sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Palestina, era uma vez um Estado

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Este ano cumpre-se o cinquentenário da ocupação israelita na Cisjordânia (na Faixa de Gaza terminou em 2005) na sequência da Guerra dos Seis Dias. Uma ocupação sempre a esticar limites e com uma população de colonos a aumentar. Quase 600 mil colonos num território com cerca de 2,5 milhões de palestinianos. Na Cisjordânia, palestinianos e colonos vivem separados por muros, vedações e postos de controlo. Os colonatos têm estradas privadas que os ligam entre eles e a Israel, estão protegidos por perímetros de segurança, postos de controlo, fixos e móveis. Toda a margem fértil do Rio Jordão está ocupada por colonos e empresas israelitas. O exército israelita garante a ocupação.

Dizer agora que está em risco a “solução dois Estados” é uma constatação correcta, mas chega com muitos anos de atraso. O mapa que acompanha este texto ilustra como é impossível criar um Estado no território da Cisjordânia ocupada, transformada numa verdadeira manta de retalhos. Os territórios que pertencem aos palestinianos por acerto e resoluções das Nações Unidas, e também pelos Acordos de Oslo, pouco mais de metade estão, de facto, nas mãos da Autoridade Palestiniana.

Por estes dias, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas fez saber que a aceleração da colonização israelita é uma acção unilateral que constitui um obstáculo à solução “dois Estados” (ainda a 23 de Dezembro a ONU aprovou uma resolução a condenar a colonização – pela primeira vez sem o veto dos Estados Unidos); a líder da diplomacia europeia Federica Mogherini alertou esta semana para o perigo que a expansão dos colonatos israelitas significa para a “solução dois Estados”.
A tudo isto, e antes de tudo isto, Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, respondeu que “nós construímos e continuaremos a construir” e, logo que Donald Trump chegou à Casa Branca, não se coibiu de admitir que Israel está “perante uma oportunidade formidável para a segurança e para o futuro de Israel”. Longe vai o tempo em que o Presidente dos Estados Unidos avisou Netanyahu: “nem um tijolo, e isso inclui Jerusalém”, terá dito Obama. Foi o próprio Benjamin Netanyahu quem o revelou. Também é certo que o aviso não teve efeitos práticos.

No espaço de quatro dias após após a tomada de posse de Donald Trump, o Governo de Israel anunciou a construção de mais três mil habitações na Cisjordânia ocupada. Ao contrário do que era hábito, a administração norte-americana não condenou o anúncio da expansão da colonização.
Estava eu a terminar este texto e chegou a notícia: a Casa Branca considera que a construção ou expansão de colonatos talvez não ajude à paz, mas acrescenta que os colonatos não são um obstáculo à paz entre israelitas e palestinianos. Benjamin Netanyahu é recebido este mês em Washington.

Ao certo, dos Estados Unidos, o que se sabe é que Donald Trump prometeu transferir a embaixada norte-americana para Jerusalém. Ainda não o fez, mas o homem escolhido para embaixador, David Friedman, judeu conservador norte-americano faz parte (diz o jornal israelita Haaretz) de uma organização norte-americana que tem enviado milhões de dólares para um colonato (Beit El) a norte de Ramallah, o mesmo colonato que recebeu contribuições de Jared Kushner (também judeu, genro e agora conselheiro de Trump) e do próprio Donald Trump. Uma nota no final deste parágrafo, para evitar extrapolações abusivas: o que fica dito corresponde a factos e não é nada, rigorosamente nada, contra o povo judeu.

Do lado palestiniano chegou-nos a indignação. O Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmood Abbas, avisou que a Organização de Libertação da Palestina (OLP) pode rever (entenda-se revogar) o reconhecimento do Estado de Israel; o número dois da OLP, Saeb Erekat, disse que a comunidade internacional deve pedir contas a Israel, imediatamente.

Dizer que é imprevisível o que pode resultar do que atrás fica descrito, parece-me o mais acertado. Ninguém duvida que os palestinianos não vão gostar. A chamada “comunidade internacional” e as suas instituições mais representativas vão continuar, de declaração em declaração, até que essas declarações se revelem bizarras face à situação concreta no terreno. Falta pouco.

Pinhal Novo, 3 de Fevereiro de 2017
josé manuel rosendo

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