quarta-feira, 13 de março de 2019

E agora, “somos todos Jarrah?”

Créditos da foto: UNICEF/UNO 185401/Sanadiki. Esta foto apenas serve para ilustrar o sofrimento das crianças e não é uma fotografia da criança de que este texto trata.
Quem já passou do título, estará a perguntar: quem é Jarrah? Pois, Jarrah, é filho de Shamima Begum, uma jovem britânica de 19 anos, que decidiu juntar-se ao Estado Islâmico (EI) em 2015. Jarrah, morreu com menos de três semanas de vida, num campo de refugiados no nordeste da Síria, onde nasceu e estava com a mãe depois de terem fugido de Baghouz, último reduto do Estado Islâmico, cercado e atacado pelas Forças Democráticas da Síria (FDS). Um porta-voz das FDS citado por vários órgãos de informação disse que Jarrah morreu na sequência de uma pneumonia. Os dois irmãos de Jarrah também nasceram e morreram durante a aventura da mãe por terras do Califado.

A tragédia é absoluta. Mas podia ter sido um bocadinho menos terrível se o Governo britânico tivesse mexido um dedo para tentar salvar Jarrah, mesmo que isso significasse deixar de lado algumas formalidades e até algumas disposições legais. Já depois de Jarrah nascer, o Governo de Theresa May retirou a nacionalidade britânica à mãe, Shamina Begum. Londres argumenta que não a transformou numa apátrida porque também tem nacionalidade bengali e justifica a decisão com o facto de Shamina ter dito que não estava arrependida de ter deixado Londres, em 2015, para se juntar ao Estado Islâmico, embora Shamina também tenha dito que não concordava com tudo o que o EI fazia. Afinal, quando se juntou ao Estado Islâmico, Shamina teria 14 ou 15 anos.

Numa entrevista à BBC, Shamina explicou que em Fevereiro pediu autorização para regressar ao Reino Unido, queria levar o filho para crescer tranquilamente e não queria transformar-se num cartaz de propaganda do EI. A resposta foi negativa e o Governo britânico acrescentou que Jarrah poderia regressar, porque não perdera a nacionalidade britânica, mas para isso teria que haver uma autorização dos pais. A mãe não queria separar-se do filho e o pai, um holandês combatente do EI, está preso na Síria.
A insensibilidade do Governo britânico é assustadora e não podemos deixar de querer entender o motivo que o levou a retirar a nacionalidade britânica a Shamina, apenas depois de Jarrah nascer, quando teve desde 2015 para o fazer. E não o fez.

A Lei pode ser sempre esgrimida como argumento para as decisões de um governo, mas ninguém, normal (com alma, sentimentos e coração), pode achar normal que se peça a uma mãe que já perdeu dois filhos que se separe de um terceiro que acabou de dar à luz. Certamente alguém em Londres terá uma explicação muito iluminada para defender que deve ser assim.

De Londres chegaram também as palavras do costume e um porta-voz do Governo disse que “a morte de qualquer criança é trágica e fortemente perturbadora para a sua família”. O Presidente do Partido Conservador e também Ministro sem pasta, Brandon Lewis, argumentou que “na Síria, seja num campo de refugiados ou noutro qualquer lugar, não existe presença consular britânica”, tentando explicar assim a impossibilidade de repatriar Jarrah. Se não fosse triste, todos poderíamos rir com a tolice que saiu da boca deste suposto responsável político britânico.

Este caso no Reino Unido ilustra o desnorte dos países europeus que não sabem o que fazer com os seus nacionais que eram combatentes do Estado Islâmico e estão agora em campos e prisões na Síria ou em países vizinhos. Os Governos vivem no dilema de não permitir o regresso destes combatentes, argumentando com questões de segurança interna, ou permitir esse regresso para que respondam perante a justiça. O que para já estão a fazer é tentar manter o problema longe de casa, mesmo que isso custe a vida de crianças.

Como disse a Organização Não Governamental “Save the Children”, e não há forma de alguém poder dizer o contrário, “todas as crianças associadas ao Estado Islâmico são vítimas do conflito e devem ser tratadas como tal”.

A UNICEF já alertou que as “crianças do Estado Islâmico” não podem ser estigmatizadas como se também elas fossem terroristas. A Agência da ONU para a Infância diz que cerca de três mil crianças estrangeiras estão num campo de deslocados na Síria. Têm pelo menos 43 nacionalidades diferentes e a maioria dos países a que pertencem estão reticentes relativamente ao repatriamento destas crianças.
O director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, foi muito claro: as crianças “não podem ser varridas para debaixo do tapete” e acrescenta que há uma solução “que requer coragem e compromisso político, porque as crianças são crianças, não são terroristas”.

A dúvida que persiste é se os responsáveis políticos que acorreram – e bem – a Paris aquando do ataque ao Charlie Hebdo, empunhando cartazes “Je Suis Charlie”, vão agora demonstrar mais alguma coragem para além daquela que é necessária para segurar um cartaz e aparecer na fotografia; ou se os mesmos responsáveis políticos que se indignaram, por exemplo, com a morte de Alan Shenu (conhecido por Alan Kurdi), a criança curda refugiada que apareceu morta numa praia turca do Mediterrâneo, vão agora fazer mais alguma coisa para evitar a morte de crianças inocentes que tiveram a infelicidade de nascer num contexto em relação ao qual, obviamente, não têm nenhuma responsabilidade. Estamos à espera.

Pinhal Novo, 14 de Março de 2019
josé manuel rosendo
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