quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os milhões da BBC


É frequente ouvir referências ao exemplo da BBC para se dizer como deveria ser a RTP. Até que nem seria nada mau podermos ter um serviço público de rádio e televisão com a capacidade e o potencial da BBC. Mas a realidade aconselha a que tenhamos os pés bem assentes na terra.

Vem isto a propósito da revelação feita esta quarta-feira (19 de Julho), pela própria BBC, e por imposição do Governo, dos salários das suas principais figuras e dirigentes. Ficámos a saber que Chris Evans, o animador das manhãs da rádio BBC 2, recebe por ano 2,2 milhões de libras (cerca de 2,48 milhões de euros – sim, não há erro, recebe 2,48 milhões de euros por ano). Recebe cinco vezes o que chega à conta do próprio director-geral da BBC, Tony Hall. A outra (única) pessoa do grupo BBC a receber mais de um milhão de libras por ano é o antigo futebolista Gary Lineker (recebe 1,75 milhões de libras por ano).

Dito isto, perguntar-se-á: e o dinheiro é tudo? Não, não é! E não será possível fazer bem mesmo tendo menos dinheiro? Sim, é! Mas, calma, muita calma. Porque não havendo ovos não há mesmo omelete.

E quando alguém quiser exigir à RTP algo semelhante ao que é produzido pela BBC, seja rádio ou televisão, talvez seja melhor ver como é formada e como trabalha uma equipa de reportagem da BBC, por exemplo, em zonas de conflito. Depois, podem dizer o que quiserem.

Já agora, a BBC revelou os salários de quem lá trabalha por imposição do Governo conservador. A Ministra da Cultura britânica argumentou que esta divulgação permite à BBC ficar alinhada com a exigência de transparência imposta aos serviços públicos. A transparência é sempre bem-vinda, mas num mercado como o do audiovisual em que o serviço público concorre com empresas privadas, a divulgação feita apenas favorece os privados – porque ficam com essa informação – que não estão obrigados à mesma divulgação de salários das suas vedetas. Ou seja, transparência, mas pouco. Só do lado do serviço público. Nada que se pareça com concorrência desleal, pois não?

PS – não estou a defender as “vedetas” da RTP, era o que faltava. Nem estou a queixar-me de nada. Só para que não fiquem dúvidas.

Pinhal Novo, 20 de Julho de 2017

josé manuel rosendo

terça-feira, 18 de julho de 2017

Temos o direito de saber se alguém alertou para as insuficiências do SIRESP, quando o fez e que resposta obteve.


Portugal continua a arder. Arde ano após ano. De há muitos anos que há um “jogo do empurra” entre políticos. Mudanças? ZERO. O país continua a arder. Ninguém assume a responsabilidade. Não é de hoje, nem do ano passado, nem de há dois anos...

Mas apenas agora se fala do SIRESP. Porque falhou em Pedrógão e voltou a falhar agora em Alijó. Já se falava do SIRESP, mas apenas do negócio e da PPP que o caracteriza. Trocaram-se críticas e argumentos mas apenas por interesses relacionados com o negócio. Nunca, pelo menos com a actual intensidade, por causa da capacidade de resposta do SIRESP. O problema é que desta vez, infelizmente, morreram 64 pessoas e já não é possível continuar a fechar os olhos e fazer de conta que o problema não existe.

Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros, disse (17 de Julho à noite na RTP3) que o contrato existente com o SIRESP não pode dar resposta a situações como os incêndios de Pedrógão Grande e Góis. Citou os responsáveis do próprio SIRESP numa reunião recente para acrescentar que o sistema forneceu o serviço que está previsto no contrato. Questionado sobre se o Estado deve denunciar o contrato existente, Jaime Marta Soares respondeu NIM. Assim estamos.

Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, citado pela Revista Sábado diz que a lacuna das comunicações já vem de há anos.

Basta falar com alguns bombeiros ou agentes da protecção civil para verificar que de há muitos anos a esta parte se fala nas dificuldades de comunicação.

Para nos situarmos, sem demagogia nem oportunismo, convém sublinhar que nas competências da Protecção Civil Nacional consta a adopção de “mecanismos de colaboração institucional entre todos os organismos e serviços com responsabilidades no domínio da protecção civil, bem como formas de coordenação técnica e operacional da actividade (...)”. Este é o primeiro aspecto a ter em conta.

Depois, a ter em conta também a própria constituição da Comissão Nacional de Protecção Civil, que é presidida pelo Ministro da Administração Interna ( alista é longa mas peço a paciência de quem lê este texto):
- delegados dos ministros das áreas da Defesa, Justiça, Ambiente, Economia, Agricultura e Florestas, Obras Públicas, Transportes, Comunicações, Segurança Social, Saúde e Investigação Científica;
- presidente da ANPC;
- representantes das Associações Nacionais de Municípios e de Freguesias;
- representantes da Liga dos Bombeiros e da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais;
- representantes do Estado-Maior-General das Forças Armadas, GNR, PSP, PJ, Gabinete Coordenador de Segurança, Autoridade Marítima, Autoridade Aeronáutica e INEM. Os Governos Regionais também podem participar nas reuniões da CNPC.

Perante este quadro, com tantas pessoas e instituições envolvidas, o que seria mesmo interessante saber é se alguma destas pessoas/instituições alguma vez fez chegar a uma destas reuniões um relatório/alerta/comunicação/estudo, seja o que for; se alguns dos representantes dos operacionais alguma vez, de alguma forma comunicou ao poder político as dificuldades de comunicações através do SIRESP. É isto que neste momento é importante saber, e saber com rigor. Custa admitir que entre tantas pessoas e instituições, nenhuma delas tenha tido a percepção de que o SIRESP podia dar mau resultado.

Sobre os problemas do SIRESP, que são conhecidos e assumidos, é importante saber se o poder político tinha conhecimento; quando teve conhecimento; que falhas foram referidas; quem as referiu; quem foi (se foi) directamente informado destes problemas; que tipo de consequências estavam previstas (se é que estavam); que respostas foram dadas pelo poder político. É o momento de colocar tudo cá fora. Bombeiros, GNR, PSP, INEM, Forças Armadas, autarcas, todos têm um dever para com os cidadãos que é suposto protegerem e essa protecção deve e pode passar por não deixar propagar a mentira e a desinformação. Digam agora que alertas fizeram sobre as insuficiências do SIRESP. Têm esse dever.

O Primeiro-Ministro disse esta segunda-feira que há relatórios de 2014 que apontaram deficiências do SIRESP. Se disse, alguma coisa deve saber. Ou então alguém terá de o desmentir.

Mas se há coisas que cansam é a guerra política e o aproveitamento da tragédia sem que ninguém assuma responsabilidades.

Pinhal Novo, 18 de Julho de 2017
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josé manuel rosendo

quinta-feira, 13 de julho de 2017

CTT... de cavalo para burro


Os CTT ilustram de forma perfeita a bagunça para a qual Portugal resvalou. Vamos aos CTT para enviar uma carta registada ou levantar uma encomenda postal que não cabia na caixa de correio e deparamos com uma verdadeira “loja do chinês” ou “dos trezentos”: para além do serviço de correios propriamente dito, vende CD’s, livros, bilhetes para espectáculos e telemóveis... também há seguros e, claro, um Banco. Certamente haverá outros exemplos, mas onde vivo por aí se fica. Comprar um selo pode significar ter de esperar que alguém escolha o modelo de telemóvel, ou o livro, que pretende comprar. É difícil imaginar um trabalhador que tem de passar do aconselhamento na compra de um telemóvel, para uma eventual indecisão entre um livro de José Saramago e outro de Mia Couto, e depois ter de registar uma encomenda postal para Bissau ou Nova Iorque. Habitualmente, também, as máquinas automáticas de venda de selos, não têm trocos... Resultado? Quem vai aos CTT sujeita-se a um tempo de espera inaceitável. Está muito claro que os CTT em vez de servirem os utentes do serviço que prestam, servem-se dos utentes, fazendo-os esperar, porque essa é a melhor forma de manter os trabalhadores permanentemente ocupados retirando deles o maior rendimento possível. Se o serviço que os CTT nos prestam tem um preço, e nós pagamos por esse serviço, também o tempo dos clientes tem um preço e os CTT não podem sequer admitir ter os clientes à espera até ao momento que a empresa decida ser o mais conveniente para o atendimento.

Da mesma forma que o transporte aéreo (pelo menos na União Europeia) já regulamentou as compensações que as companhias aéreas estão obrigadas a pagar em caso de atrasos nos voos (em função do tempo de atraso e do destino), também os CTT e outras empresas prestadoras de serviços, deveriam ser obrigadas a indemnizar os utentes e clientes sempre que estes são forçados a esperar um tempo para além do razoável. Aliás, é fácil saber o tempo de espera porque as senhas de atendimento têm a hora a que são emitidas (e se em alguns casos isso não acontece é fácil fazer a alteração). Depois, é apenas verificar a hora a que o atendimento é concretizado. Essa seria uma forma de todos sermos mais respeitados por uma série de empresas e serviços que abusam da posição que ocupam no mercado.

Ainda quanto aos CTT, sobre a distribuição postal nem vale a pena falar. Já todos, ou quase, percebemos que o carteiro agora toca duas vezes, mas é por semana. E é quando é. Eis senhoras e senhores o resultado da privatização; há accionistas que recebem dividendos, sendo que nós recebemos um serviço cada vez pior.

A venda dos CTT, pormenores do negócio à parte, ilustra a visão que alguns têm do Estado e do que o Estado deve ser. Mas, mesmo sendo os CTT uma empresa agora privada, ali para os lados de São Bento (em Lisboa) deveria haver alguém a pensar nesta questão: como é que as empresas podem ser obrigadas (sim, obrigadas) a respeitar quem a elas recorre (e paga por isso). Todos ficaríamos gratos.

Pinhal Novo, 13 de Julho de 2017
josé manuel rosendo