sábado, 20 de fevereiro de 2016

(Talvez) A hora dos curdos da Síria


E chegámos ao momento de saber quem é terrorista! Expressão máxima e mais recente desta questão é a de saber se as Unidades de Protecção Popular (YPG, braço militar do Partido da União Democrática – PYD – dos curdos da Síria) são terroristas. As YPG combatem o Estado Islâmico e (só às vezes) as forças do Exército Livre da Síria (oposição “moderada” a Bashar al Assad), com quem também já combateram lado a lado. O que as YPG pretendem é tão só expandir território e conquistar autonomia para esse território. É esse o objectivo dos curdos no Iraque e na Síria. Aliás, o Presidente do Curdistão Iraquiano, Massoud Barzani, disse recentemente que o tempo do acordo Sykes-Picot (que, há precisamente 100 anos, dividiu os territórios do antigo Império Otomano e deixou os curdos à espera de um Estado…) terminou. Barzani dirigiu-se aos líderes mundiais e disse algo muito simples: independentemente do que digam e de aceitarem ou não, é esta a realidade no terreno! E esta é talvez a mais complicada questão que se coloca na região logo a seguir ao Estado Islâmico. Uma questão que deixa a Turquia irritadíssima.

Depois do atentado (28 mortos) de 17 de Fevereiro em Ankara, a Turquia apontou baterias aos curdos. O PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) foi acusado da autoria do atentado, tal como as YPG. Ambos negaram, mas dois dias depois os Falcões da Liberdade do Curdistão, grupo próximo do PKK, reivindicaram esse atentado feito na via pública mas que visou viaturas militares. O argumento foi o de ser uma resposta à actuação das forças militares turcas na região de Cizré (Curdistão turco) onde muitos curdos têm sido mortos.

É com este cenário que a Turquia intensifica os bombardeamentos da artilharia contra a região curda da Síria. E é com este argumento que a Turquia tenta convencer os aliados ocidentais de que é necessária um intervenção militar terrestre no norte da Síria. O problema é que para os Estados Unidos as YPG não têm o carimbo de “terroristas” e têm demonstrado ser uma força importante na contenção do Estado Islâmico. Por outro lado, as YPG e outras forças curdas aliaram-se com várias tribos sunitas do norte da Síria e formaram em Outubro passado as Forças Democráticas da Síria que têm sido apoiadas pelos bombardeamentos aéreos dos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico e na consequente expansão territorial.

Temos pois um problema que assenta numa velha questão: os que são terroristas para uns, são combatentes da liberdade para outros. Sempre assim foi e dificilmente deixará de ser. Saber quem deve ser colocado na lista de “terroristas” é também o que está a entravar as negociações de Genebra sobre a guerra na Síria, suspensas a 3 de Fevereiro e com recomeço previsto para 25 de Fevereiro.

Esta sexta-feira (19), houve uma declaração que passou sem a devida atenção: o Embaixador russo nas Nações Unidas, Vitail Tchourkine avisou o Presidente sírio Bashar al Assad contra a intenção declarada de reconquistar todo o território sírio num momento em que a diplomacia fala da necessidade de um cessar-fogo. Como se sabe a Rússia também apoia as YPG e não foi por acaso que os curdos da Síria abriram uma representação em Moscovo. Pode ser que esteja a chegar a hora dos curdos da Síria.

Pinhal Novo, 20 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo 

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