quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Síria, algo se vai passar, ou não…


Durante semanas, meses, das negociações para resolver a guerra na Síria apenas se ouvia dizer que estavam paradas, bloqueadas. As iniciativas do enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, deram em nada. No terreno, todos os dias, combates, bombardeamentos, cercos, massacres, crimes de guerra, populações em fuga. Novidade já com duas semanas: a Turquia entrou na guerra, meteu homens e máquinas Síria adentro com o argumento de combater o Estado Islâmico e as milícias curdas das Unidades de Protecção Popular. Não deixa de ser curioso que, depois de muitas ameaças, e de situações de ameaça idêntica pela proximidade do Estado Islâmico – lembram-se de Kobani? – só depois de resolvido o diferendo com a Rússia, a Turquia tenha avançado de forma directa para esta guerra. Aliás, a Turquia disse que avisou o Governo de Damasco, através do amigo russo. 

A juntar a essa relação (Turquia/Rússia) retomada, afirmações dos mais altos responsáveis turcos devem ser tidas em conta. A 2 de Setembro, o Primeiro-Ministro turco, Binali Yildirim, foi taxativo: “Normalizámos as nossas relações com a Rússia e Israel. Agora, se Deus quiser, a Turquia tomou uma iniciativa séria para normalizar as relações com o Egipto e a Síria”. Esta declaração não deixa margem para outra leitura a não ser que a Turquia mudou radicalmente de posição relativamente a Bashar al Assad. Até agora, o Presidente sírio era visto de Ankara como uma carta forçosamente fora do baralho; agora já não é.

Outra declaração importante: o vice-primeiro-ministro disse que a Turquia é favorável a uma operação comum com os Estados Unidos contra Raqqa, a capital do Estado Islâmico na Síria. Este governante disse que o assunto foi tratado entre os dois presidentes à margem da Cimeira do G20 e está a ser discutido. O Presidente turco lançou também a ideia de uma zona de exclusão aérea no norte da Síria. E há ainda outro dado: a 23 de Agosto o presidente turco encontrou-se com o Presidente do Curdistão Iraquiano. Oficialmente falaram da actividade da organização de Fethulla Gulen na região mas há rumores de que terão feito uma aliança contra os outros curdos, nomeadamente do PKK e das Unidades de Protecção Popular.

Talvez seja difícil digerir todas estas componentes do conflito mas pelo meio disto, o enviado especial de Barack Obama para a coligação que combate o Estado islâmico, encontrou-se com as milícias curdas das FDS (Forças Democráticas da Síria – junta milícias curdas e árabes). Encontrou-se também com representantes turcos. É o que diz o Departamento de Estado. Os turcos querem os curdos fixados a este do Rio Eufrates, os Estados Unidos tentam convencê-los a recuar para essa zona, mas os curdos conquistaram ao Estado Islâmico a cidade de Manjib (a oeste do Eufrates) e têm por objectivo controlar todo o norte da Síria que faz fronteira com a Turquia.

A Rússia e Bashar al Assad têm falado menos. Tentam consolidar posições no terreno. Têm tido algum sucesso mas também alguns revezes. Uma coisa é conquistar posições, outra é ter capacidade para mantê-las com forças massacradas por 5 anos de guerra.

A oposição síria reunida no Alto Comité de Negociações apresenta um plano em 3 fases: primeiro, seis meses de trégua e negociações; segundo, 18 meses de governo de transição, mas Bashar al Assad tem de ir embora; por fim, eleições com o apoio e supervisão das Nações Unidas. Já se vê que esta solução, tendo o mérito de pretender parar o banho de sangue, não vai vingar.

Para fechar este leque de questões, durante dois dias (8 e 9 de Setembro) Sergueï Lavrov e John Kerry – os homens que mereceram da Al Jazeera uma série de artigos com o título “Atracção Fatal” – vão estar juntos a debater a situação na Síria. O que eventualmente podem tirar da cartola, ninguém sabe, mas já estamos naquela fase em que a maioria das apostas vai no sentido de que tudo vai ficar como está. De há muito que esta guerra na Síria é um tabuleiro de xadrez em que vários jogadores movimentam várias peças em simultâneo. Nenhum consegue saber o que todos os outros pretendem e o que vão fazer na próxima jogada.

Ainda assim, as peças do puzzle parecem começar a acomodar-se. Mas não nos iludamos. Talvez ainda não tenha acabado de ler este texto e tudo pode já estar diferente.

Pinhal Novo, 8 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo

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