quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Oh Jerusalém

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Partilho este texto publicado no "À Margem da Literatura", volume que é uma iniciativa da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) e que resulta do VII Encontro de Escritores de Língua Portuguesa e da 6ª edição do Festival Literário de Macau - Rota das Letras. 

A revisão competente, e que muito beneficiou o texto, é de Rosário Rosinha, a quem agradeço.


TEXTO PUBLICADO

Começo por um livro, porque por um livro pode começar uma longa viagem. Sem que inicialmente nos apercebamos disso, nem tenhamos comprado bilhete, os livros podem surpreender-nos de tal forma que acabamos a fazer caminhos nunca imaginados e a eles ficamos eternamente gratos, principalmente quando a viagem se revela enriquecedora e o caminho abre horizontes, tantas vezes dolorosos, para nós, para os nossos, e para outros, mas ao mesmo tempo magníficos e belos.
Estava de partida para a Palestina, em 2004, quando comprei alguns livros que abordam esse quase eterno conflito israelo-árabe-palestiniano. Recordo-me que um deles, “Oh Jerusalém”, uma 2ª edição da Bertrand de 2001, de Dominique Lapierre e Larry Collins, contribuiu para a minha grande paixão nos anos que se seguiram: o Médio Oriente e esse imenso e complexo tabuleiro que, dia após dia, me esforço por entender, descodificar – do qual tenho sempre a sensação de não saber quase nada – partilhando essa aprendizagem através do exercício do jornalismo. “Oh Jerusalém” são mais de 600 páginas de uma maravilha pura e de um fascínio que vão acompanhar-me sempre. Lapierre e Collins apertaram o gatilho da minha ânsia de conhecimento que, até hoje, continua, e em crescendo. Um livro, por muito que nos ensine, só é um livro extraordinário se nos provocar inquietação e desassossego.
Viajei para Jerusalém com “Oh Jerusalém” na bagagem de mão. As palavras de Lapierre e Collins aligeiraram, e de que maneira, a sensação de claustrofobia que os aviões me provocam e esgotaram-se numa cama de hotel logo após os primeiros dias na Cidade Santa. Não, não foi tempo perdido e reclamado pela reportagem. Foi conhecimento e contexto para o conflito que me levou a Jerusalém. E a reportagem ficou a ganhar. Que melhor local para finalizar uma leitura como esta!? E devo dizer que, não vos estando a escrever sobre um livro em língua portuguesa, ele acabou por conduzir-me ao “Egipto – notas de viagem”, de Eça de Queirós. E a outros autores portugueses, como por exemplo Adalberto Alves, e aos escritos de António José Rodrigues, ou a autores estrangeiros – tantos – como Amira Hass ou o Nobel Naguib Mahfouz. Livros e autores de que porventura nem teria sabido da sua existência se não me tivesse cruzado com o “Oh Jerusalém”. E tive ainda essa possibilidade de entrevistar o “Livreiro de Cabul” real, Shah Muhammad Rais, tornado célebre (com o nome de Sultan) devido ao livro da jornalista norueguesa Asne Seierstad. O livreiro de Cabul, zangado, sentindo-se traído e insultado, também escreveu um livro em resposta ao livro de Asne Seierstad, em que acusa a autora de se ter enganado na interpretação do contexto da vida social afegã e de, assim, se ter equivocado na essência da temática que constitui o livro. Que bela tarde passei na livraria de Shah Muhammad Rais, bebendo chá, sentado ao lado de um livro em lugar de destaque com a fotografia de Osama Bin Laden, ouvindo a versão de Shah, e de onde ainda trouxe um livro –The Debris of Dreams – de poemas de amor da afegã Marghana Sharq, editado no tempo do domínio soviético.
A nossa memória, sempre selectiva, faz uma escolha de pormenores que não sabemos explicar. Em relação ao conflito israelo-árabe-palestiniano, de que trata Oh Jerusalém, recordo-me perfeitamente do atentado de Munique, quando um comando palestiniano sequestrou parte da equipa de Israel que disputava os Jogos Olímpicos. As fotos de Eduardo Gageiro nesse Setembro de 1972, tinha eu 11 anos, ficaram para nos refrescar a memória. Todos sabemos o que aconteceu nesse mês de Setembro, em Munique, e não é isso que agora vem ao caso. E também me lembro, não sei porquê, de ver, em casa dos meus pais, na televisão em cima de uma pequena mesa a um canto da cozinha… lembro-me… estou a ver e a ouvir, Rui Romano, nas notícias na RTP, a referir-se aos “terroristas” dos países africanos que Portugal então colonizava. Era essa a nomenclatura e a ela não se podia fugir. Mas recordo-me perfeitamente que foi essa a primeira vez que a palavra “terrorismo” entrou no meu ainda reduzido léxico. E não sei o porquê de me recordar destas coisas, mas recordo-me. E é essa outra faceta da viagem que também me fascina, aquela a que a nossa memória nos transporta sem que façamos seja o que for para que isso aconteça. Pergunto-me até se algo de insondável nos formata os mecanismos da memória para que ela registe aqueles momentos que mais tarde se vão revelar elementos associados aos nossos interesses de estudo, investigação e trabalho.
As minhas viagens, a esmagadora maioria, foram viagens de trabalho em reportagem para a rádio pública portuguesa. Já imaginam a felicidade de quem pode fazer o que gosta, é pago para isso, e ainda lhe pagam as viagens. Há outras viagens, é certo, como por exemplo ao cemitério do Escoural para colocar flores nas sepulturas da família depois da pedra mármore ser escovada e lavada até ficar de um branco imaculado. Ou as viagens ao Norte, a Viana do Castelo, onde durante a noite e enquanto o sono não chegava, ia sabendo as horas através do sino de Santa Luzia. Ou ainda as pequenas viagens diárias à vacaria de onde trazíamos o leite tirado directamente das vacas e onde, por vezes, me deixava ficar em dia que uma vaca parideira estivesse quase a dar à luz. O senhor Diamantino ensinou-me então a pegar na palha, que servia de cama à mãe vaca, para melhor segurar e puxar as patas da cria, ajudando-a a nascer. Recordo-me de ver essas vacas mães a olharem para trás na busca de um primeiro olhar ao filho que estava a nascer. Não sei se estas viagens de que vos falo nestas últimas linhas são grandes ou pequenas viagens, mas por alguma razão as guardei na memória.
No entanto, é de outras viagens que vos quero falar. Daquelas que nos levam para longe de casa, para povos e culturas com quem nunca contactámos. Viagens que nos obrigam, e ainda bem, a reformular ideias e conceitos, que nos confrontam com o nosso ser e que, no meu caso, desmontam muito do que até esse momento eu pensava que sabia, fruto de uma narrativa que eu não tinha forma de questionar.
No Outono de 2004, depois de várias passagens pelo Iraque, na sequência da invasão que levou à queda de Saddam Husseín, respiro pela primeira vez o ar de Jerusalém. Não sei se devido a esse contacto, até hoje gosto muito mais de cidades com história e com memória, em detrimento de cidades chamadas modernas, repletas de avenidas largas e edifícios altos e envidraçados. Prefiro, de longe, as pedras e os locais da História às propostas de uma alegada modernidade desprovida de sentido. Jerusalém tem isso e tem pessoas que são, também elas, são uma espécie de História viva. Tendo lido “Oh Jerusalém”, não tive qualquer dificuldade em perceber que, ainda hoje, aquelas pessoas com quem nos cruzamos dentro do muro da Cidade Velha poderiam ser precisamente as mesmas pessoas de que Dominique Lapierre e Larry Collins nos falam.
Dentro das cidades, das montanhas ou das planícies, é a vida das pessoas que importa. Em locais culturalmente muito diferentes, o estrangeiro não passa despercebido. Por muito que tente vestir roupa local e esconder as referências ocidentais (no meu caso), o tempo de resistência do disfarce é mínimo. Se tivermos necessidade de comunicar directamente com os locais, é uma questão de segundos. Depois das saudações tradicionais na língua nativa, não há mais conversa. É esse o momento em que os papéis se invertem: o jornalista, habituado a fazer perguntas, passa a responder às perguntas que servem para saber quem ele é, de onde vem, e o que anda por ali a fazer. São aquelas situações em que se confirma plenamente a convicção de que não há uma segunda oportunidade para provocar uma boa impressão. Ou o chá transborda do copo de vidro e está bem doce, ou vai ser difícil fazer amigos.
Para quem gosta de escrever, para quem gosta de contar histórias, a rádio é uma permanente frustração. Embora também exista uma escrita característica da rádio – tantas vezes contestada pelos linguistas e puristas da língua – a frustração a que me refiro está relacionada com o que fica por contar, sacrificado em nome da necessidade de os ouvintes entenderem a mensagem de forma clara, de modo a não se perderem, travados por uma qualquer palavra ou frase que, por ser mais elaborada, atrapalhe a percepção da mensagem.
Os ouvintes não podem voltar atrás para retomar a leitura, como amiúde fazemos quando temos um livro na mão. E é essa característica do meio que impõe um travão, ou melhor dizendo, que nos convida a um estilo de escrita mais condicionado onde algumas liberdades de estilo tendem a ser evitadas.
Talvez que um bom livro também seja assim: percorrido da primeira à última página, sem tropeções que nos façam voltar atrás, não significando isso que a escrita seja básica ou o raciocínio do autor seja simplista. Voltar atrás, num bom livro, deve apenas significar ter o prazer de o reler, seja uma meia-dúzia de páginas, seja de fio a pavio.
Não me parece correcta a afirmação de que o jornalismo é uma espécie de literatura apressada. Sê-lo-á no sentido de que o texto jornalístico, imprensa ou rádio – excluo a televisão porque a imagem também conta parte da história e a escrita é muito condicionada por esse elemento – é construído, na maioria dos casos, sempre a olhar para os ponteiros do relógio. Há sempre um jornal ou uma revista que espera o texto e a contagem decrescente a caminho da hora de fecho não perdoa; há sempre um noticiário que espera a peça de reportagem que já devia ter passado no noticiário anterior e que não pode ter mais de dois minutos. E já é uma excepção. Estas duas situações não permitem grandes oportunidade de revisão apurada de texto, de uma mais eficaz construção de frases, até, por vezes, de corrigir a pontuação. No caso da rádio é sempre possível melhorar a forma de dizer o que está escrito (e assim foi escrito – para ser dito); é sempre possível melhorar a respiração, a pronúncia, o tom, a convicção da voz, e por aí fora. São essas frustrações que ficam e uma outra que, sendo frustração assumida, não anula o prazer do que fica feito. E essa frustração maior – no meu caso – é a de deixar de fora o que não pode ser contado em um minuto e meio de rádio.
Já senti muitas vezes a tentação de deixar de lado o gravador áudio e agarrar-me ao bloco de notas. Já me aconteceu registar de forma tão frenética o que me passa à frente dos olhos que acabo a ter dificuldade em entender a minha própria escrita. Há momentos em que são tantas as coisas para registar que quase apetece pedir uma cadeira e ficar ali, apenas a escrever, indiferente às consequências que possam resultar de ficar, por vezes, em locais pouco aconselháveis. Há pessoas, há expressões, há trocas de palavras, há frio e calor, pó e chuva, sapatos empoeirados e roupas rasgadas, esgares de sofrimento, gritos de alegria, música e choros, vidas que mudam num ápice, gente que se transforma, armas que cospem fogo, uma mão que pede ajuda, um desconhecido que nos acolhe, um prato de arroz que se divide.
Sinto, por vezes, na condição de jornalista a que não consigo fugir, e tentando, a partir de um outro ponto de observação, olhar-me a mim próprio, o que me parece ser uma atitude quase egoísta, cínica até, por estar em sítios dos quais apenas quero contar e trazer a história. Se não existisse uma guerra, com todas as consequências que isso implica para as pessoas envolvidas, eu não estaria ali e não teria aquela história para contar. Sei que não é o jornalista que provoca a guerra, mas este é um dilema que não consigo resolver: o de querer contar a história e, ao mesmo tempo, preferir não ter de a contar.

É por isso que a literatura, apressada ou não, em forma de livro ou de um qualquer texto, é também uma urgência para tentar compreender e dar a conhecer o mundo e o outro, que – como alguém já disse – somos nós. A literatura que nos acompanha numa primeira viagem pode muito bem levar-nos a querer partir uma e outra vez. Se um livro, por uma vez, provocar essa vontade de partir, despertando a vontade e a necessidade sentida de conhecer, será sem dúvida um belo livro.

josé manuel rosendo
Pinhal Novo, 2 de Dezembro de 2017

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