terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Dilema da NATO: apoiar os curdos ou a Turquia?

                                O Rio Eufrates separa a província de Kobani da de Afrin. É a
                                de Afrin que a Turquia não quer permitir que seja controlada 
                                pelos curdos das Unidades de Protecção Popular mesmo que
                                esteja lá o Estado Islâmico (foto Outubro de 2015)


A Turquia pode não estar a ganhar a guerra, mas está a marcar pontos onde mais directamente lhe interessa: está a bombardear os curdos, no caso os curdos da Síria! É certo que é uma estratégia de curto prazo, mas retardar qualquer ganho territorial ou acréscimo de autonomia curda é algo que sempre agrada a Ankara. Não deixa de ser curioso que a Turquia nunca tenha ameaçado uma intervenção militar na Síria para enfrentar e combater o Estado Islâmico, mas que o faça agora (tal como a Arábia Saudita) perante o avanço curdo que tenta criar uma continuidade territorial junto à fronteira com a Turquia, ligando as províncias de Jazira e Kobani a Afrin (até agora controlada pelo Estado Islâmico, não se sabendo exactamente qual é o poder dos extremistas nesta região). 

Há três dias que Turquia bombardeia posições curdas na província de Afrin, onde, diga-se também existiam bolsas controladas pelo Exército Livre da Síria (oposição considerada moderada). A situação é extremamente confusa com bombardeamentos que atingem escolas e hospitais, matando quase exclusivamente civis e provocando uma troca de acusações entre Estados Unidos, Rússia, Turquia, curdos e restantes intervenientes.

Relativamente à questão curda, convém reter que os curdos da Síria combateram ferozmente contra o Estado Islâmico e, ajudados pelos bombardeamentos aéreos norte-americanos, expulsaram os extremistas, empurrando-os para sul e para oeste, obrigando-os a atravessar o Rio Eufrates para a província de Afrin, onde agora decorrem os combates dos últimos dias. As milícias curdas das Unidades de Protecção Popular (YPG), braço armado do Partido da União Democrática (PYD), combateram sempre contra o Estado Islâmico. Umas vezes ao lado do Exército Livre da Síria, mas também contra este ramo da oposição quando se tratou de conquistar terreno para os curdos. Logo após o início da revolta contra o Presidente Bashar al Assad, os curdos preferiram uma espécie de neutralidade tentando tirar partido da luta que desgastava o poder sírio, espreitando uma oportunidade de alargar território e ganhar autonomia – a exemplo do que acontece com os curdos no Iraque.

Não deixa de ser irónico que o avanço curdo acabe por beneficiar o regime de Bashar al Assad, sendo que a aparente expansão do controlo curdo no norte da Síria não teria acontecido se não tivesse acontecido a revolta contra o regime sírio. Nos combates que decorrem neste momento, os curdos não estão alinhados nem com o regime de Assad, nem com os rebeldes considerados moderados, e ainda menos com o Estado islâmico ou com as diversas milícias islâmicas. 

Para a Turquia, o avanço curdo é o pior dos resultados nesta guerra na Síria. A Turquia regista a vantagem que Assad (e também a Rússia e o Irão) retira da luta curda e sabe que atingindo os curdos está a atingir Assad, a Rússia e o Irão. Os turcos olham o PYD como aliados do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e classificam os dois como organizações terroristas. Este é o ponto em que os aliados NATO (Turquia e os países ocidentais) divergem: o ocidente (que não se cansa de repetir que não quer colocar botas – homens – no terreno) vê os curdos como os mais capazes para combater o Estado Islâmico. Falta saber como é que a NATO vai resolver este dilema.

Curiosamente, quase que se deixou de ouvir falar de Estado Islâmico… parece ter cumprido a sua primeira missão: servir de argumento para um confronto entre potências regionais e entre as outras, as habituais, Estados Unidos e Rússia.

Pinhal Novo, 16 de Fevereiro de 2016

josé manuel rosendo

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