domingo, 10 de novembro de 2019

Nova Constituição síria sem a voz dos curdos

Início dos trabalhados da Comissão que vai negociar uma nova Constituição para a Síria. Fotografia publicada na página da National Coalition of Syrian Revolution and Opposition Forces

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A ideia parece louvável: dotar a Síria de uma nova Lei Fundamental para que exista uma base de reconstrução do país quando a guerra terminar. As Nações Unidas apadrinham o trabalho feito por uma Comissão Constitucional de 150 pessoas, sendo os lugares repartidos, por igual, entre o Governo do Presidente Bashar al Assad, as diferentes fações da oposição e os representantes da sociedade civil (escolha da ONU). Os problemas começam aqui: o que são as “diferentes fações da oposição” e os “representantes da sociedade civil”, se tivermos em conta que a Síria está em guerra há mais de oito anos? Não bastando, pergunta-se, naturalmente, onde estão os curdos? Não estão!!! Isto é, estão, mas não aqueles que, de facto, representam a Administração semi autónoma do Rojava (Curdistão Ocidental, na Síria). Estão os que fazem parte do Conselho Nacional Curdo, que tem fortes ligações ao Partido Democrático do Curdistão (Iraquiano), não tem presença e representação expressiva no terreno e está a léguas de distância da ideologia que marca a Administração do Rojava. É assim que começam mal as coisas de que mais tarde veremos as consequências.

Tenha sido por pressão da Turquia, da Rússia, ou até de Bashar al Assad, as Nações Unidas acabam por deixar de fora uma parcela substancial dos interessados. Aliás, os curdos que agora ficaram de fora, também estiveram ausentes nas negociações de Astana (organizadas pela Rússia, Irão e Turquia) e também não estiveram nas chamadas negociações de paz de Genebra. Os curdos da Administração semi autónoma do Rojava, estiveram, isso sim, na frente de batalha contra o Estado Islâmico. Em troca, receberam palavras bonitas e palmadinhas nas costas. Agora, estão a ser descartados. Mais uma vez.

Ainda assim, chegar a esta Comissão que tem por missão criar uma nova Constituição para a Síria, não foi fácil. A resolução (2254) do Conselho de Segurança que refere a revisão da Constituição síria, é de Dezembro de 2015. Já lá vão quatro anos. E prevê-se dois anos de trabalho para que seja possível chegar a um texto final que reúna 75% dos votos desta Comissão. Só assim será aprovado.

As esperanças do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, vão no sentido de que seja uma primeira etapa para o regresso a casa dos sírios refugiados, “de uma forma segura e digna”. O Enviado-especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen, foi também cauteloso ao dizer, no arranque dos trabalhos, a 30 de Outubro, que uma nova Constituição não irá resolver os problemas nem acabar com a guerra, mas poderá ajudar a esbater diferenças, construir confiança entre os protagonistas e iniciar um processo político que dê um futuro à Síria. Pedersen sublinhou que é a primeira vez que toda esta gente aceita sentar-se à mesa para falar de um problema comum, mas disse também que se não se entenderem ninguém o irá fazer por eles. Resta saber se não irá ser uma conversa de surdos.

Dos protagonistas sírios, como é natural em negociações deste género, em que cada um procura iniciar o diálogo em posição de força, as primeiras palavras foram de pressão e exigência, e não se sabe se as negociações irão aligeirar estas posições. O chefe da delegação da oposição disse que “para construir a confiança, o mais importante é que haja um cessar-fogo permanente, que os presos sejam libertados e os desaparecidos encontrados”; o representante da delegação governamental foi muito claro ao dizer que o Governo de Bashar al Assad acolherá de braços abertos os que tenham opiniões próximas, mas não aqueles que se afastem dos interesses nacionais”.

Com os campos assim marcados, é preciso admitir que estas negociações podem nunca chegar a “bom porto”. A oposição, que não se sabe muito bem o que é e cujo poder militar no terreno é nulo, não tem capacidade de forçar seja o que for à mesa das negociações; o Governo sírio, com a recuperação de território, a derrota do Estado Islâmico, e os curdos da Administração semi autónoma do Rojava a pedirem-lhe apoio para combater a invasão turca, tem a “faca e o queijo na mão”. Bashar al Assad pode impor ou recusar o que muito bem entender e até pode, quando quiser, bater com a porta e deixar os interlocutores a falar sozinhos. Aliás, talvez esteja nestas negociações, apenas por pressão da Rússia, que pretende ver a Síria, de novo, a ser aceite pelos parceiros internacionais e, eventualmente, a livrar-se das sanções internacionais que estão em vigor.

No que ao futuro da Síria e aos curdos diz respeito, é preciso ter ainda em conta que a Constituição síria foi alterada em 2012, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Walid al Moualem, já disse que o Governo apenas poderá aceitar pequenas alterações a esse texto. Alguns analistas referem que o novo texto nada mudou de concreto em relação aos poderes presidenciais (passou a ser eleito por sufrágio universal) e Assad foi mesmo reeleito em 2014, em eleições que, obviamente, nada significam. Tal como nada significaram as eleições legislativas de 2012, com alguns candidatos que, em nome do pluralismo político, não eram do Partido Bahas (o de Bashar al Assad), mas a esmagadora maioria dos eleitos foi a do costume.

A Constituição de 2012 tem ainda um aspecto que merece toda a atenção e poderá ser um dos motivos de maior discussão na Comissão que tenta redigir um novo texto: proíbe toda a actividade política de carácter religioso ou étnico. Logo no Capítulo I (Princípios Políticos), o n.4 do Art.º 8, fica tudo esclarecido, não sendo permitido: “Desenvolver qualquer atividade política ou formar partidos ou agrupamentos políticos com base em discriminação religiosa, sectária, tribal, regional, de classe, profissional ou organizacional com base em género, origem, raça ou cor”. Esta redacção pode até parecer aceitável à luz dos valores mais generosos, mas tem uma função específica na realidade síria: impedir a actividade da Irmandade Muçulmana (inimigo de longa data do clã Assad) e dos curdos.

Pinhal Novo, 10 de Novembro de 2019
josé manuel rosendo


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

É preciso ter arte. E Alma. Ou ser falsificador...


Uma notícia na Revista Sábado, a propósito de um falsificador de arte, provocou-me um turbilhão de ideias. Bem vistas as coisas, nada de anormal, atendendo a esse princípio elementar de que (quase) tudo pode ser fonte inspiração. Mas, uma coisa é sentirmos que encontrámos um motivo de inspiração que nos impele à criação, outra coisa é reproduzirmos esse motivo, copiando-o de forma mais ou menos disfarçada, e dele nos apropriarmos com chancela falsificadora.

Afinal, o que distingue o criador original do falsificador, pode ser tão só - e é tudo - o olhar, o cheiro, o sentir, a imaginação, e a ideia geral que a fusão desses elementos provoca, traduzida depois na mensagem transformada em obra artística; enquanto que ao falsificador - necessáriamente um bom técnico na arte em causa - restará reproduzir, em cópia absoluta ou com nuances, de cores ou até de estilo e de forma - se a mesma arte o permitir. 
Do criador temos a obra/mensagem que deu trabalho a pensar e a construir; do falsificador, temos uma encenação, mesmo que tecnicamente perfeita.
E se o verdadeiro criador pode enfrentar a frustração de ver a obra roubada e o mérito atribuído a outro, o falsificador nunca se livrará do sentimento de não conseguir ter a visão, o olhar, o cheiro, o sentir e a imaginação do criador, para dar origem à obra. E porque não teve, principalmente, a capacidade de detectar os motivos que conduzem à obra, essa será a sua frustração suprema: a de não ter competência para criar de forma original, limitando-se a copiar a obra de outros.

O original será sempre isso mesmo e a falsificação nunca passará de um embuste, mesmo que ornada de bonitas palavras em forma de filigrana.

Pior até do que as chamadas fake news, as falsificações, o plágio, as imitações, tudo isso está a inundar este nosso mundo de informação pouco ou nada verificada e em torrentes com que temos dificuldade em lidar. Não é de hoje nem é recente, mas as consequências da aldrabice são agora muito maiores porque atingem mais rapidamente um maior número de pessoas e porque isso leva à reprodução da aldrabice, como se de originais se tratassem, com créditos atribuídos aos falsificadores/plagiadores/imitadores. Os falsificadores sentem que a impunidade prevalece. Alguns, não falsificando nada em concreto, são eles próprios uma falsificação do que pretendem mostrar que são. 

Muitas vezes, quem lê/ouve/vê, e compra, não consegue detectar a manigância. 

Do que é que eu estou a falar? Pois, nem eu sei. Não é de pintura, porque dessa arte manifesto ignorância quase absoluta. Mas sei que é um turbilhão de ideias a propósito da criação e do trabalho que dá juntar palavras que façam sentido. 

Regressando ao falsificador que foi notícia na Sábado, Ken Perenyi de seu nome, falsificou quadros de pintores flamengos e norte-americanos e essas falsificações passaram o crivo da famosa casa de leilões Sothby's, sendo vendidos pelas fortunas habituais nestes leilões. Até um dia. Kene Perenyi foi apanhado quando ofereceu uma das suas falsificações à namorada. A mulher, por necessidade ou por ser pouco dada às coisas da pintura, levou a falsificação para vender num local onde Ken Perenyi já tinha vendido uma igual. Foi o fim da linha para o falsificador. Com o FBI em campo, o falsificador não foi preso nem sequer acusado, mas foi forçado a mudar o rumo do negócio. Deixou de vender falsificações e passou a vender cópias autenticadas. Sempre é melhor. E diz que não tem falta de clientes.


Pinhal Novo, 7 de Novembro de 2019

josé manuel rosendo

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O novo líder do Estado Islâmico

Cidade de Serin, Curdistão sírio, a sul de Kobani. Foto: jmr/30 de Outubro de 2015
Abu Ibrahim al Hachemi al Qurashi (ou Quraysh) terá sido escolhido pela Shura (assembleia) como sucessor de Abu Bakr al Baghdadi. A agência AMAQ anunciou a decisão ao mesmo tempo que confirmou a morte do antigo líder e também do antigo porta-voz, Abu al Hassan al Mouhajir.

Quem deu a notícia foi precisamente o novo porta-voz da organização Abu Hamza al-Qurashi, através de uma mensagem audio com sete minutos.

O novo Califa é assim Abu Ibrahim al Hachemi al Qurashi e o novo porta-voz passa a ser Abu Hamza al-Qurashi. O último nome de cada um dos dois novos protagonistas, significa que ambos são directamente descendentes da tribo do Profeta Maomé. O Profeta pertencia ao clã dos Hachemitas que por sua vez pertencia à tribo dos Coraixitas (Qurashi, ainda dominante em Meca). Reclamar esta descendência tem um significado óbvio. Aliás, foi também da mesma tribo que saíram os primeiros califas que sucederam ao Profeta Maomé. Para além dessa referência à tribo do Profeta, o nome do novo líder tem também a marca (al Hachemi - O Hachemita) do clã a que pertencia Maomé.

A informação sobre a nova liderança do Estado Islâmico é ainda escassa. Por exemplo, não se conhece nenhuma fotografia do novo líder. Quanto aos nomes revelados, eles podem ser apenas os "nomes de guerra", tal como acontecia com Abu Bakr Al Baghdadi, que na realidade tinha o nome de Ibrahim Awwad Ibrahim al-Badri (algumas fontes acrescentam Al Samarri, sinalizando o local de nascimento - Samarra).

A mensagem da nova liderança retoma um último apelo do antigo líder para que os combatentes libertem os militantes presos e recrutem mais combatentes para a causa do Califado. A mensagem incluiu ainda uma ameaça aos Estados Unidos, por celebrarem a morte do Califa, e promete continuar a luta do Estados Islâmico dentro e fora do Médio Oriente.

Não se sabendo ainda exactamente quem é o novo líder, fica também por saber que estratégia vai ser a do Estado Islâmico. Abu Bakr al Baghdadi não era um combatente, mas sim um líder religioso (extremista), sendo que muitos analistas se lhe referiram como "o pequeno Imam que chegou a Califa". Tinha com ele esse feito, marcante para os seguidores, de ter proclamado o Califado.

Devido à perda de influência e território, Abu Bakr al Baghdadi era, ultimamente, um líder acossado e em fuga. A nova liderança, como qualquer outra, vai querer deixar uma marca e afirmar-se. Apenas será possível ter uma ideia de como isso poderá ser feito quando se souber quem é, de facto, o novo líder. 
O nome apontado, Abu Ibrahim al Hachemi al Qurashi, não estava no lote dos que se perfilavam como potenciais sucessores do Califa. Nesse lote constavam vários antigos oficias de Saddam Husseín, não se sabendo ainda se foi algum deles a adoptar o nome que foi agora apresentado como novo Califa.

*** Algum do conteúdo deste texto poderá, obviamente, ficar rapidamente desactualizado. 

Pinhal Novo, 31 de Outubro de 2019
josé manuel rosendo

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Donald Trump, o cão, e Abu Bakr al Baghdadi


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Abu Bakr al Baghdadi, aquando de uma alegada entrevista à Agência de Media do Estado Islâmico, Al Furqan.


O Presidente dos Estados Unidos há muito que nos habituou a uma desbragada incontinência verbal, mas ao contrário da tese de que não pode ser levado a sério, será de bom conselho estar muito atento a tudo o que diz. Não apenas porque é o Presidente da (ainda) maior potência mundial mas porque, podendo parecer apenas paleio de fanfarrão, tudo tem um sentido e um objectivo. A única coisa que permanece um mistério é se as frases que se transformam em notícia são da autoria do próprio ou têm origem no círculo que o apoia e lhe escreve os discursos e/ou as sequências de mensagens no twitter. De uma forma ou de outra, a mensagem representa o pensamento da actual administração norte-americana.

Donald Trump anunciou a morte de Abu Bakr al Baghdadi dizendo que o líder do Estado Islâmico se fez explodir num túnel durante uma operação de forças de elite norte-americanas no noroeste da Síria: “o bandido que tanto queria intimidar os outros passou os seus últimos momentos em pânico total, cheio de medo, aterrorizado pelas forças norte-americanas que o perseguiam”. Trump descreveu o momento ainda mais com mais pormenores: “morreu depois de correr num túnel sem saída, gemendo, chorando e gritando”, acrescentando que o líder do Estado Islâmico fez explodir um colete de bombas, suicidando-se e matando os três filhos que estavam com ele. Dito isto, Donald Trump rematou: “Morreu como um cão”. Não satisfeito, reforçou: “ele não morreu como um herói, morreu como um cão”.

É a esta frase (morreu como um cão) que é preciso dedicar especial atenção. Se os pormenores da operação dão que pensar, quanto mais não seja porque a fonte – Trump – não é de confiança, a comparação de Abu Bakr al Baghdadi a um cão, é um insulto que pode escapar aos não muçulmanos mas é profundamente significativa para a maioria dos seguidores do Islão. E, não querendo ficar por aqui, menos de 24 horas depois, eis que Donald Trump volta à carga, revelando que o líder do Estado Islâmico tinha sido encontrado por um...cão.  Através do twitter, o Presidente dos Estados Unidos revelou a foto (desclassificada) do “herói” mas disse que o nome do cão é mantido em segredo.

Foi encontrado por um cão e morreu como um cão, assim Donald Trump quis deixar vincada a morte do líder do Estado Islâmico. Com estas duas frases, Donald Trump tenta humilhar o inimigo, depois de morto, e ao mesmo tempo todos os Muçulmanos. E como não fossem suficientes todas as referências que já tinha feito a Abu Bakr al Baghdadi, Donald Trump ainda fechou uma conferência de imprensa na Casa Branca dizendo que “era um animal, um animal sem coragem”. Para além de constituírem uma fanfarronice, todas estas frases são uma imprudência perigosa. Não se humilham os inimigos e Donald Trump devia saber. Ou alguém lhe devia dizer.

Acossado internamente com um processo de destituição quase certo e desacreditado externamente em diferentes negociações de que não se vislumbra fim nem consequências, Donald Trump aposta na fuga para a frente, não medindo, ou estando-se nas tintas, para o mal que pode provocar ao mundo quando procura ofender a comunidade muçulmana desta forma. Verdade seja dita que um facínora como o líder do Estado Islâmico não fica a fazer qualquer falta, mas a ofensa e a humilhação ao inimigo eram dispensáveis, um verdadeiro estadista nunca as faria, e nada podem trazer de bom.

Sem surpresa, a elegância no trato e a ponderação nas palavras é algo que, definitivamente, não podemos esperar de Donald Trump. Mas também é algo obrigatório na atitude de um Presidente, dos Estados Unidos ou de qualquer outro país.


Pinhal Novo, 29 de Outubro de 2019
josé manuel rosendo