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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Rebuçados GALP


Três, três Secretários de Estado aceitaram a oferta de uma empresa privada para assistirem a jogos do Europeu de futebol. Esse é o problema, não interessando – ou sendo secundário – se a oferta foi apenas dos bilhetes, se incluiu viagens e almoços ou se houve lugar a tratamento VIP. Nem sequer interessa se estamos ou não perante um crime ou se a empresa em causa tem um conflito com o fisco e se um dos três governantes é o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Nem sequer interessa se os outros dois Secretários de Estado (Internacionalização e Indústria) pertencem a áreas onde a dita empresa tem interesses óbvios. Não é ironia referir estes aspectos por que são, de facto, secundários, face ao que devia ser a ética de um governante.

Assumir funções públicas, seja no Governo, no Parlamento, ou em empresas públicas, exige (devia exigir) uma ética inatacável. Quem quer andar no mundo privado dos negócios, faça favor, que troque prendas e benesses, ofertas e jantares, viagens e bilhetes para jogos de futebol, mas quem desempenha cargos públicos simplesmente não o pode fazer. Não pode. Ponto!

Ao alinharem neste tipo de proximidade com as empresas privadas estes governantes abrem portas a todas as dúvidas e a todas as suspeitas, por muito que batam com o pé no chão e jurem que uma coisa nada tem a ver com outras eventuais coisas. E até podem ter razão. No limite, aliás, o presente pode ter sido envenenado, mas nem essa possibilidade tiveram capacidade de prever. 

O que a atitude destes três homens revela é que não estão minimamente preparados para estar nos lugares que ocupam. Ser (nem sei se é o caso) tecnicamente competente não faz de ninguém um respeitável político. É preciso muito mais. E é esse o sinal mais alarmante dado por estes três governantes em relação às funções de que estão por nós (embora indirectamente) investidos: não estão preparados!

A “pílula” pode agora ser mais ou menos dourada consoante o brilhantismo da argumentação de cada um, mas o problema é que este caso é apenas um exemplo de como muitos políticos – ou que o pretendem ser – olham para as questões do Estado. É como se fosse uma empresa privada (esta ideia é antiga e perturbadora), mas não é. Não é!

E, já agora, os deputados do PSD que fiquem calados. Essa de ir fazer trabalho político a França em momentos que coincidiram com jogos do Europeu de futebol só nos pode fazer rir e coloca estes deputados ao mesmo nível dos governantes convidados pela GALP.

josé manuel rosendo

4 de Agosto de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

Crónica do nada

Foto: FPF


És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga, in Sísifo


Se por esta hora, a selecção nacional de futebol não se tivesse sagrado campeã da Europa, não tenho grandes dúvidas de que já se teriam feito ouvir muitas vozes, alegando que a Fé do treinador tinha sido insuficiente para vencer jogos; que Fernando Santos confundia Fé com competência; que os troféus não se ganham com promessas a Fátima, e por aí fora… Talvez até, os mais atrevidotes que gostam de dar um tom pretensamente erudito (asneira na boca das elites é sempre um momento de erudição…) acrescentassem que a única coincidência é a de que Fé e futebol começam pela mesma letra e mais uma vez tínhamos sido f……!

Muito honestamente, confesso que ao ouvir Fernando Santos dizer que só voltaria a casa após a final do Europeu, pensei que estava a colocar a fasquia demasiado alta, e a cabeça no cepo. Apenas isso: vai ser muito difícil. Não fui dos que pensaram que era palermice, nem fui dos que não acreditaram. E o motivo é muito simples: durante uns anos pratiquei um desporto colectivo e tive a sorte de ter bons mestres. E nunca tendo jogado num dos chamados grandes, sempre que entrava em campo, contra os chamados grandes, acreditava que podia vencer. Entrávamos em campo e era até à última gota de suor. A cada minuto que passava com o resultado taco-a-taco nós acreditávamos que era possível. Esse espírito era-nos incutido. E algumas vezes isso resultou, embora noutros casos a realidade se tenha encarregado de provar a inexequibilidade do objectivo.

Surge também por estes dias quem condene o futebol como se (tal como a religião muitas vezes é considerada) fosse outro ópio do povo. O futebol, tal como a religião ou as tecnologias, a política ou até (cada vez mais) os órgãos de comunicação social, apenas são o que os homens quiserem e não mais do que isso.

Por que não ter paixão pelo futebol? Por que não ter Fé? O problema não é ter, é querer encontrar uma explicação racional para isso. A parte mais importante do nosso ser e da nossa vida é aquilo que não consta no cartão do cidadão e faz de cada um de nós mais do que um nome e um conjunto de números associados a uma fotografia: faz de nós, pessoas! É a nossa alma, a nossa ética, o nosso coração, a bandeira que cada um decide empunhar, as causas pelas quais decide combater, é isso que faz de nós pessoas. Ignorar isto é o mesmo que pretender explicar a vida apenas com recurso a uma folha de excel com dados sobre economia, produtividade, etc..

É por tudo isso (gosto de ser uma pessoa) que sinto um arrepio quando ouço o Hino Nacional, adoro futebol (sensação maravilhosa ver a bola chutada por Éder colar-se ao fundo da baliza francesa) e estou grato à selecção nacional por nos ter proporcionado estes momentos de alegria. 

Depois temos as outras causas, essas sim racionais. O que eu também gostava (ai se gostava…) de ter visto era as janelas e as varandas decoradas com a bandeira nacional quando a troika aterrou em Portugal; gostava de ver a Alameda cheia para protestar contra a venda da REN, da EDP, dos CTT, da TAP; gostava de ver Portugal na rua quando um qualquer governo negoceia a cedência de soberania sem consultar o povo. Mas essa é outra conversa e se assim não aconteceu a culpa não é do futebol nem da Fé. É nossa!

Pinhal Novo, 12 de Julho de 2016

josé manuel rosendo