sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Os Curdos voltaram a ser traídos

 Porta-voz da FDS em conferência de imprensa em Ain Issa, Raqqa. Foto: Site da Kurdistan24TV.
A borboleta bateu as asas em Washington e provocou ainda mais confusão no Médio Oriente. Donald Trump, dentro da imprevisibilidade que se lhe conhece, voltou a tomar decisões e, em regra, nada de bom acontece ao mundo quando Trump se predispõe a assinar seja o que for. Desta vez anunciou que as tropas norte-americanas vão retirar da Síria, sendo que as “botas” dos Estados Unidos no terreno estão a lutar lado-a-lado com as Forças Democráticas da Síria (FDS), uma aliança das Unidades de Protecção do Povo (milícias curdas – YPG – Yekîneyên Parastina Gel) com tribos sunitas. Combateram e derrotaram o Estado Islâmico (EI) com a ajuda da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, cuja acção passou essencialmente por ataques aéreos a posições do EI.

A decisão de Donald Trump foi de tal modo inesperada e despida de racionalidade que motivou a demissão do Secretário da Defesa, Jim Mattis. Disse o último daqueles a quem Trump tem chamado de “os meus Generais” que o Presidente norte-americano precisa de ter um Secretário da Defesa com ideias mais próximas das dele.

Concretamente em relação aos Curdos o historial de traições é longo. Desde o Acordo Sykes-Picot com o qual Reino Unido e França definiram esferas de influência no Médio Oriente, passando pelo que aconteceu durante a ditadura de Saddam Husseín até à decisão de Trump sobre a Síria. Os Curdos do Iraque foram a “tropa de choque” que travou a expansão do EI e infligiu as primeiras derrotas aos extremistas quando as tropas de Bagdad batiam em retirada; os Curdos da Síria foram os que nunca se renderam e mantiveram Kobani “ligada à máquina” enquanto a Turquia se limitava a observar do outro lado da fronteira, até que os ataques aéreos da coligação internacional ajudaram os curdos a expulsar o EI de Kobani. Foi aí que começou a derrota do EI na Síria.
Mas tudo isto – que nem era necessário para ter direito a reivindicar a autodeterminação – parece pouco para uma (pomposamente chamada) Comunidade Internacional que teima em não reconhecer direitos evidentes e plasmados na própria Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os Curdos foram úteis e agora são deixados à sua sorte.

A decisão de Donald Trump de retirar tropas – os Estados Unidos dizem que são cerca de dois mil militares – da Síria, coloca desde logo a questão, tal como Trump declarou, se o Estado Islâmico está mesmo derrotado. As informações mais recentes dão conta de que mesmo depois de Trump anunciar a retirada da Síria, continuaram os ataques aéreos da coligação internacional a alvos do EI. Desde que foi lançada (10 de Setembro) a operação para tomar o último reduto do EI junto à fronteira com o Iraque, os combates provocaram cerca de um milhar de mortos de combatentes do EI e mais de 500 mortos entre as forças curdo-árabes das FDS. Números que mostram uma guerra longe do fim. 

Recordamo-nos também da declaração de George W. Bush (“missão cumprida”) em Maio de 2003, depois de Bagdad ter caído às mãos dos invasores. Sabemos todos que a missão não estava cumprida e que até hoje o Iraque vive em guerra. Tendo isso na memória, a decisão de Donald Trump sobre a Síria abre duas frentes: aquela em que a Turquia sente as mãos livres para, tal como o presidente Recep Erdogan tem dito e mostrado vontade, atacar e acabar com as milícias curdas; a outra é a do reforço da posição russa e iraniana (o Irão também se opõe a tudo o que beneficie politicamente os curdos) na Síria. E há ainda um terceiro problema nesta equação complexa: a Turquia é um país da NATO, mas há outros países da NATO que já condenaram a decisão de Trump e prometem continuar a apoiar (pelo menos a França) os Curdos da Síria.

É preciso sublinhar que criticar os Estados Unidos por interferência em conflitos/guerras não é incompatível com as críticas no momento em que decidem retirar-se dessas guerras. Não se trata de ser preso por ter e não ter cão. A questão é que após uma decisão de interferência e participação numa guerra a realidade no terreno altera-se e a decisão de sair tem um preço para quem está envolvido nesses conflitos. Sair sim, se tal entenderem, mas com o planeamento devido.

Por várias vezes fiz referência à guerra que se seguiria no pós Estado Islâmico e essa guerra está a aproximar-se rapidamente, com o norte da Síria a ameaçar tornar-se palco de mais um conflito medonho. O jornal turco Hurriyet escreve que a decisão de Donald Trump foi tomada após uma conversa telefónica com o presidente turco Recep Tayyp Erdogan. O líder turco prometeu eliminar o que resta do EI no norte da Síria e ao mesmo tempo eliminar também as milícias curdas. Essa foi aliás a táctica seguida pelo Presidento sírio e respectivos aliados: com o argumento de bombardearem posições do EI foram varrendo no caminho todas as forças da oposição não extremista.

Rojava, o Curdistão Ocidental, ganhou autonomia em 2011, face ao desmoronar do poder em Damasco. As instituições que alicerçam a autodeterminação são ainda frágeis, mas o sonho existe e a resiliência do povo já deu provas suficientes.
Numa primeira reacção os responsáveis políticos curdos disseram que vão ser obrigados a retirar as forças que combatem o EI nas linhas da frente e colocá-las junto à fronteira com a Turquia para combater uma eventual ofensiva turca. Outra “carta” que pode ser jogada é a libertação de centenas de combatentes do EI que estão em prisões curdas, uma forma de pressionar o Ocidente a não deixar cair os Curdos. Dizem que não é chantagem, é apenas a impossibilidade de manter segurança nas prisões quando for necessário chamar todas as forças para defender Rojava.

A cada passo, e apesar de ser lugar-comum, ganha sentido o velho provérbio curdo: “os únicos amigos dos curdos são as montanhas”.

Pinhal Novo, 21 de Dezembro de 2018

josé manuel rosendo

Sem comentários:

Enviar um comentário