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domingo, 13 de setembro de 2020

Palestina, e agora?

        Líderes do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos. Fotografia: newsbeezer.com

Primeiro, os Emirados Árabes Unidos, agora o Bahrein. No espaço de um mês, dois países árabes normalizaram relações com Israel, depois de dois outros, Egipto (1979) e Jordânia (1994) terem assinados tratados de paz com o Estado hebraico. Em contextos diferentes, certo é que são quatro os países árabes que se relacionam normalmente com Israel. Após o anúncio da normalização das relações entre Israel e os Emirados, a Administração norte-americana apressou-se a dizer que outros países árabes se seguiriam e assim aconteceu. Falta saber qual se vai seguir.

 

Alguns países árabes, nem pensar, como é o caso do Líbano, Síria, Iémen ou Iraque, países inimigos de Israel; outros que por ausência de um verdadeiro Estado ficam desde logo descartados, como é o caso da Somália e da Líbia; mas outros há que talvez possam seguir o caminho dos quatro que já acederam à vontade de Israel e dos Estados Unidos. 

 

A atenção dos Estados Unidos e de Israel parece centrada em ganhar terreno nas monarquias do Golfo Pérsico, porque na outra margem está o Irão. O argumento de que o grande país xiita é uma ameaça aos pequenos países do Golfo, funciona na perfeição, obviamente com o acordo da Arábia Saudita, que apesar de ser a guardiã dos lugares santos do Islão, não hesitará em abraçar Israel, embora não lhe convenha ser dos primeiros. O Irão é o elo que – involuntariamente – ajuda a construir esta teia de interesse comum, mesmo entre protagonistas com divergências históricas. Outro assunto é a presença norte-americana no Golfo e o negócio das armas, com Washington a assinar contratos dos mais valiosos de sempre em exportações para as monarquias dos petrodólares.

 

Assim sendo, no Golfo, para mais acordos de normalização podem estar países como Omã (país que tenta a neutralidade e é próximo do Irão e também dos Estados Unidos) e o Koweit (que apesar da proximidade com Washington sempre tem rejeitado a normalização com Israel). Resta o Qatar, forte apoiante da Faixa de Gaza (e do Hamas), vítima de um bloqueio económico por ter relações com o Irão, mas é lá que – à hora a que escrevo – decorrem as negociações entre Taliban e Governo do Afeganistão, com a presença de Mike Pompeo. O Qatar não dará esse passo com Israel.

 

Há ainda outras possibilidades que têm sido referidas como é o caso de Marrocos ou do Sudão, países que poderiam receber como moeda de troca a concretização de algumas aspirações que dependem da real politik a nível internacional.

 

Sendo que o caminho da paz é sempre o desejável, essa paz apenas será sustentável se houver dignidade no calar das armas e no aperto de mão ao inimigo. E a revelação que é feita neste caminho é a de que alguns líderes árabes, mais preocupados com o próprio poder e em manter uma relação com países poderosos, sacrificam uma causa que tanto os indignou e abandonam o campo de batalha sem honra. Não por terem recusado a via das armas, mas porque fica pelo caminho a aspiração dos palestinianos a terem um Estado. 


A “solução dois Estados” de que tanto se fala é cada vez mais uma miragem. A causa palestiniana está a definhar e a aproximar-se da extinção, vítima também da própria divisão interna, de uma Liga Árabe que não quer ou não sabe defender os palestinianos, de Governos em Israel e nos Estados Unidos que nunca foram tão à direita e, logo, preferem impor a negociar seja o que for, e por fim, porque são vítimas de uma outra guerra, neste caso com o Irão, declarado inimigo dos Estados Unidos, Israel e monarquias do Golfo. A Liga Árabe deu um sinal claro de divisão quando, na última reunião, recusou aprovar a condenação da normalização de relações de Israel com os Emirados Árabes Unidos, apresentada pela Palestina.


Estamos perante a batalha perfeita para derrotar a causa palestiniana, sem necessidade de disparar um único tiro. A “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, em toda a sua plenitude.

 

Mas desta machadada na causa palestiniana, deve ficar também registada a derrota das Nações Unidas. Não há tema que tenha consumido tantas horas de trabalho desde que a ONU nasceu, como o dos acordos israelo-árabes. Produziram-se Resoluções sucessivamente desrespeitadas, mas nunca houve sanções contra ninguém. Tem de ser dito que a construção das  condições que inviabilizam a criação de um Estado da Palestina, é uma derrota estrondosa das Nações Unidas e deixa a nu a incapacidade de regulação de conflitos. Talvez um dia destes, talvez António Guterres, rode a chave pela última vez. Pelo menos na ONU tal como a conhecemos.

 

Pinhal Novo, 13 de Setembro de 2020

josé Manuel rosendo

domingo, 1 de março de 2020

Afeganistão: Acordo para retirada norte-americana está assinado, muito em breve saberemos o que valem as assinaturas

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Zalmay Khalilzad (enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão) e Mullah Abdul Ghani Baradar (líder político Taliban) assinam o Acordo para a retirada norte-americana do Afeganistão. Foto Baher Amin/The Peninsula


Dezoito anos depois de entrarem no Afeganistão, os Estados Unidos entreabriram a porta de saída. As incertezas relativamente ao sucesso do Acordo assinado são tantas que a própria simbologia associada não as esconde: na mesa do Hotel Sheraton em Doha, no Qatar, onde se sentaram Zalmay Khalilzad (enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão) e o Mullah Abdul Ghani Baradar (líder político Taliban), não tinha as habituais bandeiras nem as placas com os nomes dos protagonistas; no documento distribuído não há qualquer símbolo ou marca, sendo o texto impresso em páginas completamente despidas.

Outra marca, já não simbólica, mas muito significativa, é a forma repetida como os Taliban são referidos: “the Islamic Emirate of Afghanistan which is not recognized by the United States as a state and is known as the Taliban”. Em tradução livre será “o Emirado Islâmico do Afeganistão, que não é reconhecido pelos Estados Unidos Unidos como um Estado e é conhecido por Taliban”. A fórmula é repetida dezasseis (16!!!) vezes ao longo das três páginas e meia do Acordo

Este Acordo acaba por validar a velha fórmula de que a Paz é feita com o inimigo, tendo a particularidade de ser entre inimigos que já foram amigos, quando a presença soviética no Afeganistão era o alvo a combater. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão com o pretexto de dar caça a Bin Laden e à Al Qaeda, mas também convém lembrar que os Taliban aceitavam entregar Bin Laden, desde que fosse julgado no Afeganistão, o que os Estados Unidos não aceitaram. Apesar de Bin Laden ter sido morto pelos Estados Unidos há quase nove anos, os militares norte-americanos (e outros) não saíram do Afeganistão.

O que prevê o Acordo?

Grosso-modo, o Acordo impõe que o Afeganistão não possa ser utilizado por grupos que representem uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos e aponta para uma data de retirada do Afeganistão de todas as forças militares estrangeiras: daqui a 14 meses.
Esta primeira questão coloca uma enorme dúvida: mesmo com a presença norte-americana no terreno, a actividade do Estado Islâmico tem sido em crescendo e a Al Qaeda não desapareceu no Afeganistão, será que os Taliban terão força e engenho para conseguir sozinhos o que os Estados Unidos não conseguiram?
Para já, no prazo de quatro meses e meio (135 dias a contar da data do Acordo), os Estados Unidos reduzem a presença militar para 8.600 militares (estima-se que sejam actualmente 12.000 a 13.000) acontecendo o mesmo, em termos proporcionais, com as forças dos países aliados; os Estados Unidos e os aliados retirarão totalmente de cinco bases militares.

Outro ponto do Acordo, o mais complicado, é a paz e o entendimento entre afegãos. O Acordo refere que o diálogo entre todos os afegãos, entenda-se Taliban, Governo e outras forças da sociedade afegã, deve começar a 10 de Março. Nesse dia, devem ser libertados 5 mil prisioneiros taliban e mil afectos ao governo de Cabul. Será um sinal de confiança entre as partes, exigido pelo Acordo, que prevê ainda a libertação de todos os prisioneiros nos três meses seguintes. Sobre a libertação de prisioneiros, o Presidente afegão, Ashraf Ghani, já disse que não, avisando que os Estados Unidos não decidem pelo governo de Cabul. Está criado um primeiro problema.

Na agenda das negociações entre afegãos deve constar um cessar-fogo permanente e os Estados Unidos comprometem-se a rever as sanções que aplicaram a membros dos Taliban, acrescentando que também o Conselho de Segurança da ONU fará o mesmo.

O Acordo assinado em Doha aplica-se apenas às áreas do território controladas pelos Taliban até à formação de um novo Governo afegão que resulte das negociações que vão começar já a 10 de Março. Desde logo convém não esquecer que o Governo afegão esteve arredado das negociações, embora tenha enviado uma delegação ao Qatar para assistir à Assinatura do Acordo e iniciar contactos com os Taliban. Os Taliban sempre recusaram sentar-se à mesa com o Governo e diziam que representava um “regime de marionetes”.

Este Acordo terá sido a parte mais fácil e será prematuro pensar que a paz no Afeganistão vai chegar rapidamente. A realidade é muito complexa e o país está destruído. Destruição em todos os sentidos, sendo que o mais complicado é um tecido social esfrangalhado e ódios acumulados por décadas de guerra. O que este Acordo significa, sem dúvida, é que as duas partes perceberam que nenhuma delas ia ganhar a guerra que têm feito uma à outra, mas também é verdade que estabeleceram um Acordo que depende de terceiros que não foram envolvidos nas negociações. Ou seja, a Paz no Afeganistão não ficou mais perto, e o eventual regresso das tropas norte-americanas a casa, apenas significa que os Estados Unidos lavam as mãos de uma guerra que iniciaram e deixam o campo afegão numa outra guerra quiçá ainda mais fratricida.

Pinhal Novo, 1 de Março de 2020
josé manuel rosendo

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Síria, Idlib: tragédia anunciada

Baghouz, Síria, Abril de 2019. Nunca faltam armas e munições. Foto: jmr
As informações mais recentes dão conta que a Turquia abateu um helicóptero do regime sírio. Terão morrido 12 soldados sírios. Todos os indicadores são preocupantes. António Guterres classificou a situação de guerra na Líbia como um escândalo; devia ter dito o mesmo da guerra na Síria, em particular sobre o que se passa na região de Idlib.

A cidade e a região de Idlib, são o último reduto das forças que combatem o Governo sírio. Para Idlib foram enviados muitos combatentes, familiares e outros civis, que recusaram ficar nas regiões que as forças de Bashar Al Assad foram reconquistando durante os últimos meses/anos. Cerca de três milhões de pessoas vivem (viviam) nesta região que faz fronteira com a Turquia; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) estima que mais de 50.000 combatentes estejam também na região e entre eles estão vários grupos de inspiração religiosa, com particular destaque para a Hayat Tahrir al Sham, o braço sírio da Al Qaeda, e o transfigurado Free Syrian Army, agora um braço de guerrilha da Turquia.

Nada do que está a acontecer na Síria é verdadeiramente surpreendente. Lembro-me, em 2012, na região de Salma, na montanha de Jabal al Akrad, um comandante local do então recém-formado Free Syrian Army - FSA (Exército de Livre da Síria), perante a ausência de qualquer tipo de apoio externo, disse-me que de bom grado aceitaria armas se a Al Qaeda as oferecesse. Ficou traçado o cenário. Quem entra numa guerra assim, acaba por ter de esquecer a motivação inicial se tiver de lutar para salvar a pele. Foi o que aconteceu aos que acreditaram que seria possível afastar o ditador Bashar Al Assad.

Pelo meio ficaram as hesitações do Ocidente: apenas promessas e palavras que deixaram o FSA mal equipado e abandonado à sua sorte. Em 2013, Barack Obama ainda ameaçou (com o argumento de que estavam a ser utilizadas armas químicas), mas nunca concretizou as ameaças. Depois, o Estado Islâmico assustou o mundo e só nesse momento o Ocidente acordou: bombardeamentos aéreos da coligação internacional com os curdos a fazerem de tropa de choque no terreno. A Rússia, com a certeza de que os Estados Unidos não iriam intervir, percebeu que tinha caminho livre e é hoje o principal aliado da Síria, aproveitando ainda para irritar a NATO enquanto namora a Turquia. Deixando à coligação internacional e aos curdos o combate ao Estado Islâmico, o regime sírio reorganizou-se o melhor que pode e aproveitou para, com o argumento de combater terroristas, bombardear e ganhar terreno às milícias que lhe faziam oposição.

Não consigo recordar ao certo se foi após a tomada de Raqqa ou de Palmira, mas Bashar Al Assad anunciou que apenas iria parar quando retomasse o poder de todo o território sírio; a Rússia deu a entender que talvez não fosse possível. Ainda não foi, mas parece inevitável que tal venha a acontecer. Assad não vai permitir que parte do território da Síria seja controlado por outras armas que não as suas, seja qual for o preço a pagar,  esteja a Turquia de acordo ou não. A não ser que o apoio russo lhe falte, algo pouco provável atendendo à pretensão russa de expandir influência no Médio Oriente, Assad não vai desistir. Mesmo sabendo que os Estados Unidos apoiam a “resposta” turca, o Governo sírio vai querer concretizar a reconquista.

Em Idlib e arredores, perante o inevitável ataque e avanço das forças de Assad, a Turquia ameaça retaliar (e tem retaliado) mas terá de ceder. Ou então haverá uma guerra aberta entre turcos e sírios, sabendo nós que a Rússia há muito escolheu de que lado está. Fazer previsões num xadrez geopolítico tão complexo é sempre um enorme risco, mas à Turquia restará levar para a Líbia os combatentes que, sem outra saída, estão transformados em mercenários às ordens de Ancara. São muitos os combatentes estrangeiros na região, a quem apenas se colocam duas possibilidades: renderem-se a Damasco e serem julgados como mercenários ou manterem-se fiéis à Turquia, lutando na Síria enquanto tiverem apoio, ou “fazendo o serviço” num outro país como a Líbia, para onde, aliás, muitos já foram.

Mais duas questões, sendo que uma delas não é nova e parece não preocupar as consciências: que direito tem a Turquia de estar na Síria a querer impor uma realidade num território que não é o seu? A outra, o que vai acontecer aos civis, desprotegidos, rodeados de combates e ataques aéreos, e sem pontos de fuga? As Nações Unidas, para além das tentativas de diálogo e de calar de armas que nunca são respeitados, pouco poderão fazer. Desde o início da actual ofensiva, em meados de Dezembro, o OSDH dá conta da morte de mais de 350 civis e as Nações Unidas dizem que quase 700.000 pessoas fugiram da região – 100.00 só na última semana. A maioria dos deslocados aglomeram-se junto à fronteira com a Turquia. Idlib, tem tudo para correr mal e o mundo arrisca-se a assistir a mais uma catástrofe.

Pinhal Novo, 11 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo