segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Memórias do Irangate num check point no Iraque


Há dias assim: esperamos, esperamos… e nada. Esta segunda-feira, a força de elite do exército iraquiano, a “Divisão Dourada” decidiu que os jornalistas não passavam do chek point que antecede Bertalla, na estrada para Mossul. Por ali ficámos horas a fio à espera de uma luz-verde que nunca chegou.

Nos dias assim e em circunstâncias como as de hoje, os jornalistas metem conversa entre eles: de onde és, para quem trabalhas, onde estiveste ontem, como é que achas que podemos chegar aqui ou ali… são perguntas habituais neste tipo de conversa. Mas eis que, nesta segunda-feira, num check point perdido a este de Mossul, havia uma personagem que trabalha para a televisão norte-americana Fox News: Oliver North, ex-coronel dos fuzileiros navais. 

Acompanhado de uma dúzia de homens, entre seguranças, tradutores (não vi armas mas tinham carregadores nos coletes) e repórteres de imagem, Oliver North e muitos outros, depois de lhes ser barrada a passagem no check point, tal como aos jornalistas no local, desdobraram-se em telefonemas. Foram horas ao telefone. Para quem não sei, mas sei que passadas aí umas três horas, surgem dois carros blindados norte-americanos. Seguem-se contactos apressados com os militares iraquianos da força de elite que controla o check point, Oliver North e acompanhantes seguem para os quatro jipes blindados em que viajavam, formam uma coluna com um carro blindado a abrir r o outro a fechar, e dirigem-se ao check point… mas daí não passaram. O que os norte-americanos pensavam que estava resolvido (ou tentaram dar a entender que estava…) afinal não estava. Oliver North e restante comitiva voltaram para junto do grupo de jornalistas perante muitos sorrisos nada dissimulados.

A história ficaria por aqui, não se tivesse dado o caso de, quando os blindados norte-americanos recuavam do check point, ter surgido no extremo oposto uma milícia xiita (obviamente armada) que pretendia passar o mesmo check point. Discussão entre xiitas – a coisa esteve feia, muito feia, e um dos milicianos chegou a ser detido – gritaria, ânimos exaltados e… os dois blindados norte-americanos no meio, entre xiitas desavindos, sem saberem muito bem o que lhes tava a acontecer nem o que deveriam fazer. Tudo acabou em bem, prevalecendo a vontade dos homens da Divisão Dourada, donos e senhores do território.

Moral da história: os norte-americanos, sempre com aquela ideia de que o poder lhes permite mexer uns cordelinhos, podiam ter acabado entalados numa situação complicada, fruto de uma xico-espertice da comitiva de Oliver North, ao tentar resolver de forma egoísta uma situação que não o prejudicava apenas a ele. Não imagino por onde passaram os telefonemas e não sei se o ex-coronel ainda “mexe cordelinhos” no Pentágono, ou se porventura – já passaram muitos anos – ainda tem contactos criados no tempo da guerra Irão-Iraque, mas desta vez de nada lhe valeram. Ou então fez que estava a telefonar. Da Fox News (depois de ver o espectáculo que foram dando durante este dia) nada me surpreende. Desta vez, tal como no caso Irangate, as coisas não lhes correram de feição. E o mais surpreendente é que não percebem o ridículo.

Iraque, Erbil, 21 de Novembro de 2016

josé manuel rosendo

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uma noite em Bashiqa


Às seis da tarde tenho de interromper o trabalho. O Comandante chama para o jantar e não é possível tentar retardar com um “já vou” ou “são só dois minutos”. Estou no posto de comando Peshmerga de Bashiqa. Acaba por ser um regresso porque estive por aqui em Outubro do ano passado.

A mesa não chega para todos. É comer e andar, para dar o lugar a quem espera. Cada um tem direito a um tabuleiro com arroz de tomate, pão, rodelas de tomate e de pepino e há uns pratos com ovos estrelados. Cada um tira o que lhe está destinado. Depois há chá, quente e muito doce.

O jantar cedo está relacionado com o dia duro e com a noite que cai muito cedo. Fecham-se as cancelas e os portões. Depois do jantar os mais velhos e de posto mais elevado juntam-se para dois dedos de conversa. Ouve-se o som de uma televisão algures neste posto de comando que parece ter ocupado um centro de saúde ou algo parecido. Pelo menos há material médico e de enfermagem. As conversas são suaves.

Os Peshmerga conseguem aliar a experiência de guerrilha à disciplina de uma força militar tradicional. Tudo parece mal organizado, mas tudo funciona.

O Estado Islâmico foi corrido da cidade. Ficou a destruição. Desolação absoluta. Não há gaz nem electridade, a população abandonou a cidade. Talvez metade das casas estejam destruídas, muitas outras danificadas. Ruas esburacadas. Minas assinaladas com bandeiras vermelhas, explosivos à beira da estrada. De vez em quando o ronco de um avião. De vez em quando o som abafado de uma explosão, ao longe. É a guerra. A lua está grande e amarela. Estou cansado. Hoje não dá para mais.

Iraque - Bashiqa, 15 de Novembro de 2016


josé manuel rosendo

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Juan Luis Cebrián, não me escrevas mais cartas!



“Escreveste-me” em 1998 e guardei a tua prosa no altar das mais queridas. Folheava-te de quando em vez. As tuas palavras como que arrumavam as minhas ideias, por vezes desordenadas, nas gavetas do pensamento. Apetecia-me responder-te, mas seria atrevimento escrever, assim, ao mestre. E afinal, que poderia eu dizer de novo ou de importante a quem tudo tinha dito? E tão bem dito. Nem sequer havia mais uma pergunta a fazer, porque todas as que imaginei encontravam resposta no que já havias escrito. Mas agora, escrevo-te.

E escrevo-te agora depois de saber que pressionaste o ex-líder do PSOE para não formar um governo à esquerda. Diz o teu concorrente El Mundo – sim, porque no teu El País não encontrei a história – que o teu Grupo, dono do El País, disse a Pedro Sanchéz que nem sonhasse com um governo de aliança à esquerda. Aqui vai o excerto da conversa com Jordi Évole reproduzido no El Mundo: “Y pese a que Évole perseveraba para arrancarle el nombre de Juan Luis Cebrián, Sánchez repetía que "nunca" se reunió con él, pero sí con "otros responsables" del periódico que le dijeron "claramente que o Rajoy o la línea editorial no iba a ir ni a facilitar que hubiera un Gobierno progresista liderado por el PSOE". Não é preciso dizer mais nada, ambos sabemos como funciona. Estamos a falar do “teu” jornal, de que foste fundador e director e que pertence ao grupo de que és presidente.

Foi o parágrafo da desilusão. E dei por mim a perguntar: será que por cá, por Portugal, também enviaste alguns recados do mesmo género quando o actual governo estava para ser formado? Não sei. Mas começo a não me admirar que o tenhas feito.

Pelo que me diziam, dás-te bem com Bildberg e não gostaste nada dos “papéis do Panamá”. Desvalorizei. Enfim, pensei, mudou de vida, desde que trocou o jornalismo pela gestão e presidência do Grupo Prisa, pensa mais em dinheiro do que em notícias. Mas quis acreditar que ainda guardavas na alma uns resquícios das cartas que me enviaste nesse ano de 1998. Mas, por outro lado, comecei a duvidar de mim próprio e do que, estava convencido, tu havias escrito. Na dúvida, fui à estante. Atirei uns quantos livros ao chão na ânsia de reler as tuas palavras. Pensando nisso agora até parece que fui à procura da confirmação de que não tinha andado enganado todo este tempo. Sei lá… podia ter lido mal… podia ter interpretado mal… mas não, não li nem interpretei mal. Está lá tudo.

Repara neste excerto de uma das muitas cartas que dirigista a Honório a propósito do perigo da concentração de empresas na área da comunicação social: “Profissionalismo é, pois, a palavra chave. Profissionalismo frente às pressões – sejam da própria empresa, do poder político ou publicitário, ou da opinião reinante da sociedade. Profissionalismo perante os sectarismos que nascem das próprias manias dos redactores, das suas bílis particulares, das suas vergonhas e devaneios. Profissionalismo, consistente em não dar notícias que não estejam devidamente verificadas, não ocultá-las por motivos alheios ao interesse do leitor ou do telespectador e não esconder opiniões e análises a respeito delas, por contraditórias que sejam com o nosso sentir ou com a linha oficial da empresa”.

Sei agora que renegaste tudo o que escreveste e, aparentemente, sem ponta de remorso.

Com que cara vou eu trabalhar? E se alguém decidir confrontar-me com esta tua traição? Aconselhas-me alguma resposta?

Coloco-me agora a questão de saber se as tuas “Cartas a um jovem jornalista” não terão sido escritas apenas porque sim, apenas porque era bem e de bom-tom. Dá jeito ter alguma coisa publicada que se possa ver. Dava-te pinta de bom jornalista, credível, escreveres umas palavras a preceito que te dessem aura de pensador e, até, quase poeta. Conheço-os e conheço o estilo. Mas tu… enganaste-me tão bem que até te coloquei no altar da estante aqui de casa.

A carta já vai longa e vou terminar. E digo-te: não vou queimar o teu livro porque os livros não se queimam. E também não penses que perdes o lugar na estante. Apenas retiro as “velas” que te alumiavam e ajudavam a santificar o lugar. Mas, em nome do rigor, e do profissionalismo que me deste como conselho, quando falar do teu livro a alguém vou ter de acrescentar que já não és o tipo que escreveu aquilo. E vou contar o que fizeste. Porquê? Como sabes, a traição custa sempre mais quando vem daqueles de quem menos a esperamos. E em jeito de vingança (pequenina) apenas para te tirar o sorriso que certamente estás a esboçar, digo-te que seguirei os conselhos das cartas que me escreveste e espero que um dia te possas amaldiçoar por teres dado esses conselhos que te vão estragar o negócio.

Fico à espera da tua resposta. E não precisas de demorar (como eu) 18 anos.

Cumprimentos
Pinhal Novo, 31 de Outubro de 2016

josé manuel rosendo

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Líbia, 5 anos depois de Kadhafi

Foto de um mural nas ruas de Benghazi, a 2 de Março de 2011

Cinco anos depois da morte de Kadhafi a Líbia está mergulhada no caos. E é esse caos que legitima a pergunta: valeu a pena afastar Kadhafi? Se todos temos legitimidade para fazer a pergunta, apenas os líbios têm legitimidade para responder porque são eles que estão a pagar a factura. Aliás, a pergunta mais frequente, “manter Kadhafi, ou o caos”?, é absolutamente inadequada. É como se ao povo líbio apenas pudessem ser colocadas essas duas possibilidades e não houvesse uma outra solução: a de viver em paz e com governantes decentes.

Em Março de 2011, quando Kadhafi dava sinais de insanidade, ameaçando uma carnificina quando reconquistasse Benghazi e prometendo uma perseguição (“zenga-zenga”) rua-a-rua, casa-a-casa, para caçar rebeldes, alguns países ocidentais decidiram intervir. Nicolas Sarkozy, presidente francês, foi um dos mais entusiastas. Muitos outros partilharam esse entusiasmo, embora os Estados Unidos tenham adoptado a chamada estratégia leading from behind (liderança a partir do banco de trás). Kadhafi, diziam, enlouquecera. Não andariam longe da razão. As imagens televisivas de Kadhafi a discursar na Praça Verde (nome com que Kadhafi rebaptizara a Praça dos Mártires, em Tripoli) mostravam um homem desvairado com fortes sintomas de ter “perdido o juízo”.

Os rebeldes, desorganizados, tinham dificuldades em combater as forças especiais lideradas por filhos de Kadhafi. Depois da surpresa inicial e das perdas territoriais, as tropas especiais recuperaram terreno e rapidamente ficaram às portas de Benghazi. E foi aí que a força aérea ocidental entrou em acção. Faltavam talvez 3 ou 4 quilómetros para que o primeiro tanque da coluna fiel a Kadhafi entrasse na cidade rebelde. A carcaça do tanque vítima desse primeiro ataque aéreo ficou no local durante bastante tempo. Não houve “zenga-zenga”.

Esta intervenção estrangeira teve a aprovação do Conselho de Segurança da ONU (com a abstenção da Rússia) mas a resolução aprovada não tinha uma interpretação consensual. A resolução impunha uma zona de exclusão aérea e autorizava “todas as medidas necessárias para proteger a população civil”. O problema é que ser civil também podia ser sinónimo de ser rebelde e a resolução aprovada serviu claramente para atacar as forças de Kadhafi com o argumento de que assim se pretendia impedir ataques a populações civis. Os rebeldes beneficiaram claramente desta situação. A Rússia discordou porque interpretava a resolução de forma diferente e foi esta diferente leitura da resolução para a Líbia que, depois, bloqueou no Conselho de Segurança várias resoluções sobre a Síria.

Sabemos hoje, mais de 5 anos depois do início da revolta na Líbia, como terminou o regime de Mohammar Kadhafi. O que talvez fosse importante discutir é a forma como estas intervenções estrangeiras têm lugar, sem qualquer preocupação que acautele o futuro dos países intervencionados. Poder-se-á questionar logo à partida se este tipo de intervenção tem alguma legitimidade à luz do Direito Internacional. É, de facto, uma questão para a qual não existe resposta consensual. Mas, admitindo que as intervenções acontecem – concordando-se ou não – uma outra questão se coloca: quem intervém não tem também a obrigação de proteger o país intervencionado? Desde há algum tempo que, associada às intervenções de carácter humanitário, surgiu a “responsabilidade de proteger” (RtoP ou R2P– responsibility to protect – na sigla em inglês), mas no caso da Líbia, se alguma protecção existiu enquanto Kadhafi resistiu, ela desapareceu por completo logo que Kadhafi foi morto.

De 2011 vem uma frase do presidente do Chade, Idriss Beby, que ilustra bem a situação na Líbia: “Não asseguraram o serviço pós-venda”. Barack Obama também reconheceu que foi subestimada a necessidade de uma presença ocidental no período pós-Kadhafi. Mas também é verdade que os líbios não queriam tropas estrangeiras no terreno. Disseram-no repetidamente. Recordo-me bem de estar em Benghazi no dia da primeira reunião do Conselho Nacional de Transição. O comunicado emitido e distribuído foi depois rectificado e novamente distribuído porque não explicitava essa recusa de tropas estrangeiras no terreno.

Os líbios ficaram como queriam, sem potências estrangeiras a interferir no terreno. Não houve boots on the ground mas houve muitas armas que atravessaram a fronteira. Nos dois sentidos. A Líbia está partida. Dois governos, dois parlamentos, senhores da guerra, Estado Islâmico com uma forte presença, futuro absolutamente incerto.

Mohammar Kadhafi, ora acusado de terrorista ora recebido com pompa nos palácios ocidentais, foi morto nas proximidades da cidade de Sirte a 20 de Outubro de 2011, não muito longe do local onde nasceu, quando tentava fugir do cerco à cidade. Foi apanhado por rebeldes, escondido numa conduta. Depois de Kadhafi fugir de Tripoli, em Agosto, os rebeldes sempre disseram que só descansariam quando o apanhassem, vivo ou morto. Há muitas versões sobre a morte de Kadhafi que responsabilizam diferentes actores. Uma dessas versões é a de que terá sido morto pela sua própria pistola em dourada. Terá sido um jovem rebelde a dar o tiro fatal. Terá sido, porque uma reportagem da BBC em Fevereiro deste ano, descobriu em Misrata a arma de Kadhafi e o jovem (então com 17 anos) que foi fotografado com ela enquanto era levado aos ombros no momento em que Kadhafi foi capturado e morto. O jovem nega ter sido o autor do disparo fatal.

Na perspectiva de quem apenas quer viver em paz, com justiça e liberdade, tudo correu mal na Líbia. Depois do ditador – é bom não esquecer que Mohammar Kadhafi esteve mais de 40 anos no poder e conquistou-o através de um golpe de estado, em 1969, que afastou o Rei Idris – os líbios demoram a encontrar o caminho. Seria bom, pelo menos, que o mau exemplo líbio fosse tido em conta, mas se pensarmos em Mossul, no Iraque, não é isso que está a acontecer. Já foi assim com Saddam – afastado sem que, quem o afastou, tivesse sequer noção de como ia ser o day after – e vai ser assim no combate ao Estado Islâmico em Mossul: não há nenhum plano para o dia seguinte. Pode vir a ser mais uma zona de caos.

Pinhal Novo, 20 de Outubro de 2016
josé manuel rosendo


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mossul, todos a querem. A que preço, não importa…

Esta foto foi tirada há um ano, em Bashika, onde a Turquia tem uma base militar para formação de forças curdas e sunitas. Daqui partem os Peshmerga curdos que estão a combater o Estado Islâmico. Mossul fica a uma dezena de quilómetros.

Sem nenhuma dúvida, as noites em Mossul são mal dormidas. Por esta hora, acredito, ninguém quererá fazer a (adaptada) pergunta: Mossul já está a arder? A pergunta, a original, terá sido feita por Adolf Hitler já em fase de desespero, quando os aliados entraram em Paris e os nazis perdiam batalhas sucessivas. Paris não chegou a arder. Não consta que o Estado Islâmico prefira ver Mossul arder devido à iminência de uma derrota militar face ao ataque iniciado esta segunda-feira, mas desta vez, e ao contrário de Paris, quem parece disposto a incendiar Mossul são os que atacam a cidade.

Em Dezembro do ano passado, regressado da região, fiz a pergunta (E depois do Estado Islâmico?) http://meumundominhaaldeia.blogspot.pt/2015/12/e-depois-do-estado-islamico.html e disseram-me que estava com pressa. Não estava. A questão era (é) mesmo essa, porque eu bem ouvi o que os curdos iraquianos diziam. Quem considerava que eu estava com pressa dizia-me então que primeiro era preciso derrotar o Estado Islâmico e depois logo se via. Errado. Mossul não é Faluja, nem Ramadi. Conquistar Mossul ao Estado Islâmico e manter a cidade sem criar um novo foco de guerra exige um plano para o pós Estado Islâmico. Um plano que seja do agrado de todos os que estão envolvidos neste ataque a Mossul. O problema é que são muitos os interesses e um plano assim parece impossível. Quem ataca a cidade converge na necessidade de tirar Mossul das mãos do Estado islâmico, mas diverge em tudo o resto. E basta estar atento às mais recentes declarações para se perceber que não há plano nenhum.

Depois de uma primeira ofensiva falhada no início da Primavera, desta vez parece que é para levar até ao fim. Forças do governo de Bagdad, milícias xiitas (Unidades de Mobilização Popular), milícias de tribos sunitas, milícias iranianas, milícias do Hezbollah, Peshmerga curdos, forças fiéis ao antigo governador de Mossul, norte-americanos e turcos no terreno, e ataques aéreos da coligação internacional. Não muito longe andam os guerrilheiros do PKK e das Unidades de Protecção Popular (sírias), bem como milícias Yazidis. A lista, certamente, não é completa, mas suficiente para se perceber como vai ser difícil decidir quem fica a controlar Mossul.

Não se sabe ao certo quantos habitantes tem a cidade (a ONU refere 1,5 milhões) nem quantos são os combatentes do Estado Islâmico. Mas a coisa pode correr muito mal. Um coordenador da ONU para os Direitos Humanos já alertou: “não acusem os civis de Mossul de pertencerem ao Estado Islâmico, e que não haja execuções sumárias, nem de civis nem de membros do Estado Islâmico”. O tom do aviso deixa claro o que pode acontecer. Ainda a ONU alerta para uma nova vaga de refugiados e faz saber do perigo de os habitantes ficarem encurralados no fogo cruzado, podendo ser vítimas de franco-atiradores ou serem utilizados como escudos-humanos. A ONG Save the Children alerta para mais de meio milhão de crianças em risco.

Alguns analistas consideram que nesta batalha joga-se o futuro do Iraque enquanto país com as actuais fronteiras. O governo do Iraque joga também o tudo ou nada, devido às sucessivas crises políticas mas, mesmo derrotando o Estado Islâmico, pode vir a revelar-se incapaz de gerir a situação futura, que pode degenerar numa efectiva desintegração do país.
Antes do ataque, aviões iraquianos lançaram panfletos na cidade aconselhando a população a ficar em casa e prometendo não atacar alvos civis, mas é impossível prever a evolução da batalha e a reacção da população.

As próximas horas vão fornecer indicadores mas as mais recentes declarações são um sinal claro do caldeirão em que Mossul pode ser transformada. Moqtada al Sadr, poderoso clérigo xiita que liderou o exército de Mahdi no combate à ocupação norte-americana, disse que a batalha de Mossul é uma guerra entre o governo de Bagdad e os terroristas e que o Iraque deve recusar o apoio turco em nome da soberania iraquiana; o Presidente turco, Erdogan, disse que “está fora de questão a Turquia ficar fora da ‘operação Mossul’” acrescentando que a Turquia estará na operação militar e também na (futura) mesa de negociações; o parlamento iraquiano já votou uma moção em que considera a presença turca como “ocupação” e violação de soberania”. Sendo a maioria da população de Mossul de origem sunita, não se sabe como vai reagir à entrada de milícias e tropas xiitas. O antigo governador de Mossul – aliás, acusado de ser o responsável pela queda de Mossul às mãos do estado Islâmico em 2014 – lidera uma milícia fiel, que é apoiada pela Turquia e propõe-se ser mediador entre as forças xiitas e os habitantes da cidade. Também a ter em conta que é a primeira vez que Peshmerga curdos e forças de Bagdad combatem lado-a-lado numa operação militar. Os curdos dizem que não têm interesses em Mossul mas vão ocupando algumas zonas que foram conquistando ao Estado islâmico. Em termos de declarações mais recentes, a cereja no topo do bolo veio de Moscovo, com a Rússia – acusada de crimes de guerra na Síria - a dizer que espera que a coligação internacional no Iraque tenha uma acção com precisão que evite vítimas civis.

Várias fontes referem 30 mil homens no ataque a Mossul, que estará defendida por cerca de 4 a 8 mil combatentes do Estado Islâmico. Não se sabe onde está o “califa” Abu Bakr al Bagdadi; não se sabe como será possível distinguir entre combatentes e civis (numa cidade com mais de um milhão de habitantes). É impossível prever o tempo que esta operação vai demorar mas alguns analistas apontam para um final de batalha em zona urbana, rua a rua, casa a casa. Mossul ainda não está a arder, mas são muitas as colunas de fumo negro e a dimensão do que está em jogo é de tal ordem que se alguém temer o pior não pode ser acusado de pessimismo.

Pinhal Novo, 18 de Outubro de 2016

josé manuel rosendo

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A balda dos táxis num país de “uber's" à balda


A foto que ilustra este texto foi feita por mim, em Abril de 2015. Chegado à estação de Campanhã, no Porto, entrei no primeiro táxi da fila – tem de ser assim - e, já lá dentro, deparo-me com este cenário: um pára-brisas estilhaçado! O táxi era velho e revelho, as mudanças entravam a “pontapé” e o motorista, coitado, muito mais velho do que o táxi, já merecia estar a gozar a reforma. Se juntarmos a este exemplo a manifestação/protesto desta segunda-feira (10 de Outubro) e as imagens de verdadeiros arruaceiros que os taxistas transmitiram ao país, podemos dizer que o sector está a precisar de uma enorme reciclagem. Isto para dizer que apesar deste mau serviço e destes maus exemplos considero que o que estão a fazer aos taxistas – aos profissionais dignos – é uma verdadeira “filha da putice”.

Num Estado de Direito Democrático (EDM) não parece defensável pretender manter uma actividade económica sem que esteja regulamentada (uber e cabify); num EDM não parece defensável ter regras diferentes para vários agentes económicos que concorrem na mesma área de negócio; num EDM alguém que inicie uma actividade económica sem enquadramento legal deve ser devidamente punido.

O que está em causa (táxis versus uber/cabify) não são novas tecnologias – as tais plataformas; não está em causa um novo serviço; ninguém descobriu a pólvora. O que está em causa é que uns quantos xico-espertos descobriram uma brecha na legislação - e tiveram cobertura política para crescer e apresentarem-se agora com um facto consumado - que tentam explorar, e consideram-se “muito à frente”; o que está também em causa são empresas de táxis que pararam no tempo e quiseram, num determinado momento, reduzir custos à conta de biscateiros mal preparados que não têm nenhum tipo de preocupação com o futuro da actividade a não ser receber o trabalho feito durante algumas horas depois do turno de trabalho normal na empresa onde realmente trabalham (todos conhecemos alguém que após um horário normal de trabalho entra(va) num táxi para fazer umas horas e aconchegar o orçamento); o que está em causa é taxistas sem brio profissional (sim, sem brio profissional: alguns são mal educados, alguns cheiram mal, usam camisas surradas, fumam dentro dos táxis): E que as empresas de táxis não venham acusar a uber de utilizar trabalho precário – o que é verdade – porque fazem (ou pelo menos já fizeram) o mesmo. Evidentemente que também há bons profissionais, mas tudo o que atrás foi referido contribuiu para a degradação do serviço.

A desregulamentação é a menina dos olhos dos neoliberais. No caso da uber e da cabify, beneficiaram de um momento em que Portugal tinha o Governo que todos sabemos; seria um bom sinal do actual Governo combater a desregulamentação neste sector e seria um sinal de afastamento de práticas e filosofias anteriores.

Melhores serviços todos queremos, mas entrar no facilitismo de admitir a desregulamentação das actividades económicas só porque, num determinado momento, há um ganho imediato da qualidade desse serviço, é abrir a porta a uma sociedade sem regras, ao trabalho à jorna, à selva. Quem agora pensa que ganha alguma coisa com essa desregulamentação não vai demorar muito a perceber que as perdas são muito maiores a médio-longo prazo. Hoje é o sector do serviço de transporte de passageiros em veículos ligeiros, ontem já foi assim com outros sectores, amanhã será ainda com outros. O lucro desta desregulamentação nunca beneficia quem trabalha ou quem utiliza os serviços. Nunca beneficia a Sociedade no seu conjunto.

No caso de que estamos a falar, tanto se me dá que lhe chamem uber, táxi ou cabify. Gostaria de ter um serviço que me transportasse num carro limpo, de preferência com poucos anos de uso e com um motorista educado que não reclamasse quando a corrida é pequena, quando não recebe o pagamento em dinheiro trocado ou quando não recebe a esperada gorjeta. E esse serviço terá de ser regulamentado, para defesa dos profissionais e dos cidadãos que utilizam o serviço. E já agora, também é bom que se diga que os motoristas da uber/cabify nunca fazem porventura o mesmo tipo de reclamações porque podem recusar os serviços que não lhes interessam. Os taxistas não o podem fazer.

Pinhal Novo, 10 de Outubro de 2016

josé manuel rosendo

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Outubro (vai ser) negro na Síria


Para “início de conversa”: ligo a Al Jazeera e oiço “100 mortos no sábado, 85 este domingo”; há informação confirmada da utilização de bombas de desfragmentação; as Nações Unidas alertam para mais de um milhão de pessoas sem água. Tudo isto em Aleppo. Quem pensa que já é suficientemente mau, prepare-se para que seja pior.

A declaração do embaixador sírio nas Nações Unidas, Bashar Jaafari, avisando que em Outubro não haverá negociações, parece indiciar que está encontrada a prioridade do regime sírio. Depois de mais um cessar-fogo que não deu em nada, a não ser no redobrar das ofensivas do governo de Damasco, as grandes potências limitam-se a trocar acusações e a mostrar-nos o que de pior tem a diplomacia: hipocrisia e total indiferença – não adianta dizerem que estão preocupados, estamos todos… - com o que se passa no terreno, com populações civis e cidades a serem bombardeadas. O regime sírio considera que tem capacidade e apoios para reconquistar territórios, e não precisa de negociar. E está com um olho em Mossul, no Iraque, porque da realidade iraquiana é importante, com o Estado Islâmico a ser o elemento que pode influenciar toda a evolução. O aliado Irão, também aliado do governo iraquiano, sabe bem o que está a ser preparado no Iraque, para reconquistar Mossul ao Estado Islâmico. A mensagem certamente já chegou a Damasco: esperem, para ver o que dá o ataque a Mossul.

Neste momento, o silêncio da comunidade internacional em relação à Síria é bárbaro. De nada adianta falar e nada fazer. Estamos cheios de declarações mais ou menos inflamadas contra a guerra na Síria. É vergonhoso. Eu sinto vergonha, uma vergonha alheia que nem por isso deixa de ser terrivelmente desconfortável.

A leitura que é possível fazer, com os dados que são conhecidos, é a de que apesar de Bashar al Assad manter o discurso de querer recuperar o controlo total do país, isso não vai acontecer, nem o presidente sírio quer. De nada lhe serve ter território que apenas dá problemas e reivindica recursos. Assad quer ficar com as províncias alauitas junto ao Mediterrâneo e, de preferência, associar-lhes, a oeste, o corredor norte-sul onde estão as principais cidades do país: Aleppo (antigo coração da economia síria), Idlib, Homs, Damasco e Daraa. Afinal, apenas ficam de fora as cidades curdas (inevitáveis locais de conflito se a Síria permanecesse unida sob o controlo de Assad) e as cidades de Raqqa, Palmira e Deir Ezzor. O resto é deserto, com excepção do vale do Eufrates. O petróleo nas zonas mais encostadas ao Iraque não tem grande expressão. É isto que Bashar al Assad quer, uma vez que não pode ter tudo. O pragmatismo de quem quer continuar a ser presidente obriga a deixar de lado o orgulho ferido de quem perde território.

Neste momento, a França já enviou o porta-aviões Charles de Gaulle para o Mediterrâneo; a Rússia também enviou o porta-aviões Amiral Kouznetsov para fazer companhia a 10 navios de guerra e submarinos. O Mediterrâneo está transformado numa base militar com rampas de lançamento que podem atingir qualquer local do Médio Oriente e todas as principais potências envolvidas na Síria e no Iraque têm militares no terreno.

Os Estados Unidos já disseram que a ofensiva para reconquistar Mossul pode começar em Outubro; o governo britânico disse que a ofensiva começa nas próximas semanas; o governo iraquiano tem dito o mesmo e as tropas de Bagdad juntamente com as milícias xiitas iranianas, e também iraquianas, e algumas tribos sunitas, estão a avançar no terreno. O Primeiro-ministro iraquiano, Al Abadi, tem-se desdobrado em contactos internacionais (incluindo a Turquia e os líderes curdos iraquianos) para preparar o terreno. Um ataque a Mossul levanta imensas preocupações humanitárias e não se sabe a resistência que o Estado Islâmico poderá opor. O custo em vidas humanas poderá ser terrível, inclusivamente entre os civis.

Dependendo de como a ofensiva venha a ser planeada, pode ser deixado um corredor de fuga para os combatentes do Estado Islâmico, e esse corredor pode conduzir a Raqqa, na Síria. Mas também pode acontecer que assim não seja e que Mossul seja cercada. E até pode acontecer que sejam planeadas ofensivas simultâneas a Mossul e a Raqqa. É impossível saber o que vai na cabeça dos estrategas militares e quais são os objectivos políticos imediatos ou a longo prazo.

Nesta complexa realidade, o Irão pode assumir um papel de relevo: os iranianos estão de bem com os Estados Unidos em relação ao Iraque, cujo governo tem telefone directo com Teerão, e estão de bem com a Rússia no apoio a Bashar al Assad. Podem acabar por ser o pivot que coordene acções atendendo ao mau momento Estados Unidos-Rússia. Seria a grande vitória de Teerão.

Mas, quanto à Síria, o cenário que neste momento parece mais agradável para Bashar al Assad e respectivos aliados é o de conquistar as grandes cidades a norte de Damasco, esquecer o deserto e os curdos do norte, e deixar à comunidade internacional e à oposição moderada a tarefa de combater o Estado Islâmico eventualmente acantonado em Raqqa (capital do califado) quando for expulso de Mossul. Falta saber o que poderá fazer o Exército Livre da Síria e a enorme miríade de grupos armados para contrariar esta estratégia de Assad e dos aliados russos.

Uma última nota: a Rússia poderá estar para uma “nova Síria”, como os Estados Unidos estão para Israel, o que não desagrada nada a Vladimir Putin.

É complicado? É! Mas é impossível tornar fácil uma realidade que envolve tantos interesses e protagonistas. Certo é que as nuvens negras (mais negras do que as que pairam sobre a região) estão a caminho e tudo indica que vai ser muito feio.

Pinhal Novo, 25 de Setembro de 2016

josé manuel rosendo