sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Alô Bruxelas… há uma guerra na Síria!

                            O dia-a-dia na Síria é mais ou menos assim. Salma, Agosto de 2012.


Diz a Rádio Renascença, que o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes, que esteve durante quatro dias numa visita à Turquia a ver como são acolhidos os refugiados, sofreu um choque de realidade. Li até ao fim. E voltei a ler. O quê? Como? Um choque de realidade? Tem andado distraído? Ainda não tinha dado pelas consequências de uma guerra que dura há quase cinco anos? As notícias e as imagens não chegam a Bruxelas e a Estrasburgo? Quando alguns líderes mundiais já não se coíbem de admitir a possibilidade de uma guerra mundial, há um senhor eurodeputado que ainda não tinha dado por isso? Não tinha noção de qual é a realidade na Síria e nos países à volta? E fico-me por aqui… porque tinha vontade de fazer perguntas mais desabridas.

O eurodeputado português sofreu um choque de realidade e ainda assim ficou na Turquia, a 80 quilómetros da fronteira com a Síria. Já se imagina o que diria José Manuel Fernandes se tivesse atravessado a linha que divide os dois países. Apesar de tudo valha-nos a sinceridade: “A urgência que eu constatei e que não tinha interiorizado são aqueles milhões que ainda estão do lado da Síria, a viver em situações de penúria e em muito maior dificuldade do que aqueles que estão do lado da Turquia, e esses não me saíram do pensamento”. Não tinha interiorizado? Nem com um português (Guterres) durante anos a liderar a agência da ONU para os refugiados e a chamar constantemente a atenção para o drama? Nem assim?

Sei, por experiência própria, que sentir a guerra ao vivo é muito diferente de ver a guerra através da televisão e até admito que José Manuel Fernandes tenha ficado espantado ao constatar a dureza das imagens nos campos de refugiados. Admito também que apenas tenha querido abrir o coração e transmitir a necessidade de alguém fazer alguma coisa para acabar com aquele inferno. Nem sequer estão em causa os méritos do eurodeputado português e José Manuel Fernandes até está nomeado para os ‘MEP Awards’ (prémio que distingue os melhores deputados do Parlamento Europeu), sendo um dos três seleccionados para a categoria de “Assuntos Económicos e Monetários”. Mas a surpresa revelada por este eurodeputado perante a tragédia dos sírios, espelha bem aquilo em que está transformada a União Europeia: um negócio, desligado da realidade, que passa a vida absorvido por taxas de juro, bolsas, défices e orçamentos, com debates e discussões em salões dourados. O resto?, logo se vê. Quanto muito passa-se um cheque chorudo para acalmar consciências e ter oportunidade para umas fotografias e um discurso com aparência de preocupação social. Mas isso não chega. Um eurodeputado, por força das funções que desempenha, não pode ir à Turquia e dizer que ficou chocado: tem a obrigação de conhecer aquele que é o maior drama da história recente! Mesmo que passe a vida absorvido por dossiês técnicos.

Esta surpresa do eurodeputado confrontado com a realidade diante dos olhos leva a outra questão: há pouquíssima informação sobre o que está a acontecer na Síria. A situação é terrivelmente difícil e são poucos os jornalistas que conseguem estar no terreno. Assim, talvez o senhor eurodeputado possa apresentar uma proposta no conforto do Parlamento Europeu para ajudar outros eurodeputados a não passarem pela vergonha de admitir que não conhecem a dimensão da tragédia. Talvez uma proposta para o Parlamento Europeu, de alguma forma, apoiar os órgãos de comunicação social que não têm dinheiro para enviar jornalistas para o terreno onde a tragédia (esta e outras) ocorre. Talvez com mais notícias, com mais imagens que atormentem as consciências, o senhor eurodeputado nunca mais possa dizer que não sabia. 

O senhor eurodeputado sabe que o Parlamento Europeu convida muitos jornalistas, sabe que as grandes empresas e as feiras internacionais convidam jornalistas, sabe tudo isso, e também deve saber que os refugiados e os que sofrem numa guerra não convidam jornalistas. Cada vez mais, onde há dinheiro há jornalistas. Por isso quase não há informação sobre o que se passa na Síria e arredores, ou no Iraque, ou na Ucrânia, ou na Líbia. O negócio, neste momento, é outro. É assim que estamos, de pernas-para-o-ar.

Pinhal Novo, 12 de Fevereiro de 2016
josé manuel rosendo

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