sexta-feira, 20 de maio de 2011

Tenho pena do meu país

Gostava de viver num país a sério. Com gente a sorrir, mas um país sério, e a sério. E um país sério e a sério, na minha opinião, é aquele que se conhece a si próprio. Conhecendo-se a si próprio sabe o que quer e para onde deve caminhar. Ou, no mínimo, por onde não deve ir.


Mas, afinal, que país queremos ser? Que país querem os que se candidatam a cargos políticos em Portugal? Alguém sabe? Eu não. Provavelmente falta de inteligência minha, mas não consigo descortinar uma ideia concreta de país. Uma ideia de colectivo. Não poderá ser unânime, é certo, mas uma ideia colectiva que sirva uma parte substancial dos portugueses; uma ideia de colectivo que nos faça crescer e evoluir como país.

Tenho pena de um país que trata mal os seus velhos; tenho pena de um país que não quer saber das suas crianças; tenho pena de um país que parece não se importar que as suas principais empresas, aquelas que inevitavelmente fazem parte de uma ideia de país, estejam um dia destes em mãos estrangeiras; tenho pena de um país onde quem tem mais de 35 anos é considerado velho na empresa em que trabalha; tenho pena de um país em que a Dra. da Farmácia do meu bairro chega para trabalhar num espampanante BMW preto mas depois coloca as caixas de cartão no caixote do lixo recusando-se a andar 40 metros até ao ecoponto; tenho pena de um país que foi a correr para a União Europeia e agora percebe que foi enganado; tenho pena de um país que entregou parte da sua soberania sem perguntar ao povo se era isso que queria; tenho pena de um país que não reconhece a vontade, o empenho, a inteligência, a competência, a experiência, o saber, e favorece o amiguismo e a cor partidária; tenho pena de um país em que as pessoas já têm medo de falar livremente fora do seu mais restrito círculo de amigos; tenho pena de um país em que os gestores públicos arrecadam milhões de Euros em prémios enquanto o Estado enfrenta um enorme défice interno; tenho pena de um país em que há pessoas que julgam ter o direito de ganharem muitos milhões de euros como se alguma vez na vida pudessem produzir riqueza que justifique tal remuneração; tenho pena de um país em que, consecutivamente, as pessoas votam nas forças políticas que nos têm conduzido à desgraça; tenho pena de um país cujo Estado não tem dinheiro mas vende algumas das empresas que lhe rendem dinheiro, ficando, inevitavelmente mais pobre; tenho pena de um país em que se associa o ensino e os cursos universitários às “necessidades do mercado de trabalho”; tenho pena de um país que não tem muito território mas que parece que ficava contente apenas com uma faixa de 10 ou 20 quilómetros no litoral; tenho pena de um país em que os tribunais não funcionam e quem tem bons advogados arranja maneira de escapar à justiça; tenho pena de um país em que os jornalistas parecem cada vez mais correias de transmissão de interesses económicos; tenho pena de um país em que há uma “união nacional” de pensamento; tenho pena de um país em que quem discorda é visto como extraterrestre; tenho pena de um país em que não se ouve quem pensa diferente; tenho pena de um país que tem três jornais desportivos diários e revistas “cor-de-rosa” em barda, mas não consegue manter jornais de referência com tiragens significativas; tenho pena de um país em que o pequeno comércio fecha portas sufocado por catedrais de consumo das grandes multinacionais servidas por trabalhadores em situação precária; tenho pena de um país que sempre foi Mar e hoje importa milhões de euros de peixe; tenho pena de um país em que as prateleiras dos supermercados estão cheias de produtos agrícolas estrangeiros; tenho pena deste país que tem tantas coisas de que eu tenho pena; tenho pena deste meu país chamado Portugal.

Os actuais políticos – há excepções – são a outra face da moeda em que encontramos D. Afonso Henriques. O Rei libertou-nos, deu-nos alma, bandeira e uma perspectiva de futuro colectivo; os actuais políticos vendem-nos a retalho.

Os políticos da nossa praça, como refere o distinguido com o Prémio Camões 2011, Manuel António Pina (JN, 13 Maio de 2011), “são meros gestores do presente sem nenhuma ideia de futuro”. Tenho pena de um país que até a Língua alterou, por decreto. Só nos falta vender a Bandeira! E, não sei se muitos se lembram, mas já houve quem surgisse com a peregrina ideia de mudar a Bandeira porque, em termos de marketing, seria muito bom para Portugal. Se Deus existe, que nos venha valer neste momento triste.

Tenho pena do meu país, mas não desisto.

19 de Maio de 2011
José Manuel Rosendo

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