quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Egipto - Tahrir não foi para isto



(foto: jmr. Praça Tahrir, 7 de Fevereiro de 2011)

Esta quarta-feira, 14 de Agosto de 2013, quebrou-se algo muito importante no tecido e na coesão social do Egipto: o exército divorciou-se do povo. Há centenas de mortos e feridos.
No início de 2011, no Cairo, em plena revolta popular que haveria de fazer cair Moubarak, exército e povo estavam de mãos-dadas com a população a oferecer flores aos militares na Praça Tahrir. Relatei esses momentos na Antena 1 e, inevitavelmente, comparei-os às imagens do 25 de Abril em Portugal. Por esses dias o exército egípcio declarou que não iria disparar contra o seu próprio povo e foi esse o momento em que Moubarak sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Esta quarta-feira tudo mudou. O exército esteve ao lado da polícia no ataque aos locais onde se concentravam os apoiantes do presidente deposto e é ele, o Exército, quem detém o verdadeiro poder no Egipto. Mas, como dizia um analista na Al Jazeera (perdoem-me não ter memorizado o nome…) os militares têm uma dificuldade: olham para os problemas políticos e vêm um problema de segurança.

É também necessário ter alguns factos (sim, factos!) importantes em conta: Mohamed Morsi, o presidente deposto foi eleito democraticamente; o Partido da Liberdade e da Justiça (da Irmandade Muçulmana) venceu as eleições legislativas; a Constituição foi referendada. Posto isto convém reter que um golpe militar não é necessariamente mau (veja-se o 25 de Abril em Portugal) e um poder político saído da legitimidade das urnas não é obrigatoriamente democrático nem goza de legitimidade intocável.

Outro aspecto a ter em conta é que desde há pelo menos três décadas que os USA despejam milhares de milhões de dólares em “ajuda” militar e formam os oficiais egípcios. Há também um Tratado de Paz com Israel que faz tremer muitas chancelarias só de pensarem que pode ser posto em causa.

Por outro lado, não vai longe o discurso de Barack Obama no Cairo (Junho de 2009). Uma das interpretações desse discurso de Obama foi a de que terá dado luz verde ao que viria a ser a “Primavera Árabe”. Obama falou de democracia num país governado por Moubarak, durante décadas, com mão de ferro. Mas aquela região do Mundo já sabe quão confiáveis são as propostas ocidentais e, em particular, as norte-americanas. Basta verificar os factos. Basta que nos lembremos como os xiitas iraquianos foram “abandonados” pelos USA durante a I Guerra do Golfo quando as tropas iraquianas fugiam para Bagdad.

Quanto ao Egipto, quando Moubarak começou a enfrentar as manifestações de protesto, os USA hesitaram… depois, quando houve o golpe militar, em Julho passado, os USA voltaram a hesitar (a terminologia utilizada quando se referem a esse momento é elucidativa) e agora, voltam a hesitar quando condenam a violência exercida contra os apoiantes de Morsi, mas antes disso já tinham ido ao Cairo “reconhecer” o poder político que saiu desse golpe militar. Isto é: os USA não querem a Irmandade Muçulmana no poder, mas também não querem “ter sangue nas mãos”. É a diplomacia no seu melhor. Da União Europeia não vale a pena falar. Catherine Ashton (que também foi ao Cairo depois do golpe militar numa atitude que significa um reconhecimento tácito do poder dos militares…) é um erro de casting. Tal como foi a nomeação de Tony Blair para representante do Quarteto nas negociações entre israelitas e palestinianos.
 
É bom que se diga que apesar de Moubarak ter caído o regime ficou. Militares e poder económico a ele associado ficou intocável. Não deixa de ser surpreendente que uma exército que sempre viveu na sombra de Moubarak, sob a qual não havia nem um cheirinho de democracia, esteja agora tão preocupado com essa mesma democracia depois de um ano de poder político da Irmandade Muçulmana.
 
A política tem sempre uma saída para as crises e para as guerras, mas neste momento quem consegue dizer como vai terminar esta crise no Egipto? Como é que a Irmandade Muçulmana vai sentar-se à mesa depois de ver morrer centenas de apoiantes e de ser afastada de um poder democraticamente conquistado. Como é que Obama poderia voltar ao Cairo para voltar a falar de democracia? Como é que Obama explicaria aos egípcios que depois de votarem para escolher um presidente e uma Constituição, pode aparecer alguém a dizer que afinal as eleições não contam?
 
Será conveniente não esquecer que a Irmandade Muçulmana é a instituição mais organizada do país e que nunca cedeu à repressão que sofreu durante décadas. Admitindo que a crise no Egipto pode ser resolvida com novas eleições, o que acontece a seguir se a Irmandade Muçulmana voltar a vencer? Outro golpe militar? E que os “europeus” não se fiquem a rir porque ainda muito recentemente na Europa, sim na Europa, assistimos à repetição de referendos apenas porque o resultado não foi o que os “democratas” pretendiam.

 

josé manuel rosendo

Pinhal Novo, 15 de Agosto de 2013

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