quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Quem será o primeiro Trump europeu?


Os créditos deste cartoon são de www.gentiuno.com  

Nos Estados Unidos não sei, mas por cá são poucos os que duvidam do populismo de Donald Trump. Talvez alguém ainda lhe dê o benefício da dúvida, mas o homem é como o algodão: não engana. Basta-lhe dizer duas frases seguidas ou pegar na caneta para assinar um qualquer decreto: sai asneira. Verdade seja dita que está a cumprir o que prometeu. Votaram nele? Aguentem-se (aguentam?)!!! A ver vamos. As casas de apostas enganaram-se estrondosamente aquando das eleições e agora a cautela aconselha isso mesmo: prudência.

Neste momento há duas questões que precisam de uma resposta urgente, por que dessas respostas pode surgir a resposta a dar a Donald Trump. Nos Estados Unidos da América mas não só. 

Desde logo estamos a assistir a uma overdose de notícias sobre Donald Trump. Começa a tornar-se difícil fazer a selecção do que é realmente importante e o truque é mesmo esse: parece que tudo é importante. Esta overdose, a manter-se, vai fazer com que um dia destes os consumidores de informação deixem de valorizar as decisões da Casa Branca. Trump vai fazer o que quiser, quando quiser, e sabe que o impacto já não vai ser o mesmo que está a ter neste momento. É perigoso.

A segunda questão diz directamente respeito à margem europeia do Atlântico: como é que este populista chegou ao poder e quem lhe atapetou o caminho? É a questão mais preocupante, porque em relação a Trump ele próprio e a equipa que o rodeia vão encarregar-se de arranjar forma de voltarem ao sítio de onde vieram (Montesquieu: Todo o homem que tem poder sente inclinação para abusar dele, indo até onde encontra limites).

Aqui, pela Europa, os sinais de alarme já começaram a tocar. Basta olharmos para França e para a Hungria, e temos motivos de preocupação. Depois somamos aqueles que dizem que as ideologias morreram e, se assim fosse, não haveria líderes políticos, nem política, porque sem ideias nem uma coisa nem outra. Em geral, os líderes populistas tendem a fazer passar a ideia de que “os políticos são todos iguais” (quem nunca ouviu esta frase repetida por pacatos cidadãos?) para depois captarem a simpatia (e o voto) através da emoção e não da razão. Está cozinhado o caldo que pode levar os Trump’s ao poder.

Mas a questão mais profunda é a de saber o que proporciona esta situação explorada pelos populistas. As políticas neoliberais na União Europeia e os partidos socialistas rendidos à chamada “terceira via” têm uma enorme quota de responsabilidade. A austeridade para uns e o enriquecimento para outros, ajudou muito. A entrega a privados de serviços e bens que são (deviam ser) de todos e por todos escrutinados através da política e da democracia, fez o resto. As diferentes economias a competirem no mesmo mercado sem que as regras (e os juros) sejam iguais para todos (nunca esquecendo a escala e o ponto de partida do nível de desenvolvimento económico de cada país), mostraram que este não é o caminho.

Aqui chegados, um novo e grave problema: muitos dos que hoje, na Europa, aparecem, indignados, a criticar Donald Trump, são exactamente os mesmos que conduziram ou defenderam o caminho que a União Europeia tem vindo a fazer.

Tudo isto junto é palha seca por onde as chamas do populismo vão irromper se não surgirem forças políticas e políticos descomprometidos com o passado recente. Assim se consigam fazer ouvir e aceitar.

Pinhal Novo, 1 de Fevereiro de 2017-02-01

josé manuel rosendo

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