dois Secretários de Estado (Internacionalização e Indústria) pertencem a áreas onde a dita empresa tem interesses óbvios. Não é ironia referir estes aspectos por que são, de facto, secundários, face ao que devia ser a ética de um governante.

Assumir funções públicas, seja no Governo, no Parlamento, ou em empresas públicas, exige (devia exigir) uma ética inatacável. Quem quer andar no mundo privado dos negócios, faça favor, que troque prendas e benesses, ofertas e jantares, viagens e bilhetes para jogos de futebol, mas quem desempenha cargos públicos simplesmente não o pode fazer. Não pode. Ponto!

Ao alinharem neste tipo de proximidade com as empresas privadas estes governantes abrem portas a todas as dúvidas e a todas as suspeitas, por muito que batam com o pé no chão e jurem que uma coisa nada tem a ver com outras eventuais coisas. E até podem ter razão. No limite, aliás, o presente pode ter sido envenenado, mas nem essa possibilidade tiveram capacidade de prever. 

O que a atitude destes três homens revela é que não estão minimamente preparados para estar nos lugares que ocupam. Ser (nem sei se é o caso) tecnicamente competente não faz de ninguém um respeitável político. É preciso muito mais. E é esse o sinal mais alarmante dado por estes três governantes em relação às funções de que estão por nós (embora indirectamente) investidos: não estão preparados!

A “pílula” pode agora ser mais ou menos dourada consoante o brilhantismo da argumentação de cada um, mas o problema é que este caso é apenas um exemplo de como muitos políticos – ou que o pretendem ser – olham para as questões do Estado. É como se fosse uma empresa privada (esta ideia é antiga e perturbadora), mas não é. Não é!

E, já agora, os deputados do PSD que fiquem calados. Essa de ir fazer trabalho político a França em momentos que coincidiram com jogos do Europeu de futebol só nos pode fazer rir e coloca estes deputados ao mesmo nível dos governantes convidados pela GALP.

josé manuel rosendo

4 de Agosto de 2016

sábado, 23 de julho de 2016

A Europa à nora…

O céu está a cair-nos em cima e ninguém sabe a resposta a dar. Paris, Bruxelas, Nice, Baviera, Munique… casos diferentes que muita da alarvidade à solta tenta colocar no mesmo saco. Mesmo sem haver – à hora a que escrevo – dados concretos (no caso de Munique), as expressões mais utilizadas são “estado islâmico”, “lobo solitário”, “daesh”. É o que está a dar. Estas expressões provocam medo, então há que prender as audiências, mesmo que seja a alimentar esse medo. Em muitos casos, a contenção e o cepticismo, pilares aconselháveis ao jornalismo que tenta ser rigoroso, é atirado às urtigas.

Os casos dos últimos meses dizem-nos que a Europa está verdadeiramente à nora. Olha desconfiada por cima do ombro depois de ter dado conta de que a realidade mundial, da qual – queira ou não – faz parte, está a bater à porta. Foram cometidos erros estratégicos, não da União Europeia – porque não existe enquanto região com uma política externa – mas das suas principais potências: França, Itália, Reino Unido e Alemanha. Pensava esta Europa que as guerras eram lá longe. Esqueceu-se que tem fomentado ódios e alimentado inimizades fortes. 

Não vão longe os tempos em que alguns dos principais líderes europeus entravam na “corte” de muitos ditadores no Médio Oriente e em África, que por sua vez visitavam a Europa. A saga continua. Em nome da estabilidade (não interessa a que preço) que os investidores reivindicam e os mercados agradecem, porque há interesses (negócios) que é preciso salvaguardar. O velho ditado “o que é barato sai caro” aplica-se que nem uma luva. Fazem as negociatas – petróleo, pedras preciosas, metais raros, armas – arrecadam o lucro, e quem vier atrás há-de fechar a porta. Esta é a visão de curto prazo, fruto de uma política de fracos políticos sem visão de futuro nem visão do mundo.

Os eurocratas dos salões dourados e dos hotéis de 5 estrelas das muitas capitais, cujos interesses são ditados pelo FMI, Goldman Sachs e afins, não conhecem as ruas (sejam elas na Europa, no Médio Oriente ou em qualquer outro lado) onde nasce a raiva e o ódio. É por isso que depois não percebem o que nos acontece. Quem não percebe não consegue encontrar soluções.

A única Política que existe na Europa é a do dinheiro, seja na área financeira ou económica. Nada mais. Aliás, a interiorização de um bem-estar conquistado (embora apenas para alguns…) afasta os cidadãos da necessidade de olhar para o Mundo com a consciência de que a Europa faz parte desse mundo e tem de ter uma política externa definida para enfrentar estas crises e alterar a percepção que dá origem à ameaça.

Infelizmente, para a formação da nossa opinião pública o nível de alguns políticos é muito semelhante ao de muitos comentadores que preenchem o nosso espaço mediático. Andaram na mesma escola, não conseguem pensar fora dos padrões em vigor. Por vezes até, parecem falar de uma realidade paralela. Ouvi-los, é quase como ir ao hospital por causa de uma dor de cabeça e ter um ortopedista a fazer o diagnóstico.

Pinhal Novo, 22 de Julho de 2016

josé manuel rosendo

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Volto a fazer a pergunta: e depois do Estado Islâmico?

No início de Dezembro do ano passado escrevi sobre o pós-Estado Islâmico http://meumundominhaaldeia.blogspot.pt/2015/12/e-depois-do-estado-islamico.html e uma voz amiga comentou: “estás a pensar muito à frente… ainda nem acabaram com eles na Síria e no Iraque”. Repesco parte desse escrito: “O futuro passa por uma pergunta simples de resposta terrivelmente complexa: e depois do Estado Islâmico? Desde logo não é de todo impossível que o Estado Islâmico não evolua para um “estado sunita” (faltando saber em que moldes e em que território). Há teorias nesse sentido. Depois: acabada a guerra com o Estado Islâmico (com a qual todos parecem concordar), o que fazer com Bashar al Assad? Como resolver o problema na Síria, palco para uma miríade de grupos mais ou menos extremistas, mais ou menos laicos? O que fazer com os curdos? O que fazer com o PKK (que combate o Estado Islâmico), considerado terrorista pelo ocidente? O que fazer com as (YPG) Unidades de Protecção Popular (que também combatem o Estado Islâmico) marcadas com o mesmo rótulo? O que fazer com os combatentes do Estado Islâmico que sobreviverem?”

Há muito mais perguntas a fazer, mas estas parecem-me as mais urgentes. A última pergunta, para quem vive na Europa, é talvez a que levanta mais inquietações. O que aconteceu esta noite em Nice – à hora a que escrevo não está confirmado que tenha sido atentado – explica essa inquietação de forma muito perspicaz. Ainda é cedo para se dizer que já é um atentado (se se confirmar) pós-Califado, mas não é de excluir que estejamos perante algo que pode ser um sinal dos tempos que estão para vir. Seria bom que assim não fosse mas  é preciso insistir nesta questão: o que fazer quando o Estado Islâmico for derrotado no Iraque e na Síria? Quantos combatentes são? O que vão fazer quando estiverem derrotados e o Califado já não for o seu território? Para onde vão? 

Há cerca de um mês, o director da CIA, John Brennan, disse que devem ser entre 18 a 22 mil combatentes do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Esta quinta-feira, o director do FBI (numa perspectiva naturalmente mais interna) disse que vai haver uma “diáspora terrorista” após a derrota do Estado Islâmico, que haverá um crescimento dos ataques extremistas” e que o trabalho do FBI tem de ser evitar que entrem nos Estados Unidos.

E a Europa desunida vai fazer o quê? Há uma incapacidade notória da União Europeia para reagir e actuar perante este tipo de adversidades. Quem sabe a resposta que podemos esperar da União Europeia que alvitre alguma possibilidade porque não se consegue descortinar nada. Continuamos preocupados com as décimas dos défices quando os nossos maiores problemas são outros. E não nos esqueçamos que encolhemos os ombros quando no dia 3 de Julho morreram mais de 200 pessoas num atentado em Bagdad.

Mais uma vez, após o que aconteceu esta noite em Nice, vamos – já estamos a – discutir as “pequenas” questões: vamos falar dos lobos solitários, do perfil dos autores do atentado, do bairro onde viviam, dos vizinhos que até os vivam como cidadãos, do estado de emergência em França, etc, etc.. Mas não vamos falar da “grande política” e da questão essencial: como derrotar o Estado Islâmico (no terreno) e como dar uma perspectiva de futuro a todas as partes envolvidas nas guerras no Iraque e na Síria. Até que tudo se repita…

Pinhal Novo, 14 de Julho de 2016
josé manuel rosendo