sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Marcha fúnebre

São cada vez menos as Empresas Públicas mas ainda são suficientes para percebermos que a asneira vai continuar até à extinção. Há uma longa história de transferências de gestores do sector privado para o público e vice-versa. Muitos deles dizem cobras e lagartos do sector público enquanto são muito bem pagos no sector privado. Quando seca a virtuosa teta privada e outra alternativa não vislumbram, rapidamente fazem agulha para o desgraçado sector público, qual apaixonados a quem o feio sempre parece bonito. No sentido oposto viajam os que serviram determinado poder político e são depois devidamente compensados no sector privado. São gestores, e pronto. Podem gerir tudo. Não importa se conhecem o sector público para onde são chamados a espalhar sabedoria e executar um qualquer objectivo político; não importa se conhecem o sector privado onde a recompensa os espera. Muito menos importa se conhecem a empresa em causa. Afinal por que haveria de importar? Uma pessoa inteligente aprende e adapta-se. Há excepções? Admito que sim, mas são isso mesmo: excepções.

Estes dançarinos da gestão, podem sair das cervejas para a comunicação social; da saúde para a banca; dos azeites para as infra-estruturas… E se calhar até têm razão: gerem tudo da mesma forma. Afinal qual é a diferença entre um estúdio de rádio ou televisão e uma central de cervejas? qual é a diferença entre um serviço de urgência de um hospital e um balcão de uma instituição bancária?, qual é a diferença entre uma fanga de azeitona e a antiga Estrada Nacional 2? Não há diferença porque em geral (no público) é preciso cortar na despesa com pessoal, na manutenção, no investimento, na inovação e por aí fora... Cortar é cortar. É olhar para o orçamento e abater a percentagem que alguém determinou. O resto, que façam os que lá trabalham, porque é para isso que são pagos. E se no público houver algo com perspectiva de passar a ser privado, ainda melhor. Talvez no futuro haja um lugarzinho.

A frequente chegada ao sector público de gestores formados no sector privado só pode resultar no desastre a que temos assistido nas últimas décadas. Chegam ao sector público e gerem da mesma forma que geriam no privado. Serviço Público? O que é isso? O que é preciso é pôr as empresas a dar lucro ou acabar com o “prejuízo”. Gostam sempre de falar naquela curiosa teoria que compara as empresas públicas (às privadas e) a um orçamento familiar. É assim que pensam. É assim que fazem. Contam, habitualmente, com equipas de “yes-man” que dizem que sim aos senhores administradores e a todos tratam por “senhor doutor” ou “senhora doutora”. Seja qual for a administração, eles lá estão, dispostos a acenar a cabeça em sinal de aprovação, mesmo que isso signifique aprovar o absurdo. É gente que chateia quem está abaixo e dobra a espinha quando fala para cima; gente que não quer chatices, mas quer manter um lugarzinho na respectiva empresa. 

Acontece que também há quem diga “não” aos “senhores doutores”. Acontece que há quem queira mesmo as empresas públicas a prestar Serviço Público. Em regra são “encostados”. Mas também há sempre alguém muito competente que as administrações conhecem do privado e que são “indispensáveis” no público. Em regra, são bem pagos e entram “por cima” com contrato blindado. Geralmente, a tutela aplaude tudo isto. Afinal, a administração (da empresa pública) é que sabe, gosta a tutela de dizer. Todos os governos gostam a determinado momento de dizer que não interferem na administração das empresas públicas. É assim uma espécie de pin que colocam na lapela. Assim estamos, assim vamos. 

Entretanto, à chegada de cada nova administração que nomeia novas direcções e respectivas cadeias de comando, é esquecida a dedicação e a competência dos que trabalham e assistem ao desfile das administrações. Cada administração que chega vem com aquela ideia da “empresa nova” (lembram-se da teoria do “homem novo”? é quase o mesmo…), o que está para trás não conta, interessa é o futuro. Como se a história das empresas e de quem nelas trabalha fosse capital a desprezar.

Misturar a gestão de génese privada com a administração das empresas públicas é quase como pretender misturar azeite com água. Enquanto em Portugal o público e o privado não estiverem em campos bem demarcados e enquanto os muitos empreendedores de quem permanentemente se anunciam os méritos continuarem a ser chamados para as empresas públicas, aplicando os métodos de gestão características das empresas privadas, o resultado vai ser mau.

Esta casta de gestores e respectivas tutelas políticas nunca irão perceber que o eventual “prejuízo” das empresas públicas pode representar enormes ganhos sociais. Ao invés, nunca irão perceber que as contas certinhas das empresas públicas podem significar enormes prejuízos para toda a sociedade e em particular para os mais desfavorecidos e para a própria democracia.

A dança de cadeiras e interesses entre o privado e o público mata o Estado e “mata-nos” a todos. E é o Estado – somos nós – quem paga. Esta dança, que não é um tango nem uma valsa, tem com certeza um andamento fúnebre. Assim será enquanto em Portugal não existir uma “escola” de Serviço Público que dê ao sector público gestores que queiram mesmo dedicar-se ao Serviço Público e não passem por ele apenas em comissão de serviço e à espera de uma qualquer chamada que os leve de novo a uma empresa privada.

Pinhal Novo, 1 de Setembro de 2016
josé manuel rosendo

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