terça-feira, 17 de março de 2020

Uma lição para a vida

Rass Je Dir, ponto de entrada na Líbia, na fronteira com a Tunísia, 24 de Agosto de 2011. Foto: jmr 

Esperemos que tudo acabe em bem. Esperemos que nos saibamos comportar como uma sociedade adulta, de gente que gosta de contar anedotas brejeiras e algumas até de contornos racistas (não, não estou a ser condescendente...) mas que lá no fundo tenha uma noção de civismo e solidariedade (noção de causa comum) que ajude a ultrapassar a crise.


Quem diria que Portugal, a Europa e o chamado mundo desenvolvido, viriam a estar perante uma ameaça tal, que são os “países em desenvolvimento”, para se protegerem, que bloqueiam a entrada de europeus???? Leio o artigo de Maria João Guimarães no Público e registo as voltas que o Mundo dá. https://www.publico.pt/2020/03/16/mundo/noticia/coronavirus-poe-mundo-contrario-paises-pobres-erguem-barreiras-paises-ricos-1907895 O título refere um Mundo ao contrário? Será? Os europeus a sentirem o que os refugiados têm sentido ao longo dos últimos anos? E será que os europeus – se nos quisermos escapar para África, por exemplo - vão ser considerados refugiados ou migrantes (sempre achei ridícula a distinção estabelecida pelo Direito Internacional)? Isto é: se a tal ponto chegássemos, não estaríamos a fugir de uma guerra. Mas estaríamos a fugir da morte, tal como fogem aqueles que nasceram em países onde a miséria, mesmo sem guerra, lhes ameaça a sobrevivência. Haverá grande diferença entre fugir de um vírus assassino ou de um país onde não há água, nem alimentos, nem escola, nem hospitais, nem futuro...?


Nas últimas horas ouvi dois políticos (Emmanuel Macron e Marta Temido) compararem a pandemia do novo coronavírus a uma situação de guerra. Não, não sabem do que estão a falar. Não insultem os que são vítimas da guerra. Comparar a situação que estamos a viver, gravíssima, sem dúvida, a uma situação de guerra, é, no mínimo, uma leviandade e, se traduzida em títulos de notícias, uma estupidez ainda maior. A foto que ilustra este texto é apenas um dos muitos retratos em que se traduz uma guerra: entra num país (Líbia) e ter apenas uma estrada vazia pela frente. Não há pessoas, não há carros, não há vida. E é preciso seguir em frente. Por estes dias, José Gil também nos falou sobre o medo.


Estar a viver uma guerra é passar semanas e meses escondido em caves de edifícios e não saber onde vai cair a bomba que se ouve a assobiar; é ouvir o ronco dos bombardeiros a uma altitude tal que mal se conseguem ver, a não ser quando reflectem a luz do sol; é ouvir o trabalhar das pás dos helicópteros e não saber onde vai cair o bidon cheio de explosivos que é lançado de forma aleatória; é ouvir, ao longe, os tiros da artilharia; é ter medo de sair de casa para ir comprar pão porque há atiradores furtivos; é ter medo de ficar doente porque não há médicos, nem hospitais, nem medicamentos; é ter filhos a pedir pão e não saber onde o ir buscar; é ver morrer familiares e amigos, mulheres e crianças, novos e velhos. É isso que é a guerra, sofrida por quem nada fez para que ela, a guerra, lhe mudasse a vida.

É certo que poderemos fazer as mais variadas analogias para sustentar a ideia de que estamos em guerra, mas antes de o fazer talvez devêssemos trocar umas ideias sobre o assunto. Por exemplo, saber que efeito teria o dinheiro aplicado em salvar bancos se tivesse sido investido no Serviço Nacional de Saúde; saber se já todos perceberam que a Saúde não é uma mercadoria à mercê dos apetites do Mercado; saber se aqueles que ajudaram a espatifar o Serviço Nacional de Saúde – e a Escola Pública, e os transportes públicos, e as Forças de Segurança, e as Forças Armadas – não deviam ter o pudor de estar calados antes que alguém lembre a lista de asneiras que têm no currículo. Esses, muitos deles, afinam agora a prosa e exigem, exigem, criticam, criticam, dizendo que está tudo mal, esquecendo-se da forma como, por vontade própria, assinaram a destruição de um Estado e quase venderam um país. Há quem tenha memória.


Estamos, de facto, numa situação muito complicada, mas fomos nós que criámos – ou assistimos pacificamente – ao desmantelamento das estruturas que agora teriam uma resposta mais eficaz para os problemas que enfrentamos.


Medo, todos sentimos. Mas o medo controla-se, o que não significa que seja a salvação. Essa, a salvação, se a queremos ter por perto, teremos de fazer alguma coisa por isso. Se tudo correr bem, estamos a tempo de aprender a lição.


Pinhal Novo, 17 de Março de 2020
josé manuel rosendo

segunda-feira, 2 de março de 2020

A carta dos Refugiados

Refugiado em Mitilin, Ilha de Lesbos, Grécia, 13 de Abril de 2016. Foto: jmr 

Não, não se trata da carta dos Direitos dos Refugiados, mas sim da carta da utilização dos mais desprotegidos como arma política. É a isto que a palavra vergonha se aplica. Sem aspas e com sublinhado.


A guerra na Síria levou o Presidente turco, Erdogan, a fazer o que o antigo Presidente líbio, Kadhafi, já fizera, e o que Presidente, Sissi, já ameaçou: “invadir” a Europa deixando passar refugiados (ameaças de Erdogan e Kadhafi) ou com os próprios nacionais (caso de Sissi), se o Egipto fosse arrastado para uma situação de instabilidade. Ironicamente, a União Europeia relaciona-se muito bem com pessoas que fazem este tipo de ameaças, mas relaciona-se mal com aqueles que acabam por ser as verdadeiras vítimas. E são vítimas, pelo menos, três vezes: vítimas da situação no país de onde fugiram, no país que tentaram atravessar e onde ficaram no limbo, e ainda de uma Europa que verdadeiramente não sabe o que há-de fazer com eles. Não referindo os traficantes, que exploram a má sorte alheia.

A crise vivida em 2015 e 2016, que provocou um ataque de nervos à Europa, foi abafada através de um acordo com a Turquia. Sabia-se que o assunto não estava resolvido e que não foi atingida nenhuma das metas estabelecidas – para além da vergonha que foi o acordo. Sabia-se tudo isso. E o que fez a União Europeia? Quase nada. Seguiu a máxima de “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. E pronto, o pau regressou às costas.

Nos últimos dias, várias fontes referem cerca de 13 mil pessoas a tentarem passar a fronteira terrestre entre a Turquia e a Grécia; outras, muito menos, conseguiram atravessar o Mar Egeu e chegaram a território grego. Estima-se que 3,6 milhões de refugiados estejam na Turquia. E se todos, ou quase todos, com uma “ajuda” de Erdogan, decidirem meter-se ao caminho?

Voltaram a soar as campainhas de alarme na Europa. Forças de segurança foram enviadas para as fronteiras, a Áustria já admitiu fechar a fronteira como fez em 2015/16.

Em Abril de 2016 ouvi a mensagem do Papa Francisco, em Lesbos: “Não percam a esperança”. Francisco visitou o Campo de Moria, já por esses dias uma prisão, e não um campo de acolhimento. Agora, dizem os relatos, está muito pior. Ainda é possível manter a esperança?
Na ilha grega de Lesbos, estalou a revolta. Em Outubro do ano passado, o Conselho da Europa avisara: a situação é explosiva.

Também por esses dias, em Abril de 2016, tive oportunidade de ver/acompanhar o Primeiro-Ministro a visitar um campo de refugiados (Eleonas) na Grécia e de lhe perguntar se sabia que havia campos muito piores do que aquele que estava (onde o levaram?) a visitar. António Costa respondeu, algo enxofrado, que, tal como eu, também via televisão, e por isso conhecia a realidade. Não, não respondi que eu não vi campos piores apenas através da televisão. Senti-lhes o cheiro e sujei as botas. Falei com as pessoas. Com as que eu escolhi e não com as que me puseram à frente. No porto do Pireu havia refugiados instalados em armazéns. Era proibido tirar fotografias ou outro tipo de imagens. A Grécia tinha vergonha. Apesar de não ser utilizador do Instagram, vi que a Revista Sábado deu conta de fotos publicadas por António Costa ilustrando a visita ao Campo de Eleonas. Não, nada daquilo que António Costa mostrou, representa verdadeiramente o inferno vivido pela maioria dos refugiados. É certo que António Costa, por aqueles dias, deu entrevistas onde apontou o caminho a seguir: é preciso “mais Europa” para enfrentar um problema que é de todos. Mas nem todos querem, de facto, encontrar soluções.

Agora, mais uma vez, a União Europeia olha para Oriente, e para Sul. O problema desta Europa é ser uma União em que a diversidade, que deveria ser uma riqueza, torna quase impossível as decisões por consenso. Ou por maioria alargada. O multilateralismo perde terreno e os países com democracias mais desenvolvidas têm receio de dar um murro na mesa. Nada melhor do que uma vaga de refugiados para obrigar a União Europeia a olhar-se ao espelho. Cerca de quatro anos depois não tiveram tempo para decidir nada? Não venham depois lamentar-se do crescimento das forças políticas populistas, quais cogumelos a crescer em bosques húmidos. Quem tem andado a dar-lhes argumentos?

Pinhal Novo, 2 de Março de 2020
josé manuel rosendo

domingo, 1 de março de 2020

Afeganistão: Acordo para retirada norte-americana está assinado, muito em breve saberemos o que valem as assinaturas

-->
Zalmay Khalilzad (enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão) e Mullah Abdul Ghani Baradar (líder político Taliban) assinam o Acordo para a retirada norte-americana do Afeganistão. Foto Baher Amin/The Peninsula


Dezoito anos depois de entrarem no Afeganistão, os Estados Unidos entreabriram a porta de saída. As incertezas relativamente ao sucesso do Acordo assinado são tantas que a própria simbologia associada não as esconde: na mesa do Hotel Sheraton em Doha, no Qatar, onde se sentaram Zalmay Khalilzad (enviado dos Estados Unidos para o Afeganistão) e o Mullah Abdul Ghani Baradar (líder político Taliban), não tinha as habituais bandeiras nem as placas com os nomes dos protagonistas; no documento distribuído não há qualquer símbolo ou marca, sendo o texto impresso em páginas completamente despidas.

Outra marca, já não simbólica, mas muito significativa, é a forma repetida como os Taliban são referidos: “the Islamic Emirate of Afghanistan which is not recognized by the United States as a state and is known as the Taliban”. Em tradução livre será “o Emirado Islâmico do Afeganistão, que não é reconhecido pelos Estados Unidos Unidos como um Estado e é conhecido por Taliban”. A fórmula é repetida dezasseis (16!!!) vezes ao longo das três páginas e meia do Acordo

Este Acordo acaba por validar a velha fórmula de que a Paz é feita com o inimigo, tendo a particularidade de ser entre inimigos que já foram amigos, quando a presença soviética no Afeganistão era o alvo a combater. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão com o pretexto de dar caça a Bin Laden e à Al Qaeda, mas também convém lembrar que os Taliban aceitavam entregar Bin Laden, desde que fosse julgado no Afeganistão, o que os Estados Unidos não aceitaram. Apesar de Bin Laden ter sido morto pelos Estados Unidos há quase nove anos, os militares norte-americanos (e outros) não saíram do Afeganistão.

O que prevê o Acordo?

Grosso-modo, o Acordo impõe que o Afeganistão não possa ser utilizado por grupos que representem uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos e aponta para uma data de retirada do Afeganistão de todas as forças militares estrangeiras: daqui a 14 meses.
Esta primeira questão coloca uma enorme dúvida: mesmo com a presença norte-americana no terreno, a actividade do Estado Islâmico tem sido em crescendo e a Al Qaeda não desapareceu no Afeganistão, será que os Taliban terão força e engenho para conseguir sozinhos o que os Estados Unidos não conseguiram?
Para já, no prazo de quatro meses e meio (135 dias a contar da data do Acordo), os Estados Unidos reduzem a presença militar para 8.600 militares (estima-se que sejam actualmente 12.000 a 13.000) acontecendo o mesmo, em termos proporcionais, com as forças dos países aliados; os Estados Unidos e os aliados retirarão totalmente de cinco bases militares.

Outro ponto do Acordo, o mais complicado, é a paz e o entendimento entre afegãos. O Acordo refere que o diálogo entre todos os afegãos, entenda-se Taliban, Governo e outras forças da sociedade afegã, deve começar a 10 de Março. Nesse dia, devem ser libertados 5 mil prisioneiros taliban e mil afectos ao governo de Cabul. Será um sinal de confiança entre as partes, exigido pelo Acordo, que prevê ainda a libertação de todos os prisioneiros nos três meses seguintes. Sobre a libertação de prisioneiros, o Presidente afegão, Ashraf Ghani, já disse que não, avisando que os Estados Unidos não decidem pelo governo de Cabul. Está criado um primeiro problema.

Na agenda das negociações entre afegãos deve constar um cessar-fogo permanente e os Estados Unidos comprometem-se a rever as sanções que aplicaram a membros dos Taliban, acrescentando que também o Conselho de Segurança da ONU fará o mesmo.

O Acordo assinado em Doha aplica-se apenas às áreas do território controladas pelos Taliban até à formação de um novo Governo afegão que resulte das negociações que vão começar já a 10 de Março. Desde logo convém não esquecer que o Governo afegão esteve arredado das negociações, embora tenha enviado uma delegação ao Qatar para assistir à Assinatura do Acordo e iniciar contactos com os Taliban. Os Taliban sempre recusaram sentar-se à mesa com o Governo e diziam que representava um “regime de marionetes”.

Este Acordo terá sido a parte mais fácil e será prematuro pensar que a paz no Afeganistão vai chegar rapidamente. A realidade é muito complexa e o país está destruído. Destruição em todos os sentidos, sendo que o mais complicado é um tecido social esfrangalhado e ódios acumulados por décadas de guerra. O que este Acordo significa, sem dúvida, é que as duas partes perceberam que nenhuma delas ia ganhar a guerra que têm feito uma à outra, mas também é verdade que estabeleceram um Acordo que depende de terceiros que não foram envolvidos nas negociações. Ou seja, a Paz no Afeganistão não ficou mais perto, e o eventual regresso das tropas norte-americanas a casa, apenas significa que os Estados Unidos lavam as mãos de uma guerra que iniciaram e deixam o campo afegão numa outra guerra quiçá ainda mais fratricida.

Pinhal Novo, 1 de Março de 2020
josé manuel rosendo

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Não podemos esquecer a Síria

Deslocados sírios com os haveres que conseguem transportar, em Hazano, próximo de Idlib. Fotografia publicada na Al Jazeera a 12 de Fevereiro, da autoria de Khalil Ashawi/Reuters

Sim, apenas falar e escrever não chega, mas é o que podemos fazer. Não deixar esquecer o que está a acontecer na Síria. Nunca é demais falarmos do que por lá se está a passar, que é tanto, e do pouco que vamos conseguindo saber. É tempo demais em guerra e sofrimento. Por estes dias faz frio na Síria. Faz ainda mais frio para quem tem de fugir com os filhos pela mão e os haveres como puder ser. Aliás, falamos tão pouco de uma tragédia há muito anunciada que até parece que é assim uma coisa que não nos toca e algo impossível de evitar. Podemos não ter o poder de mudar o que está a acontecer na Síria, mas temos pelo menos o dever e o poder de não deixar que a tragédia dê passos largos sem lhe tentarmos pregar uma valente rasteira.

Já são poucas as palavras/adjectivos ainda por usar para descrever a tragédia. As imagens que nos vão chegando, que mostram pessoas em fuga sem saberem para onde, são as imagens que traduzem a nossa falha colectiva. Nem as Nações Unidas lhes conseguem valer. Todos deixam alertas e fazem declarações fortes. António Guterres (secretário-geral da ONU), o enviado especial para a Síria, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros... até o Papa... todos dizem que a guerra tem de parar. Mas não para.

A chamada “real politik” prevalece sempre. Faz tábua rasa dos Direitos Humanos e da Lei Internacional. E ninguém é punido.

O “imperador turco” envia tropas para a Síria e acha que tem esse direito. Diz que é para criar uma zona de segurança que afaste da fronteira turca os “terroristas” curdos e ameaça uma forte ofensiva se os “donos da casa” atacarem os militares turcos; o “czar russo” tem o porto de águas quentes e uma base aérea em território sírio, volta a marcar presença no Médio Oriente e apoia o aliado de Damasco, faça ele o que fizer; e o Presidente sírio, sem querer saber de estar a matar o próprio povo, faz avançar os blindados e a artilharia, porque acha que a Síria tem de ser dele, custe o que custar. Como se nada disso bastasse, Israel bombardeia alvos na Síria, parecendo que está numa carreira de tiro, treinado quando lhe apetece. Ninguém diz nada. Todos dizem lutar contra o terrorismo. Obviamente, não podem estar todos a dizer a verdade, ou será que são todos terroristas? É assim que estamos.

Pelo meio morrem pessoas, muitas pessoas. Desde o início de Dezembro do ano passado, cerca de 900.000 pessoas fugiram dos locais onde viviam. A maior parte dirige-se à fronteira com a Turquia. A fronteira está fechada e a ONU já pediu que seja aberta, mas não foi. Uma ONG síria denunciou que os guarda de fronteira turcos já mataram e feriram pessoas que tentaram passar o muro de betão.

Até agora as referências neste texto são todas relativas a Idlib (Noroeste da Síria), mas na região nordeste (em direcção ao Iraque), zona curda, as Nações Unidas estimam que 1,9 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária. Toda esta zona está em profunda instabilidade: há forças do regime sírio, turcos e russos fazem patrulhas conjuntas, os curdos dominam algumas áreas. Um ponto fronteiriço de passagem para o Iraque foi encerrado e António Guterres recomenda agora que seja aberto um ponto de passagem na fronteira com a Turquia de modo a fazer chegar ajuda humanitária à população deslocada, mas até agora não há uma decisão nesse sentido. É também nesta região que estão os campos que albergam combatentes do Estado Islâmico e famílias.

A diferença entre tomar decisões a tempo ou esperar o momento que cada uma das partes envolvidas considera o melhor é que, entretanto, morrem pessoas. Para a “real politik” isso pouco ou nada conta.

O Presidente turco, Erdogan, chegou a anunciar uma Cimeira para 5 de Março. Rússia, Turquia, Alemanha e França, iriam discutir a situação em Idlib. O chede da diplomacia russa, Lavrov, disse depois que um cessar-fogo em Idlib seria uma capitualação face aos "terroristas". Mesmo que venha a haver cimeira, faltam quase duas semanas e até lá as pessoas vão continuar a morrer. Já todos percebemos que nada vai mudar até que Idlib seja tomada pelas forças do regime sírio, nem que para isso tenha de ser arrasada.

Pinhal Novo, 25 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Irão a votos

Iranianos já começaram a votar. Foto da Press TV (Irão) 

Ao ver algumas fotografias da campanha eleitoral no Irão, assaltam-me a memória outras imagens de uma outra campanha eleitoral que segui de perto, na Palestina. Corria o ano de 2006 e Yasser Arafat morrera em 2004. A marca que a memória registou foi precisamente a de uma campanha eleitoral em que a maioria dos cartazes, não era dos candidatos, mas sim de palestinianos já falecidos ou presos nas cadeias israelitas. Arafat era um desses casos, outro era o do Sheik Yassin, líder e fundador do Hamas, assassinado por Israel, e Marwan Barghouti, da Fatah, líder da segunda Intifada, preso desde 2002 e considerado ainda por muitos como o homem que pode vir a ser o futuro líder palestiniano. Foram estes homens que as forças políticas, principalmente Fatah e Hamas, escolheram para colocar nos cartazes de apelo ao voto e que faziam quase o pleno da propaganda eleitoral.


No Irão, por estes dias, os cartazes com a imagem do general Qassem Souleimani (assassinado pelos Estados Unidos), não fazem o pleno, mas estão presentes, para lembrar o mártir, mas principalmente como tentativa de criar um factor de união que leve os iranianos às urnas de modo a que o regime obtenha uma maior legitimidade.

Economia e Nuclear

Nestas eleições de 21 de Fevereiro há uma expectativa principal: saber se o moderado, Presidente Hassan Rouhani, obtém apoio para resistir à pressão, ou se os conservadores ganham terreno nos 290 lugares do Parlamento. Uma outra expectativa é a de saber qual vai ser a participação. Os apelos ao boicote têm surgido mas o Aiatola Ali Khamenei veio dizer que votar é um dever religioso. Em 2012 votaram 66% dos eleitores, em 2016 a participação caiu para 62%.

O Irão enfrenta uma forte crise económica que cresceu com a reposição e agravamento das sanções impostas pelos Estados Unidos da América, após Washington ter abandonado o Acordo Nuclear. O Presidente Rouhani, tido como grande influenciador do Acordo, e simultaneamente muito criticado internamente pelos termos do próprio Acordo, é agora também acusado de ser o responsável pela situação económica do país. A crise económica deu origem a grandes manifestações e a uma repressão que as autoridades iranianas negam, mas que os opositores do regime dizem ter provocado centenas de vítimas. Um terço dos eleitores tem entre 18 e 34 anos, uma faixa etária em que o desemprego toca os 18%, mas em que as mulheres são muito mais atingidas. O Fundo Monetário Internacional projecta um recuo da economia iraniana de 9,5% em 2019, com crescimento estável em 2020. A inflacção em 2019 ultrapassou os 30%.

Ao cenário económico e à contestação, junta-se o recente assassinato de Qassem Souleimani e o apelo para cerrar fileiras feito pelo regime. Saber qual destes factores vai pesar mais na decisão dos iranianos é a incógnita. Muitos poderão não ir às urnas porque também consideram que a abertura política e a prosperidade prometidas por Rouhani, afinal não se concretizaram. Em regra, a abstenção favorece a linha dura.

Moderados ou Conservadores?

58 milhões de eleitores vão ser chamados às urnas e uma das indicações que também vão dar está relacionada com as presidenciais do próximo ano. Rouhani não pode recandidatar-se, mas falta saber se os iranianos pretendem alguém da mesma linha considerada moderada e reformadora ou se preferem alguém da linha dura, sendo que muitos analistas dizem que as coisas não assim a preto-e-branco, existindo muitas nuances.

A Al Jazeera aponta como principais figuras o reformista Majid Ansari, o conservador Mohammad Bagher Ghalibaf e o ultra-conservador Morteza Agha Tehrani.

Para além de elegerem um Parlamento, os iranianos vão eleger também sete membros (dos 88) da Assembleia de Peritos, um órgão importantíssimo porque tem o poder de nomear o Líder Supremo do Irão.

Sendo que o Parlamento e a Assembleia de Peritos são os dois únicos órgãos do sistema político do Irão que eleitos por sufrágio universal, o problema está na desqualificação de muitos candidatos decidida pelo Conselho dos Guardiães, outro órgão do sistema político que é composto por seis religiosos nomeados pelo Líder Supremo e outros seis advogados eleitos pelo Parlamento. Os reformadores dizem que a desqualificação de muitos dos que queriam apresentar como candidatos inviabiliza a apresentação de candidaturas em vários círculos eleitorais.

Urnas abertas

À hora a que escrevo, as urnas já abriram. Face à desqualificação de muitos candidatos reformadores conhecidos da população, antecipa-se uma vitória dos conservadores. Não havendo sondagens no Irão, regresso às eleições palestinianas de 2006 para dizer que pode não ser avisado tentar antecipar resultados em eleições atípicas. Na Palestina, em 2006, mesmo havendo sondagens, elas revelaram-se absolutamente erradas. Essas sondagens davam uma vitória esmagadora à Fatah e até houve um jornal português que fez primeira página anunciando a vitória da Fatah antes de serem conhecidos os resultados. Mas não ganhou. Foi o Hamas que venceu as eleições, e com maioria absoluta.

Pinhal Novo, 21 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Onde estão os “irmãos” árabes dos Palestinianos?

-->
Mahmood Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana, na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas,
em 11 de Fevereiro de 2020. Foto a partir da transmissão da ONU.

Ao ouvir o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmood Abbas, e o embaixador de Israel Danny Danon, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a minha memória recuperou uma longa conversa com um velho palestiniano. Conversámos num hotel modesto de Jerusalém Oriental, onde ainda se podia fumar, beber café e conversar, sem bandos de turistas barulhentos em redor. Uma daquelas conversas em que temos a sensação de estar a “beber” História. Era um homem da Fatah, antigo professor universitário, laico e, talvez a referência principal que anotei, muito desiludido. Desiludido com tudo. Até com a própria Fatah e com a Autoridade Palestiniana, mas principalmente com os países árabes, alegadamente irmãos.

A voz era pesada. Pesada, porque era grossa e forte, e porque cada palavra tinha um sentido bem pensado e rigoroso. Disse-me ele a propósito da chamada Primavera Árabe – que considerava inevitável – que os líderes árabes, de tão corruptos e inseguros que alguns são, apenas se preocupavam com o seu próprio poder. Nada mais lhes preenchia a agenda, embora a retórica sobre a causa palestiniana incluísse palavras bonitas. A solidariedade ficava por aí, pelas palavras, e por despejar alguns milhões de dólares nos bolsos da Autoridade Palestiniana, que, dizia-me ele, estava, tal como os líderes árabes, preocupada apenas com o próprio poder.

Este homem contou-me também – para explicar a espontaneidade das revoltas árabes de 2011 – que a primeira Intifada (1987) começou da mesma maneira que as ruas do Cairo se “incendiaram”: sem direcção ou intervenção das forças políticas palestinianas. Os líderes foram surpreendidos pela revolta popular e limitaram-se a apanhar, e depois dirigir, essa revolta.

A reunião de terça-feira no Conselho de Segurança da ONU trouxe-me de volta a memória desta conversa, quando o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, “atirou à cara” de Mahmood Abbas a atitude de líderes árabes que assinaram Tratados de Paz com Israel. Foi o caso do antigo presidente egípcio, Anwar Sadat, e do Rei Hussein, da Jordânia. Com os exemplos dados, o diplomata israelita passou uma mensagem muito clara: os palestinianos estão sozinhos, não esperem ajuda dos vossos amigos árabes. E tem razão. É longa a história de desentendimentos entre os países árabes quando se trata de objectivos comuns. Cada um trata de si. O funcionamento e o impacto quase nulo das decisões da própria Liga Árabe, é um exemplo dessa forma de estar. O actual momento do conflito israelo-palestiniano seria o ideal para os países árabes falarem a uma só voz. Falar e fazer algo de concreto.

Tudo isto não anula a validade dos argumentos de Moahmood Abbas perante o Conselho de Segurança. Abbas rejeita o plano de Donald Trump e contrapõe a exigência de haver primeiro uma solução política, e depois pode haver ajuda económica, que até será bem-vinda. Ao contrário é que não!
Perguntou ainda Abbas quem pode oferecer Jerusalém como se fosse um presente (alusão ao reconhecimento feito pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital indivisível de Israel)? Volta a ter razão, mas esqueceu-se que até estava sentado à sua frente, no Conselho de Segurança, o representante do mesmo Reino Unido que ofereceu – Declaração Balfour -  um Lar Nacional para o Povo Judeu, num território que não pertencia ao Reino Unido. Ou seja: Trump “oferece” o que não lhe pertence, tal como o Reino Unido fez, já lá vai um século.

Mahmood Abbas está carregado de razão, no que ao Plano de Donald Trump diz respeito, mas esquece-se que tem sido com a actual Autoridade Palestiniana que as aspirações palestinianas têm vindo a ser sucessivamente eliminadas. Seja por culpa própria – desmobilização da sociedade palestiniana em torno das reivindicações nacionais – seja porque a nível internacional a causa palestiniana apenas tem apoio retórico, notando-se neste plano a falta de qualquer acção concertada por parte dos países árabes “irmãos”.

Em termos muito pragmáticos a realidade no terreno é fácil de definir: na Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, não há uma única bota israelita; na Cisjordânia, controlada pela Autoridade Palestiniana, a realidade do território é aquela que consta do mapa exibido por Mahmood Abbas no Conselho de Segurança da ONU. E não, que não se acuse esta leitura de ser pró-Hamas, ou pró-terrorismo ou pró-outra-coisa-qualquer que, dá para adivinhar, é o primeiro argumento a sair da cartola. Não é nada disso. É apenas olhar para a realidade no terreno e ler o que têm sido as mais recentes décadas com a causa palestiniana sempre a perder terreno. O Estado da Palestina, se nada mudar, poderá quanto muito resumir-se a umas bolsas de terreno dentro do Estado de Israel.

Pinhal Novo, 12 de Fevereiro de 2020
josé manuel rosendo