segunda-feira, 17 de abril de 2017

Erdogan venceu o referendo, mas não ganhou o país

"Não" venceu nas zonas a vermelho; "Sim" venceu nas zonas a verde.

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Por uma margem mínima, o “Sim” no referendo para alterar a Constituição, venceu. Legalmente, o Presidente Recep Tayyip Erdogan conseguiu o que queria e passa a concentrar todos os poderes, que de facto já concentrava, passando a Turquia a ter um sistema presidencialista, mas sem os contrapesos e equilíbrios que são conhecidos em sistemas idênticos em países considerados democráticos.

O referendo foi legal – sendo a Lei sempre a expressão do poder circunstancial – mas dele não resulta obrigatoriamente a legitimidade a que Erdogan aspirava. Feitas as contas – mesmo sem resultados completamente fechados – e com uma participação superior a 85%, o “Sim” ficou-se pelos 51,4%, contra 48,6% do “Não”. Convenhamos que é um resultado muito curto para quem colocou adversários políticos nas prisões, despediu funcionários públicos “suspeitos” e encerrou jornais e outros órgãos de comunicação social que não liam a cartilha e acabaram acusados de prestar serviço ao “terrorismo”.

A contagem dos votos mostra que a Turquia está partida ao meio. E não sabemos qual seria o resultado se os opositores a Erdogan tivessem podido participar livremente na campanha para este referendo. Não sabemos, e essa dúvida pesará sempre nos ombros daqueles que esta noite reclamam vitória e será sempre um argumento que retira legitimidade a este resultado.

Mas algumas coisas sabemos. Desde logo que a Turquia pode entrar numa deriva que a transforme em território de um só homem e da sua corte, com todos os perigos que esse tipo de situações acarreta. Exemplos não faltam. Um país com a importância geoestratégica da Turquia, perante esta possibilidade, só pode preocupar aqueles que defendem a Liberdade e a Democracia.

Aparentemente, Erdogan terá pensado que tudo estaria controlado: grande parte dos opositores presos, comunicação social controlada, uma enorme campanha de propaganda nas ruas... só faltava o voto dos turcos. Enganou-se! Venceu, é certo, mas as mudanças profundas que a Constituição vai sofrer precisavam de sentir outra força das urnas. Erdogan precisava de uma vitória expressiva, e não teve. Mudar o sistema político de um país não se deve fazer – mesmo com um referendo – quando quase metade dos eleitores está contra. Se há algo que na política deve ser o mais consensual possível é precisamente o sistema político em que um regime deve assentar. É a partir dessa base (consensual, ou quase) que se desenvolve a democracia.

Se Erdogan já enfrentava a crítica generalizada dos países dito democráticos, a situação não vai melhorar. Se o processo de adesão à União Europeia estava morto, agora foi a enterrar. Mas há coisas que não mudam. Se olharmos para o mapa que ilustra este texto, percebemos onde falharam as contas do Presidente turco: grandes cidades (Istambul, Ancara e Esmirna), litoral e região curda (cerca de 20% da população do país). Vai ser aí que a oposição se vai desenvolver. Na zona curda por questões óbvias; nas grandes zonas urbanas porque vai chegar o dia em que o poder de um só homem vai tolher o caminho dos que querem viver em Liberdade.

Pinhal Novo, 16 de Abril de 2017

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josé manuel rosendo

PS - A legenda da ilustração estava errada e foi corrigida na noite de 18 de Abril, graças a um leitor do blog, a quem agradeço.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Bernie Sanders e Jean-Luc Mélenchon


Aquando das primárias do Partido Democrata nos Estados Unidos da América, não faltou quem defendesse que uma vitória de Bernie Sanders traduzir-se-ia numa derrota frente a Donald Trump. A teoria assentava no pressuposto de que o eleitorado democrata mais à direita, perante um candidato “esquerdista”, deslocaria o voto para Trump. Até Noam Chomsky, um insuspeito académico de esquerda, alinhou nessa teoria. Ninguém sabe se, de facto, assim seria, mas todos sabemos o que aconteceu e quem é agora o inquilino da Casa Branca. Podemos até dizer que entre uma direita desbocada e com o freio nos dentes e uma outra direita mais envergonhada e com algumas boas maneiras, os norte-americanos preferiram a primeira.

Lembrei-me deste caso a propósito das eleições presidenciais francesas, onde as sondagens mostram quatro candidatos com possibilidades de passar à segunda volta. E a surpresa, qual é? Chama-se Jean-Luc Mélenchon, o único candidato de esquerda. Sim, o único, porque Benoit Hamon, por muito boas intenções que tenha, é o candidato daquela pseudo-esquerda a que já nos habituámos: bandeirinha de esquerda e decisões de direita (basta olhar para François Hollande). Aliás, ainda não se percebe porque é que, lá como cá, ainda não nasceu um “partido tangerina”. Entenda-se de cor laranja, mas com perfume mais requintado. A rosas, por exemplo.

Dito isto, e não se sabendo quem da direita vai passar à segunda volta (até pode ser entre dois candidatos de direita – mas admitamos que passam Le Pen e Mélenchon), já começa a surgir uma teoria decalcada daquela que ajudou a afastar Bernie Sanders da disputa da Casa Branca: Mélenchon não terá qualquer possibilidade na segunda volta perante Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional. Isto é, considera quem assim pensa que entre um candidato de esquerda e uma candidata de direita, a maioria do eleitorado francês vai, por receio do "esquerdismo", dar o voto à direita. O efeito desta teoria pode, claramente, prejudicar Mélenchon nesta primeira volta e pode afastar da corrida o único candidato que, de facto, tem algo de substancialmente diferente para propor aos franceses (tal como Bernie Sanders tinha para os norte-americanos).

É certo que algumas sondagens dão Mélenchon a vencer Le Pen numa eventual segunda volta, mas agitar papões e condicionar o voto faz parte de qualquer campanha eleitoral. A ver vamos qual vai ser a primeira decisão dos franceses. Dia 23 de Abril, à noite, vamos ligar a televisão (ou a rádio) e esperar. A 7 de Maio saberemos quem é o próximo Presidente francês. Em Bruxelas há velinhas acesas para que a coisa não descambe.

Pinhal Novo, 11 de Abril de 2017

josé manuel rosendo

sábado, 1 de abril de 2017

Dra. Serrano, que nunca lhe caiam em cima...


Os jornalistas têm sempre razão? Não! Aliás, os tempos dizem-nos muitas vezes o contrário. Detesto o corporativismo. Ser membro do Conselho de Opinião da RTP implica ter sempre opiniões favoráveis ao que é feito pelos jornalistas da RTP? Era o que faltava! Ser jornalista ou professor de jornalismo obriga/implica defender sempre a actuação dos jornalistas? Evidentemente que não! Mas ser jornalista ou professor de jornalismo acarreta a obrigação de saber do que se fala, principalmente quando se fala de jornalismo. A cátedra responsabiliza.

A propósito da agressão a dois jornalistas da RTP numa escola em Lisboa, a opinião da Dra. Estrela Serrano seria apenas mais uma opinião, como tantas outras, principalmente em tempo de redes sociais. O problema é Estrela Serrano ser quem é e ter a obrigação de saber do que fala. Mais grave, assume que não sabe do que fala (mas escreve): “A RTP não adiantou quais os motivos da agressão nem explicou qual era o objectivo da reportagem. Tratando-se de duas crianças uma das quais alegadamente vítima de “agressão sexual” certamente a RTP não estaria à espera de filmar as crianças envolvidas ou os seus familiares. Pelo que não se ficou a saber que tipo de reportagem a RTP esperava fazer”. Está escrito em https://vaievem.wordpress.com/2017/03/30/o-que-foi-o-reporter-la-fazer/ .

A Dra. Estrela Serrano cometeu o erro (frequente) que mais escolhos coloca no caminho dos jornalistas: deduziu! Sem saber, deduziu! Sem conhecer, deduziu! Sem confirmar ou perguntar, deduziu! Ai, ai, Dra. Serrano, o que dirão os seus alunos destas deduções assim tão apressadas a cruxificar a RTP.

Vamos por partes:
1 - A redacção da RTP recebe uma denúncia sobre uma alegada agressão sexual que envolve duas crianças e decide enviar uma equipa para o local. A Dra. Estrela Serrano sugere que a RTP não pretenderia filmar as crianças ou as famílias. Daí conclui que a RTP não foi fazer nada ao local onde alegadamente se teria verificado a agressão. Isto é, na perspectiva da Dra. Serrano, não podendo (por dever ético e imposição legal) haver imagens de crianças alegadamente agredidas nem das famílias, não há reportagem. Cara Dra. Estrela Serrano, o mais inexperiente dos jornalistas sabe (embora alguns, por vezes, esqueçam…) que deve proteger as crianças e as vítimas de agressões sexuais. Não é isso que está em causa. O que está em causa é uma denúncia de agressão sexual, que envolve crianças, numa escola. Não poderá ser notícia? Pode! Pode, mas teremos de ir ver se é.
2 - A RTP fez o que devia fazer e é simples: levantou o rabo da cadeira e foi ver o que se passava. Apenas isso. Deduzir que pretendia (ou não) filmar crianças, familiares das crianças, ou outra coisa qualquer, é pura especulação.
3 – Como a Dra. Estrela Serrano deve saber, não é raro um jornalista sair para reportagem com uma expectativa do trabalho a fazer e, chegado ao local, alterar o ângulo da abordagem porque a realidade assim o determina.
4 – Não sei qual a expectativa que os jornalistas da RTP levavam para a escola onde foram agredidos, mas sei, porque as imagens mostram, que havia pancadaria dentro de uma escola. E, a escola, é o último dos lugares onde deve haver violência. E a RTP mostrou. E fez bem. Assim as autoridades façam agora o seu trabalho e a justiça não permita que os responsáveis fiquem impunes.

É confrangedor ver estes jornalistas da RTP serem criticados precisamente por fazerem o que deveria ser enaltecido: levantar o rabo da cadeira para ir ver/recolher/confirmar/aprofundar informação. Pensava que era isso que a Dra. Estrela Serrano gostava de ensinar aos alunos de jornalismo. O que se publica ou não, depois de avaliada a informação recolhida, essa é outra história.

Resta saber (posso eu agora deduzir?, ou apenas especular...?) se a crítica da Dra. Estrela Serrano tinha outro alvo/objectivo. Não sabemos, mas lá que parece, parece. Não, não tenho procuração de ninguém e em regra não as aceito, mas se o alvo era outro o tiro saiu pela culatra. Estas situações, normalmente, acabam por unir soldados e generais.

Que não venha agora a Dra. Estrela Serrano colocar-se no papel de vítima porque se assim for teremos de perguntar se não seria de esperar estar a ser zurzida depois de dizer o que disse (tal como a equipa da RTP que criticou... “como seria de esperar, acabou agredida”).

Por fim, e contrariando o raciocínio da Dra. Estrela Serrano – “Daí que não se tenha percebido o que levou a RTP a deslocar-se com uma câmara à escola onde uma criança de 12 anos agrediu alegadamente outra de nove e filmar agredidos e agressores. Como seria de esperar, acabou agredida” – a única coisa que lhe posso dizer, no que me toca enquanto jornalista, mesmo depois de tudo o que disse destes jornalistas, pode entrar descansada na RTP porque ninguém lhe faz mal. É isso que pode esperar.

Quanto ao Conselho de Opinião, não tem condições para continuar: demita-se!

Pinhal Novo, 31 de Março de 2017

josé manuel rosendo