sexta-feira, 22 de junho de 2018

A Tragédia da desumanização



“Carga humana”, expressão utilizada por Matteo Salvini, Ministro do Interior (e também vice-primeiro-ministro) de Itália, para se referir às 224 pessoas a bordo do barco da “Mission Lifetime”, ONG holandesa, que o Governo de Itália recusou inicialmente receber num porto italiano, mas acabou por aceitar. De caminho, Salvini disse que a “carga humana” teria de ser levada para a Holanda. Matteo Salvini disse ainda que ninguém chama fascista ao vice-primeiro-ministro de Itália. Matteo Salvini é líder da Liga, que já foi Liga do Norte, mas que agora quer ser de toda a Itália e que, juntamente com o Movimento 5 Estrelas, formam o Governo de Itália. Assumem-se como “anti-sistema”, o que não é necessariamente mau porque o “sistema”, de facto, não presta. O pior é que são contra o “sistema” em nome de um “outro sistema” ainda pior. E pior ainda é ver este tipo de gente a ter alguma razão porque há quem decida políticas que acabam por lhes dar argumentos.
As palavras de Salvini em relação a 224 pessoas que “apenas” fogem de cenários de morte e miséria, onde a esperança há muito morreu, é reveladora dos valores que estão a emergir na Europa.
Aquilo que, por facilitismo, designamos por “crise de refugiados”, é para as pessoas em causa uma questão de sobrevivência: arriscam uma travessia num barco manhoso, trazendo as crianças, ou estão condenadas, se não à morte por uma qualquer bala, certamente pela miséria da falta de tudo e da ausência de esperança.
É certo que a Europa (como disse Angela Merkel) não pode acolher toda a miséria do mundo, mas esta Europa que puxa dos galões para falar de valores civilizacionais, não pode pecar pela ausência de resposta. E é disso que se trata: ausência de resposta. Cada um escapa como pode à responsabilidade que devia assumir e que devia exigir que outros também assumissem.
Em 2015, quando as campainhas de alarme soaram – os sinais já eram antigos mas houve quem não quisesse ver – foi o que se viu; depois, veio o acordo com a Turquia – um remendo que deu dinheiro a Erdogan – e o acordo com a Líbia (qual Líbia?) que atirou os refugiados para as mãos dos traficantes e centros de detenção desumanos. É verdade que a chegada de refugiados à Europa foi reduzida, mas a que preço?
Os sinais que chegam de Itália são apenas os mais recentes porque outros sinais muito parecidos já há muito que chegam da Hungria, Áustria, República Checa, Polónia, Eslovénia, Eslováquia... países que se opõem a qualquer ideia de distribuição de refugiados por quotas. O líder húngaro, Viktor Orban, fez aprovar uma lei que transforma em crime qualquer ajuda a refugiados.
São apenas alguns exemplos de uma Europa onde os muros (re) nasceram e envergonham os que se preocupam e defendem os Direitos Humanos. Sim, Direitos Humanos, é disso que estamos a falar.  Em alguns dos países em que os Governos ainda não são totalmente contra a chegada de refugiados é fácil detectar sinais de que a semente está a germinar.
Não devemos ter medo das palavras: há atitudes que tresandam a fascismo! A Europa já viu este “filme”. A Europa já assistiu a momentos em que muitos pensaram que não lhes tocaria em sorte e quando perceberam que não tinham escapatória já era tarde demais. Ninguém pode dizer que não está avisado.
Para o final de Junho está marcado um Conselho Europeu com esta questão na agenda; já este domingo há uma “cimeira” de uma dezena de países europeus (então e os outros?) para discutir a “política migratória”. Curiosamente, o texto do projecto de conclusões refere que “as medidas unilaterais e descoordenadas são menos eficazes, prejudicariam seriamente o processo de integração europeia e o espaço Schengen”.
Nas últimas horas, sem fazer alarde, o Papa Francisco explicou como se pode fazer. Disse que a crise dos refugiados e migrantes exige um maior investimento em regiões como África e o Médio Oriente. Em relação a África (de onde chegam agora o maior número de refugiados), Francisco denunciou a exploração do continente africano (e deve ter irritado algumas capitais europeias) e foi mais directo: “Um plano de investimentos, de educação, para ajudar a crescer, porque o povo africano tem muitas riquezas culturais, grande inteligência, crianças inteligentíssimas. Este será o caminho a médio prazo, mas de momento os governos devem pôr-se de acordo para responder a esta emergência”. 

O Papa pediu “prudência”, por parte dos governos europeus, no acolhimento aos refugiados, para que todos possam ser “integrados”. O que Francisco quis dizer foi: pensem neste problema com a noção de que estão a falar de pessoas, da vida das pessoas. Tão simples quanto isto. E se isto não é política, então não sei o que é. E não precisamos de muitas cimeiras para chegar a estas conclusões.

Precisamos de menos discursos ocos, de menos decisões que nada resolvem a não ser as eleições seguintes. Precisamos de mais governantes com uma noção – apenas uma ligeira noção – de Direitos Humanos. Precisamos de governantes que não se refiram às pessoas como “carga humana”.

Pinhal Novo, 22 de Junho de 2018
josé manuel rosendo

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Hamas alerta para possibilidade de nova Intifada



Texto escrito para a página da RTP na Internet www.rtp.pt 

Yahya Sinwar, líder do Hamas em Gaza, 
alerta para eventual “Intifada do Retorno”

Foi na resposta à última pergunta (Dias 14 e 15 são esperadas fortes manifestações junto à fronteira com Israel, como será o dia 16?) que o líder do Hamas na Faixa de Gaza referiu a expressão que nunca tinha sido mencionada: Intifada do Retorno. Apenas um alerta para uma possibilidade, nas palavras do homem que passou mais de 20 anos em cadeias israelitas e que foi libertado em 2011, juntamente com mais de mil palestinianos, quando o Hamas libertou o soldado israelita Gilad Shalit.

Numa atitude rara, o líder do Hamas na Faixa de Gaza encontrou-se com os jornalistas estrangeiros, alguns a trabalharem no território e outros que atravessaram a fronteia especificamente para esta conferência de imprensa, para dar conta do que o Hamas pensa que poderão ser os próximos dias e das consequências que a “Marcha do Retorno”, iniciada a 30 de Março, poderá ter.

Referindo várias vezes “nós, os palestinianos”, Yahya Sinwar listou problemas conhecidos, pilares do conflito israelo-palestiniano, mas colocou o acento tónico nos 12 anos de cerco à Faixa de Gaza, desde que o Hamas venceu as eleições legislativas que se seguiram à morte de Yasser Arafat. Sofrimento, injustiça, incapacidade de a comunidade internacional reverter a ocupação, resoluções das Nações Unidas nunca cumpridas, e o momento em que os palestinianos estão fartos de uma punição colectiva pela escolha política que fizeram e porque cada vez mais sentem a ausência de esperança numa solução que os retire de uma vida que Yahya Sinwar classificou de miserável.

Para dar conta das dificuldades actuais na Faixa de Gaza, Yahya Sinwara disse que, em muitos aspectos, as mais de duas décadas que passou nas prisões israelitas foram mais fáceis do que a vida diária em Gaza: melhor alimentação e melhores cuidados de saúde. Mas lembrou que isso foi conseguido após várias greves de fome. Quanto, a números 95% da água não é potável; 80% da população vive abaixo do limiar da pobreza; cerca de 60% não tem segurança alimentar; o desemprego está nos 45%. Números que não diferem dos que são apresentados pela UNRWA (Agência da ONU para os refugiados palestinianos), que não poupa nas palavras e alerta para uma “Catástrofe Humanitária” à vista.

Com uma imensa fotografia da Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, como pano de fundo, o líder do Hamas na Faixa de Gaza disse que o território é “uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento e com consequências imprevisíveis”. É com base em todas as dificuldades e no actual momento de protesto – a Marcha do Retorno – que este líder do Hamas admite que o movimento possa crescer para uma revolta com outros contornos e mesmo até à margem das lideranças políticas, tal como aconteceu com as anteriores Intifadas.

O Hamas tem adoptado uma terminologia mais moderada e lembra que apoia a Marcha do Retorno, mas sublinha que são manifestações pacíficas onde ninguém participa armado e que Israel está a responder de forma absolutamente desproporcional. Desde 30 de Março já morreram 47 palestinianos e mais de dois mil ficaram feridos (muitos atingidos por gás cujas características os médicos palestinianos dizem que ignoram mas afirmam que não é apenas gás lacrimogéneo). Sinwar contesta a narrativa de alguns media: “os palestinianos não foram mortos nos confrontos! Quais confrontos?”, afirma para sublinhar que os palestinianos estavam desarmados.

“Acreditamos que há uma forma pacífica de resolver o conflito. Não investimos em morte e destruição” afirma Yahya Sinwar. Mais à frente diria que “Gostamos da paz, da estabilidade, amamos a vida, mas estamos sujeitos a uma grande injustiça”, acrescentando que pretende resolver o problema de forma pacífica e não com guerra. Se conseguirmos, será excelente, concluiu. 

Há, de facto, um registo diferente na abordagem feita pelo Hamas, mas o dedo acusador continua bem apontado a Israel. O Hamas diz que nada tem contra o povo judeu, mas sim contra os sionistas e os gangster’s de Israel. E afirma sem hesitações que não gosta do que a actual administração norte-americana tem feito aos palestinianos: o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e a escolha da data – nos 70 anos da Nakba (a Catástrofe) e da criação do Estado de Israel - da transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, atingem fundo no coração dos palestinianos.

A sequência de frases ditas por Yahya Sinwar aos jornalistas estrangeiros passou por “é Inaceitável continuarmos a morrer lentamente” e “Gaza é um tigre humilhado e mantido numa prisão. Está a começar a libertar-se e não se sabe onde poderá ir”.

O homem que Israel define como terrorista e que diz que não gosta de aparecer nos media, apenas permitiu cinco minutos de captação de imagens. Telemóveis, câmaras e gravadores, ficaram depois retidos na segurança e os tradutores dos jornalistas não puderam estar nas mais de duas horas de conferência de imprensa. O encontro com os jornalistas, por ser inédito, foi justificado: “o meu encontro com os jornalistas é para tentar evitar que a situação se agrave nos próximos dias. Jornalistas no terreno podem evitar um banho de sangue. Não queremos que estejam do nosso lado, mostrem e contem apenas o que estiverem a ver”.

Faixa de Gaza, 10 de Maio de 2018
José Manuel Rosendo/Antena 1

terça-feira, 10 de abril de 2018

Síria: agora Ghouta Oriental… segue-se Idlib? “Idlib não pode transformar-se num campo de batalha” (Jan Egeland)



"E a resposta do mundo? Palavras vazias, condenações fracas e um Conselho de Segurança paralisado pelo uso do veto." Foi assim que Zeid Ra'ad al-Hussein, Alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, comentou a situação na Síria.

Desde logo, uma coisa é certa: não há jornalistas no terreno, a não ser os sírios que trabalham nos órgãos de informação de Damasco. Do lado dos rebeldes a informação que nos chega é a dos próprios rebeldes. Damasco terá muita dificuldade em fazer com que acreditemos na informação que nos chega por essa via. Tal como os rebeldes. Uns e outros acabam por ser vítimas da ausência de jornalistas.

É verdade que as imagens são dramáticas. Os efeitos de gás de cloro ou seja o que for, principalmente em crianças, deixam-nos de coração apertado. Não se sabe ao certo se foram utilizadas bombas de cloro ou que tipo de gás foi utilizado. Não se sabe ao certo quem as utilizou. E, não relativizando ou desvalorizando o sofrimento daqueles que tais imagens mostram, é bom não esquecer que a guerra na Síria está a matar desde 2011. Repito: não desvalorizando a alegada utilização de armas químicas, por parte do regime de Assad ou de quaisquer outras forças, a chamada comunidade internacional não deve, não pode, olhar para este momento específico e esquecer todos os anos que passaram e em que… nada fez.  No caso da Síria e em muitos outros.

Lembram-se do menino curdo que apareceu morto numa praia turca? Aylan Kurdi (o curdo), o irmão Galip, e os pais, saíram de Kobani com o objectivo de chegar ao Canadá. O sonho morreu nas águas do Mediterrâneo. Aylan, Galip e a mãe, regressaram a Kobani para aí serem sepultados. O mundo indignou-se, as redes sociais encheram-se de partilhas e faixas negras. Entretanto, o drama dos refugiados continua. Muitos acantonados na Turquia, com a União Europeia a pagar para os manter à distância. A indignação desapareceu…

Lembram-se da campanha por causa da adolescente palestiniana Ahed Tamimi que acabou condenada a oito meses de prisão? Pois, mas quase todos os dias morrem palestinianos, seja em Gaza seja na Cisjordânia. E as resoluções das Nações Unidas continuam por cumprir. A indignação… tem dias.

Estas ondas de indignação são apenas um lavar de alma de uma comunidade internacional (nós) demasiado acomodada, demasiado focada em interesses menores, e que se serve destes momentos para uma espécie de catarse com a qual pretende autojustificar-se.
Gostaria de não ser mal entendido Não estou a dizer que os casos como os do menino curdo ou da adolescente palestiniana, não mereçam ser condenados e que não deva haver indignação O que estou a tentar dizer é que isso não é suficiente e até pode ajudar a fazer esquecer as grandes questões de que esses exemplos são apenas uma pequeníssima amostra.

Na Síria, sejam quais forem os verdadeiros números da desgraça (entre 350.000 e 500.000 mortos) em sete anos de guerra, para além dos milhões de refugiados e deslocados, são esses números que nos devem envergonhar.

Douma, cerca de 10 km a nordeste de Damasco, faz parte da região de Ghouta Oriental e é o último reduto da oposição a Bashar al Assad nas proximidades da capital. Aparentemente, há um acordo para que os combatentes da Jaish al Islam e respectivas famílias sejam retirados e levados para Idlib.

Chegados à província de Idlib, a única que é controlada pela oposição síria, dividida em diferentes grupos rebeldes, é porventura tempo para esperarmos uma de duas possibilidades: a “última batalha” ou um acordo entre Governo sírio e grupos da oposição (em moldes que não fáceis de prever…). E se essa última batalha tiver lugar, a única certeza é de que será muito pior do que foi em Ghouta Oriental. António Guterres disse de Ghouta Oriental que era o “inferno na Terra”, mas no caso de Idlib essa será porventura uma expressão insuficiente.

A possibilidade de Idlib ser palco de uma “última batalha” não deve ser excluído: é a região que falta para que Bashar al Assad controle todo o país, ou quase, e tratar então de fazer sair as tropas turcas de Afrin (cantão curdo).

Jan Egeland, conselheiro especial do enviado da ONU para a Síria (Staffan de Mistura) deixou bem claro o perigo que espreita em Idlib: "Precisamos aprender com as batalhas de Homs, Aleppo, Raqqa, Deir al-Zor e Ghouta Oriental. Idlib não se pode transformar em uma zona de batalha, está cheia de civis que são deslocados vulneráveis".

Jan Egeland lembra que Idlib é “o maior aglomerado de campos de deslocados no mundo” com cerca de 1,5 milhões de pessoas. Juntemos a estas pessoas as dezenas de milhares de combatentes que se têm aglomerado em Idlib depois de derrotados em outras regiões da Síria. Juntemos ainda a panóplia de forças de vários países e temos, na região de Idlib, o caldo perfeito para promover mais uma tragédia. Seria muito bom que assim não fosse.

Pinhal Novo 10 de Abril de 2018

josé manuel rosendo

segunda-feira, 26 de março de 2018

O que vai dizer o Ocidente sobre as eleições presidenciais no Egipto?


No momento em que termino este texto faltam poucas horas para os egípcios começarem a votar nas eleições presidenciais: 26, 27 e 28 de Março, são os dias da primeira volta – sendo certo que não haverá segunda. São eleições onde não há lugar para a surpresa: Abdel Fatah al Sissi é o vencedor anunciado. Al Sissi não é o único candidato, mas o seu único adversário (Moussa Mostafa Moussa) é, simultaneamente, seu fervoroso apoiante, tendo feito campanha por al Sissi até apresentar a própria candidatura no último minuto do prazo.

Todos os outros putativos candidatos foram presos ou “desencorajados” com destaque para o General Sami Anan, antigo chefe do Estado-Maior, que foi preso poucas horas depois de anunciar a intenção de se candidatar, sob acusação de ter violado a Lei militar; Ahmed Shafiq foi levado para um hotel, quando regressou do exílio nos Emirados Árabes, e lá ficou até declarar que retirava a candidatura; Mohammed Anwar Sadat, sobrinho do antigo Presidente Anwar al Sadat, desistiu; Abdel Aboul Fotouh, antigo membro da Irmandade Muçulmana, foi preso. A Irmandade Muçulmana está desarticulada e os militantes liberais ou de esquerda estão presos ou calados com medo. Quanto a candidatos é isto.

O actual homem-forte do Egipto, Abdel Fatah al Sissi liderou o golpe militar que afastou Mohammed Morsi, o primeiro civil eleito democraticamente – democraticamente, de facto, com vários candidatos e até com uma segunda volta em que derrotou Ahmed Shafiq, o último Primeiro-Ministro de Hosni Moubarak – e depois venceu as presidenciais de 2014 com 96,9% dos votos. A votação por estes dias não deverá ser diferente e todos sabemos o que significam resultados deste género.

Os egípcios enfrentam uma forte crise económica e apesar de muitos falarem em recuperação, a tormenta continua com quase 30 milhões de pessoas na pobreza e números de desemprego impressionantes. Quatro anos após a Irmandade Muçulmana ter sido afastada do poder, o Egipto recebeu (em 2017) 8,3 milhões de turistas, quando em 2010 (ainda com Hosni Moubarak) tinha recebido 14,7 milhões.

A alegada segurança de que Al Sissi é o guardião no Egipto parece ser o valor maior para um Ocidente que recusa olhar para a tenebrosa situação em matéria de direitos humanos. “Há uma repressão sem precedentes e muito pior do que no tempo de Moubarak. Assemelha-se à situação na Síria com Hafez al Assad (pai de Bashar al Assad), diz Amr Magdi, investigador da Human Rights Watch para o Médio Oriente.

Na sequência do golpe militar que derrubou Mohammed Morsi, a Irmandade Muçulmana foi considerada “organização terrorista” e centenas de apoiantes foram condenados à morte ou a prisão perpétua, entre eles o próprio Mohammed Morsi e também o guia espiritual Mohammed Badie. Algumas destas penas foram, entretanto, revistas. Muitos dos que participaram na revolta que derrubou Hosni Moubarak estão também atrás das grades com penas de prisão perpétua; as Organizações Não Governamentais trabalham sob controlo apertadíssimo; os órgãos de informação estão mais do que controlados, há centenas de páginas de Internet bloqueadas e o Egipto está em 161º lugar entre 180 países na classificação dos Repórteres sem Fronteiras.

Al Sissi foi à televisão deixar um aviso claro aos jornalistas: qualquer “insulto” ao exército ou à polícia será considerado difamação do país e alta traição.

O Egipto continua a receber uma enorme ajuda militar dos Estados Unidos e, em 2015, acertou com a França a compra de aviões caça por 6 mil milhões de Euros. Tal como Kadhafi ameaçou com a abertura de fronteiras para deixar passar africanos que pretendiam chegar à Europa, al Sissi também disse que se o Egipto não controlar as fronteiras quem vai sofrer é a Europa. O aviso é simples: ou Al Sissi continua no poder ou o Egipto mergulha no caos e a Europa paga a factura.

Al Sissi tem sido recebido por vários líderes ocidentais, e também os tem recebido no Cairo. Já vimos este “filme” com outros líderes (basta lembrar Kadhafi) que caíram em desgraça. Sabemos como vai acabar.

Por agora, Al Sissi terá o apoio genuíno de grande parte do aparelho do exército e das forças de segurança, precisamente aqueles que apoiavam Moubarak. Terá também o apoio dos cristãos coptas, embora nem todos. Tal como como os Assad ou até Saddam Husseín, Al Sissi joga a cartada de uma alegada protecção das minorias religiosas. E, certamente, terá o apoio dos que privilegiam a segurança aceitando fechar os olhos aos atropelos a direitos fundamentais e submetendo-se ao silêncio perante um todo poderoso poder político.

Recordo-me de estar no Cairo em plena revolta, com Hosni Moubarak, teimoso, ainda agarrado ao poder. As ruas e a Praça Tahrir fervilhavam com gritos de “o povo quer a queda do Raïs”, mas a televisão do Estado mostrava, certamente com imagens gravadas, as margens nocturnas de um Nilo em noites tranquilas onde nada acontecia.

Tal como em relação ao Rio Nilo sabemos onde é a foz mas não temos certezas quanto ao local da nascente, também sabemos qual vai ser o resultado das eleições presidenciais, embora ainda se discuta a verdadeira origem da revolta que derrubou Hosni Moubarak e criou condições para a ascensão de Abdel Fatah al Sissi. O Nilo continua a correr e Al Sissi vai continuar no poder.

Pinhal Novo, 26 de Março de 2018
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josé manuel rosendo