quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O estado a que a CP chegou


Ponham um mapa em cima da mesa e decidam qual é a rede de ferrovia que querem para o país. E depois digam-nos. E, já agora, porque é indispensável, digam-nos que CP querem.

Falar da CP, confesso, integra uma grande componente afectiva. Talvez por isso, a situação vergonhosa do transporte ferroviário em Portugal potencia aquela sensação de “vergonha alheia” que por vezes nos invade a alma. Quando se fala da CP é isso que sinto: uma grande vergonha (alheia) pela situação a que a empresa chegou.
Passo a explicar: sou filho, neto, sobrinho, primo e tenho muitos amigos ferroviários. Nasci numa terra – Pinhal Novo – que, também ela, cresceu a partir de uma “Estação de comboios”. Ainda hoje – embora pela negativa – a linha ferroviária marca a vida de Pinhal Novo, cortando-a literalmente a meio. A electrificação da via e a anulação de passagens de nível deixou-nos duas pontes – de difícil utilização pedonal - e um túnel que convém evitar, principalmente durante a noite. Cerca de 30 mil habitantes divididos pelas linhas do comboio.

Até eu, embora fugazmente, trabalhei na CP, e durante toda a minha vida, enquanto os mais velhos da família foram vivos, as conversas sobre comboios eram o tema favorito. O comboio marcava o ritmo da vida familiar. Ia com a minha mãe à Estação levar a lancheira ao meu pai – maquinista – à passagem do comboio. Havia maquinistas que tinham uma forma específica de serem reconhecidos através do apito da máquina. Era também no bar da Estação de Pinhal Novo que comprava, sem falha, todas as semanas, os livrinhos de banda desenhada da colecção “O Falcão” com as aventuras de Texas Kid, Major Alvega e tantos outros. Durante o verão, cheguei a vender bilhas de barro, com água fresca, através das janelas dos comboios “rápidos” que iam para o Algarve e para o Alentejo…

Pai maquinista, tios maquinistas, um tio operário das oficinas da CP no Barreiro, um tio “chefe de lanço”, avôs “trabalhadores da via”, a minha avó Maria Augusta guarda de passagem de nível. Desde os 10 anos que utilizei o comboio para ir para a escola. Era o tempo daquele a que chamávamos o “comboio do texas”, tal a velhice das carruagens ao serviço, que tinham portas de abrir para fora e não poucas vezes provocaram acidentes. A CP está-me no sangue e é também por isso que me dói – ainda mais – o que está a acontecer à empresa.

Não é de agora que a CP está mal. É de há muito tempo! E a CP ficou ainda pior desde a ideia peregrina de espartilhar a empresa de transporte ferroviário em várias empresas: REFER (Rede Ferroviária Nacional, agora integrada na IP - Infraestruturas de Portugal), EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário), CP Carga (agora Medway – operadora privada de transporte de mercadorias…); até a FERTAGUS (operadora privada de transporte de passageiros) – uma PPP da ferrovia. Para quê, perguntamos agora, quando afinal a ferrovia chegou a este ponto. Apenas, claro, para criar umas administrações ocupadas por amigalhaços e uns quantos negócios certamente úteis a alguns “empreendedores”. Espanto dos espantos: o actual Presidente da CP disse recentemente na Comissão Parlamentar de Obras Públicas que “não existe CP sem EMEF!”. Faltou-lhe dizer que também não existe CP sem REFER e sem o serviço de transporte de mercadorias. Que eu tenha dado por isso – quiçá lapso meu – nenhum deputado da dita Comissão perguntou ao presidente da CP se defende uma empresa que recupere todas as vertentes de que foi espoliada. A CP deve ser uma empresa ao serviço do país, em todas as vertentes do transporte ferroviário. A CP deve ser um todo num país que deve ser olhado e gerido como um todo. 

Um dos problemas da CP é semelhante ao de outras empresas públicas: os lugares de administração são distribuídos por conveniência política! Em Portugal não existe uma escola de Serviço Público e as empresas não conseguem (não as deixam) gerar os seus próprios líderes: gente que conheça, de facto, as empresas, para além das folhas de excel e dos resultados financeiros. Gerir a CP não é o mesmo que gerir a TAP, um Hospital ou a RTP. Não é, mas parece, tal a dança de cadeiras que todos conhecemos.

Há ainda o problema das indemnizações compensatórias. O Estado exige das empresas, devia pagar, mas não paga.

A génese do problema da CP é semelhante aos problemas do Serviço Nacional de Saúde, aos problemas da Escola Pública, e a tantos outros: não há uma ideia para o país que queremos, com Serviços Públicos que sirvam de facto o desenvolvimento do país, em vez de servirem interesses da elite que em cada momento tem lugares no Governo. Os sucessivos governos não podem escamotear responsabilidades no estado a que a CP chegou e os partidos políticos que têm tido responsabilidades governativas continuam entretidos em trocas de acusações que nada resolvem. Deixem de esgrimir argumentos sobre propostas que não passam de paliativos e mostrem-nos um plano verdadeiramente regenerador da CP e da ferrovia. O desafio aplica-se também aos partidos políticos que têm estado fora do chamado “arco da governação”: não basta criticar, digam-nos qual é a CP que querem e, já agora, como é que a podemos pagar.

Pinhal Novo, 6 de Setembro de 2018

josé manuel rosendo

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Idlib, a última batalha da guerra na Síria?



O Estado Islâmico esperava uma última batalha em Dabiq, cidade do noroeste da Síria, onde supostamente teria lugar a batalha do fim dos tempos entre muçulmanos e infiéis. O Profeta Maomé terá dito que o Apocalipse não chegaria antes de os Muçulmanos vencerem os romanos (há historiadores que consideram ser uma referência aos cristãos) em Dabiq ou Al Amaq (na província turca de Hatay), ambas na região de fronteira turco-síria. Depois da derrota militar do Estado Islâmico, esquecida a batalha do fim dos tempos, certo é que não muito longe destas duas cidades de grande valor simbólico, uma outra cidade (e província), Idlib, vê criadas as condições para aquela que poderá ser a última batalha da guerra na Síria. Uma última batalha que tem todos os ingredientes para ser também um banho de sangue, quiçá muito maior do que aqueles a que os mais de sete anos de guerra já produziram.



Em Idlib concentra-se a maior bolsa de forças anti-governamentais, que inclui grupos armados radicais de génese religiosa e outros que ao longo dos anos têm combatido as forças de Bashar Al Assad. Em Idlib refugiaram-se todos aqueles que foram sendo derrotados nos locais que as forças do regime têm vindo a reconquistar. Perante a derrota militar (por exemplo em Ghouta Oriental, em Aleppo ou em Daraa...), as negociações para o cessar-fogo e a rendição dos rebeldes incluíram a saída desses locais, em grandes comboios de autocarros, de rebeldes e respectivas famílias, em direcção a Idlib. O regime aceitou e cedo se percebeu qual era a intenção: ir agrupando os rebeldes, ir apertando o cerco e deixando cada vez menos alternativas. Se em várias fases da guerra uma das dificuldades do regime foi combater e dispersar forças em várias e distantes frentes de batalha, agora a situação é exactamente ao contrário. Para além da presença de grupos rebeldes que ainda existe no sul da Síria e na região de fronteira com o Iraque, é em Idlib que a resistência ao regime tem peso e expressão.

A população da região (cidade e arredores) cresceu e estima-se que seja superior a três milhões de pessoas, devido à chegada dos deslocados provenientes de outros locais. Há também relatos de uma presença significativa de combatentes do Estado Islâmico e de Frente Al Nusra (ou Jabaht Al Nusra), da Al Qaeda.

O regime sírio não esconde a movimentação de forças que constroem uma tenaz em redor de Idlib, aliás dá notícia de movimentações em tudo semelhantes a outras que levaram à reconquista de outras parcelas de território. Bashar Al Assad disse que queria reconquistar todo o território e não vai desistir desse propósito, principalmente quando a situação no terreno lhe é favorável. Disse no final de Julho que “agora, o objectivo é Idlib”. O regime fala em reconciliação e apela aos civis para cooperarem com as forças governamentais ao mesmo tempo que já bombardeia localidades nos arredores de Idlib; os rebeldes não dão nenhum sinal de rendição. Os “barris-bomba” já são lançados na região rural e mais a sul de Idlib. Já há civis em fuga, mas dentro da região cercada não há para onde fugir a não ser para a grande cidade.

É impossível saber como o Governo sírio e os aliados Rússia e Irão, vão querer resolver a questão de Idlib, sendo que já tivemos provas suficientes de que os bombardeamentos indiscriminados a zonas rebeldes nunca foram um problema durante os mais de sete anos de guerra. Por outro lado, se Bashar Al Assad pretende recuperar alguma credibilidade internacional, não vai querer ficar com um último massacre no currículo já de si tão manchado. O chefe da diplomacia turca alertou para a possibilidade de uma catástrofe em caso de assalto das forças governamentais. A Rússia diz que é preciso separar os “grupos rebeldes” dos “terroristas”, sendo que, já se sabe, que é terrorista para uns não é terrorista para outros.

Do lado dos rebeldes, perante a ausência de alternativas, alguns grupos poderão aceitar um processo de reconciliação, embora seja pouco confiável a garantia de uma reintegração em zonas controladas pelo Governo; outros grupos, mais radicais, que recusam qualquer reconciliação, podem aspirar a uma eventual retirada à imagem do que aconteceu noutras zonas, o problema é saber para onde. A Turquia não deve estar pelos ajustes e não se vislumbra que países podem eventualmente aceitar receber os combatentes mais radicais. Resta a zona curda, norte da Síria, mas a relação dos radicais com as milícias curdas nunca foi boa, antes pelo contrário, e até a região curda está na lista dos territórios que Bashar Al Assad quer reconquistar.

Em Idlib, três milhões de pessoas estão à espera. As organizações de ajuda humanitária dizem que já não têm capacidade de auxiliar toda a gente; os campos de deslocados estão a abarrotar. Se nada for feito, a chamada comunidade internacional arrisca-se a assistir a algo em relação ao qual vamos ver depois as “lágrimas de crocodilo” e os discursos carregados de lamentos e emoção. Não chega!

Pinhal Novo, 20 de Agosto de 2018
josé manuel rosendo

domingo, 12 de agosto de 2018

Síria: "Não posso não acreditar na reconciliação"




O Padre Jesuíta Gonçalo Castro Fonseca ofereceu-se como voluntário e está há um ano na Síria. Integrado no Serviço Jesuíta para os Refugiados (SJR), o Padre Gonçalo tem vivido de perto uma situação de guerra em que ninguém sabe ao certo quantas pessoas já morreram, mas em que as marcas de mais de sete anos de conflito são violentas.
Foi um ano passado nos arredores de Damasco e, até à Páscoa de 2018, os combates andaram muito perto, principalmente quando as forças do regime encetaram a ofensiva que levou à reconquista da região de Ghouta Oriental.
Depois de um ano de trabalho, o Padre Gonçalo Fonseca veio descansar a Portugal e entre as muitas solicitações para que conte a experiência que está a viver na Síria, houve tempo para esta conversa no jardim do Centro Universitário Padre António Vieira.


Pergunta - Padre Gonçalo, já vamos falar sobre o seu trabalho e o que encontrou na Síria mas, para já, o que é que traz consigo depois deste ano que por lá esteve?

Resposta - A nível espiritual, pessoal e humano, trago uma experiência de encontrar-me comigo mesmo no essencial, em que não posso ter nada como garantido e em que o meu coração valoriza muito mais aquilo que é importante em relação à vida e ao futuro. Em termos também humanos, mas como cidadão, é um olhar diferente sobre o mundo e sobre a realidade daqueles que sofrem. Uma realidade da qual eu também me sinto responsável, e de uma maneira muito directa.

P – O que é que encontrou? Aquilo que esperava... tinha uma ideia formada? Certamente que leu sobre a situação na Síria... quando lá chegou, o que é que tinha à sua frente?

R – Honestamente, não procurei saber muito mais do que era dado pela comunicação social e fui sem grandes expectativas. Mas se esperava alguma coisa esperava uma realidade de destruição total, de pessoas sem capacidade de lutar e de viver, e devo dizer que fui surpreendido. Não obstante a destruição e a guerra, encontrei um povo com um vigor e uma força de vontade de viver impressionantes que me deixou muito desarmado. Aprendi muito. A situação era de risco, quase de sobrevivência, mas o ânimo era infinitamente grande, enorme.

P – Foi para a região de Damasco...

R – Fui, sobretudo nos primeiros tempos para aprender a língua árabe porque era onde isso seria mais fácil. Depois com possibilidade de poder ir para outros lados, mas percebi que ali poderia responder a outras necessidades. E por isso fui ficando e é aí, em Damasco, a minha missão.

P - E aprendeu mesmo a falar árabe?

R – É impossível aprender a ser fluente em árabe por mais anos que passe lá. Tenho o árabe suficiente para não me perder e para conseguir acompanhar uma conversa, mas ainda tenho muito a aprender para poder expressar-me minimamente.

P – Está em Damasco, estamos a falar do centro ou da periferia?

R – Eu vivo no centro e trabalho num bairro da periferia. Há uma distinção muito grande e notória em termos de limpeza, densidade populacional, de pessoas, por isso no mesmo dia posso ter duas vivências muito diferentes.

P – Em Damasco, no centro da cidade, não se sente a guerra?

R – Agora, de facto, não se sente tanto, desde que Ghouta foi recuperada pelo regime. Mas sim, sentia-se e havia o risco das bombas e das explosões. Não tanto como na zona de periferia, mas sim, sentia-se. A diferença tem a ver com as pessoas, porque no centro de Damasco vivem as pessoas que sempre lá viveram enquanto na periferia de Damasco encontram-se muitos refugiados, muitos que foram deslocados de povoações que foram destruídas e encontraram refúgio na periferia de Damasco.

P – A batalha de Ghouta foi seguida em Portugal através das imagens dramáticas que iam chegando... viveu essa realidade de perto?

R – Vivi, mas não do lado de Ghouta, vivi do lado de Damasco. E do lado de Damasco também sofreram ataques, se calhar não tão massivos e não tão destruidores, mas causaram danos. Por isso sim, posso dizer que vivi de perto, não tanto na pele, mas muito de perto.

P – O coração da cidade, o centro, nunca foi atacado directamente?

R – O centro histórico era muito perto da zona de periferia e de Ghouta e era facilmente atingido e atacado.

P – Como foi recebido na Síria? Não pelos Jesuítas que trabalham consigo, mas pelo povo...

R – Sempre me senti muito bem acolhido e, sem fazer muito, senti que a minha presença trazia ânimo e por isso a resposta era nesse sentido. Pelo facto de ser estrangeiro num momento em que não havia estrangeiros, pelo facto de ser Jesuíta num momento em que a presença da Igreja também não era tão vigorosa, sempre fui reconhecido como uma presença bem-vinda, uma presença de força e de ânimo.

P – Está a referir-se aos que precisam do apoio que está a prestar. E em relação às autoridades, nunca sentiu um olhar mais desconfiado?

R – Sentir, sentir, não. Com excepção de uma ocasião em que depois de chegar a uma das nossas casas, pouco tempo depois, surgiu um militar a perguntar quem eu era. O sinal de que estava a ser controlado era muito forte. Não senti desconfiança, mas posso dizer, até pelo tempo que demorou o visto de entrada, houve uma investigação sobre mim para perceberem se eu era ou não de confiança. Eu pessoalmente nunca senti essa desconfiança.

P – O visto demorou muito tempo?

R – Sim, mas acho que pela burocracia, porque nos últimos anos não há ninguém a pedir vistos para a Síria. Não era um visto de turismo, era um visto de residência... demorou mais tempo mas creio que mais por uma questão burocrática do que por desconfiança.

P – Neste tipo de missão faz um esforço de integração? Isto é, veste roupas diferentes, senta-se a tomar chá... ou mantém a atitude do estrangeiro, com uma missão específica, mas que continua a ser estrangeiro?

R – Eu acho que tenho a vida facilitada porque não pareço um estrangeiro, passo muito bem por árabe. Sim, faço um esforço muito grande para me adaptar aos costumes e aos hábitos. Acho que perderia muito da experiência e do que sou chamado a fazer se trouxesse os meus hábitos portugueses ou europeus. Facilmente me ajustei.


Há um respeito muito grande à figura do homem de Deus, seja cristão ou muçulmano, e essas figuras são muito respeitadas e acarinhadas.


P – O facto de ser cristão, foi bom ou mau? Ou é um factor que lhe dá alguma neutralidade no conflito sírio.

R – Poderia ter-me passado pela cabeça a ideia dos cristãos perseguidos e pensar que me ia acontecer isso, mas foi tudo ao contrário. Se calhar noutras realidades na Síria o ser cristão pode ser perigoso. Onde vivo não o sinto, antes pelo contrário. O facto de ser Padre abre-me portas. Há um respeito muito grande à figura do homem de Deus, seja cristão ou muçulmano, e essas figuras são muito respeitadas e acarinhadas. Devido a ser Padre sempre me senti muito protegido. Se alguma vez tive algum receio foi por ser estrangeiro, mas o ser Padre dava-me tranquilidade enquanto estrangeiro.

P – Está na Síria integrado numa organização religiosa, o Serviço Jesuíta aos Refugiados. O trabalho que desenvolve tem esse “fio de prumo” da religião ou afasta-se disso e trata com todas as pessoas independentemente do factor religioso?

R – Uma coisa não exclui a outra. O tal “fio de prumo” que refere é muito presente na intenção e na motivação com que vivemos, trabalhamos e servimos. O objectivo do SJR nunca foi converter, mas sim dar resposta aos que mais precisam e trazer justiça àquele que é injustiçado. Por isso, a nossa resposta é para aquele que precisa mais, independentemente do credo, se é cristão ou muçulmano. Nunca fazemos essa pergunta. Ficamos a saber depois, mas o facto de acolher ou não no nosso centro é definido pelo critério da necessidade: precisa mais, então muito bem, tem lugar no nosso centro.

P – Porventura por defeito de formação estará mais atento às questões religiosas... uma das coisas de que se fala muito, relativamente à guerra na Síria, é a divisão entre xiitas e sunitas. Nota isso no seu dia-a-dia na Síria?

R – Eu não noto, mas talvez porque algumas nuances me escapem. A realidade que conheço bem é a de Damasco que, desde sempre, foi um local de encontro. As pessoas estavam habituadas a conviver entre diferentes confissões e religiões, cristãos e muçulmanos, e dentro dos muçulmanos, xiitas, sunitas e outras minorias... se se nota isso (divisão xiitas/sunitas), não é em Damasco, mas ainda assim algumas nuances podem escapar-me. Mas creio que é mais uma ideia (feita) do que a vida concreta do bairro entre vizinhos.

P – As pessoas quando o procuram e ao SJR, é uma procura que apenas pretende bens materiais que permitam a sobrevivência ou também se abrem consigo relativamente a outras matérias?

R – Quando as famílias chegam até nós é porque procuram esses bens materiais e procuram ajuda numa série de situações e isso aconteceu desde o início da guerra. Ultimamente a nossa resposta é mais de educação, trabalho continuado e apoio psicológico. E ainda que não procurem, quando percebem que é isso que nós temos para oferecer, aceitam e desejam. Depois, na relação comigo, se calhar não tanto essas famílias a quem servimos, mas os nossos colaboradores que são jovens, encontram em mim uma ajuda a nível espiritual, a nível humano, e não quero dizer a nível psicológico com a força clínica do termo, mas também. Se calhar há um sem número de necessidades que têm mas não reconhecem porque há necessidades maiores, ao nível da alimentação e da saúde. Mas de repente quando percebem que há uma oferta a nível psicológico percebem que também precisam. Mas não nos procuram inicialmente por causa disso.

P – Em situações de guerra há muito a tendência para dar esses bens que são essenciais à sobrevivência e, muitas vezes, as condições psicológicas das populações afectadas não têm o devido acompanhamento. Que efeitos é que isso tem?

R – Se calhar a curto prazo não tem grande efeito porque são pessoas que precisam de se alimentar, de se vestir, de dormir e eu percebo perfeitamente que outro tipo de necessidades passem a ser secundárias. O estado de choque dura mais do que deveria durar se tivessem apoio psicológico desde o início. Creio que muitas das pessoas que servimos ainda estão em estado de choque, ainda não estão na fase de recuperação e por isso essa necessidade de apoio psicológico ainda não existe. As pessoas ainda não têm noção do impacto que a guerra tem nas suas vidas.


não conheço ninguém que não tenha sofrido uma perda, de alguém que morreu ou de alguém que está desaparecido


P – Ninguém sabe ao certo quantas pessoas já morreram na Síria. Há números que apontam para meio milhão de pessoas e isso significa que haverá poucas famílias que não tenham sido tocadas por este drama da guerra. A pergunta ia nesse sentido... praticamente não há ninguém na Síria que não tenha sido tocado pela guerra...

R – De facto, não conheço ninguém que não tenha sofrido uma perda, de alguém que morreu ou de alguém que está desaparecido. Ou também, outro fenómeno que tem bastante impacto, o de alguém que tenha fugido para escapar à guerra. Se calhar são esses que estão às nossas portas como refugiados. Esse também é um dado (o de quem fugiu) importante na vivência da perda. Para além dos bens materiais que é uma questão mais fácil de superar. Mas tudo o que é ao nível da relação de pais, irmãos, amigos, que ficaram no caminho de uma maneira injusta, não consigo lembrar-me de ninguém que não esteja a fazer essa experiência de perda.

P – Diz-se muitas vezes que aqueles que ficaram na Síria são os mais pobres porque não tinham recursos para deixar o país. Qual é a leitura que faz... acha que todas as pessoas que estão na Síria neste momento, se pudessem sair, saíam?

R – Acho que sim, principalmente a camada jovem. A camada que tem mais desejo de futuro, entre os 20 e 30 anos, não se conseguem imaginar na Síria. Esses sairiam se pudessem, não tenho dúvidas. A grande maioria dos que ficaram foi porque não puderam sair. Ou eram pobres e não tinham condições para suportar os custos de uma saída, outros por ligações familiares – filhos únicos que não podiam deixar os pais – os que não saíram foi porque não puderam por várias razões e não necessariamente por não terem dinheiro para sair.

P – Há também aqueles que apoiam o Governo e, portanto, não sairiam. Ou esta leitura não é feita?

R – Acho que tem muito a ver com o facto de acreditarem que é este o caminho (com Bashar al Assad) e são coerentes em relação àquilo em que acreditam. Não colocaria as coisas como por serem a favor ou contra (o Governo) mas porque acreditam que têm ali um futuro.


Há um bocadinho o sonho do El Dorado...


P – Essa vontade de sair que refere em relação aos que estão na Síria é uma vontade que se mantém mesmo sabendo todas as dificuldades que os refugiados enfrentam para entrar na Europa?

R – Eu não sei se têm uma noção geral dos problemas que enfrentam. Se calhar têm noção das travessias do Mediterrâneo, do tempo de espera nos campos de refugiados, mas não sei se têm bem a noção do que significa fazer um processo de integração como refugiado, as exigências e as dificuldades. É um bocadinho por um sonho de um El Dorado... imaginam que passam pelo Mediterrâneo, por um campo de refugiados, mas quando chegarem vai ser tudo óptimo. Pessoalmente não conheço ninguém que estivesse disposto a sair ilegalmente. Talvez em situação de desespero, mas os que conheço desejariam sair, mas de uma forma legal.

P – Em contraponto ao que está a dizer, quando falamos com alguns refugiados sírios que já chegaram à Europa, eles manifestam a vontade de regressar para ajudar a reconstruir o país. É uma vontade verdadeira ou eventualmente depois de estruturarem a vida na Europa abandonam essa ideia de regresso?

R – A sensação que tenho é que podemos encontrar as duas situações. Famílias que vieram e começaram a reconstruir a sua vida aqui admitem a possibilidade de aqui continuar no futuro, talvez com o desejo de qualquer emigrante que pretende manter a ligação à terra-mãe. Será mais difícil para indivíduos que venham sozinhos, que não tragam as raízes, a família, acho natural que queiram regressar. Acredito que voltem assim que existam condições na Síria e também nas suas próprias vidas. Queira Deus que sim, acredito que podem fazer muito pelo país.


Se as potências saíssem, facilmente o conflito se resolveria...


P – A Síria está em guerra há mais de sete anos, o país está destruído, não se sabe ao certo quantas pessoas morreram... depois de uma guerra assim que deixa sempre um grande lastro de revolta e desejo de vingança, acredita numa reconciliação?

R – Para nós, a palavra reconciliação tem uma força muito grande. E sim... não posso não acreditar. Pelo que vejo e presencio, da vontade e da força de vontade para terem um mundo melhor, não consigo não acreditar. É isso que eu vejo já. Haja condições e isso vai acontecer, mas creio que vai demorar algum tempo. É preciso fazer novas memórias. Oito anos é muito tempo e as memórias são muito fortes. É preciso, com esforço, voltar a fazer novas memórias para que numa próxima geração se possa viver em paz. Creio também que o povo sírio tem condições para se reconciliar. Tem condições para superar os desentendimentos e a guerra. Não tenho dúvidas disso. Se as potências saíssem, facilmente o conflito se resolveria...

P – Por exaustão?

R – Por exaustão e porque querem um bem, porque são irmãos, são do mesmo país, têm o mesmo pai... como é que eu posso querer mal ao meu irmão? Também por exaustão e por incapacidade bélica. Este conflito dura porque há quem forneça instrumentos para que o combate continue. Portanto, por exaustão, por um lado, mas também por um sentido comum de quem não pode desejar a morte de quem é seu irmão. Mas há outros interesses que de algum modo turvam este olhar.

P – Um problema que afectou e continua a afectar a Síria foi a criação do Estado Islâmico. Como é que sentiu isso e como é que percebeu a reacção das pessoas à existência do chamado Estado Islâmico?

R – Confesso que é um tema que não consigo compreender bem, não creio que lá (na Síria) alguém o consiga perceber bem: o que é o Estado Islâmico? Tem uma influência no medo com que as pessoas se confrontam e principalmente traz uma desconfiança muito grande porque as pessoas interrogam-se quem será do Estado Islâmico. Esta presença fantasmagórica, mas também muito real, não ajuda a tomar partido porque nunca se sabe quem é o outro.

P – Muitas vezes, a partir do Ocidente, o nosso olhar para aquela região do mundo – Síria – arrasta-nos para uma tendência, se calhar uma facilidade exagerada, em considerar tudo o que acontece como tendo origem terrorista, nomeadamente quando se liga à questão da religião. Como é que interpreta isto? É mesmo assim devido à forte presença da religião na vida das pessoas, ou a leitura do Ocidente tem alguma razão de ser?

R – É um povo muito religioso, não há a figura do ateu ou sequer do agnóstico e é muito respeitado e admirado que as pessoas tenham confissões e vivências (religiosas). Mas como em tudo na vida, diria também no universo da Igreja cristã e da Igreja católica, o fundamentalismo torna a leitura ou a vivência da religião – atrevo-me a dizer – um bocadinho perversa. Por isso a incapacidade de acolher como possível algo que seja diferente de mim. Quando falamos de motivações religiosas é verdade, mas ao mesmo tempo não o é, porque é uma motivação religiosa levada ao extremo e então perde sentido e deixa de ter significado.

P – Mas a questão é: só por haver um indício religioso na formação de um qualquer grupo político isso não significa que haja aí um grupo fundamentalista?

R – Claro que não. Mas quando a formação religiosa é levada a um extremo de intolerância onde eu não admito que outro possa ser o dono da verdade, onde o outro tenha lugar no mesmo universo que eu, acho que não é religioso, perde aqui alguma coisa.

Ideologias não se reconciliam, é impossível. As pessoas sim


P – Quando lhe falei na reconciliação, referia-me à divisão que à primeira vista existe na sociedade síria entre quem quer um país mais secular e os que querem um país mais assente em princípios religiosos. Já me disse que não nota as tais divisões entre xiitas e sunitas. Que caminho é que a Síria pode tomar no sentido de que as pessoas possam ou não viver todas juntas?

R – O que vou dizer vale para a Síria e acho que vale para outros contextos. Ideologias não se reconciliam, é impossível. Se a minha ideologia é diferente da sua dificilmente podemos conciliar.

P – Mas podem conviver...

R – Podem conviver ideologias, mas quando se fala de reconciliação é entre pessoas. Eu, com a minha vivência, reconcilio-me consigo e procuramos juntos viver caminhos. Quando falamos de reconciliação, eu pelo menos não concebo reconciliação de ideologias. Modos de viver, sim, implica vivências e vivências são feitas de pessoas e a reconciliação é entre pessoas. Isso encontramos na rua no nosso centro. Custa-me muito falar destas coisas porque não sei, não conheço, o que digo é baseado na vivência da rua que atravesso todos os dias, dos vizinhos, dos meus amigos, das pessoas com quem trabalho, aí vejo reconciliação, mas sinto sempre que ideologias diferentes não se reconciliam.

P – Está preparado para mais dois anos na Síria, quais são os objectivos de curto prazo?

R – Desde que cheguei o meu objectivo é fazer o que for preciso e sempre estive disponível para aquilo a que reconheço ser capaz de responder. Na relação com a Companhia de Jesus e nesta missão em concreto do SJR é procurar um bem maior e como é que eu posso dar esse bem maior, com a minha experiência enquanto jesuíta, como português, o que é que eu posso fazer? Não tenho uma meta concreta como objectivo, é sempre poder responder ao que for preciso.

P – Vai continuar em Damasco ou pensa ir para outro sítio?

R – O que for preciso. Tudo indica que vou continuar em Damasco.

P – Neste momento não há perigo em Damasco...

R – Sim, desde Abril/Maio, quando Ghouta foi recuperada, deixou de haver um perigo iminente. O perigo que existe é o mesmo que existe nas ruas de Paris ou Bruxelas. Mas não é por isso que vou continuar em Damasco. Fico porque é isso que o trabalho me pede.

P – Antes da Páscoa viveu alguma situação concreta de grande perigo, de bombardeamentos?

R – Sim, já tenho falado nisso. Desde que cheguei havia sempre essa possibilidade e fui aprendendo a lidar com prudência diante dessa possibilidade, mas houve um dia em que essa possibilidade foi muito real e por isso transformou muito o modo como eu estava, de algum modo aprendi a ter medo, um medo real, e a saber ser mais prudente, e ao mesmo tempo a ser mais humilde.

P – Já disse que está numa zona controlada pelo Governo, já disse que houve um momento em que sentiu que estava a ser controlado... alguma vez recebeu alguma mensagem do “outro lado” a dizerem-lhe, por exemplo, “está aí do lado do governo, veja lá o que anda a fazer porque não o queremos aí...”?

R – Não, nunca recebi.

P – Nem sinais subliminares de nenhum aviso...

R – (risos) Não. Precisamente por ser uma zona de paz e de calma.

P – Como é que Portugal é olhado na Síria? A Europa é vista como um todo?

R – Para além de Cristiano Ronaldo que no nosso dia-a-dia permite abrir muitas portas, acho que Portugal é um deles, um dos da Europa. Não sei se Portugal é olhado de maneira distinta em relação a Espanha, França ou Inglaterra... um sinal disso é que para entrar na Síria tive de pagar uma quantia avultada para obter o visto. O escalão tem a ver com o nível de amizade entre a Síria e o país de quem pede o visto. Haverá países, do outro lado do Atlântico, que terão de pagar muito mais do que nós.

P – A iniciativa do ex-Presidente Jorge Sampaio para acolher estudantes sírios teve eco entre os sírios ou é uma gota de água tão pequenina que nem chega a ser conhecida na Síria?

R – Acho que será conhecida no meio dos universitários que pretendem sair e procuram saber como o podem fazer, mas a nível de sociedade é uma gota de água, tal como o nosso trabalho é uma gota de água, mas gota de água aqui e ali enchem um copo. (A iniciativa de Jorge Sampaio) não terá um impacto a nível de sociedade de forma a que as pessoas se apercebam do que Portugal está a fazer. É uma plataforma única, e no meio universitário, talvez sim, talvez tenha alguma expressão.

P – Fala-se muito no êxodo dos cristãos do Médio Oriente. Sente isso ou na Síria não é assim?

R – Mais uma vez a minha realidade é Damasco. Se lhe disser que não é assim, é em relação à realidade de Damasco. Oiço dizer, como ouvimos todos, que há um êxodo dos cristãos. Ouvimos isso sobre zonas ocupadas pelos mais intolerantes e os cristãos terão sido os primeiros a não serem tolerados. O que eu vivo em Damasco não é isso.

Pinhal Novo, 12 de Agosto de 2018
josé manuel rosendo