sábado, 19 de março de 2016

“We got him”

Mais de doze anos depois, um secretário de estado do governo belga, Theo Francken, repetiu através do Twitter a fórmula utilizada pelo governador nomeado para o Iraque, Paul Bremmer, quando em 13 de Dezembro de 2003 anunciou a captura de Saddam Husseín: “We got him!”. Em 2003, o anúncio foi feito numa conferência de imprensa na “zona verde” de Bagdad e Paul Bremer antes do “We got him” disse um “Ladies and gentlemen”. Na pequena sala em Bagdad ouviram-se aplausos e vivas. Desta vez, a recuperação da fórmula por parte do governante belga, para anunciar a captura do alegado responsável (Salah Abdeslam) pelos atentados de Paris em Novembro de 2014, excluiu o “Ladies and gentlemen”, talvez por ser no Twitter.

É certo que os contextos são radicalmente diferentes mas recuperação da fórmula não é inocente. Ela simboliza uma visão de poder a que alguns se arrogam o direito. Uma visão de um poder que necessita de se exibir. No caso dos Estados Unidos, no Iraque, foi uma visão de quem se julgava no direito de entrar por um país dentro espezinhando tudo o que era Direito Internacional e respeito por outros povos; no caso de Theo Francken porque vê no exemplo dos então líderes norte-americanos um exemplo a seguir – daí a recuperação da fórmula. Aliás, basta ver a filiação política (Nova Aliança Flamenga) de Theo Francken e as polémicas em que recentemente esteve envolvido para desde logo entender melhor a frase escolhida.

No entanto, Theo Francken esqueceu-se que Barack Obama não utilizou essa fórmula quando anunciou a morte de Osama Bin Laden. Outra visão do poder. Ter-se-á esquecido também que a captura de Saddam Husseín nada de substancial mudou para além de levar à morte do ditador. E não terá percebido que a captura de Salah Abdeslam, e a sua eventual condenação, nada vai mudar no que é substancial na questão do terrorismo. É evidente que a captura deste homem é significativa e envia um sinal aos que possam estar a pensar em repetir algo semelhante ao que aconteceu em Paris, mas isso não justifica o tom triunfalista do governante belga. Aliás, os comentadores e especialistas que se referiram à captura de Salah Abdeslam disseram precisamente isso.

Já agora, é melhor deixar escrito para não ser acusado do contrário: acho que Salah Abdeslam deve ser julgado pelos crimes de que é suspeito e deve pagar por todo o sofrimento e morte que provocou. Dito isto penso ficar a salvo de interpretações enviesadas.

Pinhal Novo, 17 de Março de 2016
josé manuel rosendo


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