quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Onde estão os “irmãos” árabes dos Palestinianos?

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Mahmood Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana, na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas,
em 11 de Fevereiro de 2020. Foto a partir da transmissão da ONU.

Ao ouvir o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmood Abbas, e o embaixador de Israel Danny Danon, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a minha memória recuperou uma longa conversa com um velho palestiniano. Conversámos num hotel modesto de Jerusalém Oriental, onde ainda se podia fumar, beber café e conversar, sem bandos de turistas barulhentos em redor. Uma daquelas conversas em que temos a sensação de estar a “beber” História. Era um homem da Fatah, antigo professor universitário, laico e, talvez a referência principal que anotei, muito desiludido. Desiludido com tudo. Até com a própria Fatah e com a Autoridade Palestiniana, mas principalmente com os países árabes, alegadamente irmãos.

A voz era pesada. Pesada, porque era grossa e forte, e porque cada palavra tinha um sentido bem pensado e rigoroso. Disse-me ele a propósito da chamada Primavera Árabe – que considerava inevitável – que os líderes árabes, de tão corruptos e inseguros que alguns são, apenas se preocupavam com o seu próprio poder. Nada mais lhes preenchia a agenda, embora a retórica sobre a causa palestiniana incluísse palavras bonitas. A solidariedade ficava por aí, pelas palavras, e por despejar alguns milhões de dólares nos bolsos da Autoridade Palestiniana, que, dizia-me ele, estava, tal como os líderes árabes, preocupada apenas com o próprio poder.

Este homem contou-me também – para explicar a espontaneidade das revoltas árabes de 2011 – que a primeira Intifada (1987) começou da mesma maneira que as ruas do Cairo se “incendiaram”: sem direcção ou intervenção das forças políticas palestinianas. Os líderes foram surpreendidos pela revolta popular e limitaram-se a apanhar, e depois dirigir, essa revolta.

A reunião de terça-feira no Conselho de Segurança da ONU trouxe-me de volta a memória desta conversa, quando o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, “atirou à cara” de Mahmood Abbas a atitude de líderes árabes que assinaram Tratados de Paz com Israel. Foi o caso do antigo presidente egípcio, Anwar Sadat, e do Rei Hussein, da Jordânia. Com os exemplos dados, o diplomata israelita passou uma mensagem muito clara: os palestinianos estão sozinhos, não esperem ajuda dos vossos amigos árabes. E tem razão. É longa a história de desentendimentos entre os países árabes quando se trata de objectivos comuns. Cada um trata de si. O funcionamento e o impacto quase nulo das decisões da própria Liga Árabe, é um exemplo dessa forma de estar. O actual momento do conflito israelo-palestiniano seria o ideal para os países árabes falarem a uma só voz. Falar e fazer algo de concreto.

Tudo isto não anula a validade dos argumentos de Moahmood Abbas perante o Conselho de Segurança. Abbas rejeita o plano de Donald Trump e contrapõe a exigência de haver primeiro uma solução política, e depois pode haver ajuda económica, que até será bem-vinda. Ao contrário é que não!
Perguntou ainda Abbas quem pode oferecer Jerusalém como se fosse um presente (alusão ao reconhecimento feito pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital indivisível de Israel)? Volta a ter razão, mas esqueceu-se que até estava sentado à sua frente, no Conselho de Segurança, o representante do mesmo Reino Unido que ofereceu – Declaração Balfour -  um Lar Nacional para o Povo Judeu, num território que não pertencia ao Reino Unido. Ou seja: Trump “oferece” o que não lhe pertence, tal como o Reino Unido fez, já lá vai um século.

Mahmood Abbas está carregado de razão, no que ao Plano de Donald Trump diz respeito, mas esquece-se que tem sido com a actual Autoridade Palestiniana que as aspirações palestinianas têm vindo a ser sucessivamente eliminadas. Seja por culpa própria – desmobilização da sociedade palestiniana em torno das reivindicações nacionais – seja porque a nível internacional a causa palestiniana apenas tem apoio retórico, notando-se neste plano a falta de qualquer acção concertada por parte dos países árabes “irmãos”.

Em termos muito pragmáticos a realidade no terreno é fácil de definir: na Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, não há uma única bota israelita; na Cisjordânia, controlada pela Autoridade Palestiniana, a realidade do território é aquela que consta do mapa exibido por Mahmood Abbas no Conselho de Segurança da ONU. E não, que não se acuse esta leitura de ser pró-Hamas, ou pró-terrorismo ou pró-outra-coisa-qualquer que, dá para adivinhar, é o primeiro argumento a sair da cartola. Não é nada disso. É apenas olhar para a realidade no terreno e ler o que têm sido as mais recentes décadas com a causa palestiniana sempre a perder terreno. O Estado da Palestina, se nada mudar, poderá quanto muito resumir-se a umas bolsas de terreno dentro do Estado de Israel.

Pinhal Novo, 12 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Síria, Idlib: tragédia anunciada

Baghouz, Síria, Abril de 2019. Nunca faltam armas e munições. Foto: jmr
As informações mais recentes dão conta que a Turquia abateu um helicóptero do regime sírio. Terão morrido 12 soldados sírios. Todos os indicadores são preocupantes. António Guterres classificou a situação de guerra na Líbia como um escândalo; devia ter dito o mesmo da guerra na Síria, em particular sobre o que se passa na região de Idlib.

A cidade e a região de Idlib, são o último reduto das forças que combatem o Governo sírio. Para Idlib foram enviados muitos combatentes, familiares e outros civis, que recusaram ficar nas regiões que as forças de Bashar Al Assad foram reconquistando durante os últimos meses/anos. Cerca de três milhões de pessoas vivem (viviam) nesta região que faz fronteira com a Turquia; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) estima que mais de 50.000 combatentes estejam também na região e entre eles estão vários grupos de inspiração religiosa, com particular destaque para a Hayat Tahrir al Sham, o braço sírio da Al Qaeda, e o transfigurado Free Syrian Army, agora um braço de guerrilha da Turquia.

Nada do que está a acontecer na Síria é verdadeiramente surpreendente. Lembro-me, em 2012, na região de Salma, na montanha de Jabal al Akrad, um comandante local do então recém-formado Free Syrian Army - FSA (Exército de Livre da Síria), perante a ausência de qualquer tipo de apoio externo, disse-me que de bom grado aceitaria armas se a Al Qaeda as oferecesse. Ficou traçado o cenário. Quem entra numa guerra assim, acaba por ter de esquecer a motivação inicial se tiver de lutar para salvar a pele. Foi o que aconteceu aos que acreditaram que seria possível afastar o ditador Bashar Al Assad.

Pelo meio ficaram as hesitações do Ocidente: apenas promessas e palavras que deixaram o FSA mal equipado e abandonado à sua sorte. Em 2013, Barack Obama ainda ameaçou (com o argumento de que estavam a ser utilizadas armas químicas), mas nunca concretizou as ameaças. Depois, o Estado Islâmico assustou o mundo e só nesse momento o Ocidente acordou: bombardeamentos aéreos da coligação internacional com os curdos a fazerem de tropa de choque no terreno. A Rússia, com a certeza de que os Estados Unidos não iriam intervir, percebeu que tinha caminho livre e é hoje o principal aliado da Síria, aproveitando ainda para irritar a NATO enquanto namora a Turquia. Deixando à coligação internacional e aos curdos o combate ao Estado Islâmico, o regime sírio reorganizou-se o melhor que pode e aproveitou para, com o argumento de combater terroristas, bombardear e ganhar terreno às milícias que lhe faziam oposição.

Não consigo recordar ao certo se foi após a tomada de Raqqa ou de Palmira, mas Bashar Al Assad anunciou que apenas iria parar quando retomasse o poder de todo o território sírio; a Rússia deu a entender que talvez não fosse possível. Ainda não foi, mas parece inevitável que tal venha a acontecer. Assad não vai permitir que parte do território da Síria seja controlado por outras armas que não as suas, seja qual for o preço a pagar,  esteja a Turquia de acordo ou não. A não ser que o apoio russo lhe falte, algo pouco provável atendendo à pretensão russa de expandir influência no Médio Oriente, Assad não vai desistir. Mesmo sabendo que os Estados Unidos apoiam a “resposta” turca, o Governo sírio vai querer concretizar a reconquista.

Em Idlib e arredores, perante o inevitável ataque e avanço das forças de Assad, a Turquia ameaça retaliar (e tem retaliado) mas terá de ceder. Ou então haverá uma guerra aberta entre turcos e sírios, sabendo nós que a Rússia há muito escolheu de que lado está. Fazer previsões num xadrez geopolítico tão complexo é sempre um enorme risco, mas à Turquia restará levar para a Líbia os combatentes que, sem outra saída, estão transformados em mercenários às ordens de Ancara. São muitos os combatentes estrangeiros na região, a quem apenas se colocam duas possibilidades: renderem-se a Damasco e serem julgados como mercenários ou manterem-se fiéis à Turquia, lutando na Síria enquanto tiverem apoio, ou “fazendo o serviço” num outro país como a Líbia, para onde, aliás, muitos já foram.

Mais duas questões, sendo que uma delas não é nova e parece não preocupar as consciências: que direito tem a Turquia de estar na Síria a querer impor uma realidade num território que não é o seu? A outra, o que vai acontecer aos civis, desprotegidos, rodeados de combates e ataques aéreos, e sem pontos de fuga? As Nações Unidas, para além das tentativas de diálogo e de calar de armas que nunca são respeitados, pouco poderão fazer. Desde o início da actual ofensiva, em meados de Dezembro, o OSDH dá conta da morte de mais de 350 civis e as Nações Unidas dizem que quase 700.000 pessoas fugiram da região – 100.00 só na última semana. A maioria dos deslocados aglomeram-se junto à fronteira com a Turquia. Idlib, tem tudo para correr mal e o mundo arrisca-se a assistir a mais uma catástrofe.

Pinhal Novo, 11 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Quanto mais Trump, menos Palestina

O Plano apresentado por Donald Trump deixa os territórios palestinianos cercados por território de Israel, com excepção da Faixa de Gaza. A foto faz parte do "Peace to Prosperity", apresentado a 28 de Janeiro na Casa Branca.

Está consumado: a ocupação passa de temporária a permanente, tal como responsáveis palestinianos já tinham alertado. Desde logo, elaborar um plano sem que uma das partes directamente interessada tenha qualquer participação, é um verdadeiro absurdo. Não é um plano, muito menos um acordo, é uma imposição construída entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Anunciado há muito, o Plano de Trump demorou a ser apresentado, mas não desiludiu: corresponde inteiramente às ambições do Governo de Benjamin Netanyahu.
Aquilo que o Primeiro-ministro israelita e o Presidente dos Estados Unidos forjaram, e que apresentam como um futuro Estado palestiniano, não passa de um conjunto de bolsas de terreno, espartilhadas por colonatos e vias de acesso privadas para os colonos, expropriadas de fontes de recursos como por exemplo a água e a margem fértil do Rio Jordão, sem poder usufruir dos pilares indispensáveis a um Estado soberano, como são o controlo de fronteiras e a posse de forças militares. Seria assim uma espécie de região administrativa autónoma, dentro do Estado de Israel, sem fronteiras terrestres ou marítimas – com excepção da Faixa de Gaza.

O documento, com cerca de 180 páginas, impõe que os palestinianos reconheçam Israel como um Estado judaico, que um futuro Estado palestiniano seja "desmilitarizado" e no qual o controlo do espaço aéreo é da responsabilidade de Israel. O plano prevê também que os colonatos sejam anexados (considerados território de Israel), o que significa que cerca de 30% da Cisjordânia passe para o Estado de Israel. Ao Vale do Jordão, acontecerá o mesmo e Israel propõe em troca duas bolsas de terreno no deserto do Sinai junto à fronteira com o Egipto. Apesar de tudo isto, Donald Trump não se coibiu de dizer ao mundo que o território palestiniano duplicará, se o plano proposto for aceite.
  
Quanto a Jerusalém, o plano reafirma o que Trump já tinha dito: é a capital indivisível do Estado de Israel. Mas Trump também diz que um futuro Estado palestiniano terá em Jerusalém oriental a sua capital. É aqui que o jogo de palavras só engana os incautos: a Jerusalém Oriental que os palestinianos se referem quando exigem uma capital é aquela que está colada à cidade velha e não aquela que já fica fora do muro de separação (construído por Israel) e que apesar de estar (Abou Dis) a oriente de Jerusalém, não é a que é reconhecida tradicionalmente como "Jerusalém Oriental".

Outro aspecto importante em toda a história do conflito é o dos refugiados palestinianos. Donald Trump foi claro: podem viver num futuro Estado palestiniano, podem integrar-se nos países onde residem actualmente ou ir viver para um outro país. Voltar aos locais onde viviam e hoje é o Estado de Israel, isso é que não. Trump promete ajudar "generosamente" o processo de reinstalação. Termina assim o "direito de retorno" exigido pelos palestinianos para aqueles que tiveram de deixar as suas casas aquando da fundação do Estado de Israel e após a guerra de 1967.

Como "homem de negócios" que diz ser, Donald Trump lança dinheiro para cima de todas as soluções que propõe e pensa que dessa forma resolve os problemas, mas talvez desta vez a solução não seja acertada.

Perante tudo isto, Mahmood Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana, lançou o aviso desde Ramallah: Jerusalém não está a venda e a dignidade dos palestinianos também não. O problema é que Abbas parece alguém a pregar no deserto tal a falta de apoios concretos daqueles que o poderiam apoiar. Ainda assim, este plano poderá fazer pelos palestinianos aquilo que até agora não conseguiram fazer sozinhos: a união entre a Fatah (que domina a Autoridade Palestiniana) e o Hamas (que domina a Faixa de Gaza). Têm reunião marcada para esta quarta-feira, 29 de Janeiro.

A Liga Árabe tem reunião também já marcada para sábado, mas daí pouco a esperar e tudo deve ficar na mesma, para além de uma declaração mais ou menos indignada. Aliás, Omã, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, marcaram presença na Casa Branca para a apresentação deste plano. Egipto e Arábia Saudita tiveram reacções muito cautelosas. A Jordânia exprimiu reservas e disse que a única via para uma paz duradoura é a construção de um Estado palestiniano a partir das fronteiras de 1967.

A declaração do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrel, reflecte o que todos já sabemos: em termos de política externa, a União Europeia não existe, ou pelo menos tenta sempre passar pelos pingos da chuva, fazendo declarações de retórica absolutamente vazias de sentido prático. Quando Borrel afirma que esta iniciativa dos Estados Unidos fornece uma ocasião para relançar as negociações entre Israel e os palestinianos, é caso para perguntar onde tem estado Borrel nos últimos anos. Borrel quase faz sentir saudades de Javier Solana.

Pinhal Novo, 29 de Janeiro de 2020
josé manuel rosendo