quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Há 10 anos na Palestina...



“Arafat morreu”. A notícia, a meio da madrugada, via telefone, dada por um camarada da redacção em Lisboa, acordou-me num hotel em Jerusalém e tirou-me o sono. Há momentos que sabemos que nunca vamos esquecer.

Tinha saído de Lisboa com a imagem marcante de Yasser Arafat acenando aos palestinianos no momento em que entrava no helicóptero jordano que o retirava de uma Mukataa – quartel-general da Autoridade Palestiniana – onde viveu cercado durante cerca de 3 anos, sem nunca quebrar. Nesse dia, nessa despedida, Arafat não levava o tradicional lenço árabe mas sim um barrete de pelo que teimava em cair-lhe da cabeça. Li no olhar do velho líder que ele sabia, e eu pressenti, que jamais voltaria à Palestina. Não sei se Arafat chorou, mas de certeza que os palestinianos choram hoje a sua ausência. Os beijos atirados da porta do helicóptero foram a despedida de um pai que não podia abraçar todos os filhos de uma terra pela qual lutou sempre. Deixou a herança possível: a mesma luta.

Alguns dias depois, a Mukataa assistiu às lágrimas de um povo que se sentiu órfão. O funeral de Yasser Arafat foi um desses momentos em que quase dispensamos o bloco de notas tal a força das imagens e a forma como elas se instalam na nossa memória.

Era uma sexta-feira, talvez umas duas da tarde em Ramallah, o helicóptero jordano que transportava a urna de Arafat planou alguns minutos por cima da Mukataa para que milhares de palestinianos se afastassem e abrissem uma clareira onde pudesse aterrar. Depois, um ensurdecedor tiroteio e a urna transportada pelas mãos palestinianas até à sepultura que, dizia-se em Ramallah, tinha terra da Esplanada das Mesquitas. Israel não autorizou que Arafat tivesse sido sepultado em Jerusalém. A solução foi trazer a terra da cidade santa para receber o corpo do líder. Para os palestinianos Arafat está sepultado provisoriamente em Ramallah, porque há-de ser sepultado junto à Mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém. O “directo” para a rádio há-de estar gravado no arquivo da Antena 1. Nesse dia foi um telefone satélite que salvou o directo porque as redes de telemóvel estavam saturadas (ou bloqueadas?).

As fotos são desses dias, desses momentos, passados ao redor da Mukatta, e também lá dentro, no funeral, depois de um velho militar palestiniano ter aberto a porta a dois jornalistas portugueses ao lembrar-se que tinha sido português, o primeiro presidente – Mário Soares – a dormir em Gaza depois de Arafat lá se ter instalado quando regressou do exílio.

josé manuel rosendo
12 de Novembro de 2014

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