quinta-feira, 7 de novembro de 2019

É preciso ter arte. E Alma. Ou ser falsificador...


Uma notícia na Revista Sábado, a propósito de um falsificador de arte, provocou-me um turbilhão de ideias. Bem vistas as coisas, nada de anormal, atendendo a esse princípio elementar de que (quase) tudo pode ser fonte inspiração. Mas, uma coisa é sentirmos que encontrámos um motivo de inspiração que nos impele à criação, outra coisa é reproduzirmos esse motivo, copiando-o de forma mais ou menos disfarçada, e dele nos apropriarmos com chancela falsificadora.

Afinal, o que distingue o criador original do falsificador, pode ser tão só - e é tudo - o olhar, o cheiro, o sentir, a imaginação, e a ideia geral que a fusão desses elementos provoca, traduzida depois na mensagem transformada em obra artística; enquanto que ao falsificador - necessáriamente um bom técnico na arte em causa - restará reproduzir, em cópia absoluta ou com nuances, de cores ou até de estilo e de forma - se a mesma arte o permitir. 
Do criador temos a obra/mensagem que deu trabalho a pensar e a construir; do falsificador, temos uma encenação, mesmo que tecnicamente perfeita.
E se o verdadeiro criador pode enfrentar a frustração de ver a obra roubada e o mérito atribuído a outro, o falsificador nunca se livrará do sentimento de não conseguir ter a visão, o olhar, o cheiro, o sentir e a imaginação do criador, para dar origem à obra. E porque não teve, principalmente, a capacidade de detectar os motivos que conduzem à obra, essa será a sua frustração suprema: a de não ter competência para criar de forma original, limitando-se a copiar a obra de outros.

O original será sempre isso mesmo e a falsificação nunca passará de um embuste, mesmo que ornada de bonitas palavras em forma de filigrana.

Pior até do que as chamadas fake news, as falsificações, o plágio, as imitações, tudo isso está a inundar este nosso mundo de informação pouco ou nada verificada e em torrentes com que temos dificuldade em lidar. Não é de hoje nem é recente, mas as consequências da aldrabice são agora muito maiores porque atingem mais rapidamente um maior número de pessoas e porque isso leva à reprodução da aldrabice, como se de originais se tratassem, com créditos atribuídos aos falsificadores/plagiadores/imitadores. Os falsificadores sentem que a impunidade prevalece. Alguns, não falsificando nada em concreto, são eles próprios uma falsificação do que pretendem mostrar que são. 

Muitas vezes, quem lê/ouve/vê, e compra, não consegue detectar a manigância. 

Do que é que eu estou a falar? Pois, nem eu sei. Não é de pintura, porque dessa arte manifesto ignorância quase absoluta. Mas sei que é um turbilhão de ideias a propósito da criação e do trabalho que dá juntar palavras que façam sentido. 

Regressando ao falsificador que foi notícia na Sábado, Ken Perenyi de seu nome, falsificou quadros de pintores flamengos e norte-americanos e essas falsificações passaram o crivo da famosa casa de leilões Sothby's, sendo vendidos pelas fortunas habituais nestes leilões. Até um dia. Kene Perenyi foi apanhado quando ofereceu uma das suas falsificações à namorada. A mulher, por necessidade ou por ser pouco dada às coisas da pintura, levou a falsificação para vender num local onde Ken Perenyi já tinha vendido uma igual. Foi o fim da linha para o falsificador. Com o FBI em campo, o falsificador não foi preso nem sequer acusado, mas foi forçado a mudar o rumo do negócio. Deixou de vender falsificações e passou a vender cópias autenticadas. Sempre é melhor. E diz que não tem falta de clientes.


Pinhal Novo, 7 de Novembro de 2019

josé manuel rosendo

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